Liturgia e os Tradicionalistas Católicos.

Liturgia: Emblemática e Crucial para os Tradicionalistas Católicos


Resumo

Este artigo analisa a centralidade da questão litúrgica no movimento tradicionalista católico contemporâneo, examinando as tensões entre hermenêuticas progressista e conservadora que emergiram do Concílio Vaticano II. A partir de uma perspectiva ecumênica protestante, o autor investiga as raízes históricas do tradicionalismo na América Latina — especialmente no contexto do Padroado — e propõe uma reflexão crítica sobre a relação entre tradição litúrgica, justiça social e identidade eclesial.

Palavras-chave: Liturgia; Tradicionalismo Católico; Concílio Vaticano II; Padroado; Teologia da Libertação; Reforma Litúrgica.


1. Introdução: A Questão Litúrgica como Campo de Batalha

A questão litúrgica tornou-se emblemática e crucial para os tradicionalistas católicos, configurando-se como movimento de retorno às práticas do rito tridentino nas últimas décadas. É consenso que o referido rito antigo não foi abolido, e que as transformações litúrgicas posteriores ao Concílio Vaticano II representavam uma abertura da Igreja à cultura e modernidade circundantes, incrementando as celebrações nos vernáculos nacionais.

Ao observar os cinquenta anos do catolicismo romano e europeu em contexto pós-moderno, percebem-se verdadeiros campos de batalha entre progressistas e tradicionalistas em aspectos das reformas conciliares. A tradição ocupa papel central nessas disputas internas: trata-se apenas de uma questão de hermenêutica sobre a tradição (GUTIERREZ, 1981, p. 30), ou de um movimento reativo insurgente contra uma primeira onda progressista que buscaria efetivamente abolir — ou, no linguajar canônico, ab-rogare — a Tradição?

Esta análise parte da condição de "expectador de fora": um observador não católico que, militando em questões teológicas, reconhece que os acontecimentos nos "arraiais católicos" têm consequências para todo o mundo cristão ocidental.


2. A Reforma Litúrgica de Paulo VI: Críticas Tradicionalistas

A Reforma Litúrgica promulgada por Paulo VI foi provavelmente aquela que mais alterou a prática vida das pessoas na Igreja. A transição do latim para os vernáculos nacionais, embora a Igreja mantivesse o latim como língua oficial, resultou praticamente em seu desuso — com críticas inclusive à formação de religiosos atualmente não versados na língua litúrgica.

Para os tradicionalistas, a missa reformada converteu-se em evento teatral, onde o sacerdote oficiante sequer tem consciência do que realiza ao não pronunciar o recitativo com propriedade. O estrago, segundo essa perspectiva, já estava consumado com a promulgação do novo Missal, coincidindo com uma situação cismática interna que afeta diretamente a hierarquia.


2.1. A "Protestantização" do Missal

A principal crítica tradicionalista identifica no novo Missal uma tendência "protestantizada". A diferença litúrgica crucial reside na atenuação de prerrogativas sacerdotais exclusivas, especialmente no Ofertório, que se confundem com responsabilidades dos leigos. A consagração da hóstia e do vinho, que caracterizaria a presença real e o sacrifício de Cristo, configurar-se-ia mais como presença simbólica que propriamente real.

Para tanto, utiliza-se a Oração Eucarística II, atribuída a Hipólito de Roma, na qual a presença real e corpórea não é enfatizada (HIPÓLITO DE ROMA, 1971, p. 40-41). O simbolismo, nesse contexto, estende-se também ao "sacrifício de louvor do povo" — a congregação.


2.2. Problemas Textuais e Históricos de Hipólito

A crítica tradicionalista não se limita à introdução da oração atribuída a Hipólito de Roma. Identifica-se que o texto está repleto de interpolações, sendo uma compilação secular que não deveria gozar de tanta credibilidade a ponto de integrar a Reforma Litúrgica. Ademais, o bispo de passado nebuloso — pouco se sabe sobre sua vida e sede episcopal — possuía histórico antipapista e cismático, sendo seus escritos os últimos registrados em grego na Roma do século III.


2.3. O Sacerdócio Universal e a Distinção Hierárquica

O Protestantismo historicamente ampliou o conceito de sacerdócio, utilizando textos como I Pedro 2:9 para falar de um sacerdócio universal que dilui a noção de chamadas específicas. Para a hierarquia católica conservadora, tal não-distinção entre sacerdócio do padre e dos fiéis equivaleria a decretar seu próprio fim — seu "grande temor".

