A Distinção Entre Fides Qua Creditur e Fides Quae Creditur: Uma Análise Comparativa de Efésios 2:8 e Judas 1:3
Resumo
O presente artigo examina a distinção semântica e teológica do termo "fé" (pistis) no Novo Testamento, particularmente nas epístolas de Paulo e Judas. Através de uma análise comparativa de Efésios 2:8 e Judas 1:3, demonstra-se que, embora ambos os autores tratem da mesma realidade salvífica, empregam o conceito de fé em sentidos distintos — subjetivo e objetivo respectivamente — que se revelam complementares na economia da salvação cristã.
Palavras-chave: pistis; fé subjetiva; fé objetiva; soteriologia; Efésios; Judas.
1. Introdução
A questão da natureza da fé no Novo Testamento constitui um tema central na teologia bíblica, especialmente quando se considera a aparente tensão entre diferentes empregos do termo pistis pelos diversos autores neotestamentários. A presente investigação propõe-se a analisar especificamente as concepções de fé presentes na Epístola aos Efésios (2:8) e na Epístola de Judas (versículo 3), demonstrando que, embora Paulo e Judas estejam tratando da mesma realidade salvífica fundamentada em Cristo, abordam aspectos distintos e complementares do fenômeno da fé.
2. Metodologia
A análise proceder-se-á mediante abordagem exegético-teológica, considerando: (a) o contexto imediato de cada passagem; (b) o uso lexical do termo pistis em ambos os contextos; (c) a função soteriológica atribuída à fé em cada autor; e (d) a relação dialética entre os dois conceitos.
3. Análise Exegética
3.1 A Fé em Paulo (Efésios 2:8)
O apóstolo Paulo emprega o termo pistis em sentido subjetivo — fides qua creditur (a fé pela qual se crê). No texto de Efésios 2:8 ("τῇ γὰρ χάριτί ἐστε σεσῳσμένοι διὰ πίστεως"), a referência é ao ato pessoal de crer, ao instrumento mediante o qual o sujeito se apropria da graça divina.
Características do conceito paulino:
- Foco: O meio de salvação para o indivíduo;
- Ação: O crente recebe (metáfora da "mão vazia" que se abre para receber Cristo);
- Contexto teológico: Refutação da soteriologia baseada em obras da lei ou mérito humano (cf. Ef 2:9: "οὐκ ἐξ ἔργων, ἵνα μή τις καυχήσηται").
Conforme observa Silva (2015, p. 124), "para Paulo, a fé é primariamente uma relação de confiança pessoal em Cristo, que exclui qualquer base de autojustificação".
3.2 A Fé em Judas (Judas 1:3)
Judas, por sua vez, utiliza pistis em sentido objetivo — fides quae creditur (a fé que é crida). A expressão "τῇ πίστει ἅπαξ παραδοθείσῃ τοῖς ἁγίοις" (Judas 1:3) refere-se não ao ato de crer, mas ao conteúdo que é crido: o corpo doutrinário, o evangelho, a revelação normativa depositada pelos apóstolos.
Características do conceito judaico:
- Foco: O objeto da salvação (a verdade revelada) que demanda preservação;
- Ação: O crente "luta" (ἐπαγωνίζεσθαι) — defende e guarda esse depósito contra falsificações;
- Contexto teológico: Combate às alterações da verdade e aos ensinamentos heterodoxos (cf. Judas 1:4: "παρεισέδυσαν γάρ τινες ἄνθρωποι").
Bauckham (1983, p. 5) assinala que "Judas está preocupado com a integridade do depósito apostólico, considerado completo e definitivo (ἅπαξ παραδοθείσῃ)".
4. Síntese Comparativa
A distinção teológica entre os dois conceitos pode ser sistematizada da seguinte forma:
Aspecto Paulo (Efésios 2) Judas (v. 3)
Sentido Subjetivo (ato de crer) Objetivo (o que se crê)
Função soteriológica Instrumento que salva Depósito que se guarda
Verbo associado "Sois salvos" (recepção) "Lutar" (defesa, preservação)
Perigo combatido Confiança na carne (obras) Desvio da verdade (heresia)
5. Implicações Teológicas
A compreensão adequada dessa distinção previne dois desvios hermenêuticos recorrentes:
5.1 O erro do subjetivismo
Conceber a fé meramente como sentimento ou experiência pessoal desvinculada de conteúdo doutrinário. Judas demonstra que existe uma fé objetiva — um conjunto de verdades reveladas — que foi "entregue uma vez por todas" (ἅπαξ). Sem o conteúdo correto (fé em um "outro Jesus", cf. 2 Co 11:4), o ato de crer torna-se ineffectual.
5.2 O erro do legalismo doutrinário
Conceber a guarda da fé como mero exercício intelectual de memorização de proposições. Paulo evidencia que a fé salvífica não se reduz à concordância histórica com fatos, mas consiste em confiança viva na graça, que necessariamente produz frutos de amor e boas obras (cf. Ef 2:10).
6. Conclusão
Paulo, ao afirmar que "pela graça sois salvos por meio da fé", descreve a porta de entrada da salvação — a confiança pessoal em Cristo. Judas, ao exortar a "lutar pela fé que uma vez foi entregue", descreve a fundação e os limites da caminhada cristã — o conteúdo imutável que deve ser preservado para que a porta de entrada continue acessível e pura.
Ambos os apóstolos concordam que não há salvação sem a fé subjetiva (confiança pessoal), mas essa confiança só é válida quando ancorada na fé objetiva (o evangelho apostólico). Para Judas, a "fé pela qual se é salvo" (Paulo) é identicamente a "fé que deve ser guardada" — ou seja, o genuíno evangelho de Cristo. A distinção, portanto, não implica contradição, mas complementaridade na compreensão da pistis cristã.
Referências
BAUCKHAM, R. J. Jude, 2 Peter. Word Biblical Commentary, v. 50. Waco: Word Books, 1983.
SILVA, M. Interpreting the Pauline Epistles. Grand Rapids: Baker Academic, 2015.
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