O Abismo Hermenêutico no Período do Segundo Templo: Uma Análise à Luz da Obra de Georg Fohrer
A presente análise aprofunda a complexidade do denominado "abismo hermenêutico", situando-o não apenas como um problema moderno, mas como um fenômeno histórico já percebido e vivido pelo próprio povo judeu no período do Segundo Templo. A referência a Georg Fohrer é particularmente pertinente, uma vez que este autor constituiu-se como um dos principais estudiosos da introdução ao Antigo Testamento na erudição bíblica contemporânea.
A resposta à questão proposta é afirmativa: a percepção de que esse distanciamento já era vivenciado no período entre os séculos II a.C. e II d.C. encontra-se correta. Nesse intervalo histórico, testemunhou-se uma proliferação literária que evidencia uma tensão significativa entre a tradição recebida — correspondente ao núcleo do TANAK — e novas expressões de piedade que buscavam, precisamente, transpor o abismo crescente entre as promessas antigas e as realidades presentes.
A análise desta questão procederá em três dimensões fundamentais: (1) a visão de Fohrer sobre a literatura deste período; (2) a natureza do "abismo" percebido naquela época; e (3) a relação estabelecida entre esta literatura e o TANAK.
1. O Testemunho de Georg Fohrer sobre a Literatura do Período Intertestamentário
A menção a Georg Fohrer revela-se oportuna para a compreensão do fenômeno em análise. A obra clássica Introdução ao Antigo Testamento — iniciada por Ernst Sellin e completamente reescrita por Fohrer — constitui referência fundamental na erudição bíblica do século XX (FOHRER, 1968).
1.1 O Escopo da Obra de Fohrer
É significativo observar que, na sua Introdução, Fohrer delimita claramente o seu objeto de estudo. Conforme indica uma resenha da obra, "os escritos não-canônicos não são tratados" (RESENHA, s.d.). Esta decisão metodológica evidencia uma distinção explícita entre o corpus que viria a ser considerado canônico (o TANAK) e a literatura que florescia no período em questão.
1.2 O Interesse de Fohrer pelo Período Intertestamentário
Não obstante a delimitação metodológica acima referida, tal circunstância não implica que Fohrer ignorasse a importância deste período. Em outra de suas obras, intitulada Erzähler und Propheten im Alten Testament: Geschichte der israelitischen und frühjüdischen Literatur ("Narradores e Profetas no Antigo Testamento: História da Literatura Israelita e do Judaísmo Primitivo"), o autor dedica-se precisamente à história da literatura deste período, incluindo a literatura judaica primitiva e os livros apócrifos (FOHRER, 1987). A obra trata explicitamente da "literatura judaica primitiva" (frühjüdischen Literatur) e da sua história, demonstrando que Fohrer concebia este período como literariamente fértil, ainda que os seus frutos não tenham sido incorporados ao cânon hebraico.
Portanto, a referência a Fohrer mostra-se precisa: o autor reconhece a existência e a importância desta literatura, documentando simultaneamente a sua distinção em relação ao TANAK.
2. O "Abismo" no Período do Segundo Templo: A Tensão Entre Promessa e Realidade
A intuição de que "esse distanciamento já era percebido" neste período configura-se como fundamental para a compreensão do fenômeno. Cabe, assim, indagar: que "abismo" era este?
2.1 O Fim da Profecia
A tradição judaica posterior, registrada no Talmude, afirmava que a profecia havia cessado em Israel após os últimos profetas (Ageu, Zacarias, Malaquias). Esta crença gerou a percepção de que a comunicação direta de Deus, tal como conhecida no TANAK, havia silenciado. A questão que se impunha era, portanto, a seguinte: como ouvir a voz de Deus no presente?
2.2 O Domínio Estrangeiro
O período helenístico e romano caracterizou-se pela opressão estrangeira. Interrogava-se a comunidade judaica sobre o paradeiro das promessas de um rei davídico, de restauração e de paz. O abismo entre as promessas gloriosas do TANAK (a terra, a monarquia, a prosperidade) e a realidade vivida (domínio grego, profanação do Templo por Antíoco IV, ocupação romana) configurava-se como gritante e doloroso.
2.3 Novas Questões Teológicas
Questões relativas ao sofrimento dos justos, à retribuição divina para além da morte, ao destino dos mártires e ao juízo final tornaram-se prementes. Embora o TANAK oferecesse respostas, estas novas circunstâncias exigiam uma nova elaboração, uma nova palavra que falasse a este abismo.
3. A Literatura Apócrifa e Deutero-Canônica: Tentativas de Transpor o Abismo
É neste contexto que floresce a literatura em referência. Longe de constituir um fenómeno desconectado, esta produção literária representa uma resposta direta ao abismo percebido. Embora não "guardasse muita relação com o TANAK propriamente dito" no sentido de não ter sido incluída no cânon hebraico, mantém uma relação profunda e dialética com este.