O sacerdote possui função na missa que o fiel não pode desempenhar, fazendo parte de sua vocação. Segundo as críticas tradicionalistas, esses papéis estariam interpenetrados e confundidos na prática, já que os textos litúrgicos do novo missal admitem dupla interpretação: podem ser lidos tanto na perspectiva católica quanto protestante.


3. Cisma, Reforma e Contra-Reforma: Contexto Histórico

É saudável que instituições religiosas passem por transformações periódicas. No ocidente, contudo, reformar uma instituição religiosa evoca imediatamente a ideia de cisma — especialmente no catolicismo. Apesar de tentativas de reatar laços, persiste ressentimento mútuo.

O cisma do século XVI, movimento interno na Igreja, gerou recrudescimento católico na Contra-Reforma. Historiadores, raros na isenção, geralmente escolhem lados. O Papa Bento XVI, em seus discursos, enfatizou a luta contra o relativismo — o que, para ele, significava salvar não apenas o catolicismo romano, mas a Europa e sua cultura religiosa e humanista. Essa crítica visava o resgate da autoridade e magistério da Igreja, já não mais percebida como guardiã da verdade — constatação que ocorre tanto dentro quanto fora do catolicismo.

Nos últimos anos, as disputas pelo controle efetivo da Igreja acirraram-se, com a tradição litúrgica exercendo papel preponderante. As querelas pela prevalência de um Missal sobre outro amplificaram-se, atingindo inclusive os sumos pontífices — que deveriam atuar mais como moderadores que como defensores de ritos específicos.


3.1. O Summorum Pontificum (2007)

A carta apostólica Summorum Pontificum, de 07/07/2007, apresenta relato elucidativo sobre a promulgação dos dois Missais Romanos de rito latino:

> "O Missal Romano promulgado por Paulo VI é a expressão ordinária da 'LEX ORANDI' ('Lei da Oração'), da Igreja Católica de rito latino. Mas o Missal Romano promulgado por S. Pio V e novamente editado pelo B. João XXIII deve considerar-se como expressão extraordinária da mesma 'LEX ORANDI', e gozar do devido respeito pelo seu uso venerável e antigo. Estas duas expressões da 'LEX ORANDI' da Igreja não levarão de forma alguma a uma divisão da 'LEX CREDENDI' ('Lei da fé') da Igreja, pois são, de fato, dois usos do único rito romano. Por isso é lícito celebrar o sacrifício da Missa segundo a edição típica do Missal Romano promulgado pelo B. João XXIII em 1962 e nunca ab-rogado, como forma extraordinária da Liturgia da Igreja."

O Motu Próprio, expediente papal espontâneo, não conseguiu apaziguar os lados envolvidos na conjuntura atual. A consequência é crise de identidade e autoridade na estrutura de poder, com duas "igrejas" que se digladiam e acusam mutuamente de heresia. O poder monárquico papal corrói-se: qualquer ocupante da cátedra romana pode ter sua investidura (ministério petrino) questionada — situação mais comum e aberta no lado tradicionalista (Sede Vacante).


4. O Padroado e o Catolicismo Conservador na América Latina

Ao considerar a América Latina, um dado significativo emerge: a Lei do Padroado, fonte do catolicismo conservador que perdura no continente. Colonização e evangelização confundiam-se pelo envolvimento entre Igreja e Estado (BELO DE AZEVEDO, 1980, p. 43).


4.1. O Contexto Colonial

Críticos consideram a América Latina "continente sem história" ou ignorada por historiadores — em parte devido à forma de colonização. Explorado como apêndice das duas coroas ibéricas, chancelado pelos Sumos Pontífices, o continente foi administrado através das Bulas de Nicolau V, Calisto III e Alexandre VI, que conferiram poderes pontifícios aos Reis de Portugal sobre a administração eclesiástica em seus domínios: o privilégio do Padroado.

O Padroado foi a alavanca da construção do catolicismo conservador americano, selando o "casamento" entre Estado (coroas portuguesa e espanhola) e Igreja. Reproduziu-se a pirâmide medieval hierárquica que ruíra na Europa, mas mantinha-se firme na Península Ibérica. A práxis colonial legitimou-se por fundamentação religiosa.

A América configurou-se como laboratório de aperfeiçoamento dessas condições sociais: povos de cultura oral e relações cíclicas com a natureza não ofereciam resistência às imposições colonizadoras. Daí o estigma de incapacidade de produzir história própria — inclusive na atribuição introjetada pela Cúria Romana de que a teologia da libertação não seria genuinamente latino-americana.


