O Real Machadiano.

O Real Machadiano: Lacan e a Estrutura do Impossível em "A Igreja do Diabo", "O Segredo de Augusta" e "Missa do Galo"


1. Introdução: Lacan e a tríade do sujeito

Jacques Lacan (1901-1981) propõe, em seus seminários, uma estrutura tripartida do sujeito: o Imaginário (a identificação com a imagem especular, o ego), o Simbólico (a ordem da linguagem, da lei, do Nome-do-Pai) e o Real (o que resiste à simbolização, o impossível). O Real não é a "realidade" empírica, mas o núcleo de impossibilidade que atravessa o sujeito — o que não pode ser dito, representado, integrado.

A ficção de Machado de Assis, especialmente nos três contos analisados, constrói uma topologia do impossível que dialoga estruturalmente com a teoria lacaniana. Se para Lacan o Real é "o que não cessa de não se escrever" (ce qui ne cesse de ne pas s'écrire), para Machado o Real é "o que não cessa de não se narrar" — o enigma que persiste precisamente porque toda narrativa o circunda sem alcançá-lo.


2. O Real em "Missa do Galo": o gozo impossível

O desejo em "Missa do Galo" não é simplesmente reprimido (modelo freudiano clássico), mas estruturalmente impossível. A viúva deseja o cavalheiro, mas esse desejo é mediado pela liturgia, pela culpa, pela memória — pela linguagem. O que resta é o resíduo não simbolizado: o "fogo em mim" que não se traduz em nome, ação ou confissão.


2.1. O objeto a

Lacan desenvolve o conceito de objeto a (objet petit a) como a causa do desejo, não seu objeto. É o que falta no outro, o que faz com que o outro seja desejável precisamente porque incompleto. Em "Missa do Galo", o cavalheiro funciona como objeto a: não é amado por suas propriedades (beleza, eloquência, status), mas por seu estatuto de falta. A viúva nunca sabe se ele a deseja de volta; essa incerteza, essa falta no outro, sustenta seu desejo.

O final do conto — o aperto de mão na sacristia — é um encontro falhado com o Real do gozo. O toque físico não realiza o desejo; apenas o testemunha como impossível. O gozo, para Lacan, é "impossível" não porque não exista, mas porque, alcançado, deixa de ser gozo. A viúva, ao narrar, preserva o gozo na dimensão do impossível — é isso que faz de sua narrativa uma liturgia lacaniana.


2.2. O gozo do Outro

A pergunta que atravessa o conto — "será que houve adultério?" — pode ser reformulada lacanianamente: "o que o Outro quer de mim?" O Outro (o cavalheiro, a sociedade, Deus) é suposto de gozo (supposé au jouissance), mas seu gozo permanece opaco. A viúva não sabe se é objeto de desejo ou de piedade, se sua presença na missa é sacrilégio ou devoção. Essa opacidade do gozo do Outro é constitutiva do sujeito machadiano.


3. O Real em "A Igreja do Diabo": a instituição como falta

Se "Missa do Galo" situa o Real no desejo individual, "A Igreja do Diabo" o situa na instituição religiosa. O padre-protagonista descobre que a Igreja Católica, supostamente lugar da verdade, é aparato de mentira. Sua resposta — fundar uma Igreja do Diabo onde se pratica o mal sinceramente — é uma tentativa de preencher a falta do Outro, de fazer existir um lugar onde o gozo não seja proibido.


3.1. A perversão como estrutura

Lacan distingue entre neurose, psicose e perversão. O perverso, diferentemente do neurótico (que questiona o gozo do Outro), se coloca como instrumento do gozo do Outro — ele sabe o que o Outro quer, e se oferece para realizá-lo. O padre de "A Igreja do Diabo" assume uma estrutura perversa: ele sabe que o Diabo quer o mal, e se organiza para fornecê-lo.

Contudo, o final onírico/aporético do conto revela que essa posição de saber é falsa. O padre não sabe se sonhou ou viveu; o Diabo, como Outro, não confirma seu gozo. A perversão, submetida à lógica machadiana, revela-se como neurose de grau superior: não o questionamento do gozo do Outro, mas a constatação de que não há Outro para sustentar o gozo.


3.2. O sonho e o Real

O sonho, para Freud, é "realização de desejo"; para Lacan, é "realização de desejo do Outro". O sonho do padre realiza o desejo de uma Igreja onde a hipocrisia seja abolida — mas esse desejo é do Outro simbólico (a honestidade como valor burguês), não do sujeito. O final, que suspende a distinção sonho/realidade, revela o Real como impasse: não há posição externa de onde se possa julgar se o desejo foi realizado ou não.


4. O Real em "O Segredo de Augusta": a mulher como segredo-do-outro

"O segredo de Augusta" desloca o Real para o campo social da feminilidade. Augusta possui um segredo; esse segredo é suposto por todos (D. Fernanda, o narrador, o leitor), mas nunca confirmado. Aqui, o Real assume a forma do segredo-do-outro (le secret de l'Autre): não algo que Augusta esconde, mas algo que se supõe que ela esconda.


4.1. A mulher como sintoma do homem

Lacan, no Seminário XX (Encore), propõe que "a mulher não existe" (la femme n'existe pas) — não no sentido empírico, mas no sentido de que a feminilidade não é definível pela lógica fálica do Simbólico. A mulher é "não-toda" (pas-toute), não submetida integralmente à lei do Nome-do-Pai. Augusta encarna essa "não-totalidade": seu segredo a coloca fora da lógica da revelação/confissão que governa o discurso masculino.

