Da Teologia da Dúvida à Hermenêutica Filosófica.

Da Teologia da Dúvida à Hermenêutica Filosófica: Machado de Assis como Precursor de Gadamer e Ricœur


1. O círculo hermenêutico e sua inversão machadiana

A hermenêutica filosófica contemporânea, especialmente na formulação de Hans-Georg Gadamer (1900-2002), fundamenta-se na noção de círculo hermenêutico: a compreensão do todo pressupõe a compreensão das partes, e vice-versa, num movimento circular que nunca se fecha definitivamente. Em Verdade e método (1960), Gadamer argumenta que a interpretação não é reconstrução do sentido original, mas fusão de horizontes — o encontro entre o horizonte histórico do texto e o horizonte histórico do intérprete.

Para Paul Ricœur (1913-2005), a hermenêutica deve superar a oposição entre explicação (método científico) e compreensão (método humanístico). Em De texto à ação (1986) e Tempo e narrativa (1983-1985), Ricœur desenvolve uma hermenêutica do suspeita e da afirmação: o texto não revela imediatamente um mundo, mas o propõe; o leitor, ao interpretar, não apenas descobre, mas habita esse mundo proposto.

Machado de Assis, cronologicamente anterior a ambos, constrói uma poética que inverte o círculo hermenêutico tradicional. Se Gadamer e Ricœur partem da premissa de que a interpretação, embora histórica e parcial, ainda assim aproxima-se do sentido, Machado parte da premissa oposta: toda interpretação é desvio, e esse desvio é constitutivo. O círculo hermenêutico em Machado não é uma espiral ascendente, mas um labirinto sem saída — onde cada interpretação gera não clarificação, mas mais interpretação, numa regressão infinita.


2. Gadamer e a consciência histórica: Machado como "efeito de verdade"

Gadamer distingue entre consciência histórica ingênua — que pretende transcender sua própria historicidade — e consciência historicamente efetiva (wirkungsgeschichtliches Bewußtsein) — que reconhece sua inserção na história como condição de compreensão. A "verdade" em Gadamer não é correspondência entre proposição e estado de coisas, mas efeito de verdade (Wahrheitswirkung) — o modo como uma obra se revela verdadeira para um intérprete situado.

Aplicado a Machado, este conceito revela uma tensão produtiva. Os narradores machadianos — especialmente a viúva de "Missa do Galo" — possuem uma consciência historicamente efetiva radical: eles sabem que recordar é interpretar, que interpretar é construir, e que construir é, inevitavelmente, inventar. Contudo, diferentemente do otimismo gadameriano (onde a fusão de horizontes enriquece o sentido), a consciência machadiana produz melancolia hermenêutica: a certeza de que nunca se chegará ao "como realmente foi", não porque o acesso seja dificultado, mas porque não há "realmente" a ser acessado — apenas versões, releituras, reconstruções.

O "efeito de verdade" em Machado é, portanto, um efeito de verdade sobre a impossibilidade de verdade. A viúva, ao narrar, não nos dá acesso a um evento passado, mas nos dá acesso à estrutura da memória como ficção — algo que Gadamer, preso à tradição romântica da hermenêutica, não leva em conta.


3. Ricœur: a narrativa como "mundo do texto" versus o "não-mundo" machadiano

Ricœur, em Tempo e narrativa, desenvolve uma teoria da mimesis narrativa em três estágios:

- Mimesis I (prefiguração): a experiência pré-narrativa do tempo humano

- Mimesis II (configuração): a organização do enredo (muthos)

- Mimesis III (refiguração): a aplicação do texto à ação do leitor

Para Ricœur, o texto literário "desenha um mundo" (entwirft eine Welt, na formulação heideggeriana) que o leitor pode habitar. A ficção não é fuga da realidade, mas laboratório de possibilidades existenciais.

Machado subverte essa arquitetura. Em "Missa do Galo", não há Mimesis I estável: a experiência pré-narrativa é já contaminada pela narrativa futura (a viúva só "sabe" o que sentiu porque agora narra). Não há Mimesis II configurada: o enredo é deliberadamente fragmentado, com lacunas que não são preenchidas. E não há Mimesis III refiguradora: o leitor não pode "habitar" o mundo do texto porque esse mundo é intencionalmente desabitável — é um mundo de portas fechadas, de olhares que não encontram confirmação, de gestos que não se completam.

O que Ricœur chama de "mundo do texto", em Machado torna-se "não-mundo do texto" — uma proposição de sentido que se auto-revoga. A viúva propõe um mundo de desejo possível, mas imediatamente o suspende; propõe um mundo de culpa possível, mas igualmente o suspende. O resultado não é a "referência segunda" ricoeuriana (o mundo ficcional como redescrição do mundo real), mas uma referência negativa: o texto refere-se à impossibilidade de sua própria referência.


4. A hermenêutica do suspeita: Freud, Marx, Nietzsche e Machado

Ricœur, em Freud e a filosofia (1965), identifica três "mestres da suspeita": Marx (a consciência falsa como produto das relações sociais de produção), Nietzsche (a verdade como ilusão fixada pelo poder) e Freud (a consciência como efeito de forças inconscientes). A hermenêutica do suspeita desvela, atrás das aparências, uma realidade oculta — mas uma realidade ainda assim positiva (a luta de classes, a vontade de potência, o inconsciente).

Machado antecipa essa hermenêutica, mas a esvazia de seu conteúdo positivo. Seus narradores são mestres da suspeita: desconfiam de si mesmos, dos outros, da linguagem. Mas, diferentemente dos mestres da suspeita ricoeurianos, não encontram nada por trás da suspeita — apenas mais suspeita.

