A Deslegitimação Teológica de Israel como Motor de Secularização: Uma Análise da Transferência de Categorias Sagradas para o Domínio Profano
Resumo
O presente artigo investiga a hipótese de que a deslegitimação teológica do judaísmo pelo cristianismo primitivo e medieval constituiu um fator determinante no processo de secularização do mundo ocidental. Argumenta-se que a retórica supercessionista da Igreja, ao transferir as categorias teológicas de Israel (eleição, promessa, messianismo) para si mesma, inadvertidamente secularizou tais conceitos, relegando a existência histórica do povo judeu ao domínio profano da política, da etnia e da história. Esta análise articula-se em quatro dimensões: (1) a definição operacional de secularização; (2) o mecanismo de deslegitimação teológica; (3) o processo de secularização das categorias bíblicas; e (4) as consequências históricas deste fenómeno, particularmente no contexto do sionismo moderno. A tese central sustenta que a Igreja, ao espiritualizar as promessas de Israel, profanizou a sua realidade concreta, criando as condições estruturais para que o próprio Estado de Israel emergisse como uma entidade secular, paradoxalmente fundada na reivindicação de promessas teológicas através de instrumentos políticos modernos.
Palavras-chave: Secularização; Supercessionismo; Teologia da História; Sionismo; Max Weber; Jacob Taubes.
1. Introdução
A relação entre cristianismo e judaísmo constitui um dos eixos estruturais da história intelectual e política do ocidente. Tradicionalmente, esta relação tem sido analisada sob perspetivas teológicas, historiográficas ou sociológicas distintas, raramente de forma integrada. O presente estudo propõe uma abordagem interdisciplinar que articula a teologia, a filosofia da história e a sociologia da religião para examinar uma hipótese específica: a de que a deslegitimação teológica de Israel pela Igreja cristã funcionou como um mecanismo inadvertido de secularização, transferindo categorias sagradas para o domínio profano e, por conseguinte, remodelando a própria estrutura do mundo moderno.
Esta investigação insere-se na tradição de pensadores como Max Weber (1864-1920), Carl Schmitt (1888-1985) e, particularmente, Jacob Taubes (1923-1987), cujas obras sobre a secularização das categorias teológicas fornecem o enquadramento teórico fundamental para a análise subsequente (WEBER, 1905; SCHMITT, 1922; TAUBES, 1993).
2. Enquadramento Teórico: O Conceito de Secularização
Para efeitos do presente estudo, é imperativo estabelecer uma definição operacional de "secularização" que transcenda a compreensão vulgar de mero declínio religioso ou ateísmo. No sentido filosófico e sociológico aqui adoptado, secularização designa três processos interrelacionados:
2.1. Transferência de conceitos teológicos para o domínio profano
Conforme demonstrado por Lowith (1949) e, posteriormente, por Blumenberg (1966), a modernidade não constitui uma ruptura absoluta com a tradição teológica, mas antes uma transformação estrutural na qual ideias como "eleição", "messianismo", "povo escolhido", "promessa" e "cumprimento" são deslocadas do seu contexto estritamente religioso e aplicadas a entidades seculares: a nação, o Estado, a classe social, a raça e o progresso histórico.
2.2. O "desencantamento do mundo" (Entzauberung der Welt)
Segundo Weber (1905), este processo implica a perda da percepção de uma realidade imediatamente sagrada, substituída por uma visão racional, técnica e imanente do mundo. A religião deixa de constituir uma totalidade explicativa omnipresente para se confinar a esfera privada ou institucional.
2.3. Autonomização das esferas da vida
A política, a economia, a arte e a ciência emancipam-se da subordinação à autoridade religiosa, desenvolvendo leis próprias e lógicas de funcionamento independentes (DOBBELAERE, 1981).
3. O Mecanismo de Deslegitimação Teológica
A deslegitimação de Israel enquanto povo eleito operou-se através de três estratégias hermenêuticas fundamentais na teologia cristã, particularmente desenvolvidas a partir do século II d.C.:
3.1. A obsolescência da Lei (Torá)
A teologia paulina, embora complexa e polissémica (cf. ROM. 9-11), e a tradição supercessionista subsequente, afirmaram que a Lei mosaica foi "cumprida" em Cristo e, portanto, deixou de ser vinculativa (DUNN, 2006). A Torá, que constituía o coração da vida judaica, foi relegada a uma fase preparatória e ultrapassada, privando Israel do seu fundamento normativo central.