O narrador e D. Fernanda operam no discurso da curiosidade, que é uma forma de discurso universitário: eles querem saber, classificar, integrar o segredo de Augusta ao saber estabelecido. Augusta, por sua opacidade, resiste a esse discurso. Não se trata de que ela "tenha" um segredo (conteúdo oculto), mas de que ela seja o segredo — a falta no discurso do Outro que permite que o desejo dos outros se sustente.


4.2. O gozo feminino

Lacan distingue entre gozo fálico (integrável ao Simbólico, gozo do organismo) e gozo do Outro (jouissance de l'Autre), supostamente feminino, "além do falo". O segredo de Augusta pode ser lido como marca do gozo do Outro: algo que não se deixa contar, simbolizar, integrar. D. Fernanda e o narrador circulam em torno desse gozo, mas não o alcançam — não porque Augusta o esconda, mas porque ele não é acessível pela via do saber.


5. Tabela comparativa: três topologias do Real

Conceito lacaniano "Missa do Galo" "A Igreja do Diabo" "O Segredo de Augusta" 

Real O gozo do desejo (não realizável) O gozo da instituição (não sustentável) O gozo feminino (não simbolizável) 

Objeto a O cavalheiro como falta O Diabo como promessa de gozo sem lei Augusta como segredo-do-outro 

Posição do sujeito Neurose (questionamento do gozo do Outro) Perversão (falsa posição de saber) "Não-toda" (resistência à lógica fálica) 

Falha do Simbólico A liturgia não integra o desejo A instituição não garante a verdade A sociedade não captura a feminilidade 

Estrutura do final Indeterminação moral Aporia ontológica Suspensão epistemológica 

Efeito de leitura Melancolia (perda do que nunca se teve) Angústia (falta de fundamento) Fascinação (gozo do não-saber) 


6. A hermenêutica lacaniana: além da interpretação

Lacan, no Seminário XI (Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise), distingue entre interpretação (que opera no campo do Simbólico, modificando a cadeia significante) e passe (que opera no campo do Real, confrontando o sujeito com sua divisão). A hermenêutica tradicional — gadameriana, ricoeuriana — é hermenêutica da interpretação. A hermenêutica machadiana é hermenêutica do passe: não modificação do sentido, mas confronto com a impossibilidade do sentido.

Nos três contos, o leitor é colocado numa posição de analista impossível: ele escuta a associação livre do narrador, mas não pode oferecer interpretação que cure, que integre, que complete. A viúva, o padre, Augusta — todos falam, mas o que dizem resiste à tradução. O Real machadiano é, assim, Real do discurso: não o que está fora da linguagem, mas o que, na linguagem, falha de funcionar como linguagem.


7. Implicações: Machado como analista da modernidade

A leitura lacaniana dos três contos permite formular uma teoria machadiana do sujeito moderno:

O sujeito dividido: Machado antecipa a estrutura lacaniana do sujeito como (barra sobre o S) — o sujeito dividido pela linguagem. Seus narradores não são "pessoas" (psicologia) nem "tipos" (sociologia), mas posições de enunciação: lugares onde a linguagem fala, falhando.

O declínio do Nome-do-Pai: em "A Igreja do Diabo", a Igreja (instância do Nome-do-Pai) não garante mais a lei; em "O segredo de Augusta", o casamento burguês (variante secular do Nome-do-Pai) não integra a feminilidade; em "Missa do Galo", a liturgia (Nome-do-Pai religioso) não sublima o desejo. Machado descreve uma civilização onde o Simbólico falha, precisamente o que Lacan diagnosticará no século XX.

A ética do psicanalista: Lacan propõe, em A ética da psicanálise, uma ética do "bem-dizer" (bien-dire) — não o bem-fazer moral, mas o ato de falar de modo a não ceder no seu desejo. Os narradores machadianos, em sua recusa de integrar o Real ao Simbólico, em sua persistência na dúvida, encarnam essa ética: eles não cedem na impossibilidade, fazendo dela própria a condição de sua fala.


8. Conclusão: o gozo da interpretação impossível

A comparação com Lacan revela que a hermenêutica da impossibilidade machadiana não é simplesmente pessimismo ou ceticismo. É, antes, uma ética do gozo — não o gozo da satisfação, mas o gozo do desejo sustentado na dimensão do impossível. O leitor de Machado não é frustrado pela falta de resposta; é gozado pela própria falta, pela persistência do questionamento.

Lacan, no final de sua trajetória, fala em "gozo do Outro" como horizonte ético. Machado, no final do século XIX, já construía ficções onde esse gozo é praticado: não a resolução do enigma, mas o gozo de permanecer com o enigma. A dúvida, em Machado, não é estado transitório, mas modo de ser — e é nisso que sua modernidade reside, não na temática, mas na estrutura de gozo que propõe ao leitor.


Referências

Lacan, Jacques. O seminário, livro XI: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

Lacan, Jacques. O seminário, livro XVII: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.

Lacan, Jacques. O seminário, livro XX: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

Lacan, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

Assis, Machado de. Contos completos. Organização de João Cezar de Castro Rocha. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006.

Zizek, Slavoj. O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política. São Paulo: Boitempo, 2001.

Copjec, Joan. Read my desire: Lacan against the historicists. Cambridge, MA: MIT Press, 1994.

Badiou, Alain. O século. São Paulo: Perspectiva, 2008.

Miller, Jacques-Alain. "A fantasia, lógica do gozo". In: Gozar: seminário da AMP 2003-2004. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

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