COUTINHO, Afrânio. Impertinências. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Niterói: Universidade Federal Fluminense, 1990, p. 243.
A obra Impertinências, de Afrânio Coutinho, insere-se no amplo projeto crítico do autor de consolidação de uma historiografia literária brasileira autônoma, orientada por um paradigma estético-formal que privilegia a literariedade como critério fundamental de análise. Distanciando-se das abordagens historicistas de cunho positivista e das leituras sociologizantes predominantes em determinados momentos do século XX, Coutinho reivindica uma crítica literária que, embora atenta às determinações históricas, sociais e ideológicas, subordine tais dimensões ao exame intrínseco da obra enquanto arte da linguagem.
No cerne de sua argumentação está a defesa da autonomia da literatura brasileira frente ao modelo metropolitano português. Desde o período colonial — marcado pela presença dos jesuítas e pela difusão de uma cultura letrada vinculada ao projeto civilizatório lusitano — já se delineariam traços linguísticos e estéticos que escapam ao padrão normativo europeu. A colonização não teria produzido mera reprodução cultural, mas um processo de diferenciação progressiva que culmina na afirmação de uma identidade literária própria. Nesse contexto, a língua deixa de ser apenas veículo de transmissão do vernáculo português e passa a configurar-se como expressão simbólica de uma nova nacionalidade.
A perspectiva de Coutinho, portanto, articula língua, literatura e identidade nacional em um mesmo horizonte epistemológico. A produção literária brasileira, em seu entendimento, constitui-se como manifestação independente de uma consciência histórica específica, cuja consolidação exige também o reconhecimento da legitimidade da chamada “língua brasileira”. Tal formulação não implica a negação das matrizes europeias, mas sua ressignificação a partir de uma experiência histórica situada nos trópicos.
No plano historiográfico, o autor propõe o que denomina uma abordagem “brasilista” ou “brasílica”, isto é, uma escrita da história literária desde dentro da experiência cultural brasileira, recusando tanto a submissão aos modelos europeus quanto a reprodução acrítica de categorias coloniais. Essa historiografia não se organiza como mera sequência cronológica de fatos, mas como dinâmica de simultaneidades e desdobramentos, em que cada evento literário contém múltiplas possibilidades interpretativas. A noção de processo substitui a linearidade rígida, sem, contudo, eliminar o reconhecimento das tendências históricas e das contingências culturais de cada período.
Ao discutir o período colonial, Coutinho destaca a importância do Barroco como momento fundador da literatura brasileira. Figuras como Gregório de Matos e Antônio Vieira são evocadas como expressões paradigmáticas de uma linguagem que, embora vinculada ao universo luso-católico, já apresenta inflexões próprias do contexto colonial. Entre eles, Gregório de Matos ocupa posição de relevo, por representar uma dicção poética que tensiona os limites da norma metropolitana e antecipa a emergência de uma sensibilidade local.
A interpretação do Barroco insere-se, ainda, no debate mais amplo sobre a Contra-Reforma e suas implicações culturais. O movimento barroco, cujo apogeu se dá no século XVII, especialmente na Espanha e na Itália, configura-se como resposta estética à crise da cristandade medieval provocada pela Reforma protestante. Em território americano, entretanto, o Barroco não se limita a ecoar a reação europeia; ele adquire matizes específicos, articulando religiosidade, lirismo e elementos da realidade colonial. Coutinho enfatiza que essa apropriação não deve ser entendida como mera imitação ciceroniana da Antiguidade clássica, mas como reinterpretação criativa de matrizes culturais à luz de uma experiência histórica singular.
Ao longo de sua argumentação, o autor mobiliza exemplos de diferentes momentos da literatura nacional para sustentar a tese de sua grandeza e originalidade. No âmbito rural, destaca-se a contribuição de José de Alencar, Jorge Amado e Guimarães Rosa; no espaço urbano e na interioridade psicológica, sobressaem Machado de Assis, Raul Pompeia e Clarice Lispector. A diversidade de estilos e projetos estéticos reforça a ideia de uma tradição literária complexa e multifacetada, cuja maturidade autoriza a afirmação — reiterada por Coutinho — de que a literatura brasileira constitui a mais significativa das Américas.
Em síntese, Impertinências consolida a posição de Afrânio Coutinho como defensor de uma crítica literária de orientação poética, centrada na análise formal e na autonomia estética da obra. Sua proposta de uma historiografia “brasílica” busca superar tanto o colonialismo epistemológico quanto o reducionismo sociológico, afirmando a literatura brasileira como sistema autônomo, dotado de identidade linguística e força civilizatória próprias. Trata-se, assim, de contribuição decisiva ao debate sobre a formação cultural do Brasil e sobre os fundamentos teóricos da crítica literária nacional.
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