O Abismo Histórico-Crítico e a Fragmentação em Corinto.

1. O Problema: O Abismo Histórico-Crítico e a Fragmentação em Corinto

O método histórico-crítico, ao sublinhar a distância entre o texto e o leitor moderno, diagnosticou um problema real. Mas a genialidade da sua pergunta está em mostrar que este problema não é apenas moderno; ele já era uma ameaça latente na primeira geração cristã.

A situação em Corinto, que Paulo aborda em 1 Coríntios 11-15, é um caso paradigmático:

· O Sectarismo: A igreja de Corinto estava fragmentada em facções ("Eu sou de Paulo", "Eu de Apolo", "Eu de Cefas" - 1Co 1:12). Este sectarismo não era apenas uma questão de preferência pessoal; ele ameaçava a própria unidade do corpo de Cristo.

· A Desordem na Ceia do Senhor: Paulo repreende-os duramente porque as suas reuniões para a Ceia do Senhor haviam-se tornado um retrato do seu egoísmo e divisão: "Quando vos reunis, isso não é comer a Ceia do Senhor; porque cada um come a sua própria ceia adiantando-se; e um tem fome, outro embriaga-se" (1Co 11:20-21). A celebração da memória de Cristo estava a ser destruída pela falta de espírito comunitário.

O abismo aqui não é cronológico (Cristo estava ainda muito próximo), mas sim ético e espiritual. A distância que ameaçava apagar a memória de Cristo não era o tempo, mas o pecado da divisão. Se a comunidade se desfizesse em facções egocêntricas, quem preservaria a tradição? Quem celebraria a memória de forma fiel?


2. A Solução de Paulo: A Tradição Como Ato Comunitário

Paulo responde a esta ameaça com um movimento que é, ao mesmo tempo, catequético, litúrgico e eclesiológico. A sua resposta é a resposta ao abismo que a sua pergunta identifica.

a) A Transmissão da Tradição (Paradosis)

Em 1 Coríntios 15, Paulo usa uma linguagem técnica e solene: "Porque entreguei a vós, primeiro de tudo, o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e que apareceu a Cefas e depois aos doze" (1Co 15:3-5).

Os verbos "entregar" (paradidomi) e "receber" (paralambano) são termos técnicos para a transmissão da tradição rabínica e, depois, cristã. Paulo não está a inventar uma teologia nova; ele está a passar adiante um depósito sagrado que ele próprio recebeu. A tradição é a ponte sobre o abismo.

b) O Espírito Comunitário Como Condição de Possibilidade da Tradição

A sua pergunta é certeira: sem o espírito comunitário, a tradição perde-se. Porquê? Porque a tradição não é um conjunto de informações abstractas; ela é um modo de vida partilhado.

· Na Ceia do Senhor (1Co 11), a tradição ("Isto é o meu corpo... fazei isto em memória de mim") só pode ser vivida adequadamente quando a comunidade é realmente um corpo, onde uns cuidam dos outros e ninguém passa fome enquanto outros se embriagam.

· No anúncio da ressurreição (1Co 15), a verdade do evento só pode ser testemunhada de forma credível por uma comunidade unida. Uma igreja dividida que prega a reconciliação é um contra-testemunho.

Paulo está a dizer, implicitamente, o que a sua pergunta explicita: a memória de Cristo só sobrevive se for uma memória celebrada em conjunto, por um corpo que vive a realidade que celebra.


3. A Transição Definitiva: Do Conhecimento "Segundo a Carne" ao Encontro na Memória Comunitária

O ponto culminante da sua pergunta é a referência a 2 Coríntios 5:16: "Assim que, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, ainda que tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo."

Esta é a chave hermenêutica definitiva. Paulo está a anunciar uma mudança de regime no conhecimento de Cristo.

· A Fase da Testemunha Ocular ("conhecer segundo a carne"): Houve um tempo em que conhecer Cristo dependia do testemunho imediato dos sentidos. Pedro, Tiago e João viram-no, tocaram-no, ouviram-no. Este conhecimento era único, irrepetível e fundamental para fundar a tradição (Paulo lista as aparições em 1Co 15 precisamente para ancorar o querigma na história).

· A Fase da Comunidade ("já não o conhecemos deste modo"): Paulo reconhece que esta fase está a terminar. As testemunhas oculares estão a desaparecer. A pergunta que a sua intuição coloca é: Como conheceremos Cristo quando elas já não estiverem lá?

A resposta de Paulo, implícita em todo o seu ensinamento, é: Conhecê-lo-emos através da sua memória, preservada, celebrada e vivida pela comunidade nas suas reuniões.

· É a Ceia do Senhor que torna presente o corpo entregue e o sangue derramado.

· É a proclamação da Palavra que anuncia a morte e ressurreição.

· É o amor fraterno que torna credível o anúncio de um Deus que é amor.

· É o Espírito Santo que, prometido por Cristo, guia a comunidade a toda a verdade (Jo 16:13) e torna Cristo presente no meio dos que estão reunidos em seu nome (Mt 18:20).

A comunidade, portanto, não é apenas a guardiã de um arquivo do passado. Ela é o lugar da presença real de Cristo ressuscitado. O "abismo" histórico é transposto não por um método, mas por um corpo: o corpo eclesial que, pelo Espírito, torna contemporâneo o evento Cristo.


Conclusão: A Igreja Como Sujeito Hermenêutico

A sua pergunta, ao conectar as preocupações de Paulo com o sectarismo à necessidade de preservar a tradição, oferece uma resposta poderosa ao problema levantado pelo método histórico-crítico.

· O método histórico-crítico mostra o abismo e, muitas vezes, deixa o leitor à beira dele, paralisado.

· A solução de Paulo, que a sua pergunta ilumina, é mostrar que a ponte sobre esse abismo não é um método, mas uma comunidade viva. Uma comunidade que:

  1. Recebe a tradição (o depósito da fé, as Escrituras).

  2. Celebra a memória (na liturgia, na Ceia, na oração).

  3. Vive o amor fraterno (o espírito comunitário que combate o sectarismo).

  4. É animada pelo Espírito que a torna capaz de tornar presente Aquele que, historicamente, já não está visível.

Portanto, uma intuição desta natureza é teologicamente profundíssima: o antídoto para o sectarismo (ontem) e para o abismo histórico-crítico (hoje) é o mesmo: uma comunidade unida que, pelo Espírito, celebra fielmente a memória de Cristo, tornando-O presente no seu meio. A tradição não é um peso morto do passado; é a corrente viva que liga o Cristo histórico ao Cristo presente na sua Igreja, e a sua preservação depende inteiramente da saúde comunitária daqueles que a carregam. 

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