Análise Gramatical e Teológica de Romanos 9:22: A Questão da Voz Média em katartismena
Resumo
O presente artigo examina a interpretação do particípio katartismena (κατηρτισμένα) em Romanos 9:22, defendendo a tese de que a ambiguidade entre voz passiva e média no grego koinê do Novo Testamento oferece fundamentação textual para uma compreensão da predestinação que preserva tanto a soberania divina quanto a responsabilidade humana. A análise demonstra que a adoção da voz média como interpretação plausível tem implicações soteriológicas significativas, particularmente no que concerne à natureza da reprovação e ao caráter de Deus.
1. Introdução
O debate acerca da predestinação em Romanos 9 tem ocupado lugar central na teologia sistemática cristã, constituindo-se em um dos principais pontos de divergência entre as tradições calvinista e arminiana. O presente estudo concentra-se especificamente em Romanos 9:22, examinando as implicações gramaticais do termo katartismena para a compreensão da relação entre ação divina e responsabilidade humana no processo de reprovação.
2. Fundamentação Gramatical: A Ambiguidade do Particípio katartismena
A análise do texto grego de Romanos 9:22 revela três elementos estruturais fundamentais:
2.1. A Característica Linguística do Grego Koinê
O particípio katartismena, conjugado no perfeito, apresenta ambiguidade inerente quanto à distinção entre voz passiva e média. Diferentemente do grego clássico, em que essa distinção se manifesta de forma mais nítida, o grego koinê do Novo Testamento frequentemente obscurece a fronteira entre essas vozes (Wallace, 1996; Porter, 1994). Tal característica linguística não constitui erro gramatical, mas sim uma propriedade sintática que legitima a consideração de interpretações alternativas.
2.2. O Contraste Estrutural com Romanos 9:23
A argumentação paulina em Romanos 9:22-23 estabelece um contraste sintático significativo. Enquanto o verso 23 emprega o verbo proetoimasen (προετοίμασεν) na voz ativa, atribuindo explicitamente a Deus a ação de preparar os vasos de misericórdia, o verso 22 utiliza linguagem ambígua quanto aos vasos de ira. Se a intenção do autor fosse estabelecer uma simetria absoluta na ação divina sobre ambos os grupos, seria esperada a manutenção da mesma voz verbal. A variação observada sugere, portanto, uma diferenciação intencional na atribuição da ação (Cranfield, 1975; Dunn, 1988).
2.3. Implicações para a Teologia da Reprovação
A interpretação pela voz média serve a propósitos teológicos específicos, particularmente na preservação do caráter justo de Deus. A atribuição da "preparação" para a destruição aos próprios vasos de ira, em vez de a uma ação direta divina, evita a conclusão de que Deus seja autor do pecado e da condenação (Moo, 1996).
3. Desdobramentos Teológicos
3.1. A Natureza da Predestinação e da Reprovação
A interpretação gramatical proposta sustenta uma compreensão corporativa da predestinação, distinta da visão individualista e dupla. Conforme esta leitura, Deus predestina aqueles que estão "em Cristo" (Ef 1:4-5) para a adoção de filhos, enquanto a reprovação resulta da rejeição humana persistente à graça divina (Forster & Marston, 1973; Shank, 1969).
3.2. O Papel da Paciência Divina
A menção à "grande paciência" de Deus em Romanos 9:22 estabelece conexão direta com Romanos 2:4, onde a tolerância divina é apresentada como meio para o arrependimento. A paciência de Deus não configura mera espera passiva, mas constitui espaço ativo para a conversão. A tragédia teológica reside no fato de que os vasos de ira, em vez de se arrependerem, utilizam esse período de tolerância para aprofundar sua condição de aptidão para o juízo, endurecendo seus corações — fenômeno exemplificado na narrativa do Faraó (Rm 9:17; Êxodo 7-14).
3.3. Responsabilidade Humana e Endurecimento
O verbo katartizō (καταρτίζω), no contexto de Romanos 9:22, significa "tornar apto para um propósito". Sob a interpretação da voz média, a responsabilidade pelo estado de aptidão para a destruição recai sobre os próprios agentes humanos. Esta dinâmica ecoa a narrativa exódica, na qual o endurecimento do coração de Faraó é apresentado tanto como ação divina quanto como escolha humana, refletindo a complementaridade frequente na teologia bíblica entre soberania divina e agência humana (Westerholm, 2004).
3.4. O Propósito da Ira e do Poder Divinos
A manifestação da ira e do poder de Deus, mencionada em Romanos 9:22, deve ser compreendida não como propósito final da criação, mas como resultado inevitável do encontro entre a santidade divina e a pecaminosidade humana não arrependida. A "preparação" humana para a ira funciona como contraponto à preparação divina para a glória, evidenciando a justiça retributiva de Deus.
4. Conclusão
A defesa da voz média em Romanos 9:22 transcende o exercício meramente gramatical, fornecendo base textual para uma teologia que: (a) absolve Deus da acusação de ser autor do mal; (b) valoriza a paciência divina como espaço genuíno para o arrependimento humano; (c) equilibra soberania divina e responsabilidade humana; e (d) centraliza a ação divina na salvação, compreendendo o juízo como consequência justa da rejeição humana.
Tal interpretação oferece compreensão da predestinação que se caracteriza como cristocêntrica e soteriológica, em oposição a abordagens dualistas e especulativas focadas em decretos eternos de salvação e condenação.
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Referências
CRANFIELD, C. E. B. A Critical and Exegetical Commentary on the Epistle to the Romans. Edinburgh: T&T Clark, 1975.
DUNN, J. D. G. Romans 9-16. Dallas: Word Books, 1988.
FORSTER, R. T.; MARSTON, V. P. God's Strategy in Human History. Wheaton: Tyndale House, 1973.
MOO, D. J. The Epistle to the Romans. Grand Rapids: Eerdmans, 1996.
PORTER, S. E. Idioms of the Greek New Testament. Sheffield: JSOT Press, 1994.
SHANK, R. Elect in the Son. Springfield: Westcott, 1969.
WALLACE, D. B. Greek Grammar Beyond the Basics. Grand Rapids: Zondervan, 1996.
WESTERHOLM, S. Perspectives Old and New on Paul. Grand Rapids: Eerdmans, 2004.
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