A Piedade Judaica como Horizonte Hermenêutico.

A Piedade como Horizonte Hermenêutico: Fundamentação Experiencial e Formação do Cânon Bíblico


Resumo

O presente artigo investiga a relação entre a experiência religiosa do Segundo Templo — aqui denominada "piedade judaica" segundo a nomenclatura de Paul Tillich — e o processo de formação do cânon bíblico. Argumenta-se que os livros deuterocanônicos representam a cristalização literária de uma matriz experiencial comum a diversas comunidades judaicas e judaico-cristãs, diferenciando-se posteriormente mediante critérios hermenêuticos distintivos. A análise distingue entre a experiência fundante compartilhada, a produção literária resultante e os viés teológicos que determinaram a inclusão ou exclusão de determinados textos na Tradição Canônica.

Palavras-chave: Cânon bíblico; Livros deuterocanônicos; Paul Tillich; Hermenêutica bíblica; História do cristianismo primitivo.


1. Introdução

A questão da canonicidade dos textos bíblicos, particularmente no que tange aos livros deuterocanônicos, remonta a problemáticas que extrapolam meras deliberações institucionais. Conforme será demonstrado, tais obras não constituem peças literárias isoladas, mas sim a materialização escrita de uma experiência religiosa viva — aquilo que Tillich (1957) designa como "piedade judaica". O argumento desenvolvido neste ensaio estabelece uma articulação entre a experiência fundante, comum a múltiplas comunidades — inclusive à comunidade responsável pelo Evangelho de João — e o processo histórico que conduziu à fixação do Cânon.


2. A "Piedade" como Horizonte Comum de Experiência

A identificação de um elemento unificador na experiência religiosa do período do Segundo Templo constitui premissa fundamental para a compreensão do fenômeno literário em questão. A "piedade judaica" funcionava como linguagem comum, ou, em termos antropológicos, como imaginário compartilhado pelas comunidades judaicas e, posteriormente, pelas comunidades judaico-cristãs.


2.1. A Experiência Fundante Comum

Tanto a comunidade por trás do Evangelho de João quanto as comunidades que preservaram textos como Tobias, Judite e a Sabedoria de Salomão partilhavam uma mesma matriz experiencial. Esta compreendia: (a) a centralidade da Torá; (b) a liturgia do Templo — mesmo que idealizada à distância; (c) as festas litúrgicas; (d) as orações (Shemá, Salmos); e (e) a expectativa messiânica e apocalíptica (SANDMEL, 1978; SCHÜRMANN, 1968).


2.2. A Contribuição de Paul Tillich

Quando Tillich (1957, p. 84-92) emprega o termo "piedade" (Frömmigkeit), refere-se à substância viva da religião, isto é, à seriedade última com que os sujeitos se relacionavam com o Divino. Não se tratava de mera adesão intelectual a proposições dogmáticas, mas de uma realidade existencial que configurava temporalidade, espacialidade e relações intersubjetivas. Foi precisamente essa substância que conferiu poder de fogo à produção literária do período.


3. Tradição Literária e Expectativa Comunitária

A síntese operada entre expectativa comunitária e tradição escriturística configura-se como determinante para a gênese da literatura deuterocanônica. Conforme assinala Smith (1952, p. 45), "uma tradição literária surge de um ambiente e contexto em que expectativa comunitária e tradição escriturística se combinam".


3.1. A Tradição Escriturística como Horizonte de Produção

Os autores deuterocanônicos não operavam ex nihilo. Estavam imersos nas Escrituras de Israel — Torá, Profetas e Salmos. O Livro da Sabedoria de Salomão, por exemplo, estabelece diálogo profundo com a tradição sapiencial e com o relato do Êxodo (WINSTON, 1979). Por sua vez, 1 Macabeus adota estilo semelhante aos livros históricos (cf. Josué, Reis), demonstrando a continuidade da ação divina na história presente (GOLDSTEIN, 1976).


3.2. A Expectativa Comunitária como Impulso Hermenêutico

A comunidade demandava respostas que a "letra" da Escritura mais antiga, por si só, não parecia oferecer. Diante do martírio (2 Macabeus), da opressão helenística (Judite) ou das dificuldades da diáspora (Tobias), a comunidade esperava uma palavra que interpretasse o sofrimento e reafirmasse a fidelidade divina (COLLINS, 1983). O escritor inspirado, portanto, utiliza a tradição — histórias antigas, Lei, Profetas — para responder à expectativa presente, gerando uma nova camada de literatura que reinterpreta a fé para um novo tempo.


4. O Viés Distintivo e a Gênese do Cânon

Se a experiência fundante (a piedade) é comum, torna-se necessário interrogarmos: o que determina que um texto como o Evangelho de João integre o Cânon para praticamente todos os cristãos, enquanto o Eclesiástico (Ben Sira) permaneça de fora para as tradições protestantes, mas dentro para as tradições católica e ortodoxa?

