A Escola do Recife e a Genealogia do Modernismo Brasileiro: Continuidades e Rupturas na Construção do Pensamento Crítico Nacional
Resumo
O presente artigo investiga as relações de intertextualidade e continuidade histórico-literária entre a Escola do Recife — corrente intelectual liderada por Silvio Romero e Tobias Barreto no final do século XIX — e o Movimento Modernista brasileiro, particularmente suas vertentes paulista e nordestina. Argumenta-se que, embora os modernistas de 1922 tenham operado uma ruptura estética e ideológica em relação ao positivismo e ao determinismo biológico-social característicos da geração de 1870, existe uma linha de continuidade significativa no que concerne à construção de um projeto de nacionalização da cultura e da crítica literária. A Escola do Recife teria funcionado como elemento propulsor da desconcentração do eixo cultural do Rio de Janeiro, abrindo espaço para que o Modernismo posterior operasse a "antropofagia" das influências europeias e a consolidação de uma identidade cultural autóctone.
Palavras-chave: Escola do Recife; Modernismo; Silvio Romero; Mário de Andrade; Nacionalismo literário.
1. Introdução
A historiografia literária brasileira frequentemente apresenta o Modernismo de 1922 como um momento fundacional de ruptura radical com as tradições estéticas e ideológicas do século XIX. Todavia, uma análise mais atenta das genealogias intelectuais revela que tal ruptura opera sobre bases previamente consolidadas por movimentos anteriormente marginalizados pelo centralismo cultural da Corte. Nesse contexto, a Escola do Recife emerge como instância mediadora fundamental entre o Romantismo oitocentista e as vanguardas modernistas, constituindo-se em "ponte agressiva" (para usar uma expressão apropriada ao caso) entre momentos aparentemente díspares da história literária nacional.
O objetivo deste trabalho é demonstrar que a relação entre a Escola do Recife e o Modernismo, embora frequentemente caracterizada como de influência indireta ou de "ruptura herdada", configura-se, na verdade, como continuidade dialética em torno de um projeto comum: a construção de um pensamento crítico nacional capaz de romper com a dependência cultural europeia.
2. A Escola do Recife e o "Combate" ao Brahmanismo Machadiano
Na transição do século XIX para o XX, o debate literário no Brasil apresentava acentuado caráter regional e ideológico. A Escola do Recife, representada principalmente por Tobias Barreto e Silvio Romero, posicionou-se em antagonismo direto ao que denominaram "Brahmanismo" — termo pejorativo utilizado para designar a erudição cosmopolita, fria e, segundo sua ótica, alienada de Machado de Assis.
Para os recifenses, a obra machadiana constituía expressão de um modelo estrangeirizante, sobretudo de influência francesa, que desconsiderava as especificidades socioculturais do Brasil. Em contraposição, pregavam um determinismo biológico e social, fundamentado no Naturalismo e no pensamento alemão, segundo o qual a literatura deveria funcionar como documento sociológico da realidade nacional, e não como exercício de psicologia ou de busca de formas universais (CANDIDO, 1959; MENDES, 2011).
Essa crítica sistemática foi decisiva para o deslocamento do eixo crítico-literário do litoral fluminense para o Nordeste, inaugurando um processo de descentralização cultural que o Modernismo posteriormente radicalizaria. A rivalidade com Machado de Assis, portanto, não se restringia ao plano estético, configurando-se como disputa por hegemonia na definição do que deveria ser considerado "literatura brasileira".
3. A "Ala Filológica" e o Projeto de Inventário Nacional
A relação da Escola do Recife com a filologia manifesta-se predominantemente no esforço de Silvio Romero em empreender uma História da Literatura Brasileira compreensiva. Romero foi dos primeiros intelectuais a realizar levantamento exaustivo da produção nacional, buscando identificar as origens mestiças da cultura brasileira — índios, portugueses, negros — e procedendo ao catalogamento da língua e das manifestações populares (ROMERO, 1902).
