A Metodologia Histórico-Crítica no Liberalismo Teológico: Schleiermacher como Paradigma Hermenêutico¹
Resumo
O presente artigo examina a centralidade da hermenêutica histórico-crítica no liberalismo teológico do século XIX, tomando como eixo analítico a contribuição de Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher. Argumenta-se que a redefinição schleiermacheriana do objeto bíblico — da revelação proposicional à expressão da experiência religiosa — estabeleceu as bases epistemológicas para a autonomia do intérprete e a priorização do significado existencial sobre a historicidade factual dos eventos narrados.
Palavras-chave: Hermenêutica bíblica; Liberalismo teológico; Schleiermacher; Histórico-crítica; Sentimento de dependência absoluta.
1. Introdução
A emergência do liberalismo teológico no contexto europeu do século XIX representou uma inflexão significativa nos métodos de interpretação bíblica dominantes até então. Diferentemente das abordagens pré-modernas, que operavam sob o pressuposto da inerrância scriptural e da autoridade eclesiástica, o liberalismo teológico institucionalizou a metodologia histórico-crítica como eixo central — e não meramente auxiliar — da exegese bíblica².
Neste panorama, a figura de Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher (1768–1834) assume relevância paradigmática. Teólogo, filólogo e filósofo, Schleiermacher promoveu uma redefinição substantiva do objeto hermenêutico: o texto bíblico deixou de ser compreendido primariamente como revelação proposicional inerrante para ser reconhecido como expressão da experiência religiosa humana³.
2. O "sentimento de dependência absoluta" como fundamento
A categoria central da teologia schleiermacheriana é o schlechthinniges Abhängigkeitsgefühl — traduzido habitualmente como "sentimento de dependência absoluta". Em sua obra Sobre a Religião: Discursos a seus Desdenhadores (1799), Schleiermacher define a religião não como sistema de doutrinas ou práticas morais, mas como "sentimento e gosto do infinito"⁴.
Esta reconfiguração antropológico-religiosa acarreta consequências diretas para a hermenêutica. Se a essência do cristianismo reside na experiência interior de dependência do Criador, então os textos bíblicos devem ser lidos como testemunhos históricos dessa experiência — sujeitos, portanto, às mesmas condições de análise aplicáveis a qualquer documento histórico⁵.
3. Consequências hermenêuticas
A mudança de paradigma operada por Schleiermacher produz três consequências metodológicas de central importância:
3.1 Autonomia do sujeito interpretante
O intérprete bíblico não se subordina mais a uma autoridade dogmática prévia ou à tradição magisterial. Pelo contrário, a Bíblia é analisada conforme os mesmos parâmetros metodológicos da filologia e da história, considerando-se suas contradições internas, contextos de produção, desenvolvimentos redacionais e peculiaridades linguísticas⁶.
Esta autonomia epistemológica representa uma ruptura decisiva com a hermenêutica pré-moderna, na qual a regula fidei funcionava como horizonte interpretativo inquestionável.
3.2 Religião como vivência interior (Erlebnis)
O viés schleiermacheriano determina que a hermenêutica bíblica não busque nas Escrituras doutrinas imutáveis ou proposições metafísicas, mas sim o pathos religioso original das comunidades produtoras dos textos sagrados. A priorização da dimensão experiencial (Erlebnis) sobre a proposicional constitui um dos legados mais duradouros do liberalismo teológico⁷.
3.3 Crítica interna consistente
A historicidade dos eventos narrados — incluindo narrativas miraculosas, profecias cumpridas e questões de autoria, como a atribuição mosaica do Pentateuco — torna-se secundária em relação ao significado existencial do texto e à sua coerência com a "consciência religiosa moderna"⁸.
Esta hierarquia valorativa permite que a crítica histórica opere sem as restrições impostas pela ortodoxia, estabelecendo a congruência com a experiência religiosa contemporânea como critério de validade hermenêutica.
4. Considerações finais
Schleiermacher estabeleceu, assim, os fundamentos filosóficos que permitiram à hermenêutica histórico-crítica operar independentemente da tutela ortodoxa institucional. Ao instituir o sujeito que sente como critério último de validade religiosa, inaugurou-se uma tradição interpretativa que perpassa toda a teologia liberal do século XIX e XX, encontrando eco em pensadores como Albrecht Ritschl, Adolf von Harnack e, de modo problemático, Rudolf Bultmann⁹.
A questão que permanece aberta é se tal autonomia hermenêutica representa genuíno progresso metodológico ou, pelo contrário, uma redução do horizonte de sentido do texto bíblico aos limites da subjetividade moderna.
Referências
BULTMANN, Rudolf. História e Eschatologia: A Presença da Eternidade. São Paulo: Cultrix, 1973.
GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método: Traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1998.
HARNACK, Adolf von. Essência do Cristianismo. São Paulo: Paulus, 2002.
JEANROND, Werner G. Teologia Hermenêutica: Introdução à teoria da interpretação na teologia contemporânea. São Paulo: Loyola, 1994.
RITSCHL, Albrecht. A Justificação e a Reconciliação. 3 v. Edinburgh: T. & T. Clark, 1900.
SCHLEIERMACHER, Friedrich D. E. Sobre a Religião: Discursos a seus desdenhadores. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
_____________. Hermenêutica: Os manuscritos de 1805, 1809/10, 1819. São Paulo: Loyola, 2002.
THISSELTON, Anthony C. New Horizons in Hermeneutics: The Theory and Practice of Transforming Biblical Reading. Grand Rapids: Zondervan, 1992.
TRACY, David. A Analogia Imagination: Christian Theology and the Culture of Pluralism. New York: Crossroad, 1981.
Notas
¹ Este artigo resulta de pesquisa sobre a história da hermenêutica teológica moderna.
² Sobre a transição dos métodos pré-críticos para a crítica histórica, cf. THISSELTON, Anthony C. New Horizons in Hermeneutics. Grand Rapids: Zondervan, 1992, p. 3-45.
³ SCHLEIERMACHER, Friedrich D. E. Sobre a Religião: Discursos a seus desdenhadores. Tradução de Paulo Matos. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 45-52.
⁴ Op. cit., p. 47. A categoria do "sentimento de dependência absoluta" é desenvolvida mais sistematicamente em: SCHLEIERMACHER, Friedrich D. E. A Glaubenslehre (Doutrina da Fé), §§ 3-4.
⁵ JEANROND, Werner G. Teologia Hermenêutica: Introdução à teoria da interpretação na teologia contemporânea. São Paulo: Loyola, 1994, p. 78-82.
⁶ SCHLEIERMACHER, Friedrich D. E. Hermenêutica: Os manuscritos de 1805, 1809/10, 1819. Tradução de Marco Aurélio Werle. São Paulo: Loyola, 2002, p. 112-145.
⁷ Sobre a categoria de Erlebnis e sua influência na teologia liberal, cf. GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método. Petrópolis: Vozes, 1998, p. 78-85.
⁸ RITSCHL, Albrecht. A Justificação e a Reconciliação. Vol. 1. Edinburgh: T. & T. Clark, 1900, p. 12-18.
⁹ BULTMANN, Rudolf. História e Eschatologia. São Paulo: Cultrix, 1973, p. 45-67. Para uma crítica da continuidade entre Schleiermacher e Bultmann, cf. TRACY, David. The Analogical Imagination. New York: Crossroad, 1981, p. 234-267.
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