O "viés" mencionado compreende-se como o critério hermenêutico fundamental que cada comunidade empregou para ler e validar esses textos.

4.1. O Viés da Comunidade Joanina

O viés joanino é absolutamente cristológico. Toda a piedade judaica — a Luz, a Verdade, o Templo, a Videira, o Cordeiro Pascal — é reinterpretada como tendo seu cumprimento e substância na pessoa de Jesus Cristo (BROWN, 1966). O Logos da filosofia greco-judaica, presente em Sabedoria e em Filão, "se fez carne" (Jo 1,14). A experiência fundante dessa comunidade não era apenas a piedade do Templo, mas o encontro com o Jesus ressurreto, evento que se converteu em nova lente hermenêutica para a leitura de toda a Escritura anterior.


4.2. O Viés da Literatura Deuterocanônica

O viés aqui é mais horizontal e imediato, centrado em soteriologia e ética comunitária. A pergunta fundamental é: "Como ser santo (piedoso) num mundo hostil?" (DI LELLA, 1987). As respostas variam: Tobias propõe a fidelidade conjugal, o sepultamento dos mortos e a caridade; Judite enfatiza a coragem e a confiança em Deus que age através da mulher temente; Sabedoria indica a busca pela sabedoria divina como garantia de imortalidade. O Eclesiástico (Ben Sira), por sua vez, constitui manual de educação na Aliança para jovens judeus — teologia aplicada, porém sem foco exclusivo no evento cristológico (SKEHAN & DI LELLA, 1987).


5. Conclusão: Síntese do Processo Formativo

O processo dinâmico que conduz à formação da Tradição Canônica pode ser assim sintetizado:

1. Base comum: A "piedade judaica" (Tillich) como experiência fundante e solo cultural;

2. Necessidade comum: A demanda por literatura que alimentasse a fé e respondesse aos desafios existenciais;

3. Produção literária: Tobias, Sabedoria etc. como primeiras manifestações desse solo comum;

4. Evento divisor: A vinda de Jesus Cristo e a reflexão cristológica, especialmente em comunidades como a joanina, criando novo viés hermenêutico;

5. Formação do Cânon: Deliberação da Igreja primitiva sobre quais livros, nascidos da piedade comum, seriam normativos para a fé definida pelo evento Cristo.

Alguns textos foram mantidos pelas tradições católica e ortodoxa como "deuterocanônicos" (segundo cânon), reconhecendo sua utilidade para edificação moral e litúrgica, ainda que sem mesmo peso doutrinário dos proto-canônicos. Outros grupos, como os reformadores do século XVI, operando com viés mais estrito — o princípio formal de que o cânon hebraico deveria ser o padrão — decidiram excluí-los como "apócrifos" (BECKWITH, 1985; METZGER, 1987).

A diferença, portanto, não reside na experiência fundante original, mas no critério teológico — o viés — que as comunidades posteriores aplicaram para determinar o que constituía a "regra de fé" (regula fidei) para sua própria existência.


Referências

BECKWITH, R. T. The Old Testament Canon of the New Testament Church. Grand Rapids: Eerdmans, 1985.

BROWN, R. E. The Gospel According to John. 2 v. Garden City: Doubleday, 1966.

COLLINS, J. J. Between Athens and Jerusalem: Jewish Identity in the Hellenistic Diaspora. New York: Crossroad, 1983.

DI LELLA, A. A. "The Wisdom of Ben Sira: Resources for Jewish-Christian Relations". Journal of Ecumenical Studies, v. 24, n. 1, p. 92-105, 1987.

GOLDSTEIN, J. A. I Maccabees. Garden City: Doubleday, 1976.

METZGER, B. M. The Canon of the New Testament: Its Origin, Development, and Significance. Oxford: Clarendon Press, 1987.

SANDMEL, S. Judaism and Christian Beginnings. New York: Oxford University Press, 1978.

SCHÜRMANN, H. "Die vorösterlichen Anfänge der Logientradition". In: . Traditionsgeschichtliche Untersuchungen zu den synoptischen Evangelien. Düsseldorf: Patmos, 1968. p. 39-65.

SKEHAN, P. W.; DI LELLA, A. A. The Wisdom of Ben Sira. New York: Doubleday, 1987.

SMITH, W. C. "The Study of Religion and the Study of the Bible". Journal of the American Academy of Religion, v. 39, n. 1, p. 131-140, 1972 [1952].

TILLICH, P. Systematic Theology. v. 1. Chicago: University of Chicago Press, 1957.

WINSTON, D. The Wisdom of Solomon. Garden City: Doubleday, 1979.

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