Uma Analise Histórico-Linguística.

O Desuso do Hebraico Litúrgico como Fator de Cimentação do Abismo entre Judaísmo e Cristianismo: Uma Análise Histórico-Linguística


Resumo

O presente artigo investiga a hipótese de que a progressive substituição do hebraico por outras línguas no contexto litúrgico e bíblico constituiu um fator determinante na cristalização da separação entre o judaísmo rabínico e o cristianismo primitivo. Através de uma análise do multilinguismo do período do Segundo Templo, da adoção da Septuaginta pela Igreja nascente e da reafirmação do texto massorético pelo judaísmo pós-70 d.C., argumenta-se que a divergência linguística funcionou não como causa primeira do distanciamento teológico, mas como instrumento de inscrição e perpetuação desse abismo, tornando-o estruturalmente intransponível.

Palavras-chave: História das religiões; Septuaginta; Targum; Parting of the Ways; Multilinguismo judaico.


1. Introdução

A questão da separação entre judaísmo e cristianismo — frequentemente designada na historiografia contemporânea como Parting of the Ways — constitui um dos problemas mais complexos e controvertidos do estudo das religiões abraâmicas. Entre os múltiplos fatores que concorreram para essa bifurcação, a dimensão linguística tem recebido atenção relativamente marginal na literatura especializada. O presente estudo propõe examinar especificamente o papel do desuso do hebraico como língua litúrgica e bíblica na consolidação de fronteiras identitárias irreversíveis entre as duas comunidades.

A tese central aqui sustentada é que a divergência linguística não constituiu a causa originária do distanciamento, mas operou como mecanismo de cristalização e aprofundamento de um abismo teológico preexistente, ao retirar a plataforma comunicacional comum que poderia ter viabilizado a continuidade do diálogo intercomunitário.


2. O Multilinguismo do Judaísmo do Segundo Templo: Configuração de um Espectro Plurilíngue

A caracterização do judaísmo do período do Segundo Templo como fenômeno multifacetado encontra-se amplamente consolidada na historiografia contemporânea (COHEN, 1987; SCHÜRER, 1979). Uma das dimensões mais significativas dessa complexidade reside na configuração linguística do mundo judaico, que se apresentava como espectro plurilíngue rather than como unidade monolíngue.


2.1 O Aramaico como língua vernácula

Estudos filológicos e epigráficos demonstram que o aramaico constituía a língua cotidiana da população judaica da Palestina durante o período helenístico-romano. Conforme assinala a pesquisa histórica, "o judeu médio mesmo no período do Segundo Templo não falava hebraico, mas aramaico, ou às vezes grego" (PENNA, 1998, p. 45). Essa realidade sociolinguística implicava a institucionalização de práticas tradutórias nas comunidades sinagogais, particularmente através da figura do meturgeman (tradutor), responsável pela versão frase por frase da Torá do hebraico para o aramaico durante as leituras litúrgicas (BARTHÉLEMY, 1963).


2.2 O grego como língua da Diáspora

Na vasta dispersão judaica pelo Mediterrâneo oriental, a situação linguística apresentava-se ainda mais complexa. A maioria das comunidades diaspóricas já havia adotado o aramaico como língua de comunicação interna, enquanto um número significativo, particularmente nas principais metrópoles helenísticas, operava primordialmente em grego koiné (HENGEL, 1974). Para atender a essa demanda, desenvolveram-se tradições tradutórias sistemáticas: os Targumim (versões aramaicas) e, preeminentemente, a Septuaginta (tradução grega das Escrituras hebraicas) (JOOSTEN, 2020).


2.3 O hebraico como língua sacra e de erudição

Paralelamente a essa diversificação vernácula, o hebraico manteve-se como língua litúrgica, de estudo textual intensivo (talmud torah) e de reflexão teológica especializada. Contudo, observa-se uma progressive transformação de sua natureza sociolinguística: de língua materna, o hebraico converteu-se em língua adquirida, de domínio restrito aos especialistas e às práticas cultuais formais (SÁENZ-BADILLOS, 1993).


