1. O Tempo Narrativo em Paul Ricœur (A Tríplice Mimese).

 1. O Tempo Narrativo em Paul Ricœur (A Tríplice Mimese)

Para Ricœur, o tempo se torna humano na medida em que é articulado de maneira narrativa. Em sua obra "Tempo e Narrativa", ele argumenta que a narrativa (seja histórica ou de ficção) é a guardiã do tempo. Ele propõe o conceito da Tríplice Mimese para explicar como a narrativa media entre o tempo vivido e o tempo cósmico:

· Mimese I (Pré-figuração): É o nosso mundo da ação, da experiência prática. Já temos uma pré-compreensão do agir humano (seus símbolos, estruturas, temporalidade). Vivemos no tempo, mas de forma fragmentada e dispersa.

· Mimese II (Configuração): É o ato de "empregar" a trama (o mythos). Aqui, o narrador (ou a comunidade) organiza os eventos dispersos, as causas e os acasos, em uma totalidade inteligível e completa. A Mimese II dá sentido ao tempo, criando uma "síntese do heterogêneo" – transforma uma sucessão de "agoras" em um todo com começo, meio e fim.

· Mimese III (Refiguração): É o encontro da narrativa com o mundo do leitor/ouvinte. A configuração da trama não é um fim em si mesma; ela "refigura" a experiência temporal de quem a recebe, oferecendo modelos para compreender a própria vida e o tempo histórico.

O grande paradoxo que Ricœur enfrenta é a tensão entre o Tempo do Mundo (cósmico, físico, infinito) e o Tempo da Alma (fenomenológico, interior, finito, influenciado por Agostinho). A narrativa é a única capaz de "tecer" esses dois tempos, dando uma identidade narrativa aos indivíduos e às comunidades.

2. Os Pressupostos Calvinistas: Soberania e Predestinação

O Calvinismo Clássico (baseado nas Institutas de João Calvino e sintetizado nos Cânones de Dort) parte de uma visão radical da transcendência divina:

· Soberania Absoluta: Deus é a causa primeira de todas as coisas. Nada acontece fora da sua vontade, permissiva ou decretiva. O tempo da criação é totalmente dependente e subordinado à eternidade de Deus.

· Predestinação: Devido à soberania, Deus, antes da fundação do mundo, predestinou alguns para a salvação (eleitos) e outros para a condenação (reprovados). Isto significa que o destino final de cada alma já está definido na eternidade divina, independentemente do mérito humano.

Aqui surge uma tensão teológica clássica: Se tudo já está decretado na eternidade, qual o sentido da história e da ação humana no tempo? O tempo seria uma mera execução de um roteiro já escrito?

3. A Relação: A Narrativa como Mediação entre a Eternidade e o Tempo

A filosofia de Ricœur oferece uma ferramenta poderosa para entender como os calvinistas (e a tradição reformada) vivenciam essa aparente contradição. A relação pode ser estabelecida em três níveis, correspondentes à tríplice mimese:

A. Mimese I (Pré-figuração) e o Senso de Dependência

O calvinista vive no mundo da ação (Mimese I) com uma pré-compreensão radical: a de que sua vida e o mundo são completamente dependentes de Deus. A experiência temporal é marcada pela incerteza subjetiva ("Será que sou um eleito?") e pela certeza objetiva da fé ("Deus governa todas as coisas"). Há uma tensão pré-narrativa entre a minha experiência fragmentada no tempo (cheia de pecados, escolhas e consequências) e a crença num decreto eterno e coerente.

B. Mimese II (Configuração) e a "Trama da Salvação" (Historia Salutis)

É na Mimese II que a conexão se torna mais forte.

· A Teologia como Configuração da Trama: A teologia calvinista funciona como a "trama" que organiza os eventos caóticos da história e da vida individual. Eventos como a Queda, a Encarnação, a Cruz e a Parusia não são fatos isolados; são partes de uma única e grandiosa narrativa configurada pelo decreto eterno de Deus.