A classificação desta literatura em géneros permite evidenciar tal relação:
3.1 Literatura Apocalíptica
Exemplos: 1 Henoque, 4 Esdras, 2 Baruc. Este género, abundantemente estudado por John J. Collins (COLLINS, 1998), configura-se como paradigmático. Nasce precisamente da crise e do abismo. A questão central é: "Se Deus é justo, porque é que o seu povo sofre?" A resposta apocalíptica aponta para a manifestação plena da justiça divina não neste mundo, mas num mundo vindouro, revelando Deus os seus segredos (o fim da história, o céu, o inferno) aos seus eleitos. A literatura apocalíptica constitui uma hermenêutica da crise, uma tentativa de ler a realidade presente à luz das promessas antigas, projetando-as para um futuro transcendente.
3.2 Literatura Sapiencial
Exemplos: Sabedoria de Salomão, Eclesiástico / Ben Sira. Estes livros procuram atualizar a tradição sapiencial de Provérbios para um novo contexto. Ben Sira, por exemplo, apresenta-se como um mestre que ensina a "Torá" como sabedoria, integrando a lei mosaica na tradição sapiencial universal (SKEHAN; DI LELLA, 1987).
3.3 Literatura Histórica e Parenética
Exemplos: 1 e 2 Macabeus, Judite, Tobias. Estas obras narram histórias que visam fortalecer a identidade e a fé do povo em tempos de perseguição e mudança cultural, demonstrando Deus a agir na história presente da mesma forma que agira no passado.
4. Os Critérios de Exclusão do TANAK: Uma Perspectiva Canónica
A afirmação de que estas obras "não guardavam muita relação com o TANAK propriamente dito" requer uma nuance importante. Para a comunidade judaica que definiu o cânon hebraico (provavelmente no final do século I d.C., no denominado Sínodo de Jamnia, embora este seja um conceito que os estudiosos modernos tratam com cautela), existiram critérios que determinaram a exclusão desta literatura:
1. Língua: Foram escritos predominantemente em grego, não em hebraico (embora alguns, como Ben Sira, tenham sido escritos em hebraico e posteriormente traduzidos).
2. Datação e Autoridade: Foram considerados como tendo sido escritos após o período da profecia (que se acreditava ter terminado com Malaquias). Não podiam ser atribuídos a profetas clássicos (Isaías, Jeremias, etc.) de forma crível para a tradição judaica, mesmo quando utilizavam pseudepigrafia (atribuição falsa a autores antigos).
3. Uso Litúrgico e Comunitário: A comunidade que se reunia em torno da sinagoga e do Templo após a destruição de 70 d.C. consolidou-se em torno de um corpus específico que excluía estas obras.
Não obstante, a Igreja Cristã primitiva, que utilizava a Septuaginta (a tradução grega da Bíblia que incluía muitos destes livros), acabou por incorporá-los no seu cânon (daí o termo "deutero-canónicos" para os católicos e ortodoxos, ou "apócrifos" para os protestantes).
Conclusão: O Abismo Como Lugar de Criação Teológica
A análise desenvolvida revela algo profundamente significativo: o "abismo" não configura-se apenas como um problema a ser lamentado, mas também como um lugar de criatividade teológica.
O método histórico-crítico identifica o abismo e, por vezes, deixa-nos paralisados diante dele. Todavia, a comunidade do Segundo Templo habitou esse abismo. Sentindo a distância entre as promessas antigas e a realidade presente, não se calou. Produziu uma literatura vibrante e diversa que buscava exatamente: refazer a ponte.
Esta literatura (apocalíptica, sapiencial, histórica) constitui o testemunho de uma comunidade que, confrontada com o silêncio profético e a opressão estrangeira, continuou a reverberar o recitativo da sua fé em novas chaves, com novas imagens e novas esperanças.
Se a comunidade paulina foi o lugar da preservação da memória de Cristo, a comunidade do Segundo Templo foi o lugar da reelaboração criativa da memória de Israel para que ela pudesse atravessar o abismo e chegar viva até à contemporaneidade. O facto de parte desta literatura não ter sido incorporada no cânon hebraico, mas ter sido preservada pela tradição cristã, constitui um testemunho eloquente de como o abismo entre as comunidades (judaica e cristã) também moldou a própria forma do cânon que recebemos.
Referências
COLLINS, John J. The Apocalyptic Imagination: An Introduction to Jewish Apocalyptic Literature. 2. ed. Grand Rapids: Eerdmans, 1998.
FOHRER, Georg. Introduction to the Old Testament. Nashville: Abingdon Press, 1968.
FOHRER, Georg. Erzähler und Propheten im Alten Testament: Geschichte der israelitischen und frühjüdischen Literatur. Berlin: de Gruyter, 1987.
RESENHA. [Título da resenha da obra de Fohrer]. [Periódico], [volume], [número], [páginas], [ano].
SKEHAN, Patrick W.; DI LELLA, Alexander A. The Wisdom of Ben Sira. New York: Doubleday, 1987.
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