Tillich como Teólogo do Tempo Narrativo

Tillich como Teólogo do Tempo Narrativo e do Mito Fundador: Uma Leitura Ricœuriana

A leitura de Paul Tillich à luz da hermenêutica de Paul Ricoeur permite reconhecer no teólogo alemão uma lógica do tempo narrativo e do mito fundador, ainda que ele não empregue explicitamente essa terminologia. Essa aproximação não apenas é possível, mas constitui uma chave hermenêutica fecunda para compreender a estrutura do pensamento tillichiano e para responder aos críticos que denunciam nele uma suposta ruptura com o cristianismo histórico.

O debate em torno da obra de Tillich configura-se, ante tudo, como um conflito hermenêutico. As leituras críticas que o acusam de negar o conteúdo essencial da fé cristã operam com o que Ricoeur denominou hermenêutica da suspeita, isto é, uma abordagem que desconfia da letra do texto e denuncia seu conteúdo como não cristão. Em contrapartida, a hermenêutica da restituição do sentido, proposta por Ricoeur, busca compreender o texto em seus próprios termos, recuperando sua intenção de significado mesmo quando a linguagem é simbólica ou não literal. A existência de uma coleção acadêmica recente dedicada ao diálogo entre Paul Tillich e Paul Ricoeur, publicada pela editora De Gruyter em 2022, demonstra que essa aproximação não é mera especulação, mas uma via reconhecida e produtiva no meio acadêmico contemporâneo.

A chave dessa leitura reside no axioma aristotélico-ricœuriano do tempo narrativo. Na Poética, Aristóteles definiu a muthos como a organização dos eventos em um todo dotado de sentido. Ricoeur retomou esse insight em Temps et Récit para mostrar que o tempo humano só se torna plenamente humano quando é articulado narrativamente, que a narrativa não registra o tempo, mas o configura, conferindo-lhe começo, meio e fim, e que essa configuração é sempre retrospectiva, de modo que o sentido do fim ilumina o começo. Aplicado a Tillich, esse princípio revela que Jesus como o Cristo funciona como o fim da história que, retrospectivamente, ilumina todo o antes. O Novo Ser manifestado em Jesus não constitui uma novidade absoluta, pois já estava presente, veladamente, em toda a história da revelação, mas só pode ser reconhecido como tal a partir do evento Jesus como o Cristo. Trata-se, portanto, de tempo narrativo no sentido forte: o evento Jesus como o Cristo é o ponto arquimediano a partir do qual toda a história da salvação é reconfigurada.

Nesse ponto, emerge a questão de uma possível fusão entre o tempo narrativo e uma espécie de mito fundador. A resposta é afirmativa. Ricoeur distingue três dimensões do tempo narrativo: a pré-figuração, que corresponde ao tempo vivido e à estrutura pré-narrativa da experiência; a configuração, que é a trama propriamente dita, o ato de organizar eventos em narrativa; e a refiguração, que designa a recepção da narrativa pelo leitor ou ouvinte. Tillich opera predominantemente na configuração, tomando os eventos da história bíblica não como Historie verificável, mas como Geschichte significativa, e organizando-os em uma trama cujo centro hermenêutico é Jesus como o Cristo. O que faz dessa trama um mito fundador no sentido ricœuriano não é sua falsidade, mas sua capacidade de fundar o presente. Para Ricoeur, o mito não é o oposto da verdade, mas a narrativa que, sendo repetida e reatualizada, abre um mundo para o ouvinte. Quando Tillich afirma que o símbolo participa da realidade que representa, ele está dizendo algo muito próximo disso. A narrativa de Jesus como o Cristo não é um relato histórico objetivo, mas é mais do que uma ficção: ela é o meio pelo qual o Novo Ser se torna presente e eficaz para a comunidade de fé.

Essa perspectiva ricœuriana oferece uma resposta sofisticada aos argumentos do artigo crítico que denuncia uma ruptura total de Tillich com o cristianismo histórico. Quando o artigo afirma que Tillich nega a historicidade da ressurreição, a resposta ricœuriana seria que Tillich transita da Historie, entendida como fato bruto, para a Geschichte, entendida como significado existencial, de modo que a verdade da ressurreição não reside na sua verificabilidade, mas na sua capacidade de reorganizar o tempo narrativo e abrir esperança. Quando o artigo sustenta que Tillich substitui Cristo por um símbolo vazio, a resposta ricœuriana seria que, para ambos os pensadores, o símbolo não é vazio, mas pleno: o símbolo Cristo não aponta para algo fora de si, mas faz ver e faz ser aquilo que significa. Quando o artigo conclui que Tillich abandona o cristianismo histórico, a resposta ricœuriana seria que Tillich o preserva em sua função simbólico-narrativa, não negando os eventos, mas deslocando-os do registro factual para o registro hermenêutico, onde operam como mito fundador.

Um exemplo concreto pode ajudar a clarificar essa estrutura. A Última Ceia, analisada por Higuet com os instrumentos de Tillich e Ricoeur, não é um registro fotográfico do evento histórico. Sua verdade não está na precisão documental, mas na capacidade de configurar o sagrado, de fazer o espectador participar, simbolicamente, do evento fundador da fé cristã. Para Tillich, os textos bíblicos funcionam de modo análogo: não são relatos jornalísticos, mas símbolos e narrativas que, quando apropriados pela fé, refiguram a existência do crente.

Em conclusão, Tillich pode ser lido legitimamente como um teólogo do tempo narrativo e do mito fundador, antecipando ou dialogando com insights centrais de Ricoeur. Essa leitura não resolve de forma definitiva o debate com os críticos, uma vez que o artigo em questão rejeita precisamente o deslocamento do histórico-factual para o hermenêutico-simbólico. Contudo, ela demonstra que Tillich não está sendo arbitrário, mas opera com pressupostos hermenêuticos coerentes; que a ruptura denunciada pelo artigo é, na verdade, uma mudança de registro, do factual para o narrativo-simbólico; e que um diálogo sério com Tillich exige enfrentar a questão hermenêutica, e não apenas repetir os credos.

Para aprofundamento dessa leitura, recomenda-se a consulta do capítulo "Preserving the mystery: Paul Ricœur and Paul Tillich on revelation", no volume editado por Christina Gschwandtner em 2024, que trata exatamente da revelação como fenômeno hermenêutico, bem como do volume Paul Tillich et Paul Ricœur en dialogue, publicado pela De Gruyter em 2022, especialmente a seção dedicada às teorias do símbolo.

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