A Arbitrariedade do Signo Linguístico e a Tradução Bíblica: Uma Análise a Partir de Ferdinand de Saussure
Resumo: O presente artigo investiga as implicações do princípio da arbitrariedade do signo linguístico, estabelecido por Ferdinand de Saussure, para a teoria e a prática da tradução bíblica. A partir da análise da relação entre significante e significado, examina-se como a natureza convencional da linguagem afeta a transmissão de conteúdos teológicos, criando uma tríplice camada de complexidade: a arbitrariedade original das línguas bíblicas (hebraico, aramaico e grego), a arbitrariedade inerente ao ato tradutório e a arbitrariedade da recepção leitora. O estudo analisa, especificamente, a estratégia tradutória de Frederico Lourenço, comparando-a às abordagens confessionais protestante e católica, demonstrando como cada tradição teológica lida de modo distinto com a contingência linguística. Conclui-se que a arbitrariedade do signo não constitui obstáculo à revelação, mas condição estrutural através da qual se processa a comunicação teológica.
Palavras-chave: Arbitrariedade do signo; Tradução bíblica; Ferdinand de Saussure; Frederico Lourenço; Hermenêutica teológica.
1. Introdução
A questão da tradução dos textos bíblicos remonta às primeiras versões da Septuaginta e permeia toda a história do cristianismo, configurando-se como um campo de tensão entre fidelidade filológica e adequação teológica. No âmbito da linguística moderna, o princípio da arbitrariedade do signo, estabelecido por Ferdinand de Saussure (1857-1913) em seu Cours de linguistique générale (1916), oferece instrumental teórico relevante para a compreensão das dificuldades inerentes à transposição de textos religiosos entre diferentes sistemas linguísticos.
Saussure (1916) definiu o signo linguístico como entidade bifacetada, composta por significante (imagem acústica ou gráfica) e significado (conceito), estabelecendo que a relação entre ambos é essencialmente arbitrária. Ou seja, não existe conexão natural, necessária ou motivada entre a sequência fonética que compõe uma palavra e o conceito por ela designado. A implicação deste princípio para a tradução bíblica é considerável, na medida em que problematiza a possibilidade de transmissão transparente de conteúdos teológicos através de sistemas linguísticos convencionais e historicamente determinados.
O presente artigo propõe-se a examinar as repercussões da arbitrariedade saussuriana na teoria da tradução bíblica, analisando especificamente: (a) o problema da transcendência divina em face da contingência linguística humana; (b) as múltiplas camadas de arbitrariedade que se sobrepõem no processo tradutório; (c) a estratégia metodológica do tradutor português Frederico Lourenço; e (d) as diferentes respostas teológicas à arbitrariedade do signo nas tradições protestante e católica.
2. Fundamentação Teórica: O Signo Saussuriano e Suas Implicações
Para Saussure (1916, p. 100), "o signo linguístico une não uma coisa e um nome, mas um conceito e uma imagem acústica". Esta distinção fundamental estabelece que o significante — a parte material do signo — não possui relação motivada com o significado, o conteúdo conceitual. A arbitrariedade não implica, contudo, que o falante individual possa modificar à vontade o signo; pelo contrário, o caráter convencional da linguagem implica que o signo é socialmente estabelecido e historicamente transmitido (SAUSSURE, 1916, p. 104).
A aplicação deste princípio aos textos bíblicos gera uma aporia inicial: se a Bíblia é concebida como "Palavra de Deus", como conciliar esta pretensão de origem divina com a arbitrariedade inerente a qualquer sistema linguístico humano? A questão remete ao problema clássico da teologia da revelação: por que uma comunicação divina se daria através de meios linguisticamente contingentes, e não por uma linguagem "perfeita", na qual o nome corresponderia essencialmente à coisa — como sugere o relato bíblico da nomeação dos animais por Adão no Jardim do Éden (Gn 2,19-20)?
A resposta reside na compreensão de que os textos bíblicos, mesmo quando considerados inspirados, estão irremediavelmente encarnados na historicidade da linguagem humana. As palavras hebraicas, aramaicas e gregas não funcionam como "etiquetas divinas" coladas sobre as realidades, mas como signos culturais, construídos historicamente e, portanto, arbitrários em sua essência. Esta constatação não implica necessariamente uma visão reducionista da inspiração bíblica, mas reconhece que a mediação linguística implica limitações estruturais inerentes ao fenômeno da comunicação humana.
3. As Três Camadas de Arbitrariedade na Tradução Bíblica
Se a arbitrariedade já opera na relação entre significante e significado nas línguas originais, o processo tradutório acrescenta novas dimensões de complexidade, configurando uma tríplice estratificação da arbitrariedade linguística.
3.1 A Arbitrariedade Original: Hebraico, Aramaico e Grego
Nas línguas bíblicas, a arbitrariedade do signo é evidente, embora frequentemente obscurecida pela sacralização do texto. O termo hebraico ruach (רוּחַ), por exemplo, abrange semanticamente os campos de "vento", "sopro" e "espírito". O grego pneuma (πνεῦμα) apresenta campo semântico semelhante. A escolha do significante em ambas as línguas é arbitrária no sentido saussuriano: não há razão natural pela qual a sequência fonética ruach deveria designar especificamente esses conceitos.
