A Composição Sócio-Étnica da Igreja de Roma

A Composição Sócio-Étnica da Igreja de Roma e sua Relevância Hermenêutica para a Epístola aos Romanos


1. Introdução

A compreensão do contexto sociohistórico da comunidade cristã em Roma constitui elemento fundamental para a interpretação adequada da Epístola de Paulo aos Romanos. A presente análise demonstra que a igreja romana funcionava como microcosmo da própria capital imperial, apresentando composição diversificada, estratificada e marcada por tensões internas significativas.


2. Composição Étnica da Igreja: Judeus e Gentios

A comunidade cristã romana era majoritariamente constituída por dois grupos étnicos distintos, cada qual com origens e experiências religiosas diferenciadas.


2.1. Os Judeus

Este grupo compreendia tanto judeus de nascimento quanto prosélitos (gentios convertidos ao judaísmo). Caracterizavam-se por possuírem herança teológica consolidada, incluindo as Escrituras hebraicas, as promessas messiânicas, a Torá e a aliança com Yahvé. São denominados por Paulo como "filhos de Israel" (huios Israēl).


2.2. Os Gentios

Designação que englobava todos os não-judeus, incluindo:

- God-fearers (phoboumenoi ton theon): gentios simpatizantes do judaísmo que frequentavam as sinagogas sem, contudo, submeterem-se à circuncisão;

- Convertidos de background pagão estrito.

2.3. Instabilidade Histórica da Composição

Evento crucial para a compreensão da dinâmica comunitária foi o Édito de Cláudio (ca. 49 d.C.), que determinou a expulsão dos judeus de Roma (At 18,2). Os cristãos de origem judaica foram obrigados a ausentar-se da cidade, período durante o qual a igreja desenvolveu-se sob liderança predominantemente gentílica. Com o falecimento de Cláudio (54 d.C.) e o subsequente retorno dos judeus-cristãos, encontraram uma comunidade estruturalmente transformada. A Epístola aos Romanos, redigida aproximadamente em 57-58 d.C., dirige-se precisamente a essa comunidade em processo de reintegração, enfrentando tensões intergrupais (DUNN, 1988; JEWETT, 2007).


3. Estratificação Social da Comunidade

A hierarquia social romana refletiu-se na composição da igreja, apesar da pregação paulina de igualdade espiritual ("oudei Ioudaios oude Hellēn", Gl 3,28).

Grupo Social Composição Provável na Igreja Evidências/Implicações 

Elite (Ordens Senatorial e Equestre) Provavelmente ausente ou numericamente insignificante O cristianismo era objeto de suspeita por parte da aristocracia romana 

Classe média/Artesãos (plebs) Provavelmente maioria da comunidade Priscila e Áquila (skenopoioi, fabricantes de tendas) constituem exemplos paradigmáticos; possuíam certa mobilidade socioeconômica 

Escravos e Libertos Grupo numericamente significativo Presença de exortações específicas em Romanos e Efésios; potenciais conflitos relacionados a status e tratamento 

Mulheres Papel ativo e de liderança Romanos 16 menciona Febe (diakonos), Priscila (synergos) e Júnia (episēmoi en tois apostolois) 


4. Relevância Hermenêutica para a Epístola

4.1. Propósito Situacional da Carta

Paulo não redige um tratado teológico abstrato, mas intervém em crise comunitária concreta: a redefinição das relações entre crentes judeus e gentios (STOWERS, 1994). O retorno dos judeus-cristãos suscitou questões fundamentais:

- Quem constitui o verdadeiro povo de Deus?

- Os gentios crentes funcionam como "substitutos" de Israel?

- Deus teria rejeitado seu povo eleito?

- A Torá mantém validade para os cristãos?

Os capítulos 9-11 respondem especificamente a essas interrogações, tratando da crise de fé dos judeus-cristãos e da potencial hybris dos gentios (MOO, 1996).


4.2. Exortação Prática: Romanos 14

As tensões não se restringiam ao plano teológico. O capítulo 14 aborda conflitos sobre "dias e alimentos" (hēmerai e brōmata), correspondendo precisamente aos pontos de discórdia entre cristãos de origem judaica (preocupados com a observância da Lei) e gentios (indiferentes a certas práticas ritualísticas). A koinōnia eclesial encontrava-se em risco.


5. Conexão com Romanos 9,22: A Voz Média em Contexto

A compreensão do contexto socioétnico ilumina a análise gramatical de Romanos 9,22, particularmente quanto à interpretação da voz média em katērtismena.


5.1. Implicações para Judeus-Cristãos

A interpretação de que os vasos "se prepararam a si mesmos" (vox media) funcionaria como lembrete de que a rejeição de muitos em Israel resultou de seu próprio endurecimento (sklērynō), não de abandono arbitrário divino. Tal leitura abre espaço para o arrependimento (metanoia) e o retorno, coerente com o argumento paulino em Rm 9-11.


5.2. Implicações para Gentios-Cristãos

A mesma interpretação opera como antídoto contra a arrogância. Se os "ramos naturais" (kladoi ek physis) foram quebrados por incredulidade (apistia), os gentios, enxertados (enkentrizō) pela fé, não dispõem de fundamento para kauchēsis, devendo antes permanecer em temor (phobos, Rm 11,20-21).


5.3. A Paciência Divina como Paradigma Comunitário

A makrothymia divina em Rm 9,22 — que suporta os "vasos de ira" (skeuē orgēs) — adquire dimensão prática para a vida eclesial. Paulo exorta implicitamente ambos os grupos à exercício mútuo de paciência, suportando fraquezas e diferenças em prol da unidade do corpo de Cristo (sōma Christou).


6. Conclusão

A igreja em Roma constituía comunidade vibrante, porém profundamente dividida por questões étnicas e socioeconômicas. A Epístola de Paulo representa intervenção cirúrgica de natureza pastoral, destinada a promover a unidade eclesial e a compreensão adequada do oikonomia divino — plano que sempre contemplou a inclusão de judeus e gentios na eleos divina. A análise gramatical de Rm 9,22 integra-se organicamente a esse argumento maior, demonstrando que questões linguísticas e contextuais são inseparáveis na hermenêutica paulina.

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Referências Bibliográficas (sugestão)

DUNN, J. D. G. Romans 1-8. Word Biblical Commentary. Dallas: Word Books, 1988.

JEWETT, R. Romans: A Commentary. Hermeneia. Minneapolis: Fortress Press, 2007.

MOO, D. J. The Epistle to the Romans. New International Commentary on the New Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 1996.

STOWERS, S. K. A Rereading of Romans: Justice, Jews, and Gentiles. New Haven: Yale University Press, 1994.


Notas de formatação aplicadas:

- Estruturação em seções e subseções numeradas

- Uso de terminologia técnica e grego transliterado

- Inclusão de tabela para dados estruturados

- Citações bíblicas com abreviatura padrão (Rm, Gl, At)

- Linguagem impessoal e formal (eliminação de "você", "vamos", "excelente pergunta")

- Sugestão de referências bibliográficas no formato ABNT

- Eliminação de metadiscurso e marcas de oralidade 

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