4.2. Consequências do Padroado

A Lei do Padroado concedia faculdades especiais e privilégios: reis e mandatários assumiam direção e organização da Igreja. As leis da Igreja eram as leis do Estado, e vice-versa. Esta Lei é prova cabal de que a Igreja não pode se omitir de responsabilidades no genocídio ameríndio (trabalhos forçados em condições sub-humanas) e na importação de negros africanos para escravidão.

Personalidades como Bartolomeu de las Casas e São Toríbio de Mongrovejo merecem justiça, mas a instituição Igreja esteve presente como parceira e patrocinadora da ocupação (BELO DE AZEVEDO, 1980, p. 47).


4.3. A Reforma Protestante e a Expansão Geo-Política

A Reforma Protestante provocou corrida expansionista de ambos os lados na busca por novos rebanhos. Questões teológicas alcançaram amplitude geopolítica — primeira consequência do cismo europeu do século XVI. O empreendimento colonial foi patrocinado pela Igreja para compensar perdas no Velho Mundo.

Impulsionados mutuamente (descoberta das Américas consumada quando se consolidou a Reforma e a Contra-Reforma), esses eventos criaram condições para reprodução do ambiente pré-reforma, fornecendo instrumentos legais de direito de posse que coibiam movimentos reformistas na América Latina.

O cidadão europeu mediano dispõe de contexto histórico de lutas por direitos remontando a um milênio; na América Latina, invasores impuseram sua visão de mundo a povos de cultura oral. Etnias organizadas (Astecas, Maias) foram dizimadas, seus registros considerados heréticos. Os conquistadores, com mentalidade militar de cruzados, negligenciaram o contingente populacional que não oferecia resistência.

A retórica religiosa de "livrar a terra dos infiéis" denota hostilidade à população autóctone. Objetivos foram alcançados pela conversão através da força: a espada levou milhões à morte. A colonização exportou problemas europeus para territórios que não haviam experimentado tal rivalidade hostil — estando em jogo também o caráter geopolítico, controle dos mares e fluxo de matéria-prima colonial.


5. Evangelização como Ferramenta de Dominação

Nas regiões sob monarquias católicas, os habitantes foram submetidos a processo de evangelização que significou erradicação total de culturas autóctones por aculturação europeia e imposição de nova língua. Conclui-se que não foram evangelizados, mas europeizados: a conversão estava diretamente relacionada ao aprendizado da língua (no Brasil, o português, veículo da catequese).

Desde perspectiva geopolítica, a evangelização foi ferramenta eficaz para ocupar, explorar e dominar o continente — invasão branca, impiedosa e sem precedentes. A América Latina sobreviveu a injustiças e realidade dura imposta por modelo europeu obsoleto.

No caso brasileiro, questões estratégicas esbarraram no espírito catequético jesuíta. A Companhia de Jesus foi fundamental para povoamento e formação do colono brasileiro, mas seu afastamento visava assegurar o futuro da América Portuguesa pelo povoamento estratégico. O interesse de Estado entrou em choque com a política protecionista jesuíta para com os índios, gerando "grande rivalidade entre as ideias iluministas de Pombal e a educação de base religiosa jesuítica" (SECO; AMARAL, 2006, p. 5).

Portugal e Espanha, ainda atados a realidade agrária e feudal, praticaram pedagogia elitista durante dois séculos de vigência do Padroado — os jesuítas organizaram o sistema educacional brasileiro sobre base elitista, contendo avanço protestante no cone sul.

O acordo do Padroado, mesmo rompido com independências nacionais, estabeleceu o catolicismo definitivamente: novos Estados mantiveram herança católica, não se economizando o emprego da força para tanto.


6. A Resistência Progressista e a Teologia da Libertação

O que a questão litúrgica tem com este arcabouço histórico? Precisamente na América Latina surgiu foco de resistência e insurgência contra desigualdade social, a partir dos arraiais católicos progressistas oxigenados pela nova hermenêutica do Concílio Vaticano II.

Desde hermenêutica de interpretação da tradição que afirma a Eucaristia não ser apenas tradição e apego ao passado, toma-se consciência histórica do meio onde a Igreja se faz presente (GUTIERREZ, 1981, p. 43) — algo não visto desde o descobrimento, quando setores conservadores e tradicionalistas sempre foram obstáculos às mudanças sociais.

Daí maior envolvimento dos setores progressistas com movimentos sociais para que estes fossem agentes efetivos de transformação — não a Igreja propriamente, controlada por conservadores que aludem à catolicidade para manutenção do status quo, criando "estado de verdadeira angústia em cada católico ao se depararem com a realidade política e social" (GUTIERREZ, 1981, p. 49).