Contudo, uma vez estabelecido o signo, opera-se dentro do sistema linguístico uma motivação relativa. O termo ruach evoca a ideia de algo invisível mas poderoso, analogamente ao vento. Esta motivação, porém, é secundária e depende das associações criadas pelo próprio sistema linguístico, não de uma conexão natural prévia. A arbitrariedade primária permanece como fundamento do signo, independentemente das redes de conotação que posteriormente se estabeleçam.
3.2 A Arbitrariedade da Tradução: O Português como Sistema de Chegada
O tradutor confronta-se com a necessidade de escolher um significante em português para o termo original, operação que introduz uma segunda camada de arbitrariedade. Para ruach, as opções incluem "espírito", "sopro" ou "vento" — cada qual arbitrária em relação ao conceito original, mas carregadora de conotações específicas do sistema português.
O caso do grego logos (λόγος) em João 1,1 ilustra particularmente bem esta questão. O campo semântico de logos no grego helenístico abrange "razão ordenadora", "discurso", "palavra proferida" e "cálculo" (BROWN, 1975, p. 500-520). Nenhum significante português captura integralmente esta polissemia. A tradição católica optou historicamente por "Verbo", enquanto as traduções protestantes predominantes preferem "Palavra". Abordagens filológicas mais recentes sugerem "Razão" ou "Discurso" como alternativas. Cada escolha é arbitrária em relação ao original grego, mas carrega consequências teológicas significativas, configurando diferentes cosmologias e cristologias.
3.3 A Arbitrariedade da Recepção: O Leitor como Co-construtor do Sentido
A terceira camada de arbitrariedade opera no momento da recepção. O leitor, ao deparar-se com o significante "Verbo" ou "Palavra", atribui-lhe o significado construído por sua comunidade linguística e eclesial. Para um receptor inserido na tradição católica, "Verbo" evoca liturgia, mistério, a segunda pessoa da Trindade. Para um protestante, "Palavra" pode remeter à comunicação pessoal de Deus, ao Deus que fala diretamente ao crente.
Esta arbitrariedade da recepção demonstra que o sentido não reside no signo em si, mas é construído na interação entre texto e comunidade interpretativa. O signo "Verbo" em português é arbitrário em relação ao logos grego, mas adquire motivação — no sentido de fixação de sentido — dentro do sistema teológico em que é inserido.
4. A Estratégia Tradutória de Frederico Lourenço: A Exposição da Arbitrariedade
A tradução do Novo Testamento realizada por Frederico Lourenço (2017) constitui caso paradigmático de abordagem filológica que assume a arbitrariedade do signo como princípio metodológico central. Diferentemente das traduções confessionais, que tendem a estabelecer equivalências estáveis e motivadas teologicamente, Lourenço opera uma desnaturalização dos signos bíblicos.
A estratégia lourenciana desenvolve-se em dois movimentos principais. Primeiramente, busca-se evitar a "motivação teológica" posterior acumulada pelas tradições de tradução. O exemplo clássico é a tradução do termo grego dikaiosynē (δικαιοσύνη). As versões confessionais tradicionais optam consistentemente por "justiça", termo que em português carrega forte conotação moral e jurídica. Lourenço, por sua vez, recupera alternativas como "retidão" ou "inteireza relacional", expondo a arbitrariedade da escolha tradicional e suas implicações teológicas (LOURENÇO, 2017, p. 45-48).
Em segundo lugar, a tradução lourenciana opera uma estranhamento (no sentido formalista) do texto bíblico. Quando o tradutor opta por "jovem" em vez de "virgem" para o hebraico almah (עַלְמָה) em Is 7,14, explicita-se a arbitrariedade do signo original. O texto hebraico permite a ambiguidade de "jovem mulher em idade fértil", sem necessariamente implicar virgindade. A Septuaginta, ao traduzir por parthenos (παρθένος), operou uma motivação teológica: leu o signo arbitrário à luz de uma crença posterior (o nascimento virginal) e fixou definitivamente seu significado. Lourenço não nega a legitimidade da leitura tradicional; simplesmente devolve o signo à sua arbitrariedade original, permitindo ao leitor contemporâneo visualizar a operação hermenêutica que foi realizada (LOURENÇO, 2019, p. 112-115).
5. Teologias da Tradução: Respostas Diferenciadas à Arbitrariedade
As diversas tradições teológicas desenvolveram estratégias distintas para lidar com a arbitrariedade do signo linguístico, configurando o que se pode denominar "teologias da tradução".