3.2. A espiritualização das promessas
As promessas de terra, descendência numerosa, prosperidade e paz foram reinterpretadas de forma alegórica. A "terra prometida" (Eretz Israel) deixou de designar um lugar geográfico específico para significar o céu, a Igreja enquanto comunidade dos fiéis, ou o estado de graça individual (SIMON, 1948). O Reino de Deus transformou-se de entidade política-terrena em realidade interior ou escatológica transcendente.
3.3. A deshistorização de Israel
A história de Israel passou a ser lida exclusivamente como praefiguratio da história da Igreja. Os patriarcas, profetas e reis de Israel foram reduzidos a "tipos" (typoi) de Cristo e da Igreja, esvaziando a sua história concreta — com a sua geografia, lutas políticas e esperanças nacionais — de significado próprio e autónomo (AUNE, 1987).
4. O Processo de Secularização: Da Espiritualização à Profanização
O núcleo analítico deste estudo reside na demonstração de como a deslegitimação teológica descrita no ponto anterior funcionou como mecanismo de secularização inadvertida. A tese central sustenta que, ao deslocar as categorias teológicas de Israel para a esfera eclesial, a Igreja libertou-as para circulação no domínio profano.
4.1. A eleição transformada em nacionalismo
Se a Igreja se autodefine como o "novo Israel" espiritual, o "velho Israel" terreno vê a sua identidade despojada do conteúdo teológico sagrado (a aliança com Deus) e reduzida às dimensões étnica, cultural e nacional. O povo judeu, aos olhos do mundo cristão medieval e moderno, deixa de ser o povo de Deus para se tornar "os judeus" — um grupo étnico-religioso entre outros (YERUSHALMI, 1982). Esta redução constitui uma forma primária de secularização: a identidade judaica é lançada no domínio do "profano", isto é, da história, da política e da etnia.
4.2. A terra prometida como território político
Quando a promessa da terra é espiritualizada pela teologia cristã, a Terra de Israel perde o seu significado teológico específico, tornando-se uma província do Império Romano, posteriormente território sob domínio islâmico e, mais tarde, objeto de disputa política entre potências coloniais (SAND, 2009). O sionismo do século XIX pode ser interpretado, sob esta ótica, como uma tentativa de reocupação desta categoria secularizada — uma reivindicação da terra não mais (ou não apenas) com base na promessa divina, mas fundamentada na história, na necessidade política e no direito internacional. O sionismo emerge, assim, como um movimento profundamente secular que utiliza categorias teológicas já secularizadas (LAQUEUR, 1972).
4.3. O messianismo convertido em ideologia política
O messianismo judaico, com a sua esperança num rei davídico restaurador da justiça, foi apropriado e transformado pelo cristianismo na figura de Jesus. Contudo, a estrutura subjacente — a esperança num futuro radicalmente diferente, a tensão entre presente e futuro, a crença numa transformação iminente da realidade — foi, por sua vez, secularizada em diversas ideologias políticas modernas (TÁLOMON, 1960). O marxismo, com a sua crença na luta de classes, no advento de uma sociedade sem classes e no "homem novo", tem sido analisado como uma forma de messianismo secularizado (LOWITH, 1949). Simultaneamente, a filosofia da história de Hegel (1770-1831), com o seu desenrolar dialético em direção à realização do Espírito Absoluto, pode ser lida como uma secularização da teologia da história cristã (TAUBES, 1993).
5. Consequências Históricas: Uma Ironia Dialética
A análise precedente revela uma ironia histórica de proporções estruturais:
5.1. A Igreja como agente inadvertido da secularização
Ao deslegitimar Israel para afirmar a sua própria identidade, a Igreja secularizou as categorias teológicas de Israel sem intenção consciente. Ao espiritualizar as promessas, "profanizou" a realidade concreta de Israel, deixando-a à deriva no mundo secular emergente.
