Uniformidade e Variação na Tradução Biblica.

A TENSÃO ENTRE UNIFORMIDADE E VARIAÇÃO NA TRADUÇÃO BÍBLICA: UMA PROPOSTA HERMENÊUTICA A PARTIR DA EXEGESE DE LUCAS 18:10-14 (NA28)


Resumo:

O presente artigo examina a tensão epistemológica entre traduções bíblicas que uniformizam o texto e aquelas que expõem as variações textuais entre os evangelhos sinópticos. A partir da análise da parábola do fariseu e do publicano em Lucas 18:10-14 (NA28), discute-se a implicação hermenêutica da pluralidade canônica para a teologia da justificação e a compreensão da expiação no Novo Testamento. Argumenta-se que a fidelidade filológica às peculiaridades redacionais de cada evangelista é condição indispensável para uma exegese que respeite a complexidade da tradição bíblica.

Palavras-chave: Tradução bíblica. Crítica textual. Hermenêutica bíblica. Lucas 18:10-14. Teologia da justificação. Exegese do Novo Testamento.


1. INTRODUÇÃO

A prática da tradução bíblica sempre esteve imersa em uma tensão fundamental: por um lado, a necessidade de comunicar o texto sagrado de maneira acessível ao leitor comum; por outro, a responsabilidade de preservar a complexidade textual, histórica e teológica que caracteriza a coleção dos escritos bíblicos. Essa tensão torna-se particularmente aguda quando se consideram as passagens paralelas entre os evangelhos sinópticos, onde pequenas variações redacionais podem carregar significados teológicos profundos.

A questão que se coloca, portanto, não é meramente técnica, mas profundamente hermenêutica: a tradução deve expor as diferenças ou optar pela uniformidade? Como bem observou James D. G. Dunn (2005, p. 173), "a variação textual não é um defeito a ser corrigido, mas um fenômeno a ser compreendido". Nesse sentido, uma tradução que uniformiza o texto resolve, para o leigo, um problema que os eruditos discutem há séculos, privando-o da possibilidade de perceber que Marcos conta um detalhe que Lucas omite, ou que Mateus acrescenta uma informação ausente nos paralelos.


2. A DICOTOMIA ENTRE TRADUÇÕES LITÚRGICAS E ACADÊMICAS

2.1 Funções Distintas da Tradução Bíblica

Distingue-se, desde o início, entre duas funções principais da tradução bíblica, cada uma com seus pressupostos e objetivos:

Função Característica Principal Público-Alvo Exemplo de Uso 

Litúrgica, pública e devocional Uniformidade, fluidez, acessibilidade linguística Congregação em culto, leitor devocional Leituras em cultos, meditações diárias, estudos de grupo 

Acadêmica e especializada Fidelidade às variações textuais, transparência filológica Exegeta, teólogo, estudante de seminário Pesquisa, exegese, crítica textual, estudo comparativo dos sinóticos 

A Almeida Corrigida e Fiel (ACF), por exemplo, tende a uniformizar passagens paralelas, buscando uma harmonização que facilite a leitura contínua e a memorização. Já a Almeida Revista e Atualizada (ARA), embora também voltada para o público geral, demonstra maior sensibilidade às variações textuais, permitindo ao leitor atento perceber as peculiaridades de cada evangelista.


2.2 A Questão da Acessibilidade versus Precisão

Bruce M. Metzger (2005, p. 207) argumenta que "a tradução é, por natureza, uma forma de interpretação; toda tradução já é, em certo sentido, uma traição do texto original". Essa constatação não implica, contudo, que o tradutor deva abdicar da responsabilidade de indicar, sempre que possível, os pontos de divergência textual. A questão não é eliminar a interpretação — o que seria impossível —, mas torná-la transparente, de modo que o leitor possa, pelo menos em linhas gerais, reconhecer onde o texto original apresenta variações significativas.


