A Crítica Textual do Novo Testamento.

A crítica textual do Novo Testamento é a disciplina que busca reconstruir o texto original dos 27 livros do Novo Testamento, escritos entre aproximadamente 45-96 d.C., a partir dos manuscritos sobreviventes. Aqui está uma visão geral abrangente da história e dos aparatos críticos que surgiram:

1. Período do Textus Receptus (1516-1770)

O ponto de partida foi o Textus Receptus ("Texto Recebido"), estabelecido por Erasmo de Roterdã em 1516 e consolidado pelas edições de Robert Estienne (1550) e pelos irmãos Elzevir (1633). Este texto dominou por mais de dois séculos, embora fosse baseado em poucos manuscritos medievais inferiores [^0^].

Primeiros Aparatos Críticos

 

Poliglota de Londres (Walton, 1657): Apresentou pela primeira vez um aparato crítico sistemático, incluindo as leituras do Códice Alexandrino (A) e outras autoridades [^1^]

 

Edição de John Mill (1707): Marco importante com 30 anos de trabalho, acrescentando vasto material de manuscritos, versões antigas e citações patrísticas, embora mantendo o texto de Estienne [^2^]

2. Período de Transição (1770-1830)

Johann Albrecht Bengel (1734)

Bengel foi pioneiro na classificação de famílias textuais, dividindo os manuscritos em "africanos" (antigos e valiosos) e "asiáticos" (de Constantinopla, inferiores). Seu aparato organizava as variantes em cinco classes: genuínas, melhores que o texto, iguais ao texto, inferiores e rejeitáveis [^3^].

Johann Jakob Wettstein

Desenvolveu a notação moderna para manuscritos unciais (letras maiúsculas) e cursivos (números), base para o sistema Gregory-Aland atual [^4^].

3. Período da Reconstrução Crítica (1830-1899)

Lobegott Friedrich Constantin Tischendorf

Tischendorf produziu edições monumentais, culminando na Editio octava critica maior (1869-1872). Seu aparato era vasto, listando testemunhas unciais, cursivos, lecionários, versões e Padres. Descobriu o Códice Sinaiticus (ℵ) em 1844, um dos manuscritos mais antigos e completos [^5^].

Westcott e Hort (1881)

Brooke Foss Westcott e Fenton John Anthony Hort publicaram The New Testament in the Original Greek (1881), revolucionando a crítica textual com:

 

Método genealógico: Classificação dos manuscritos em quatro famílias: Siria (Bizantina), Ocidental, Alexandrina e "Neutra"

 

Prioridade do texto Alexandrino: Baseando-se nos códices Vaticano (B) e Sinaitico (ℵ)

 

Princípios textuais: Preferência pela leitura mais difícil (lectio difficilior ) e mais curta (lectio brevior ) [^7^]

4. O Aparato Crítico Moderno: Nestle-Aland

A edição Novum Testamentum Graece de Eberhard Nestle (1898) tornou-se o padrão acadêmico mundial [^9^].

Evolução do Aparato:

Table

Edição

Características do Aparato

1ª-12ª (1898-1927)

Comparação de três edições do século XIX (Tischendorf, Westcott-Hort, Weymouth/Weiss)

13ª (1927)

Erwin Nestle introduz aparato crítico separado

21ª (1952)

Kurt Aland expande significativamente o aparato

25ª (1963)

Notação expandida de manuscritos, sistema próximo ao atual

26ª-27ª (1979-1993)

Texto eclético revisado, aparato completamente reescrito

28ª (2012)

Incorpora resultados da Editio Critica Maior (ECM), mais de 30 mudanças textuais nas Epístolas Católicas [^19^]

Características do Aparato NA28:

O aparato crítico do Nestle-Aland é notável por sua economia de espaço e densidade de informação [^12^]:

 

Siglas: Manuscritos unciais (ℵ, A, B, C...), papiros (𝔓¹, 𝔓²...), cursivos (números), lecionários (l )

 

Símbolos críticos: Indicam variantes, omissões, transposições, lacunas

 

Ordem das testemunhas: Papiros, unciais, cursivos, versões, Padres da Igreja

 

Notação de grupos: "ω" para a massa de minúsculos, "etc" para testemunhas adicionais

5. Outros Aparatos Importantes

Hermann von Soden (1913)

Desenvolveu um sistema único com três grandes famílias (H, I, K) e notação especial para subgrupos. Seu aparato tinha três níveis de importância e usava símbolos como "~" para transposições e "om" para omissões [^13^].

Augustinus Merk (1933)

Organizou as testemunhas em grupos e subgrupos que variam por corpus (Evangelhos, Atos, etc.), usando notações como "s" (e seguintes) e "ss" (e muitos seguintes) para indicar alcance de manuscritos [^14^].

Reuben Swanson (1995-)

Edições horizontais que apresentam variantes em linhas paralelas contra o Códice Vaticano, enfatizando a pluralidade textual de forma mais visual [^15^].

6. Editio Critica Maior (ECM)

A Editio Critica Maior é o projeto mais ambicioso atual, produzindo uma edição detalhada com aparato completo para cada livro. O ECM das Epístolas Católicas já influenciou o NA28, e trabalhos estão em andamento para Marcos, Atos e Apocalipse [^16^].

Conclusão

A crítica textual do Novo Testamento evoluiu de simples compilações de variantes (Mill) para aparatos sofisticados que combinam evidência documental, análise genealógica e princípios textuais. O Nestle-Aland permanece como o padrão ouro, continuamente revisado para incorporar novas descobertas (como os papiros 𝔓117-127 no NA28) e métodos mais refinados de análise textual [^17^].

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