A Controvérsia entre o Gerativismo Chomskiano e a Epistemologia Genética Piagetiana: Uma Análise do Debate de Royaumont
1. Introdução
A relação entre o gerativismo de Noam Chomsky e a teoria de Jean Piaget constitui um dos episódios mais significativos da história da psicologia e da linguística contemporâneas. Ambos os teóricos, embora não sejam aliados epistemológicos, representam os polos fundamentais da discussão acerca da aquisição do conhecimento: o inatismo, defendido por Chomsky, e o construtivismo, sustentado por Piaget.
2. O Debate de 1975: Contexto Histórico
Em outubro de 1975, na Abadia de Royaumont, próximo a Paris, realizou-se um dos debates mais emblemáticos da psicologia do século XX, reunindo Chomsky, Piaget e outros proeminentes estudiosos da época. O tema central versava sobre a natureza da linguagem e do conhecimento humano. Nota-se que, apesar de ambos rejeitarem a perspectiva behaviorista — segundo a qual a linguagem seria mero produto de imitação e reforço —, suas explicações sobre a origem dessa capacidade apresentavam-se radicalmente divergentes.
3. Divergências Teóricas Fundamentais
A Tabela 1 sistematiza as principais diferenças conceituais entre os dois pensadores:
Aspecto Noam Chomsky (Gerativismo) Jean Piaget (Epistemologia Genética)
Visão Central Inatismo modular Construtivismo
Origem da Linguagem Faculdade inata, "órgão mental" especializado e independente de outras capacidades Manifestação da inteligência geral (semiótica), construída a partir da interação com o meio
Papel da Herança Genética Gramática Universal (GU): conjunto de princípios inatos que orientam a aquisição linguística Modo de funcionamento (formas de assimilação/acomodação); estruturas cognitivas construídas gradualmente pela ação do sujeito
Aquisição Conhecimento linguístico básico presente desde o nascimento; experiência como ajuste de parâmetros da língua específica Construção ativa do conhecimento; linguagem como decorrência do desenvolvimento de funções cognitivas prévias, como a função simbólica
Relação com a Cognição Módulo autônomo, dissociado de outras formas de inteligência (ex.: inteligência sensório-motora) Derivada da inteligência geral; desenvolvimento cognitivo como pré-requisito para o surgimento da linguagem
4. Análise Comparativa das Propostas
Chomsky fundamenta sua teoria no chamado "argumento da pobreza do estímulo", questionando: "Como a criança adquire conhecimento linguístico tão rapidamente e com input tão limitado?" A resposta chomskiana aponta para a existência de conhecimento prévio inscrito na estrutura biológica do organismo, ou seja, a criança já nasceria dotada das regras fundamentais da linguagem.
Piaget, por sua vez, dirige-se a outro problema epistemológico: "Como o ser humano constrói conhecimentos complexos, tais como a lógica e a matemática?" A solução piagetiana enfatiza a interação dialética entre o sujeito e o objeto, num processo contínuo de construção mediante esquemas de assimilação e acomodação.
5. Considerações Finais
A relação entre o gerativismo chomskiano e a epistemologia genética piagetiana configura-se como um conflito teórico profundo, porém produtivo. Trata-se de uma oposição complementar que estabeleceu os termos fundamentais do debate sobre aquisição da linguagem, com repercussões duradouras na filosofia, na psicologia e nas neurociências cognitivas. A controvérsia inaugurada em Royaumont permanece como referência obrigatória para a compreensão das diferentes abordagens do desenvolvimento humano.
Referências
O usuário deve incluir referências bibliográficas específicas conforme a norma exigida (ABNT, APA, Vancouver etc.). Sugere-se consultar:
- Chomsky, N. (1965). Aspects of the Theory of Syntax. Cambridge: MIT Press.
- Piaget, J. (1970). Science of education and the psychology of the child. New York: Orion Press.
- Piatelli-Palmarini, M. (Ed.). (1980). Language and learning: The debate between Jean Piaget and Noam Chomsky. Cambridge: Harvard University Press.
Nenhum comentário:
Postar um comentário