· A Predestinação como "Síntese do Heterogêneo": A doutrina da predestinação é a tentativa teológica máxima de dar sentido ao tempo. Ela responde à pergunta: "Como pode a história ter um sentido se as ações humanas são livres e contingentes?". Para o calvinismo, o sentido não vem de baixo (das ações humanas), mas de cima (do plano divino). A predestinação é a "síntese do heterogêneo" que unifica toda a dispersão da história humana sob um único autor e um único propósito: a Glória de Deus. Ela é a garantia de que a narrativa do mundo não é um absurdo, mas uma epopeia com um final definido.

· O Papel da Providência: A soberania de Deus opera na história como o "enredo" que conduz todos os personagens (mesmo os que agem mal, como José no Egito ou Pilatos) para o cumprimento do desfecho divino.

C. Mimese III (Refiguração) e a Identidade do Eleito

A Mimese III é o momento em que a narrativa bíblica e teológica encontra o crente.

· A Bíblia como Refiguração da Vida: Quando o calvinista lê as Escrituras (a Grande Narrativa), sua própria vida é "refigurada". Ele começa a interpretar sua biografia à luz dessa trama. As vitórias são sinais da eleição; as derrotas são provações; a perseverança é a marca do verdadeiro crente.

· Identidade Narrativa: O conceito de Ricœur de "identidade narrativa" (a identidade que uma pessoa adquire ao se contar ou ao ser contada pela história da comunidade) é fundamental. O crente reformado não se vê como um ser autônomo, mas como um personagem na grande narrativa da Aliança. Sua identidade é definida pelo papel que Deus lhe atribuiu na trama da salvação. A pergunta "Quem sou eu?" é respondida por "Sou alguém que foi predestinado em Cristo antes da fundação do mundo".

· O Tempo como Revelação: O tempo (a história) torna-se, então, o palco onde o decreto eterno e secreto de Deus se torna manifesto. O que era oculto na eternidade (a lista dos eleitos) é progressivamente revelado no tempo através da fé e das obras dos santos. O tempo narrativo é o meio pelo qual a eternidade se desdobra e se comunica com a criatura.

4. O Paradoxo Fundamental (e a Resposta Narrativa)

A grande dificuldade lógica é: se o final já está escrito (predestinação), por que a narrativa (o tempo) é necessária?

A resposta, iluminada por Ricœur, é que a narrativa não é para Deus, mas para o homem.

· Para Deus (o ponto de vista da eternidade), não há tempo. Há um único "agora" eterno que contempla toda a história simultaneamente. Deus é o Autor da trama, mas não vive dentro dela.

. Para o homem (o ponto de vista do tempo), a narrativa é essencial. É através do desenrolar temporal dos eventos (a história da salvação) e da apropriação pessoal dessa história (a fé) que o ser humano pode conhecer a Deus e a si mesmo.

Assim, o tempo narrativo no Calvinismo é o espaço da doxologia (louvor) e da manifestação. Ele não altera o decreto (o "roteiro" já está pronto), mas é o meio pelo qual a glória de Deus é encenada e experimentada pelas criaturas. A soberania de Deus garante a coerência da trama (Mimese II), e a predestinação garante que cada personagem (o eleito) chegará ao seu devido lugar na resolução final da história, permitindo que ele olhe para trás e veja a "mão de Deus" tecendo todos os acontecimentos para o bem (Romanos 8:28).

Conclusão

Relacionar Ricœur com o Calvinismo é ver a teologia reformada como uma poderosa Mimese II (configuração) que organiza o caos da existência humana (Mimese I) a partir da crença em um Autor soberano que escreveu a história antes do tempo. O tempo narrativo, portanto, não é o tempo da construção do destino, mas o tempo da revelação e da vivência de um destino já estabelecido na eternidade. É a forma humana e experiencial de participar da trama divina, que só faz sentido quando configurada pela fé e refigurada na vida do crente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

1. O Tempo Narrativo em Paul Ricœur (A Tríplice Mimese).

 1. O Tempo Narrativo em Paul Ricœur (A Tríplice Mimese) Para Ricœur, o tempo se torna humano na medida em que é articulado de maneira narra...