A Comunidade Eclesial como Sujeito Hermenêutico.

A Comunidade Eclesial como Sujeito Hermenêutico: Uma Análise da Resposta Paulina ao Problema do "Abismo Histórico" em 1 Coríntios e 2 Coríntios 5:16

Resumo: O presente artigo investiga a solução teológica oferecida pelo Apóstolo Paulo ao problema do distanciamento entre o evento histórico de Cristo e sua recepção contemporânea. A partir da análise de 1 Coríntios 11-15 e 2 Coríntios 5:16, argumenta-se que a resposta paulina ao desafio hermenêutico — tanto na sua dimensão histórica quanto na sua manifestação eclesial — reside na configuração da comunidade cristã como sujeito vivo da tradição. Através de uma abordagem exegético-teológica, demonstra-se que a paradosis cristã não se constitui como mero arquivo de informações, mas como modo de vida comunitário, litúrgico e espiritual, capaz de transpor a distância temporal e preservar a memória de Cristo de maneira efetiva.

Palavras-chave: Hermenêutica bíblica; História-crítica; Tradição; Eclesiologia; Liturgia; Comunidade; 1 Coríntios; 2 Coríntios.


1. Introdução

O método histórico-crítico, ao sublinhar a distância entre o texto bíblico e o leitor moderno, diagnosticou um problema hermenêutico de significativa magnitude: o denominado "abismo histórico" (historischer Abgrund). No entanto, uma análise atenta das epístolas paulinas revela que tal problema não é exclusivamente moderno; ele configurava-se já como ameaça latente na primeira geração cristã. A presente investigação propõe-se a examinar como o Apóstolo Paulo enfrentou essa questão em sua correspondência com a comunidade de Corinto, particularmente em 1 Coríntios 11-15 e 2 Coríntios 5:16, oferecendo uma solução que articula dimensões eclesiológicas, litúrgicas e espirituais.


2. O Problema: O Abismo Histórico-Crítico e a Fragmentação em Corinto

O diagnóstico histórico-crítico acerca da distância temporal entre o evento cristológico e sua atualização hermenêutica identifica uma questão legítima. Contudo, é preciso reconhecer que tal distanciamento manifestava-se, de forma precoce, não primariamente como problema cronológico, mas como crise ética e espiritual na vida das primeiras comunidades.

A situação da igreja de Corinto, conforme descrita em 1 Coríntios 11-15, constitui caso paradigmático dessa problemática. O sectarismo que acometia a comunidade — expresso na divisão em facções: "Eu sou de Paulo", "Eu de Apolo", "Eu de Cefas" (1Co 1:12) — representava ameaça não apenas à unidade organizacional, mas à própria integridade da tradição cristã. A fragmentação eclesial comprometia a capacidade da comunidade de ser depositária viva da memória de Cristo.

A desordem na celebração da Ceia do Senhor (1Co 11:20-21) ilustra de maneira contundente essa crise. A prática litúrgica, em vez de configurar-se como memória eficaz do Senhor, tornara-se expressão do egoísmo e da divisão comunitária: "Quando vos reunis, isso não é comer a Ceia do Senhor; porque cada um come a sua própria ceia adiantando-se; e um tem fome, outro embriaga-se". A memória de Cristo encontrava-se em risco de obliteração não pelo decurso do tempo, mas pelo pecado da divisão. Se a comunidade se desfizesse em facções egocêntricas, quem preservaria a tradição? Quem celebraria a memória de forma fiel?


3. A Solução Paulina: A Tradição Como Ato Comunitário

Paulo responde a essa ameaça mediante um movimento simultaneamente catequético, litúrgico e eclesiológico, que oferece resposta ao abismo identificado.


3.1. A Transmissão da Tradição (Paradosis)

Em 1 Coríntios 15, o Apóstolo emprega linguagem técnica e solene: "Porque entreguei a vós, primeiro de tudo, o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e que apareceu a Cefas e depois aos doze" (1Co 15:3-5).

Os verbos παρέδωκα (paredōka, "entregar") e παρέλαβον (parelabon, "receber") constituem termos técnicos da transmissão tradicional, comum tanto à herança rabínica quanto à cristã primitiva. Paulo não inventa teologia nova; transmite adiante depósito sagrado por ele próprio recebido. A tradição configura-se, assim, como ponte sobre o abismo histórico-espiritual.


