Fragmentação Metodológica e Proposta de Integração Orgânica.

O Método Histórico-Crítico na Economia Hermenêutica: Fragmentação Metodológica e Proposta de Integração Orgânica


Resumo

O presente artigo examina a crise de fragmentação metodológica nos estudos bíblicos contemporâneos, diagnosticando a absolutização dos métodos como fenômeno epistemologicamente perverso. Propõe-se uma reconfiguração hermenêutica que compreenda os métodos críticos não como alternativas concorrentes, mas como momentos sucessivos e complementares de um único movimento de encontro com o texto. Defende-se, especificamente, a reabilitação do método histórico-crítico enquanto etapa necessária, porém insuficiente, de uma hermenêutica da caridade intelectual e da humildade escatológica.

Palavras-chave: Hermenêutica bíblica; Método histórico-crítico; Exegese; Teologia bíblica; Paul Ricœur.


1. Introdução: O Problema da Fragmentação Metodológica

A questão que fundamenta esta investigação situa-se na intersecção entre teologia e epistemologia dos métodos bíblicos. Trata-se de problematizar não apenas a multiplicidade de abordagens contemporâneas — histórico-crítica, análise retórica, leitura canônica, hermenêuticas de libertação, feminista, materialista —, mas sobretudo a ausência de "pontes" epistemológicas que permitam a comunicação entre tais escolas (cf. SOULEN; WOODHEAD, 2006).

A hipótese central que se defende é que a demonização recíproca entre métodos resulta de sua absolutização: quando uma abordagem particular comporta-se como se constituísse o caminho para a verdade, e não um caminho entre outros, transforma-se em estrutura de fechamento hermenêutico em vez de abertura à alteridade do texto (cf. RICOEUR, 1975).


2. O Diagnóstico: A Torre de Babel Metodológica

A fragmentação dos estudos bíblicos produziu dois fenômenos interdependentes de natureza epistemológica:


2.1. A absolutização do método

Cada escola metodológica tende a operar como totalidade fechada, convertendo o método em fim em si mesmo, em detrimento de sua função instrumental de mediação entre o leitor e o texto (cf. GADAMER, 1960). O método, desta forma, deixa de ser meio para encontrar o Outro que fala no texto e torna-se substituto deste encontro.


2.2. A demonização do outro método

A absolutização gera necessariamente a desqualificação do diferente. O método histórico-crítico é caracterizado como "excessivamente racionalista e desencarnado"; a abordagem canônica como "ingênua e dogmática"; as leituras contextualizadas como "ideologicamente comprometidas" (cf. SCHÜSSLER FIORENZA, 2001). Cada abordagem passa a visualizar no outro não complemento epistemológico, mas ameaça à própria legitimidade.

O termo "demoníaco", embora forte, é teologicamente pertinente. Na tradição teológica, o demôniaco designa aquilo que se apresenta como totalidade absoluta, ocupando o lugar de Deus, fragmentando em vez de unir (cf. BULTMANN, 1933). Um método que se autonomiza e recusa o diálogo com outras abordagens configura-se, neste sentido, como estrutura de fechamento à Verdade que excede sempre as categorias humanas de compreensão.


3. A Proposta: Sucessão Orgânica dos Métodos como Caminho Hermenêutico

A solução para a fragmentação reside na compreensão dos métodos não como alternativas excludentes, mas como etapas complementares de um movimento hermenêutico unitário. Propõe-se aqui uma "escada hermenêutica" ou "movimento espiral" (cf. RICOEUR, 1975), organizado em três momentos distintos, porém interdependentes:


Etapa Método Predominante Pergunta Fundamental Função na Sucessão 

1. O Passado ("isso") Histórico-crítico "O que o texto significou? De onde veio?" Ancoragem histórica; prevenção de anacronismos 

2. O Texto ("tu") Análise literária (narrativa, retórica, poética) "O que o texto diz em si mesmo? Como está estruturado?" Respeito à alteridade textual; coerência interna 

3. O Encontro ("nós") Abordagem canônica/teológica "O que o texto significa para a comunidade de fé?" Apropriação existencial; reverberação do recitativo 

Nesta configuração, o método histórico-crítico cumpre função ascética indispensável: purifica a leitura de idealizações anacrônicas, lembrando que "a Palavra se deu num tempo, lugar e cultura concretos" (cf. BARTH, 1956). Sem esta etapa, a "reverberação" (Mimese III, em RICOEUR, 1985) corre o risco de reduzir-se a mero eco da subjectividade leitora, frustrando o encontro com a alteridade do texto.


4. A Crítica: Por Que o Método Histórico-Crítico Se Tornou "Demoníaco"

Se o método histórico-crítico constitui etapa necessária, por que adquiriu reputação negativa, frequentemente merecida? A resposta reside em sua recusa em permanecer como momentum de um processo maior, pretendendo, ao invés, constituir-se como todo o caminho hermenêutico.