5.1 O Protestantismo e a Perspicuidade da Escritura
A doutrina da perspicuitas Scripturae (perspicuidade da Escritura), central na Reforma protestante, estabelece que a Bíblia é clara em tudo o que é necessário para a salvação (CALVINO, 1559, I, 6, 1). Esta convicção teológica entra em tensão com o princípio da arbitrariedade do signo. A tendência das tradições protestantes clássicas é minimizar a arbitrariedade linguística, procedendo como se as palavras bíblicas possuíssem correspondência direta e transparente com as realidades divinas.
A tradução ideal, nesta perspectiva, é aquela que "apaga" sua própria arbitrariedade, dando ao leitor a impressão de acesso imediato à própria Palavra de Deus, sem mediação perceptível. As traduções protestantes historicamente privilegiaram a fluidez e a naturalização do texto, minimizando marcas de estranhamento que pudessem lembrar ao leitor a condição de tradução do texto (NIDA, 1964).
5.2 O Catolicismo e a Mediação Eclesial
A tradição católica, com sua ênfase no Magistério e na Tradição como instâncias interpretativas autênticas, lida de modo mais explícito com a arbitrariedade do signo, ainda que não utilize esta terminologia. Ao reconhecer que a interpretação da Escritura não é empreitada privada, mas eclesial, o catolicismo admite que o signo linguístico, por ser arbitrário e convencional, requer uma comunidade interpretativa que fixe seu sentido autêntico — o sensus fidei guiado pelo Magistério (CONCÍLIO VATICANO II, 1965, n. 12).
A Igreja configura-se, nesta perspectiva, como a instância que motiva o signo, conferindo-lhe direção e conteúdo doutrinário estáveis. A arbitrariedade não é negada, mas administrada através de uma instância institucional de mediação. As traduções católicas historicamente refletem esta estabilidade, mantendo termos técnicos ("Verbo", "graça", "sacramento") cuja fixação semântica é garantida pela tradição magisterial.
5.3 A Abordagem Filológica: A Arbitrariedade como Método
A abordagem representada por Lourenço assume a arbitrariedade como ponto de partida metodológico explícito. O objetivo não é superar a arbitrariedade através de uma mediação teológica, nem motivar o signo dentro de um sistema doutrinário, mas descrever o sistema linguístico em seu próprio contexto histórico, evidenciando as possibilidades e limites que a arbitrariedade original impõe a qualquer leitura posterior.
Esta estratégia configura-se como gesto epistemológico de humildade hermenêutica: reconhecer que o tradutor não acessa uma essência pré-linguística do texto, mas opera necessariamente dentro da contingência dos sistemas de signos. A tradução torna-se, assim, ato de desconstrução das ilusões de transparência linguística.
6. Considerações Finais: O Signo Flutuante e a Revelação
A análise desenvolvida permite concluir que a arbitrariedade do signo linguístico não constitui obstáculo à revelação teológica, mas sua condição de possibilidade estrutural. O texto bíblico, como qualquer texto, é composto por significantes flutuantes que demandam interpretação constante. O momento tradutório é aquele em que esta arbitrariedade se torna mais visível e incontornável.
Cada tradutor, consciente ou inconscientemente, decide entre estratégias distintas: replicar a arbitrariedade original, produzindo um texto estranho que remete à sua condição de tradução (estratégia lourenciana); ou motivar o signo dentro do sistema teológico de uma comunidade específica (estratégia confessional). Ambas as abordagens, longe de serem ingênuas, reconhecem implicita ou explicitamente que as palavras não carregam sentido em si mesmas, mas funcionam como convenções que apenas significam dentro de sistemas linguísticos, culturais e teológicos determinados.
Neste sentido, a Bíblia testemunha que o Deus que se revela o faz não apesar da arbitrariedade da linguagem humana, mas através dela — com todas as ambiguidades, riquezas semânticas e limitações que tal mediação implica. A arbitrariedade do signo, longe de ser defeito a ser corrigido, é o espaço mesmo da liberdade hermenêutica e da pluralidade de sentidos que caracteriza a história da recepção bíblica ao longo dos séculos.
Referências
BROWN, C. (ed.). The New International Dictionary of New Testament Theology. Grand Rapids: Zondervan, 1975. v. 2.
CALVINO, J. Institutio Christianae Religionis [Institutas da Religião Cristã]. Genebra, 1559. [Tradução portuguesa: São Paulo: Vida Nova, 2008].
CONCÍLIO VATICANO II. Dei Verbum (Constituição Dogmática sobre a Divina Revelação). 18 nov. 1965.
LOURENÇO, F. (trad.). O Novo Testamento. Lisboa: Quetzal Editores, 2017.
LOURENÇO, F. Bíblia Sagrada: Edição de Estudo. Lisboa: Quetzal Editores, 2019.
NIDA, E. A. Toward a Science of Translating: With Special Reference to Principles and Procedures Involved in Bible Translating. Leiden: Brill, 1964.
SAUSSURE, F. de. Cours de linguistique générale. Publicado por C. Bally e A. Sechehaye. Lausanne/Paris: Payot, 1916. [Tradução portuguesa: Curso de Linguística Geral. São Paulo: Cultrix, 2006].
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