A questão da suposta bissexualidade de Davi constitui um problema hermenêutico que exige rigor na análise do texto bíblico e sensibilidade ao contexto histórico-cultural do Antigo Oriente Próximo. A narrativa de 1 Samuel 18–20 descreve a relação entre Davi e Jonatas como uma aliança covenantal marcada por profunda lealdade e afeto pessoal, expressa na fórmula "a alma de Jônatas se ligou à alma de Davi" (1 Sm 18,1) e no amor que ele lhe dedicava "como à sua própria alma" (1 Sm 20,17), linguagem que, no horizonte semântico do mundo antigo, denota vínculo político e fraternidade, sem conotação erótica. Ademais, a narrativa bíblica apresenta Davi como figura maritamente ativa — com esposas como Mical, Abigail, Ainoã e Bate-Seba, além de concubinas — e em nenhum momento sugere atração sexual entre os dois personagens. Interpretações que projetam categorias modernas de sexualidade, como a bissexualidade, sobre textos antigos incorrem em anacronismo hermenêutico, carecendo de fundamento textual direto. Dessa forma, do ponto de vista da exegese bíblica, não há base para afirmar que Davi era bissexual.
Do ponto de vista filológico do hebraico bíblico — particularmente do hebraico clássico do período dos Reis, que abrange aproximadamente os séculos X a VI a.C. —, não se registra terminologia nativa que denote orientação sexual como categoria identitária. Não existem no léxico semítico antigo termos correspondentes às noções modernas de heterossexualidade, homossexualidade ou bissexualidade, uma vez que o mundo semítico não operava com categorias de "ser" em relação à sexualidade, mas sim com atos e papéis sociais.
Nesse contexto, a questão de se existe terminologia hebraica que permita à hermenêutica contemporânea "descobrir" bissexualidade em Davi e Jônatas assume relevância particular. A resposta, contudo, é negativa, e por motivo mais profundo que a mera ausência lexical: os textos empregam linguagem de aliança, fidelidade militar e amor político-covenantal. Expressões como 'ahabah — amor de tratado — e hesed — lealdade à aliança — permeiam o relato. Frases como "a alma se ligou" (nefesh qashrah) ou "amava como sua própria alma" ('ahav ke-nafsho), presentes em 1 Samuel 18.1-3, constituem fórmulas de aliança pessoal, sem conotação erótica.
A confusão hermenêutica contemporânea frequentemente projeta categorias modernas — identitárias, próprias do acrônimo LGBTQIA+ — ao ler anacronicamente passagens bíblicas. Isso ocorre, por exemplo, quando se interpreta o termo grego arsenokoitai (1 Coríntios 6.9) ou o hebraico mishkvei ishah (Levítico 18.22) como referentes a identidade homossexual, quando, de fato, tratam de ato homossexual masculino proibido. Da mesma forma, as expressões de luto intenso de Davi por Jônatas, em 2 Samuel 1.26 — "teu amor por mim foi mais maravilhoso que o amor de mulheres" —, no contexto literário e histórico, constituem linguagem poética de lealdade e aliança militar, não equiparação de tipos de amor.
Conclui-se, portanto, que o hebraico bíblico não possui termo que denote "bissexual", tampouco que valide uma hermenêutica de orientação sexual aplicada à figura de Davi. O que se constata é um silêncio terminológico sobre categorias identitárias, silêncio esse preenchido por leitores modernos mediante pressupostos externos ao texto. O cuidado hermenêutico exige reconhecer que a análise filológica demonstra que o texto fala de aliança e amizade, não de bissexualidade.
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