3.2. O Espírito Comunitário Como Condição de Possibilidade da Tradição

Sem o espírito comunitário, a tradição perde-se. Tal afirmação fundamenta-se na natureza não-informativa, mas existencial, da paradosis cristã. A tradição não se reduz a conjunto de proposições abstratas; constitui modo de vida partilhado.

Na Ceia do Senhor (1Co 11), a tradição ("Isto é o meu corpo... fazei isto em memória de mim") só pode ser vivida adequadamente quando a comunidade é efetivamente corpo, onde uns cuidam dos outros e ninguém passa fome enquanto outros se embriagam. No anúncio da ressurreição (1Co 15), a verdade do evento só pode ser testemunhada de forma credível por comunidade unida. Uma igreja dividida que prega a reconciliação constitui contra-testemunho.

Paulo afirma, implicitamente, que a memória de Cristo só sobrevive se for memória celebrada conjuntamente, por corpo que vive a realidade que celebra.


4. A Transição Definitiva: Do Conhecimento "Segundo a Carne" ao Encontro na Memória Comunitária

O ponto culminante dessa reflexão encontra-se em 2 Coríntios 5:16: "Assim que, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, ainda que tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo".

Trata-se da chave hermenêutica definitiva. Paulo anuncia mudança de regime no conhecimento de Cristo. A fase da testemunha ocular ("conhecer segundo a carne") — em que Pedro, Tiago e João viram-no, tocaram-no, ouviram-no —, embora única, irrepetível e fundamental para fundar a tradição (razão pela qual Paulo lista as aparições em 1Co 15 para ancorar o kerygma na história), está a findar.

A questão que emerge é: como conhecer Cristo quando as testemunhas oculares já não estiverem presentes? A resposta paulina, implícita em todo o seu ensino, é: conhecê-lo-emos através de sua memória, preservada, celebrada e vivida pela comunidade em suas reuniões.

A Ceia do Senhor torna presente o corpo entregue e o sangue derramado. A proclamação da Palavra anuncia a morte e ressurreição. O amor fraterno torna credível o anúncio de Deus que é amor. O Espírito Santo, prometido por Cristo, guia a comunidade a toda a verdade (Jo 16:13) e torna Cristo presente no meio dos reunidos em seu nome (Mt 18:20).

A comunidade, portanto, não é mera guardiã de arquivo do passado, mas lugar da presença real de Cristo ressuscitado. O "abismo" histórico é transposto não por método, mas por corpo: o corpo eclesial que, pelo Espírito, torna contemporâneo o evento Cristo.


5. Conclusão: A Igreja Como Sujeito Hermenêutico

A análise das preocupações de Paulo com o sectarismo, articuladas à necessidade de preservar a tradição, oferece resposta ao problema levantado pelo método histórico-crítico. Se o método histórico-crítico mostra o abismo e, frequentemente, deixa o leitor à beira dele, paralisado, a solução paulina revela que a ponte sobre esse abismo não é método, mas comunidade viva.

Tal comunidade: (1) recebe a tradição (o depósito da fé, as Escrituras); (2) celebra a memória (na liturgia, na Ceia, na oração); (3) vive o amor fraterno (o espírito comunitário que combate o sectarismo); e (4) é animada pelo Espírito que a torna capaz de tornar presente Aquele que, historicamente, já não está visível.

Conclui-se, assim, que o antídoto para o sectarismo — em sua manifestação histórica ou contemporânea — e para o abismo histórico-crítico é o mesmo: comunidade unida que, pelo Espírito, celebra fielmente a memória de Cristo, tornando-O presente em seu meio. A tradição não é peso morto do passado, mas corrente viva que liga o Cristo histórico ao Cristo presente em sua Igreja, cuja preservação depende inteiramente da saúde comunitária daqueles que a carregam.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Celebração Devocional Texto Bíblico: Mateus 9:35–37 Tema: Viva a Compaixão Prelúdio Dirigente: “Irmãos e irmãs, reunimo-nos hoje diante do S...