6.1. Objetivos da Teologia da Libertação

Qual o objetivo de uma teologia latino-americana baseada no princípio de libertação, superando oposição interna do catolicismo conservador? Sua busca, em diálogo com a tradição, é o distanciamento de uma escolástica essencialista (GUTIERREZ, 1981, p. 51), recompondo antropologia identificadora do homem latino-americano na condição de pobreza e alienação.

Para Gustavo Gutiérrez, é justificável o uso das ciências sociais na reflexão teológica da libertação na América Latina (GUTIERREZ, 1983, p. 18). A pobreza não é flagelo que Deus resolverá, mas questão de nossa responsabilidade divina — o juízo final (Mt 25:33-46) estabelece balizador: separação entre ovelhas e bodes justifica-se pelas ações (ou omissões) em favor dos mais humildes.


7. Considerações Finais: Tradição, Hermenêutica e Próximo

O padre Paulo Ricardo, figura associada aos grupos conservadores do clero brasileiro, utiliza o termo latino CARO SALUTIS EST CARDO para assegurar que a fé católica passa impreterivelmente pela encarnação do Cristo (Verbum caro factum est). Se tal expressão reproduz fielmente o axioma tradicionalista, seria natural desdobramento de ações em favor dos mais humildes — mesmo que houvesse desacordo sobre instrumentos como o materialismo histórico.

O que não se compreende é o apego a princípios ditos axiomáticos da fé católica que, para ser preservados, passam por cima da própria vida humana. O flagelo da miséria estrutural na América Latina parece não incomodar tanto aos tradicionalistas.

Que espécie de moral cristã foi construída durante toda a exploração colonial? A única lembrança que persiste é a afirmação inspirada: "A igreja sem os pobres é um lugar abandonado por Deus e por Jesus".

Toda fé possui elemento contemplativo, dimensionável como sacramental — não perdido em alguns segmentos protestantes. Mas não pode ser propriedade peculiar de seleto grupo social no topo da pirâmide.

A busca por estas questões, do ponto de vista teológico e religioso, visa construir juízo de valor além do já trazido. O envolvimento com a temática não converterá ao catolicismo, nem deixará menos evangélico protestante — mas fortalecerá convicções cristãs.

Se para mínima convivência pacífica entre irmãos for necessário passar por cima de algumas tradições, que assim seja. O que não pode persistir é o discurso de que, para preservar tradição, vale qualquer esforço — inclusive passar por cima do próximo. Esta atitude é anti-bíblica.

No capítulo 12 de Mateus, Jesus é questionado pelos fariseus sobre seus discípulos colherem espigas no sábado. O marcante em sua resposta é que instituição ou princípio algum pode estar acima da dignidade humana. Ao direcionar olhares para o próximo, somos capazes de nos ver nele? Talvez fosse essa a intenção de Cristo ao mandar que nos amássemos uns aos outros (Jo 13:34) e amássemos o próximo como a nós mesmos (Mt 19:19; 22:39) — certamente não o que aconteceu desde que colonizadores aqui aportaram.

O histórico da América é de colonização impiedosa e servil: trabalhos forçados, doenças trazidas contra as quais silvícolas não possuíam imunidade. A prova está na prática dos colonizadores desde sua chegada. Embora alguns avanços em direitos humanos tenham sido alcançados, ainda estamos aquém das necessidades para vida digna — mesmo com setores conservadores que vislumbrem América Latina tal qual exarada na malfadada Lei do Padroado.


Referências

AZEVEDO, Israel Belo de. As Cruzadas Inacabadas: Introdução à História da Igreja na América Latina. Rio de Janeiro: Gêmeos, 1980.

GUTIÉRREZ, Gustavo. A Força Histórica dos Pobres. Tradução de Álvaro Cunha. Petrópolis: Vozes, 1981.

GUTIÉRREZ, Gustavo. Teologia da Libertação. Tradução de Jorge Soares. Petrópolis: Vozes, 1983.

HIPÓLITO, Santo. Tradição Apostólica de Hipólito de Roma. Tradução de Maria da G. Novak. Petrópolis: Vozes, 1971.

PAGOLA, Antonio. O Caminho Aberto por Jesus: João. Petrópolis: Vozes, 2013. pp. 107-108.

SECO, A. P.; AMARAL, T. C. I. do. Marquês de Pombal e a reforma educacional brasileira. 2006.Disponívelem:http://histedbr.fae.unicamp.br/navegando/periodo_pombalino_intro.

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