A controvérsia em torno do método histórico-crítico revela, em sua camada mais profunda, não uma divergência meramente técnica, mas uma tensão ontológica relativa ao modo de ser do texto bíblico. A crítica ao método emerge quando este é investido de uma pretensão onto-epistemológica totalizante, na qual o ser do texto é reduzido à sua disponibilidade enquanto objeto reconstruível. Nessa configuração, o texto é compreendido como ente intramundano, passível de análise causal, cuja verdade coincide com a reconstituição de sua origem fática.
Tal concepção pressupõe uma ontologia objetificante: o texto é tratado como coisa, não como acontecimento. A linguagem, por sua vez, é entendida instrumentalmente, como veículo transparente de conteúdos pretéritos. O método histórico-crítico, quando absolutizado, opera nesse horizonte, convertendo a historicidade em delimitação, e não em abertura. O passado é fixado como instância normativa exclusiva do sentido, encerrando o texto numa anterioridade fechada.
Uma radicalização fenomenológica exige deslocar essa compreensão para uma ontologia do acontecimento. Em termos heideggerianos, o texto não é simplesmente um ente entre entes, mas lugar de desvelamento (aletheia). A linguagem não é instrumento, mas morada do ser; ela é o espaço no qual o sentido advém. Nesse horizonte, a Escritura não se reduz à soma de suas condições de produção, mas constitui-se como evento linguístico no qual algo do ser se manifesta historicamente.
A hermenêutica, assim, não é técnica aplicada a um objeto, mas modo de ser do intérprete. Toda interpretação é participação num acontecimento de sentido que precede e excede o sujeito. Como já indicava Hans-Georg Gadamer, compreender não é reproduzir uma intenção originária, mas inserir-se na eficácia histórica do texto (Wirkungsgeschichte). O intérprete é sempre já situado numa tradição que o constitui; a compreensão é evento de fusão de horizontes, não operação de neutralização histórica.
De modo complementar, o arco hermenêutico descrito por Paul Ricœur permite compreender que o distanciamento crítico — condição do método histórico — não anula a dimensão ontológica do texto, mas a prepara. A explicação não é o termo final, mas momento da mediação que conduz à apropriação existencial. O texto projeta um “mundo do texto”, isto é, um conjunto de possibilidades de ser-no-mundo que interpelam o leitor. Assim, a verdade do texto não se esgota na reconstrução do que foi, mas se manifesta no que ele faz acontecer.
Nesse enquadramento, o método histórico-crítico deve ser reinscrito como momento analítico no interior de uma ontologia do evento. Sua função é desobstruir o texto de leituras anacrônicas e evidenciar sua densidade histórica; contudo, ele não detém o monopólio do desvelamento. Quando erigido a critério exclusivo, incorre numa forma de esquecimento do ser: fixa-se nos entes — dados históricos, fontes, redações — e perde de vista o acontecimento de sentido que se dá na linguagem.
A Escritura, enquanto texto canônico, possui uma estrutura ontologicamente relacional. Ela não é apenas produto do passado, mas elemento constitutivo de uma tradição viva. Sua identidade não é estática, mas performativa: ela acontece na proclamação, na escuta e na interpretação comunitária. Nessa linha, a reflexão teológica de Joseph Ratzinger insiste que a exegese só atinge seu objeto plenamente quando reconhece a unidade interna da Escritura e sua inserção no sujeito histórico da fé. A tradição não é acréscimo externo, mas dimensão ontológica da própria textualidade canônica.
A chamada “sinfonia hermenêutica” pode, portanto, ser reinterpretada fenomenologicamente como estrutura de co-pertença entre níveis de manifestação do sentido. O histórico-genético, o literário-simbólico, o canônico e o performativo não constituem camadas independentes, mas modos de aparecer do mesmo fenômeno. O sentido não é substância subjacente a ser escavada; é acontecimento que se dá na temporalidade.
A demonização do método histórico-crítico decorre, assim, de uma falsa alternativa entre objetividade científica e verdade existencial. Tal alternativa dissolve-se quando se reconhece que a própria crítica histórica é um modo de participação na historicidade do texto. O problema não é o método, mas sua descontextualização ontológica. Integrado numa hermenêutica do acontecimento, ele deixa de pretender encerrar o sentido e passa a funcionar como momento de clarificação dentro de um processo interpretativo que permanece aberto.
Em última instância, a questão não é saber qual método possui a última palavra, mas compreender que o sentido da Escritura se dá como evento de linguagem no qual ser, história e comunidade se entrelaçam. A interpretação torna-se, então, exercício de escuta ontológica: não domínio do texto, mas disponibilidade ao que nele se desvela. O método histórico-crítico, nesse horizonte, não é abandonado, mas desabsolutizado — reinscrito numa compreensão do texto como acontecimento do ser na história.
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