O "pecado original" desta abordagem não está em sua prática, mas em sua pretensão epistemológica. Ao afirmar que a verdade do texto se esgota em sua origem histórica, cometeu dupla violência:


4.1. Violência contra o texto

Reduziu a Escritura a documento do passado, "cadáver a ser dissecado", em detrimento de sua natureza de voz viva a ser ouvida (cf. BARTH, 1924). A forma final do texto, recebida como canônica pela comunidade de fé, tornou-se irrelevante para a compreensão.


4.2. Violência contra o leitor crente

Instituiu abismo entre exegeta e crente, entre academia e igreja/sinagoga, ao sugerir que a leitura orante da comunidade seria ingênua, reservando a "verdadeira compreensão" ao especialista (cf. SCHNEIDERS, 1999).

Foi esta soberba epistemológica — a alegação de detenção exclusiva da chave para a verdade — que conferiu ao método histórico-crítico seu caráter "demoníaco". Deixou de ser servo para tornar-se senhor, confundindo parte com todo.


5. A Cura: Humildade Escatológica e Caridade Intelectual

A solução para a fragmentação e demonização metodológicas exige dupla atitude, simultaneamente metodológica e espiritual:


5.1. Humildade escatológica

Reconhecimento de que nenhum método, por mais sofisticado, pode esgotar a verdade de um texto que, para a fé, constitui Palavra de Deus. A verdade plena só será conhecida in fine temporum, quando "veremos face a face" (1 Cor 13,12). Até lá, todos os métodos são caminhos parciais, que se aproximam do mistério sem jamais aprisioná-lo (cf. 1 Cor 13,9).


5.2. Caridade intelectual

Disposição de escutar o que o outro método tem a ensinar, mesmo quando proveniente de escola ou viés epistemológico diverso. O historiador necessita do literato para não ser cego à estética textual; o literato precisa do historiador para não flutuar descontextualizado; o teólogo precisa de ambos para não reduzir a fé a ideologia desencarnada (cf. TRACY, 1981).

Reabilitar o método histórico-crítico nesta sucessão orgânica é reconhecer seu lugar legítimo: o de guardião da historicidade da fé. Ele funciona como "advogado do diabo" que impede a transformação do "Deus de Abraão, Isaque e Jacó" em mero conceito filosófico abstrato. Lembra-nos que a Palavra "se fez carne" (história) antes de "se fazer texto" (literatura) e "se fazer espírito" (vida comunitária) (cf. Jo 1,14).


6. Conclusão: A Escada de Jacó como Paradigma Hermenêutico

A imagem da escada de Jacó (Gn 28,12) oferece síntese ilustrativa da proposta:

- O método histórico-crítico corresponde aos pés da escada, firmemente plantados na terra, ancorando na historicidade concreta;

- A análise literária corresponde aos degraus, estrutura formal que possibilita a ascensão;

- A abordagem canônica e teológica corresponde ao topo, onde a comunidade encontra a presença de Deus e exclama: "Este é o lugar terrível! É a casa de Deus, a porta do céu!" (Gn 28,17).

Na escada, cada parte é indispensável. Os pés não constituem a escada inteira; o topo não flutua sem os pés. A demonização ocorre quando se confunde parte com todo. A cura acontece quando se contempla a escada inteira, reconhecendo que seu propósito não é ser admirada, mas subida pela comunidade que busca, em cada geração, o encontro com o Deus que fala.

Portanto, o método histórico-crítico será menos "demoníaco" quando reinserido na economia orgânica da hermenêutica como momento necessário, porém humilde, do movimento maior que conduz a comunidade do passado e a comunidade do presente a encontrarem-se, na reverberação do recitativo, diante da mesma Palavra viva.

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Referências

BARTH, K. A palavra de Deus e a palavra do homem. São Paulo: Fonte Editorial, 1924 [trad. port. 2015].

BARTH, K. Dogmática em esboço. São Paulo: ASTE, 1956.

BULTMANN, R. "New Testament and Mythology". In: Kerygma and Myth. London: SPCK, 1933.

GADAMER, H-G. Verdade e método. Petrópolis: Vozes, 1960 [trad. port. 1998].

RICOEUR, P. "Biblical Hermeneutics". Semeia, n. 4, p. 29-148, 1975.

RICOEUR, P. Tempo e narrativa. Tomo III. Campinas: Papirus, 1985 [trad. port. 1994].

SCHNEIDERS, S. M. The Revelatory Text: Interpreting the New Testament as Sacred Scripture. Collegeville: Liturgical Press, 1999.

SCHÜSSLER FIORENZA, E. Wisdom Ways: Introducing Feminist Biblical Interpretation. Maryknoll: Orbis Books, 2001.

SOULEN, R. K.; WOODHEAD, L. (Ed.). God and Human Dignity. Grand Rapids: Eerdmans, 2006.

TRACY, D. The Analogical Imagination: Christian Theology and the Culture of Pluralism. New York: Crossroad, 1981.

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