Machado de Assis e a Hermenêutica de Ricouer.

Machado de Assis e a Hermenêutica de Paul Ricœur: A Dialética da Antecipação e da Mediação na Construção do Sentido Narrativo


Resumo

O presente artigo investiga a relação entre a poética machadiana e a teoria da mimese desenvolvida por Paul Ricœur, com ênfase particular na análise de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Partindo da hipótese de que a obra de Machado de Assis antecipa e simultaneamente media o processo de encontro entre leitor e texto, propõe-se uma leitura que articula os conceitos de Mimese II (configuração) e Mimese III (refiguração) delineados em Tempo e Narrativa (1983-1985). Argumenta-se que o narrador brasiliense estabelece uma estratégia discursiva calcada na ambiguidade calculada, mediante a qual a recepção da obra é não apenas prevista, mas encenada no próprio tecido narrativo, dissolvendo a dicotomia entre arquiteto e cicerone do texto.

Palavras-chave: Machado de Assis; Paul Ricœur; Hermenêutica; Mimese; Recepção; Memórias Póstumas de Brás Cubas.


1. Introdução

A interlocução entre a literatura brasileira do século XIX e os desenvolvimentos contemporâneos da teoria literária e da filosofia hermenêutica tem se configurado como um campo fecundo de investigação acadêmica. Nesse contexto, a obra de Machado de Assis (1839-1908), particularmente sua fase madura, inaugurada com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), apresenta-se como objeto privilegiado para análises que buscam articular a prática ficcional com reflexões metanarrativas sobre a constituição do sentido literário.

O presente estudo propõe-se a examinar a estética machadiana à luz da teoria da mimese desenvolvida pelo filósofo francês Paul Ricœur (1913-2005), especialmente em sua obra Tempo e Narrativa (Temps et Récit, 1983-1985). A questão central que orienta esta investigação pode ser formulada do seguinte modo: em que medida a poética de Machado de Assis antecipa o processo de encontro do leitor com a obra — conforme postulado pela Mimese III ricoeuriana — sem, contudo, abandonar o leitor à própria sorte hermenêutica?

A hipótese aqui sustentada é a de que o escritor brasileiro opera uma síntese dialética entre essas duas dimensões, produzindo uma ambiguidade calculada que confere à sua obra um estatuto singularmente moderno no panorama da narrativa ocidental. Tal ambiguidade manifesta-se na construção de um narrador que, ao mesmo tempo em que prefigura a recepção do texto, estabelece com o leitor uma relação de mediação e guia, transformando o ato da leitura em um diálogo intersubjetivo.


2. Fundamentação Teórica: A Tríade Mimética de Paul Ricœur

Para a devida compreensão do problema em questão, faz-se necessário retomar brevemente a arquitetura conceitual ricoeuriana. Em Tempo e Narrativa, Ricœur desenvolve uma teoria da narratividade fundamentada em três momentos interdependentes, designados como Mimese I, Mimese II e Mimese III (RICŒUR, 1994).

A Mimese I (mimesis pré-figurada) corresponde à compreensão pré-narrativa que o sujeito possui da temporalidade e da ação, isto é, o horizonte de expectativas culturais e simbólicas que antecede qualquer configuração textual. A Mimese II (mimesis configurada) refere-se à operação própria do texto narrativo, mediante a qual a ação é organizada segundo estruturas temporais e composicionais específicas, engendrando o "mundo da obra". Por fim, a Mimese III (mimesis refigurada) designa o momento da recepção, em que o leitor, confrontado com o mundo proposto pelo texto, procede à sua refiguração, trazendo à tona seu próprio horizonte de experiência e estabelecendo um diálogo entre o mundo da obra e o mundo da vida (RICŒUR, 1994, p. 101-156).

É precisamente na interface entre a Mimese II e a Mimese III que a poética machadiana instala sua especificidade, conforme se procura demonstrar nas seções seguintes.


3. Machado de Assis como "Arquiteto" da Mimese III: A Antecipação do Processo de Refiguração

A partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis inaugura uma modalidade narrativa caracterizada pela ruptura com as convenções do romance realista oitocentista. Não obstante, tal ruptura não se configura como mero exercício de vanguarda formal; antes, ela vem acompanhada de uma sofisticada operação metanarrativa que antecipa e orquestra o processo de encontro do leitor com a obra.

O narrador brasiliense, ao se dirigir diretamente ao destinatário empírico por meio de apostrofes recorrentes — "leitor distraído", "leitora minha querida", "leitor antipático" (ASSIS, 1999) —, não se limita a efetuar a quebra convencional da "quarta parede" dramatúrgica. Opera-se, nesse gesto, uma inscrição do leitor no próprio tecido textual, de modo que a Mimese III (a refiguração propriamente dita) é, paradoxalmente, encenada no interior da Mimese II (a configuração textual).

Conforme assinala Ricœur (1994, p. 389), o sentido da narrativa não se esgota no texto, mas realiza-se no ato da leitura. Machado de Assis, contudo, parece levar essa premissa a suas últimas consequências, construindo um narrador que personifica a consciência dessa dialética. Brás Cubas, o "defunto autor", escreve desde a perspectiva de quem já foi lido, interpretado e julgado, instaurando uma temporalidade complexa em que o momento da enunciação já pressupõe o momento da recepção.