A viúva de "Missa do Galo" desconfia de sua própria memória ("será que foi assim?"), do cavalheiro ("será que ele desejava?"), da liturgia ("será que a missa significava algo?"). Mas essa desconfiança não revela uma verdade oculta (como em Freud), não desmascara uma ideologia (como em Marx), não transvaloriza valores (como em Nietzsche). Revela apenas a estrutura mesma da desconfiança como modo de ser moderno.

Machado é, assim, o quarto mestre da suspeita — aquele que suspeita da própria suspeita, e nisso antecipa a crítica pós-moderna à hermenêutica filosófica.


5. O tempo narrativo: Ricœur versus Machado

Em Tempo e narrativa, Ricœur busca resolver a aporia do tempo fenomenológico (o tempo vivido como "duração" bergsoniana) e do tempo cosmológico (o tempo medido como sucessão de instantes). A narrativa, para Ricœur, é o terceiro tempo que medeia entre essas duas aporias, criando uma "configuração temporal" onde o passado, o presente e o futuro se articulam em uma totalidade significativa.

A temporalidade em "Missa do Galo" resiste a essa mediação. O conto opera com três tempos:

Tempo Característica Função hermenêutica 

Tempo da narração (presente da viúva) Indeterminado, posterior ao evento Interpretação retrospectiva 

Tempo do evento (noite de Natal) Suspenso, nunca plenamente acessível Objeto da interpretação 

Tempo da leitura (presente do leitor) Simultâneo à narração, mas estranho a ela Interpretação da interpretação 

Esses tempos não se articulam numa "totalidade significativa" ricoeuriana. Pelo contrário, cada tempo subverte o anterior: o presente da narração contamina o passado do evento (a memória é reconstrução); o presente da leitura desestabiliza a narração (percebemos as contradições que a narradora não percebe). O resultado não é uma "configuração" temporal, mas uma desfiguração — o tempo como problema irresolvível.


6. Distânciação e apropriação: o paradoxo machadiano

Ricœur, em De texto à ação, desenvolve os conceitos de distânciação (Distanciation) e apropriação (Aneignung). A distânciação é a objetivação do sentido no texto, que libera a mensagem de sua intenção original; a apropriação é o movimento pelo qual o leitor faz seu o sentido distanciado, aplicando-o à sua própria situação.

Machado radicaliza a distânciação até seu limite paradoxal. Em "Missa do Galo", há uma distânciação sem apropriação possível: o texto objetifica um sentido (o enigma do desejo), mas esse sentido é intencionalmente inapropriável. O leitor não pode "fazer seu" o mundo do conto porque esse mundo recusa-se a ser habitado — é um mundo de espectros, de gestos incompletos, de palavras não ditas.

A "apropriação" machadiana é, na verdade, uma expropriação: o leitor é despojado de sua segurança hermenêutica, forçado a reconhecer que a interpretação não conduz à posse do sentido, mas à constatação da sua elusividade. Isso não é falha do texto, mas sua condição de possibilidade: só porque o sentido não pode ser apropriado, ele permanece como questão — e é essa permanência questionante que caracteriza a experiência estética moderna.


7. Conclusão: Machado como limite da hermenêutica filosófica

A leitura de Machado através de Gadamer e Ricœur revela não apenas afinidades, mas limites. A hermenêutica filosófica do século XX, mesmo em suas formulações mais sofisticadas, pressupõe que a interpretação, embora histórica e parcial, ainda assim aproxima-se do sentido — que a fusão de horizontes é enriquecimento, que o mundo do texto é habitável, que a suspeita revela uma verdade.

Machado nega todas essas premissas. Sua "teologia da dúvida" não é uma hermenêutica do sentido oculto, mas uma hermenêutica do não-senso constitutivo — onde a interpretação não revela, apenas revela a revelação como impossível.

Isso não significa que Gadamer e Ricœur sejam inaplicáveis a Machado. Pelo contrário: são necessariamente aplicáveis, precisamente para demonstrar onde falham. A hermenêutica filosófica encontra em Machado seu limite interno — o ponto onde a tradição que ela busca compreender se recusa a ser compreendida, não por obscurantismo, mas por excesso de lucidez.

Machado de Assis é, assim, o anti-filósofo hermenêutico por excelência: aquele que constrói textos que só podem ser lidos hermenêuticamente para demonstrar a insuficiência da leitura hermenêutica. Sua modernidade não está em negar a tradição, mas em assumir a tradição para melhor subvertê-la — não pelo exterior, mas pelo interior, não pela violência, mas pela ironia.

A "aplicação" de Gadamer e Ricœur a Machado produz, portanto, não uma interpretação definitiva, mas uma interpretação da impossibilidade da interpretação — que é, talvez, a única forma de fazer justiça a um autor que fez da dúvida não método, mas destino.


Referências

Gadamer, Hans-Georg. Verdade e método. Tradução de Flávio Paulo Meurer. Petrópolis: Vozes, 1999. 2 vols.

Ricœur, Paul. Tempo e narrativa. Tradução de Constanza Marques. Campinas: Papirus, 1994. 3 vols.

Ricœur, Paul. De texto à ação: ensaios de hermenêutica II. São Paulo: Papirus, 1993.

Ricœur, Paul. Freud e a filosofia: ensaio de interpretação. Rio de Janeiro: Forense, 1970.

Grondin, Jean. Introdução à hermenêutica filosófica. Petrópolis: Vozes, 2008.

Davey, Nicholas. Unquiet understanding: Gadamer's philosophical hermeneutics. Albany: SUNY Press, 2006.

Kearney, Richard. On Paul Ricoeur: the owl of Minerva. Aldershot: Ashgate, 2004.

Assis, Machado de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. 3 vols.

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