O Existencialismo como Terceira na Ontologia do Tempo.

O Existencialismo como Terceira Via na Ontologia do Tempo: Uma Análise Crítica das Perspectivas Substancialista e Relacional


Resumo

O presente artigo examina a contribuição do existencialismo filosófico para o debate ontológico acerca da natureza do tempo, particularmente em contraposição às concepções substancialista e relacional. Através da análise das obras de Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre, demonstra-se que o existencialismo propõe uma reinterpretação radical do tempo não como entidade objetiva, mas como estrutura constitutiva do Dasein humano. Argumenta-se que, embora as perspectivas substancialista e relacional ofereçam descrições válidas do tempo físico, ambas incorrem no erro da objetificação, ignorando a dimensão existencial da temporalidade como condição de possibilidade da experiência humana autêntica.

Palavras-chave: Existencialismo; Ontologia do tempo; Heidegger; Sartre; Dasein; Temporalidade.


1. Introdução

A questão da natureza do tempo constitui um dos problemas fundamentais tanto da metafísica quanto da filosofia da física. Tradicionalmente, o debate tem sido estruturado em torno de duas posições antagônicas: a concepção substancialista, que concebe o tempo como entidade absoluta e independente dos eventos que nele ocorrem, e a concepção relacional, que o define como mera ordem das sucessões de eventos físicos. O presente trabalho propõe-se a examinar uma terceira via, frequentemente negligenciada nos debates analíticos contemporâneos: a perspectiva existencialista, particularmente nas formulações de Martin Heidegger (1889-1976) e Jean-Paul Sartre (1905-1980).

A tese central aqui defendida é que o existencialismo não se alinha integralmente a nenhuma das perspectivas mencionadas, mas as reinterpreta a partir de um pressuposto ontológico radicalmente distinto: o da existência humana concreta como fundamento último de toda compreensão temporal. Tal abordagem, embora apresente limitações epistemológicas reconhecidas, oferece contribuições insubstituíveis para a compreensão da dimensão vivencial e significativa do tempo.


2. A Crítica Existencialista à Concepção Substancialista

A concepção substancialista do tempo, classicamente formulada por Isaac Newton (1643-1727) nos Principia Mathematica, postula a existência de um "tempo absoluto, verdadeiro e matemático, que por si mesmo e por sua própria natureza, flui uniformemente sem relação a qualquer coisa externa" (NEWTON, 1687, p. 6). Para o existencialismo, tal concepção representa não apenas uma abstração metafísica, mas uma forma de alienação ontológica.


2.1 A Recusa da Eternidade Abstrata

Heidegger, em Ser e Tempo (1927), e Sartre, em O Ser e o Nada (1943), convergem na crítica à noção de tempo como "contentor" infinito e homogêneo. Segundo Heidegger (2012, p. 451), pensar o tempo como "palco vazio onde a vida acontece" constitui uma tentativa de fuga da natureza premente e existencial da temporalidade. Tal abstração permite que o indivíduo se dissocie de sua responsabilidade ontológica, afirmando implicitamente: "o tempo existe lá fora, fluindo, e eu estou apenas dentro dele".

Sartre (2016, p. 186) desenvolve essa crítica através do conceito de "coisificação" (réification). A visão substancialista, ao externalizar o tempo, transforma-o em entidade in-itself (en-soi), obscurecendo a verdade existencial de que o sujeito não está no tempo, mas é seu tempo — uma síntese dialética de passado, presente e futuro em constante tensão.


2.2 A Má-Fé como Estrutura de Fuga

A adesão à concepção substancialista é interpretada por Sartre como manifestação de "má-fé" (mauvaise foi): a recusa de assumir a liberdade angustiante da temporalidade concreta. Ao objetivar o tempo, o indivíduo evita reconhecer que sua existência se constitui como projeto temporal finito, delegando a um "fora" a responsabilidade pelo próprio devir.


3. A Crítica Existencialista à Concepção Relacional

A concepção relacional do tempo, associada a Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) e posteriormente incorporada à física relativística de Albert Einstein (1879-1955), define o tempo como ordem das sucessões de eventos físicos. Embora esta perspectiva apresente maior afinidade com o pensamento existencialista — na medida em que evita a hipostasia do tempo como substância independente —, ela ainda é considerada insuficiente do ponto de vista ontológico fundamental.


