A Relação entre a Ipsissima Vox de Joachim Jeremias e a Hermenêutica da Recepção: Um Contraste Paradigmático
Resumo
O presente artigo investiga a relação entre o projeto hermenêutico de Joachim Jeremias, centrado na recuperação da ipsissima vox de Jesus, e a reflexão sobre o encontro das comunidades no recitativo. Argumenta-se que, embora ambas as abordagens compartilhem o interesse pela voz autêntica de Jesus, elas se estabelecem por meio de um contraste paradigmático, e não de uma continuidade direta. Enquanto Jeremias desenvolve uma hermenêutica diacrônica e arqueológica, voltada para o passado, a perspectiva do recitativo propõe uma hermenêutica performática e sincrônica, orientada para a atualização do texto na comunidade. A tese central defende que a ipsissima vox, longe de ser apenas um objeto de investigação histórica, encontra sua plena concretude no ato recitativo da comunidade crente.
Palavras-chave: Joachim Jeremias; Ipsissima Vox; Hermenêutica da Recepção; Recitativo; Exegese do Novo Testamento.
1. Introdução
A questão da autenticidade das palavras de Jesus constitui um dos problemas hermenêuticos mais recorrentes na história da exegese bíblica. Dentre os estudiosos que se dedicaram a esse empreendimento, destaca-se Joachim Jeremias (1900-1979), cujo método rigoroso de análise histórico-crítica buscou ultrapassar as camadas da tradição evangelística para alcançar, não apenas as palavras, mas a própria voz do Jesus histórico. Paralelamente, desenvolveu-se uma corrente hermenêutica contemporânea que privilegia a dimensão performática e comunitária da Escritura, compreendendo o texto bíblico como locus de encontro entre as comunidades do passado e do presente.
O objetivo deste estudo é estabelecer um diálogo crítico entre essas duas abordagens, demonstrando que a relação entre o projeto jeremiano e a hermenêutica do recitativo se configura menos como uma continuidade metodológica e mais como um contraste paradigmático produtivo. Para tanto, proceder-se-á em três etapas: (a) exposição do projeto de Jeremias e de seus conceitos centrais; (b) estabelecimento do contraste metodológico entre as duas perspectivas; (c) análise da complementaridade teológica que emerge desse diálogo.
2. O Projeto de Joachim Jeremias: Em Busca da Ipsissima Vox
Joachim Jeremias consagrou sua carreira acadêmica a uma tarefa específica: a reconstrução da voz autêntica de Jesus por meio de métodos histórico-críticos rigorosos. Seu projeto fundamenta-se na distinção entre dois conceitos operacionais:
2.1. Ipsissima Verba
O termo ipsissima verba (as próprias palavras) refere-se à tentativa de reconstrução das expressões literais proferidas por Jesus, particularmente em seu substrato aramaico subjacente aos evangelhos gregos (JEREMIAS, 1971). Jeremias sustentava que, mediante análise minuciosa do estilo, do ritmo, do paralelismo poético e de características semíticas do discurso, seria possível aproximar-se consideravelmente do que Jesus efetivamente disse.
2.2. Ipsissima Vox
O conceito de ipsissima vox (a própria voz), mais sutil, não se restringe às palavras literais, mas abarca o tom, a maneira característica e a singularidade do falar de Jesus (JEREMIAS, 1966). O exemplo paradigmático utilizado por Jeremias é o emprego do termo aramaico Abba como forma de tratamento dirigida a Deus. Para o estudioso, essa palavra íntima — que ele popularizou mediante a tradução "Pai querido" ou "Papai" — era tão característica de Jesus e tão desprovida de paralelos na piedade judaica da época, que encapsularia a própria ipsissima vox: a consciência única da filiação divina e da intimidade com o Pai que Jesus veio revelar.
O projeto jeremiano configura-se, portanto, como fundamentalmente diacrônico e centrado no passado. Seu objetivo é escavar o texto para acessar o momento originário, a voz do Jesus histórico situada por detrás das camadas da tradição da Igreja primitiva.
3. O Contraste Fundamental: Arqueologia versus Performance
A distinção metodológica entre a abordagem de Jeremias e a hermenêutica do recitativo pode ser sistematizada mediante os seguintes eixos comparativos:
Eixo de Comparação Joachim Jeremias (Ipsissima Vox) Hermenêutica do Recitativo
Direção do olhar Para trás (arqueologia): objetiva escavar o texto, remover as camadas da tradição e da comunidade para encontrar o núcleo original, a voz autêntica de Jesus no passado. Para frente (performance): objetiva habitar o texto em sua forma final, permitindo que a voz do passado (a comunidade que o moldou) e a voz do presente (a comunidade que o recita) se encontrem e ressoem conjuntamente.