Nesse sentido, o texto machadiano pode ser compreendido como uma arquitetura discursiva que prevê sua própria recepção, convertendo o leitor em personagem ativa do jogo narrativo. A obra não se apresenta como objeto acabado, mas como evento hermenêutico que só se consuma no encontro intersubjetivo entre narrador e destinatário.


4. Machado de Assis como "Cicerone" do Caos: A Mediação do Processo de Leitura

Paralelamente à operação de antecipação descrita na seção anterior, a poética machadiana desenvolve uma estratégia complementar de mediação e guia do leitor. A inovação formal operada por Machado de Assis — caracterizada pela fragmentação narrativa, pela estrutura capitular descontínua, pelas digressões filosóficas e pelo tom irônico-pessimista — poderia, em tese, gerar um efeito de estranhamento ou de abandono do destinatário, particularmente considerando-se o horizonte de expectativas do leitor oitocentista, habituado à linearidade do romance realista-naturalista.

Nesse contexto, o diálogo estabelecido entre narrador e leitor funciona como um mecanismo de negociação dos termos de um "novo contrato de leitura" (compreendido aqui no sentido que Jacques Derrida atribui ao conceito de "contrato" textual, embora operando dentro de uma perspectiva hermenêutica). Ao advertir o leitor sobre as idiossincrasias do percurso narrativo — "Não espere uma história comum. Vou pular, vou divagar, vou falar de coisas aleatórias" —, o narrador brasiliense estabelece uma cumplicidade que ameniza o impacto das inovações formais e temáticas.

A ironia, elemento constitutivo do estilo machadiano, opera nesse contexto como instrumento de mediação hermenêutica. Quando o narrador profere suas "teorias" — como o célebre "humanitismo" — ou suas reflexões existenciais amargas, a interrupção do discurso filosófico por meio de gracejos ou interpelações diretas ao leitor cria um efeito de distanciamento que, longe de fragmentar o sentido, o reforça mediante a construção de uma complicidade intersubjetiva.

O leitor, assim, não se sente abandonado à própria sorte hermenêutica, mas acompanhado por um "cicerone irônico" que conhece os atalhos do labirinto textual. A ironia funciona, nesse sentido, como uma forma de "salva-vidas" epistemológico, garantindo que, mesmo diante das provocações niilistas do narrador, permaneça viva a consciência de uma inteligência ordenadora que conduz o processo de leitura.


5. A Dissolução da Falsa Dualidade: Síntese Dialética na Poética Machadiana

A análise precedente permite concluir que a genialidade estética de Machado de Assis reside precisamente na dissolução da aparente dicotomia entre antecipação e mediação. O narrador brasiliense não opta por uma ou outra estratégia; antes, articula-as de modo dialético, de forma que a antecipação do processo de encontro só é possível porque o leitor não é abandonado nesse encontro.

O diálogo machadiano constitui, assim, a própria encenação da Mimese III ricoeuriana. Cria-se um espaço textual em que a refiguração não se configura como evento posterior e acidental à configuração, mas como componente integrante do jogo narrativo. A obra machadiana, nesse sentido, é construída de modo a conter, em sua estrutura mesma, a previsão de sua própria recepção, convertendo o ato solitário da leitura em diálogo intersubjetivo.

A intenção poética de Machado de Assis não se restringe, portanto, à mera previsão do fenômeno hermenêutico (como filósofo que antecipa um processo), tampouco se limita à função didático-gnoseológica de guiar o leitor (como pedagogo do texto). Sua proposta estética visa, antes, à criação de uma obra que só alcance sua plena existência no momento do encontro com o destinatário.

O leitor machadiano é, nesse sentido, convocado a assumir o estatuto de coautor da significação, transformando o ato da leitura em "grande e irônica aventura do sentido" (ASSIS, 1999). Não se trata de um leitor abandonado à deriva hermenêutica, mas de um leitor "contratado" para a construção compartilhada do mundo ficcional.


6. Considerações Finais

A articulação entre a poética de Machado de Assis e a hermenêutica de Paul Ricœur revela-se como campo produtivo para a compreensão da modernidade narrativa brasileira. A análise de Memórias Póstumas de Brás Cubas demonstra que o escritor brasileiro operou uma sofisticada síntese entre a antecipação do processo de recepção e a mediação do encontro com o leitor, dissolvendo a dicotomia entre arquiteto e cicerone do texto.

Tal operação confere à obra machadiana um estatuto privilegiado na história da narrativa ocidental, na medida em que converte a reflexão metanarrativa em estratégia constitutiva do sentido. A Mimese III ricoeuriana, longe de ser mero momento posterior à configuração textual, é encenada no próprio tecido da Mimese II, instaurando uma temporalidade complexa em que a recepção é simultaneamente prevista, mediada e realizada.

Futuras investigações poderão estender essa análise a outras obras da fase madura de Machado de Assis — como Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899) —, bem como explorar as implicações dessa poética para a teoria contemporânea da recepção e dos estudos de leitura.


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Referências

ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ática, 1999.

RICŒUR, Paul. Tempo e Narrativa. Trad. Constança Marcondes Cesar. 3 v. Campinas: Papirus, 1994.


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