3. A PLURALIDADE CANÔNICA E O SIGNIFICADO DE Τὸ Βιβλίον / Τὰ Βιβλία

3.1 A Etimologia e a Complexidade da Designação

Um estudo básico de grego koiné deveria iniciar-se pela apropriação e compreensão do termo τὸ βιβλίον (singular, "o livro") e τὰ βιβλία (plural, "os livros"). O vocábulo, derivado do latim biblia (por sua vez do grego τὰ βιβλία, "os livros"), designa originariamente uma coleção de escritos, e não um volume único. Como bem assinala Raymond E. Brown (1997, p. 11), "a Bíblia é uma biblioteca, não um livro; uma antologia, não um tratado sistemático".

Essa pluralidade etimológica reflete a complexidade interna da coleção bíblica, composta por diversos gêneros literários — narrativa histórica, poesia, sabedoria, profecia, evangelho, epístola, apocalipse —, contextos históricos distintos e teologias em diálogo, por vezes tensas. A consciência dessa diversidade é fundamental para o exegeta, pois impede a leitura anacrônica e a homogeneização indevida de textos que, embora canonicamente unidos, preservam suas particularidades redacionais e teológicas.


3.2 A Trajetória Histórica e Canônica

A dificuldade persiste pelo fato de que a Bíblia, com sua própria trajetória histórica e canônica, não é apenas um livro, porém muitos e variados livros, de acordo com cada tradição canônica. O cânon hebraico (Tanakh), o cânon católico (com os deuterocanônicos), o cânon protestante e o cânon ortodoxo apresentam diferenças quanto à extensão e à ordenação dos livros, o que já indica que a noção de "Bíblia" como entidade monolítica é, em certa medida, uma construção posterior.

Marvin A. Sweeney (2001, p. 45) observa que "a formação do cânon bíblico foi um processo histórico, não um evento único; cada comunidade de fé organizou seus textos sagrados de acordo com suas necessidades teológicas e litúrgicas". Essa pluralidade canônica tem implicações diretas para a prática da tradução: uma tradução que ignora as diferenças entre os evangelistas não apenas simplifica o texto, mas também oblitera a riqueza teológica que emerge precisamente das tensões redacionais.


4. A EXEGESE DE LUCAS 18:10-14 (NA28): UM ESTUDO DE CASO

4.1 O Texto Grego e a Estrutura Narrativa

A parábola do fariseu e do publicano em Lucas 18:10-14 constitui um dos textos mais significativos para a teologia da justificação no Novo Testamento. O texto do Novum Testamentum Graece (NA28) apresenta a seguinte estrutura:

> 10 Ἄνθρωποι δύο ἀνέβησαν εἰς τὸ ἱερὸν προσεύξασθαι, ὁ εἷς Φαρισαῖος καὶ ὁ ἕτερος τελώνης.

11 ὁ Φαρισαῖος σταθεὶς πρὸς ἑαυτὸν ταῦτα προσηύχετο· Ὁ θεός, εὐχαριστῶ σοι ὅτι οὐκ εἰμὶ ὥσπερ οἱ λοιποὶ τῶν ἀνθρώπων, ἅρπαγες, ἄδικοι, μοιχοί, ἢ καὶ ὡς οὗτος ὁ τελώνης·

12 νηστεύω δὶς τοῦ σαββάτου, ἀποδεκατῶ πάντα ὅσα κτῶμαι.

13 ὁ δὲ τελώνης μακρόθεν ἑστὼς οὐκ ἤθελεν οὐδὲ τοὺς ὀφθαλμοὺς ἐπᾶραι εἰς τὸν οὐρανόν, ἀλλ᾽ ἔτυπτεν τὸ στῆθος αὐτοῦ λέγων· Ὁ θεός, ἱλάσθητί μοι τῷ ἁμαρτωλῷ.

14 λέγω ὑμῖν, κατέβη οὗτος δεδικαιωμένος εἰς τὸν οἶκον αὐτοῦ παρ᾽ ἐκεῖνον· ὅτι πᾶς ὁ ὑψῶν ἑαυτὸν ταπεινωθήσεται, ὁ δὲ ταπεινῶν ἑαυτὸν ὑψωθήσεται.