Conceito de "voz" A voz como origem histórica: a ipsissima vox é um dado a ser recuperado, um som original e autêntico que precisa ser isolado do ruído da tradição posterior. A voz como evento relacional: a voz não está no passado, mas emerge no encontro entre o texto (que carrega o testemunho do passado) e a comunidade viva que o atualiza.
Papel da comunidade A comunidade como filtro ou obstáculo: a comunidade primitiva, ao transmitir, traduzir e editar os ditos de Jesus, é vista como uma camada que precisa ser penetrada ou, em certa medida, removida para se chegar ao original. A comunidade como medium ou palco: a comunidade (tanto a do passado quanto a do presente) é o próprio espaço onde a voz se torna audível. A comunidade do passado moldou o texto; a comunidade do presente dá-lhe voz. Ambas são indispensáveis.
Relação com o texto O texto como janela: o texto é uma janela através da qual se olha para o Jesus histórico. A meta está além e por detrás do vidro (o texto). O texto como espelho ressonante: o texto é o espelho que reflete e a caixa de ressonância que permite que as vozes do passado e do presente vibrem juntas. A meta está na interação com o próprio texto.
4. A Relação Profunda: A Ironia da Ipsissima Vox como Recitativo
Apesar do contraste metodológico acima exposto, subsiste uma relação profunda — e, em certo sentido, irônica — entre as duas abordagens. A ipsissima vox de Jesus, que Jeremias tanto procurou no passado, só pode ser verdadeiramente "ouvida" no ato do recitativo da comunidade.
Considere-se o exemplo central: Abba.
Para Jeremias, Abba é um dado do passado, uma palavra aramaica utilizada por Jesus, reconstruída pela ciência histórica, que oferece um vislumbre único de sua relação com o Pai. Seu valor reside na originalidade histórica. Para a hermenêutica do recitativo, contudo, Abba não é apenas um dado a ser conhecido, mas uma voz a ser reverberada. Quando a comunidade contemporânea, em sua oração, clama "Abba, Pai" (Gl 4,6; Rm 8,15), opera-se um fenômeno complexo:
1. A comunidade do presente invoca Deus com a mesma palavra utilizada por Jesus; sua voz atual é moldada pela palavra do passado.
2. Ao fazê-lo, a comunidade não repete meramente um fato histórico, mas entra na mesma relação de filiação que caracterizava Jesus. O Espírito que nela habita é o mesmo Espírito que conduziu Jesus a clamar Abba.
3. Nesse ato orante, a ipsissima vox de Jesus deixa de ser um objeto de estudo no passado para tornar-se uma realidade audível no presente. A voz de Jesus e a voz da comunidade fundem-se numa só: é a comunidade que clama, mas é a voz do Filho que nela clama.
A ironia reside no fato de que a ipsissima vox, que Jeremias procurou isolar em sua pureza original, encontra sua verdadeira "audibilidade" não no laboratório do historiador, mas no recitativo orante da comunidade.
5. Conclusão: Dois Movimentos, Um Só Mistério
A relação entre o projeto de Jeremias e a hermenêutica do recitativo pode ser compreendida como dois movimentos complementares:
- Movimento descendente (arqueologia): Jeremias escava o subsolo do texto para encontrar o fundamento rochoso, a voz fundadora de Jesus. Seu trabalho assegura a garantia histórica, confirmando que a voz ouvida não é invenção, mas está ancorada num evento real e numa pessoa histórica.
- Movimento ascendente (performance): A hermenêutica do recitativo toma esse fundamento (o testemunho histórico, a palavra Abba) e indaga como a pedra fundamental se torna a pedra angular de um edifício vivo, como a voz de ontem se converte na voz de hoje. A resposta está no recitativo.
A relação entre os conceitos de Jeremias e a hermenêutica do recitativo não se configura, portanto, como identidade, mas como paradoxo e complementaridade teológica. A ipsissima vox é o testemunho sedimentado do encontro original (Jesus com o Pai). O recitativo é a fonte que jorra desse sedimento, tornando esse mesmo encontro acessível e presente a todas as gerações. Separadas, uma seria um passado mudo, a outra um presente sem raízes. Reunidas, no círculo hermenêutico da fé, revelam o mistério de uma voz que, sendo do passado, é eternamente presente.
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