Embora não se configurasse como filólogo no sentido estrito da crítica textual europeia, Romero atuou como "arqueólogo" da literatura brasileira, precursor dos estudos de folclore e de uma "filologia nacional" voltada para a valorização do patrimônio cultural autóctone. Esse projeto de inventário e sistematização do material cultural brasileiro estabeleceu as bases metodológicas para as pesquisas modernistas posteriores.
4. Da Geração de 1870 ao Modernismo de 1922: Continuidades e Inversões
Os modernistas da geração de 1922, especialmente Oswald de Andrade e Mário de Andrade, embora tenham criticado o "cientificismo" determinista da Geração de 1870, beberam das fontes por esta aberta. A Semana de Arte Moderna pregou a "destruição" do academicismo — associado ao Parnasianismo e, por extensão, à "frieza" machadiana já combatida pelos recifenses —, operando, contudo, sobre um terreno previamente preparado pela crítica nordestina.
Duas heranças fundamentais podem ser identificadas:
a) Nacionalismo crítico: Tanto os intelectuais da Escola do Recife quanto os modernistas paulistas de 19222 convergiam na demanda por uma arte que refletisse o Brasil real, dissociada da mimesis europeia.
b) Valorização do popular: Silvio Romero dedicou-se ao estudo dos cantos populares nordestinos; décadas depois, Mário de Andrade empreenderia projeto análogo, embora com metodologia vanguardista, na coleta e sistematização do folclore brasileiro (ANDRADE, 1928).
5. O Caso Mário de Andrade: Síntese entre Filologia Nordestina e Modernismo Paulista
O exemplo mais eloquente da fusão entre a "filologia nordestina" e o Modernismo paulista encontra-se na obra de Mário de Andrade. Embora paulista de origem, Andrade estabeleceu intenso diálogo com o Nordeste brasileiro — viajou pela região, estudou suas culturas e produziu Macunaíma (1928), romance que sintetiza essa aproximação.
Andrade demonstrava preocupação particular com a língua falada, a etimologia e a organização do folclore — postura metodológica que se alinha às práticas de coleta e inventário iniciadas por Silvio Romero. O Modernismo, portanto, não se restringe à ruptura estética da Semana de 1922; compreende também o esforço de pesquisa filológica e antropofágica realizado por Mário de Andrade, conectando-se indiretamente ao projeto de "inventário da nação" defendido pela Escola do Recife (ANDRADE, 1943; BOSI, 1970).
6. Considerações Finais
A Escola do Recife funcionou como instância propulsora de transformações que viriam a se concretizar plenamente apenas com o Modernismo. Não sendo modernistas — na medida em que permaneciam deterministas e positivistas demais para tal qualificação —, seus principais representantes foram responsáveis pela "morte simbólica" do monopólio cultural do Rio de Janeiro, abrindo as porteiras para que, décadas depois, os modernistas pudessem operar a devoração antropofágica da influência europeia e construir efetivamente uma identidade nacional.
A "ala filológica" nordestina forneceu o material bruto — a pesquisa, o corpus documental, a crítica da tradição — que a "ala vanguardista" paulista refinou e transformou em arte. Nesse sentido, a relação entre Escola do Recife e Modernismo configura-se menos como ruptura abrupta e mais como processo dialético de superação (aufhebung), no qual o projeto de nacionalização da cultura é simultaneamente negado em sua forma (positivismo, determinismo) e preservado em seu conteúdo (construção de uma estética e de uma crítica autóctones).
Referências
ANDRADE, Mário de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1928.
ANDRADE, Mário de. Aspectos da literatura brasileira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1943.
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1970.
CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. São Paulo: Martins, 1959.
MENDES, Othon M. Silvio Romero: sua formação intelectual. São Paulo: EdUSP, 2011.
ROMERO, Silvio. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1902.
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