Enquadramento Acadêmico da Batalha dos Guararapes.

Enquadramento Acadêmico da Batalha dos Guararapes

Contextualização Teórica e Metodológica

O texto apresentado opera dentro de uma tradição historiográfica brasileira que dialoga com múltiplas correntes teóricas. A análise da Batalha dos Guararapes (1648-1649) como "experiência fundante" do Exército Brasileiro exige um enquadramento que reconheça tanto os aportes da História das Ideias quanto da Nova História e dos Estudos de Memória.


1. Marcos Historiográficos Fundamentais

A Corrente "Mitológica" e o Nacionalismo Oitocentista

A interpretação de Guararapes como "berço da nacionalidade" remonta à historiografia romântica do século XIX, especialmente representada por Francisco Adolfo de Varnhagen (História Geral do Brasil, 1854) e pela construção iconográfica de Victor Meirelles (1879). Esta vertente, influenciada pelo historicismo alemão e pelo nacionalismo romântico europeu, buscava na colonização elementos pré-formadores da nação brasileira.


Referência acadêmica obrigatória:

> CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas: O Imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. (Capítulos sobre a construção de heróis nacionais)

A Revisão Crítica: Desconstrução do Mito

A historiografia contemporânea, influenciada pelo estruturalismo e pela Escola dos Annales, problematiza essa leitura teleológica. Autores como Laura de Mello e Souza e João Fragoso demonstram que a "união trirracial" de Guararapes foi, antes de tudo, uma aliança tática de elites coloniais — não um movimento popular com consciência nacional.


Leitura essencial:

> SOUZA, Laura de Mello e. Desclassificados do Ouro: A Pobreza Mineira no Século XVIII. Rio de Janeiro: Graal, 1982. (Metodologia para análise de alianças sociais na colônia)

> FRAGOSO, João. Homens de Grossa Aventura: Acumulação e Hierarquia na Praça Mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.


2. Aportes Teóricos Específicos

Estudos de Memória e "Lieux de Mémoire"

A análise da "ressignificação" de Guararapes no século XX dialoga diretamente com Pierre Nora e sua concepção de lugares de memória — espaços simbólicos onde a sociedade deposita sua identidade reflexiva. A oficialização da data em 1994 constitui um caso paradigmático de invenção de tradição (termo de Eric Hobsbawm).

> NORA, Pierre (org.). Les Lieux de Mémoire. Paris: Gallimard, 1984-1992.

HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (org.). A Invenção das Tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.


História Militar e Novas Abordagens

A historiografia militar brasileira tradicional (representada por Alfredo Valadão, Augusto Comte) adotou a tese fundacional sem questionamentos. No entanto, estudos recentes aplicam a "Nova História Militar" (John Lynn, Geoffrey Parker) para desnaturalizar essa narrativa.

> LYNN, John A. The Bayonets of the Republic: Motivation and Tactics in the Army of Revolutionary France, 1791-94. Boulder: Westview Press, 1996. (Modelo metodológico para análise de motivações tropas)

> CASTRO, Celso. O Soldado da Pátria: Uma História do Exército Brasileiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2014. (Crítica às origens institucionais)


3. Debates Historiográficos Contemporâneos

O Problema da "Nação" na Colônia

O texto reproduz — ainda que de forma crítica — uma teleologia nacionalista que a historiografia recente contesta. Estudos sobre formação do Estado colonial (Nuno Gonçalo Monteiro, António Manuel Hespanha) demonstram que as identidades no Império Português eram plurais, hierárquicas e não coincidentes com fronteiras territoriais modernas.

> MONTEIRO, Nuno Gonçalo. O Crepúsculo dos Grandes: A Casa e a Corte de D. João de Lencastre. Lisboa: Estampa, 1998.

> HESPANHA, António Manuel. Panorama da História Institucional e Jurídica de Macau. Macau: Fundação Macau, 1995.

A Questão Racial e o "Mito da Democracia Racial"

A tese da "união trirracial" como embrião de nacionalidade dialoga com o mito da democracia racial brasileira (Freyre, 1933), posteriormente desconstruído por Thomas Skidmore, Emília Viotti da Costa e Lilia Moritz Schwarcz.

> FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. Rio de Janeiro: Maia & Schmidt, 1933.

SKIDMORE, Thomas E. Preto no Branco: Raça e Nacionalidade no Pensamento Brasileiro. São Paulo: Paz e Terra, 1976.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

4. Contribuição Original do Texto

O texto apresentado avança ao:

1. Reconhecer a construção a posteriori: Explicita que a condição de "experiência fundante" é uma atribuição simbólica do século XX, não uma essência histórica;

2. Identificar três pilares analíticos: Oferece uma estruturação clara (união étnica, autonomia militar, ressignificação) que permite verificação empírica;

3. Distinguir instituição formal de movimento armado: Supera a confusão entre "Exército como instituição" e "exército como força armada", crucial para a periodização.


5. Limitações e Lacunas a Explorar

Aspecto Limitação do Texto Sugestão de Desenvolvimento 

Fontes primárias Ausência de citação documental da época Consultar Annaes da Biblioteca Nacional, Arquivo Histórico Ultramarino 

Perspectiva holandesa Foco unilateral na experiência luso-brasileira Incorporar fontes neerlandesas (WIC, De Laet, Barlaeus) 

Análise social das tropas "União trirracial" como dado, não como problema Pesquisar alforrias, contratos militares, pagamentos diferenciados 

Comparação ibérica Isolamento do caso brasileiro Contrastar com experiências militares no México, Peru, Caribe 


6. Síntese: Posicionamento Epistemológico

O texto situa-se na intersecção entre:

- História política institucional (foco no Exército como ator)

- História cultural (análise de mitos e representações)

- História social (composição das tropas)

Sua maior contribuição metodológica é a desnaturalização cronológica: ao separar o evento (1648-1649) de sua institucionalização simbólica (1994), permite analisar Guararapes como palimpsesto — uma página onde múltiplas épocas escreveram suas necessidades de identidade.


Referências Complementares Recomendadas

> SOUZA, Marcos Costa de. Guerra, Sociedade e Economia: A Capitania de Pernambuco e a Invasão Holandesa (1630-1654). Recife: Fundaj, 2004.

> BOXER, Charles R. The Dutch in Brazil, 1624-1654. Oxford: Clarendon Press, 1957. (Clássico indispensável)

> ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. (Para contextualizar Guararapes no sistema atlântico)

> REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil: A História do Levante dos Malês (1835). São Paulo: Brasiliense, 1986. (Contraste com outras formas de luta armada)


Conclusão

O texto opera como uma síntese didática de debates historiográficos consolidados, mas carece de aprofundamento arquivístico e diálogo mais explícito com a historiografia crítica recente. Seria enriquecido por uma problematização mais radical das categorias "nacionalidade" e "autonomia" aplicadas ao século XVII. 

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