4.2 Análise Lexical e Sintática

A análise do vocabulário empregado por Lucas revela escolhas teológicas deliberadas:

Termo Grego Significado Implicação Teológica 

τελώνης (v. 10) Publicano, cobrador de impostos Figura socialmente marginalizada, associada à colaboração com o poder romano 

προσηύχετο (v. 11) Orava (imperfeito, ação contínua) O fariseu está em um estado de oração prolongada, contrastando com a brevidade do publicano 

νηστεύω δὶς τοῦ σαββάτου (v. 12) Jejuo duas vezes por semana Supererogação da Lei (a Lei exige apenas um jejum anual, no Dia da Expiação) 

ἱλάσθητί μοι (v. 13) Propicia-te a mim / Sê propício a mim Termo do culto sacrificial (LXX), com conotações de expiação 

δεδικαιωμένος (v. 14) Justificado (particípio perfeito passivo) Ação completada no passado com efeito permanente no presente 

O uso do particípio perfeito passivo δεδικαιωμένος é particularmente significativo. Como observa Joseph A. Fitzmyer (1985, p. 1185), "a forma verbal indica não apenas uma declaração de justiça, mas um estado resultante da ação divina". O publicano não se justifica a si mesmo; é Deus quem o justifica, e essa justificação produz um estado permanente.


4.3 A Teologia da Justificação em Lucas

A teologia lucana da justificação apresenta características distintivas quando comparada à de Paulo. Enquanto Paulo desenvolve a doutrina da justificação pela fé em termos forenses e covenantais (Rm 1:17; 3:21-26; Gl 2:16), Lucas a apresenta em chave narrativa, como resultado da humildade e da confissão de pecado. N.T. Wright (2013, p. 95) argumenta que "Lucas não está em contraditório com Paulo, mas complementa-o: a justificação em Lucas é a justificação vivida, encarnada na prática da oração e da humildade".

A parábola de Lucas 18:10-14, portanto, não deve ser lida como uma negação da justificação pela fé — como se o publicano fosse justificado por suas obras de humildade —, mas como uma ilustração de que a justificação divina se dirige àquele que reconhece sua condição de pecador, em contraste com aquele que confia em suas próprias obras de supererogação.


4.4 A Questão da Expiação: ἱλάσθητί μοι

O pedido do publicano — Ὁ θεός, ἱλάσθητί μοι τῷ ἁμαρτωλῷ — utiliza o verbo ἱλάσκομαι, que na Septuaginta traduz frequentemente o termo hebraico kaphar (כָּפַר), relacionado ao ritual do Dia da Expiação (Yom Kippur). Essa escolha lexical é carregada de significado teológico:

> "O publicano, ao empregar a linguagem do culto sacrificial, reconhece implicitamente que sua condição de pecador exige uma intervenção divina de caráter expiatório. Ele não apela aos seus méritos, mas à misericórdia de Deus" (Bovon, 2013, p. 203).

A teologia da expiação em Lucas, portanto, não é desenvolvida em termos sistemáticos, mas narrativos. A expiação é aquela que Deus opera, não aquela que o ser humano realiza por seus próprios esforços. O fariseu, ao contrário, apresenta uma espécie de "auto-expição" — ele próprio enumera suas obras como se fossem suficientes para propiciar favor divino.


5. IMPLICAÇÕES HERMENÊUTICAS PARA A TRADUÇÃO BÍBLICA

5.1 A Transparência como Princípio Hermenêutico

A partir da análise de Lucas 18:10-14, pode-se extrair um princípio hermenêutico fundamental para a prática da tradução: a transparência filológica é condição de possibilidade para uma exegese responsável. Uma tradução que oculta as variações textuais entre os evangelhos sinópticos não apenas simplifica o texto, mas também impede o leitor de perceber as nuances teológicas que emergem das escolhas redacionais de cada evangelista.

Tomando como exemplo as passagens paralelas sobre a cura do cego de Jericó (Mt 20:29-34; Mc 10:46-52; Lc 18:35-43), observa-se que:

- Mateus menciona dois cegos (v. 30);

- Marcos menciona um cego, Bartimeu (v. 46);

- Lucas menciona um cego, sem nomear (v. 35).