5.2. O judaísmo face à modernidade
O judaísmo, despojado pela teologia cristã da sua centralidade na história da salvação, confrontou-se com um mundo onde as suas próprias categorias (eleição, promessa, messianismo) circulavam de forma secularizada. O Iluminismo, produto em grande medida da civilização cristã secularizada, ofereceu aos judeus a emancipação política, mas à custa da sua identidade teológica: podiam ser cidadãos (franceses, alemães, etc.) como os demais, desde que a sua religião fosse confinada à esfera privada (MENDES-FLOHR & REINHARZ, 1995).
5.3. O sionismo como resposta secularizada
O sionismo constitui a resposta judaica mais radical à modernidade, apresentando-se, contudo, como fenómeno ambíguo: trata-se de uma tentativa de reapropriação da terra prometida, operada através das ferramentas da política secular moderna (nacionalismo, Estado, exército, diplomacia). É, por conseguinte, a resposta secularizada a uma deslegitimação teológica (SHIMONI, 1995).
6. Conclusão: O Abismo Alargado pela Secularização
O processo de deslegitimação teológica de Israel pela Igreja não criou apenas um abismo religioso interconfessional. Criou, de forma estrutural, as condições para que a própria existência do povo judeu fosse secularizada, isto é, redefinida em categorias profanas. O judeu deixou de ser, para o mundo cristão, o "irmão mais velho na fé" para se tornar o "estrangeiro", o "diferente", o membro de uma minoria étnico-religiosa a ser tolerada, convertida ou perseguida.
Quando, nos séculos XIX e XX, os judeus tentaram reconstruir uma identidade política autónoma através do sionismo, fizeram-no num mundo onde a linguagem disponível para tal empreitada era já a linguagem secularizada da política europeia. O Estado de Israel, estabelecido em 1948, emerge como produto paradoxal desta longa história: a reivindicação de uma promessa teológica (a terra) através dos meios de um mundo secularizado (o Estado-nação moderno).
O abismo, assim, não se situa apenas entre duas leituras divergentes da Bíblia; configura-se entre duas modalidades de existência no mundo, uma das quais (a cristã) contribuiu decisivamente para criar o mundo secular onde a outra (a judaica) é compelida a navegar.
Referências Bibliográficas
AUNE, D. E. (1987). The New Testament in Its Literary Environment. Philadelphia: Westminster John Knox Press.
BLUMENBERG, H. (1966). Die Legitimität der Neuzeit. Frankfurt am Main: Suhrkamp. [Tradução portuguesa: A Legitimidade da Modernidade. Lisboa: Edições 70, 2015.]
DOBBELAERE, K. (1981). Secularization: A Multi-Dimensional Concept. London: Sage Publications.
DUNN, J. D. G. (2006). The Theology of Paul the Apostle. Grand Rapids: Eerdmans.
LAQUEUR, W. (1972). A History of Zionism. New York: Holt, Rinehart and Winston.
LOWITH, K. (1949). Meaning in History: The Theological Implications of the Philosophy of History. Chicago: University of Chicago Press.
MENDES-FLOHR, P. & REINHARZ, J. (1995). The Jew in the Modern World: A Documentary History. 2.ª ed. New York: Oxford University Press.
SAND, S. (2009). The Invention of the Jewish People. London: Verso.
SCHMITT, C. (1922). Politische Theologie: Vier Kapitel zur Lehre von der Souveränität. München: Duncker & Humblot. [Tradução portuguesa: Teologia Política. Lisboa: Edições 70, 2006.]
SHIMONI, G. (1995). The Zionist Ideology. Hanover: Brandeis University Press.
SIMON, M. (1948). Verus Israel: A Study of the Relations Between Christians and Jews in the Roman Empire (135-425). Paris: E. de Boccard.
TAUBES, J. (1993). Die politische Theologie des Paulus. München: Wilhelm Fink. [Tradução portuguesa: A Teologia Política de Paulo. São Paulo: UNESP, 2010.]
TÁLOMON, J. L. (1960). Political Messianism: The Romantic Phase. London: Secker & Warburg.
WEBER, M. (1905). Die protestantische Ethik und der Geist des Kapitalismus. Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik, 20(1), 1-54. [Tradução portuguesa: A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.]
YERUSHALMI, Y. H. (1982). Zakhor: Jewish History and Jewish Memory. Seattle: University of Washington Press.
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