3. Os "Seguidores do Caminho": Inserção e Diferenciação no Espectro Judaico

O movimento originado nas figuras de Jesus de Nazaré e seus discípulos configurava-se, em sua fase inicial, como mais uma expressão da diversidade sectária do judaísmo do Segundo Templo, inserindo-se no continuum que abarcava fariseus, saduceus, essênios, zelotes e outros agrupamentos (SANDERS, 1985; VERMES, 2001).


3.1 Identidade judaica e língua de origem

Do ponto de vista histórico-científico, Jesus e seus primeiros seguidores eram inquestionavelmente judeus, e o movimento que fundaram configurava-se como seita judaica de caráter apocalíptico. A língua original de seu ensinamento foi, com elevado grau de probabilidade, o aramaico — língua vernácula da Galiléia — conforme atestam as preservações aramaicas na tradição evangélica (ex.: Talitha koum, Eli Eli lama sabachthani) (CASEY, 1998).

A questão decisiva, para os propósitos deste estudo, reside não na língua de origem do movimento, mas nas opções linguísticas subsequentes que operaram sua diferenciação crescente em relação ao tronco judaico.


4. A Língua como Instrumento de Aprofundamento do Abismo: O Caso da Septuaginta

O foco analítico recai sobre o "desuso do hebraico como texto litúrgico nas sinagogas da Diáspora" e suas implicações estruturais para a relação entre as comunidades.


4.1 A adoção da Septuaginta pelo cristianismo primitivo

A Igreja nascente, particularmente em sua dimensão missionária para os gentios e para a diáspora judaica helenizada, adotou a Septuaginta como sua Bíblia normativa. Paulo de Tarso, designado na tradição como "apóstolo dos gentios", redigia suas epístolas em grego koiné e recorria às Escrituras quase exclusivamente através da versão dos Setenta (KOCH, 1986; STANLEY, 1992).


4.2 A reafirmação do hebraico no judaísmo rabínico

A destruição do Segundo Templo em 70 d.C. e a reorganização do judaísmo em Jamnia (Yavneh) implicaram um processo de consolidação identitária que incluiu a reafirmação do texto hebraico original — futuro Texto Massorético — e um relativo distanciamento da Septuaginta, progressivamente identificada como "Bíblia dos cristãos" (BARTHÉLEMY, 1963; SCHAPER, 2004).


4.3 A linguagem como marcador identitário

Nesse contexto, a língua deixa de funcionar como mero veículo neutro de comunicação para converter-se em marcador distintivo de identidade religiosa:

- Para o judaísmo sinagogal: mesmo na Diáspora, a língua de autoridade permaneceu o hebraico, mesmo quando mediada por tradução. O Targum operava como complemento, jamais como substituto. A vinculação com a Terra, com a história e com a tradição passava necessariamente pelo som original das palavras sagradas (FISHBANE, 1985).

- Para o cristianismo gentílico: a Septuaginta constituía a Escritura propriamente dita. O hebraico apresentava-se como língua estrangeira e inacessível, de modo que a fé cristã fundamentava-se estruturalmente numa mediação tradutória (HENGEL, 2002).


5. A Intransponibilidade do Abismo: Perda de Plataformas Comuns

A questão decisiva reside em determinar se a divergência linguística tornou o abismo entre as comunidades estruturalmente intransponível.


5.1 Perda da plataforma textual comum

Quando duas comunidades operam com textos distintos — ou com o mesmo texto em línguas diferentes —, a discussão sobre significados torna-se extremamente problemática. Exemplifica-se essa dificuldade com o caso paradigmático de Isaías 7:14: enquanto o texto hebraico emprega almah (jovem mulher), a Septuaginta recorre a parthenos (virgem). A ausência de base textual comum impossibilita a resolução hermenêutica da disputa (JOOSTEN, 2020).