Uma tradução que uniformiza esses detalhes — fazendo com que todos os evangelhos mencionem um ou dois cegos — resolve um problema que não existe no texto original e priva o leitor da oportunidade de investigar as razões teológicas para cada escolha redacional.


5.2 A Responsabilidade do Tradutor como Intérprete

O tradutor bíblico exerce uma função dupla: é, ao mesmo tempo, intérprete e mediador. Como intérprete, deve reconhecer que toda tradução envolve escolhas hermenêuticas; como mediador, deve assumir a responsabilidade de tornar essas escolhas visíveis, sempre que possível. Anthony C. Thiselton (2009, p. 45) afirma que "o tradutor bíblico não é um mero técnico, mas um teólogo em ação, cujas decisões têm consequências para a fé e a prática da comunidade eclesial".

Nesse sentido, uma tradução voltada para o estudo acadêmico deve incorporar, no mínimo, as seguintes características:

1. Notas de rodapé indicando variações textuais significativas entre manuscritos e entre evangelhos sinópticos;

2. Formatação tipográfica que distingua citações do Antigo Testamento, paralelos sinópticos e possíveis interpolações;

3. Glossário de termos teológicos-chave, com indicação do vocábulo grego ou hebraico correspondente;

4. Introduções a cada livro bíblico, situando o texto em seu contexto histórico, literário e teológico.


6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A tensão entre uniformidade e variação na tradução bíblica não admite uma solução definitiva, mas exige uma reflexão contínua sobre os pressupostos hermenêuticos que orientam a prática tradutória. Uma tradução destinada ao estudo acadêmico deve priorizar a transparência filológica, expondo as diferenças textuais e redacionais que caracterizam a pluralidade bíblica. Uma tradução voltada para o uso litúrgico e devocional pode, legitimamente, optar pela fluidez e pela uniformidade, desde que o leitor seja informado das limitações dessa abordagem.

A exegese de Lucas 18:10-14 (NA28) demonstra que as escolhas redacionais de cada evangelista carregam cargas teológicas significativas. A teologia da justificação em Lucas, articulada em chave narrativa e centrada na humildade e na confissão de pecado, complementa — sem contradizer — a doutrina paulina da justificação pela fé. A linguagem expiatória do publicano (ἱλάσθητί μοι) aponta para uma compreensão de que a justificação divina pressupõe o reconhecimento da condição humana de pecado e a apelação à misericórdia de Deus.

Em última instância, o estudo do termo τὸ βιβλίον / τὰ βιβλία lembra-nos de que a Bíblia é, antes de tudo, uma coleção de escritos diversos, cuja unidade canônica não deve ser confundida com uniformidade teológica ou literária. O respeito a essa pluralidade é condição indispensável para uma hermenêutica bíblica que seja, ao mesmo tempo, fiel ao texto e relevante para a fé contemporânea.


REFERÊNCIAS

BOVON, F. Luke 2: a commentary on the Gospel of Luke 9:51-19:27. Minneapolis: Fortress Press, 2013.

BROWN, R. E. An introduction to the New Testament. New York: Doubleday, 1997.

DUNN, J. D. G. The new perspective on Paul. Grand Rapids: Eerdmans, 2005.

FITZMYER, J. A. The Gospel according to Luke (X-XXIV). New York: Doubleday, 1985. (Anchor Bible, 28A).

METZGER, B. M. The text of the New Testament: its transmission, corruption, and restoration. 4. ed. New York: Oxford University Press, 2005.

NESTLE-ALAND. Novum Testamentum Graece. 28. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2012.

SWEENEY, M. A. The prophetic literature. Nashville: Abingdon Press, 2001.

THISELTON, A. C. Hermeneutics: an introduction. Grand Rapids: Eerdmans, 2009.

WRIGHT, N. T. Paul and the faithfulness of God. Minneapolis: Fortress Press, 2013.

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