3.1 O Conceito Heideggeriano de "Ser-no-Mundo"

A contribuição decisiva de Heidegger consiste na inversão da questão tradicional. Em lugar de indagar "o que é o tempo?", Ser e Tempo propõe a pergunta: "quem é o tempo?" (HEIDEGGER, 2012, p. 425). A resposta heideggeriana é inequívoca: o tempo é o próprio Dasein — o ser-aí, o ser humano em sua especificidade ontológica.

Para Heidegger (2012, p. 455), a temporalidade não é predicado do mundo nem atributo da consciência, mas a própria estrutura existencial do Dasein. Esta temporalidade originária (ursprüngliche Zeitlichkeit) articula-se em três ecstases fundamentais:


1. Facticidade: o Dasein é sempre já seu passado, compreendido não como mera sucessão de "agoras" defuntos, mas como carga ontológica (Geworfenheit) que constitui seu horizonte de compreensão;

2. Jogado-situado: o presente é vivido como Befindlichkeit, estado de humor em que o Dasein lida preocupadamente (Besorgen) com o mundo circundante;

3. Projeção: o futuro se configura como Entwurf, abertura de possibilidades que o Dasein é enquanto ser-para-a-morte (Sein-zum-Tode).

O tempo físico, mensurável pelos relógios e descrito pela física, é, segundo Heidegger (2012, p. 471), derivado (abgeleitet) dessa temporalidade existencial mais originária. Trata-se de uma "vulgarização" do tempo, necessária para a convivência pública (Man), mas ontologicamente secundária.


3.2 Angústia, Liberdade e Finitude

A consciência dessa estrutura temporal constitui, para o existencialismo, a fonte da angústia (Angst) como afeto fundamental. Diferentemente das entidades presentes-a-mão (Zuhanden) ou presentes-de-olhos (Vorhanden), que simplesmente estão no tempo, o Dasein tem que ser seu tempo — o que implica a carga avassaladora da liberdade e da responsabilidade.

A morte, como possibilidade própria e intransferível, funciona como "horizonte" que confere sentido unitário às ecstases temporais (HEIDEGGER, 2012, p. 329). É a finitude radical do tempo existencial que torna a liberdade humana "avassaladora", na expressão de Sartre (2016, p. 563), e que diferencia a existência humana da mera ocorrência de eventos físicos.


4. Síntese: O Tempo como Estrutura do Ser

Diante das perspectivas substancialista e relacional, o existencialismo oferece três teses fundamentais:

Primeira tese: ambas as concepções são epistemicamente válidas em seu domínio próprio, mas ontológicamente incompletas. Falam do tempo como objeto de estudo — físico ou metafísico —, ignorando que o tempo é, primordialmente, condição de possibilidade de toda compreensão de ser (HEIDEGGER, 2012, p. 17).

Segunda tese: o tempo "verdadeiro" ou "autêntico" não é o dos relógios (tempo vulgar) nem o palco vazio do absolutismo newtoniano. O tempo autêntico é a própria vida existencial se desenrolando em sua finitude — a tensão hermenêutica entre facticidade, jogado-situado e projeção.

Terceira tese: a questão ontológica fundamental não é se o tempo existiria sem matéria, mas qual o sentido do tempo para o ser que questiona sua própria existência. A resposta existencialista aponta para a temporalidade como "horizonte da liberdade" e lembrete constante da finitude. Sem o Dasein para vivenciar a expectativa, a memória e a preocupação com o futuro, o tempo cósmico — absoluto ou relacional — permaneceria mero conceito vazio de significação.


5. Considerações Finais

O existencialismo, longe de negar as contribuições da física e da metafísica tradicionais, delimita seu campo de validade. Ao objetificar o tempo, tanto o substancialismo quanto o relacionalismo cometem o que Heidegger denomina "esquecimento do ser": tratam o tempo como entidade presente-de-olhos (Vorhandenheit), quando sua verdade ontológica exige a compreensão do Dasein como ser-no-mundo temporalizante.

O tempo, para o existencialismo, não é um "o quê" — objeto de conhecimento teórico —, mas um "quem": a estrutura existencial do ser que compreende o ser. A legitimidade de pensar o tempo independentemente da matéria é substituída pela constatação inescapável de que o tempo só adquire significação a partir da existência que é consciente de si e de sua finitude. Neste sentido, a ontologia existencialista do tempo não contradiz a física, mas fundamenta a possibilidade de que haja, para o ser humano, um sentido do ser temporal.


Referências

HEIDEGGER, M. Ser e tempo. Tradução de Márcia Sá Cavalcante Schuback. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.

NEWTON, I. Principia Mathematica. Londres: Royal Society, 1687.

SARTRE, J.-P. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução de Paulo Alcântara. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2016.

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