5.2 Criação de universos teológicos distintos

A hipótese sapir-whorfiana da relação entre língua e pensamento encontra aplicação nesse contexto. O universo teológico construído sobre a Septuaginta, com seu vocabulário grego, diferenciava-se substancialmente daquele construído sobre o hebraico original. Termos centrais como Torah (traduzido como Nomos — Lei), Mashiach (Christos) e Tsedakah (justiça/caridade) adquiriam matizes semânticos distintivos que contribuíam para divergências teológicas crescentes (HORBURY, 1998).


5.3 Ausência de pontes bilíngues

A "ponte" potencial entre as comunidades dependeria de agentes bilíngues capazes de transitar entre os universos linguísticos, explicando o texto hebraico ao falante de grego e vice-versa. Embora tenham existido algumas figuras nesse papel — notadamente Orígenes, com sua Hexapla, que dispunha em colunas paralelas o hebraico e diversas versões gregas —, o cristianismo tornou-se majoritariamente gentílico e o conhecimento do hebraico desapareceu quase completamente da Igreja (N DE LANGE, 1976). Simetricamente, o judaísmo rabínico aprofundou seu estudo do hebraico e distanciou-se progressivamente da Septuaginta.


6. Conclusão: A Língua como Testemunho e Separação

A análise desenvolvida permite concluir que a intuição concernente ao papel estruturante da dimensão linguística encontra sustentação historiográfica. O abismo que teve origem em diferenças teológicas e messiológicas foi cimentado e aprofundado pela divergência linguístico-litúrgica.

- O hebraico permaneceu como língua da memória, da tradição ininterrupta e da identidade judaica ancorada na Terra e na história.

- O grego (da Septuaginta) converteu-se na língua da proclamação missionária, da universalização da mensagem e da ruptura com as particularidades da lei mosaica.

A ironia histórica é notável: o movimento que iniciou sua pregação em aramaico para judeus da Palestina acabou por definir-se através de uma Bíblia grega que o judaísmo já não reconhecia como sua. Essa diferença linguística, originada como necessidade prática da Diáspora, converteu-se, com o tempo, em uma das barreiras mais sólidas entre comunidades que partilhavam uma fé ancestral comum. A ponte, se alguma vez existiu, foi progressivamente desmantelada de ambos os lados, sendo a língua o instrumento principal desse processo de separação.


Referências

BARTHÉLEMY, D. Les devanciers d'Aquila. Leiden: Brill, 1963.

CASEY, M. Aramaic Sources of Mark's Gospel. Cambridge: Cambridge University Press, 1998.

COHEN, S. J. D. From the Maccabees to the Mishnah. Philadelphia: Westminster Press, 1987.

FISHBANE, M. Biblical Interpretation in Ancient Israel. Oxford: Clarendon Press, 1985.

HENGEL, M. Judaism and Hellenism. 2 vols. Philadelphia: Fortress Press, 1974.

HENGEL, M. The Septuagint as Christian Scripture. Edinburgh: T&T Clark, 2002.

HORBURY, W. Jewish Messianism and the Cult of Christ. London: SCM Press, 1998.

JOOSTEN, J. The Septuagint and the Transformation of Jewish Culture. In: PIEKKARI, V.; VAN DER VORM-CROUGHS, M. (eds.). The Septuagint and the Making of the Christian Bible. Leiden: Brill, 2020.

KOCH, D. A. Die Schrift als Zeuge des Evangeliums. Tübingen: Mohr Siebeck, 1986.

N DE LANGE. Origen and the Jews. Cambridge: Cambridge University Press, 1976.

PENNA, R. The Jews at the Time of Jesus. New York: Paulist Press, 1998.

SÁENZ-BADILLOS, A. A History of the Hebrew Language. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.

SANDERS, E. P. Jesus and Judaism. Philadelphia: Fortress Press, 1985.

SCHAPER, J. Eschatology in the Greek Psalter. Tübingen: Mohr Siebeck, 1995.

SCHÜRER, E. The History of the Jewish People in the Age of Jesus Christ. Rev. ed. 3 vols. Edinburgh: T&T Clark, 1979.

STANLEY, C. D. Paul and the Language of Scripture. Cambridge: Cambridge University Press, 1992.

VERMES, G. The Changing Faces of Jesus. London: Allen Lane, 2001.

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