Qual Debe Ser o Critério Hermenêutico na Leitira e Interpretação de Textos Antigos?

É possível afirmar, com base em critérios filológicos e hermenêuticos, que as interpretações que leem uma relação homoerótica entre Davi e Jônatas não apenas carecem de respaldo linguístico, mas se configuram como reincidentes e contumazes — isto é, recorrentes e teimosas — na medida em que persistem apesar da ausência de evidência textual ou contextual. Tais leituras operam não a partir do texto hebraico, mas de pressupostos externos, como a hermenêutica de suspeita, teologias identitárias contemporâneas ou a desconstrução literária, forçando o texto a responder perguntas que ele mesmo não formula.

Do ponto de vista da análise do arcabouço de possibilidades semânticas do hebraico bíblico, observam-se três constatações fundamentais. Primeiramente, não há, no léxico do hebraico antigo, um termo que denote atração homoerótica entre pessoas do mesmo sexo em contexto de aliança positiva. Vocábulos como zachar (macho), ish (homem) e dod (amado/tio) ocorrem em contextos inequivocamente heterossexuais (cf. Ct 1.2) ou de parentesco, sem qualquer conotação homoerótica. Em segundo lugar, as fórmulas de aliança — hesed, berit, 'ahavah — aparecem também entre Jônatas e Davi, assim como entre outros pares políticos, como Abimeleque e Isaque, ou Jacó e Labão, sem que isso implique, em nenhum desses casos, uma dimensão sexual. Terceiramente, o luto de Davi por Jônatas, narrado em 2 Samuel 1.26, emprega o termo 'ahavah, que, no hebraico bíblico, pode denotar amor familiar, político ou divino, não se restringindo ao campo erótico. A expressão comparativa "mais do que amor de mulheres" constitui hipérbole típica da poesia heroica, análoga, por exemplo, à relação entre Aquiles e Pátroclo na tradição homérica, mas sem que isso carregue necessariamente uma carga homossexual.

Portanto, o arcabouço filológico do hebraico bíblico não comporta essa possibilidade interpretativa. A insistência em ler bissexualidade na relação entre Davi e Jônatas configura-se como contumácia hermenêutica — um ato repetido de importar categorias anacrônicas para o texto, o que resulta em sua desmontagem em vez de sua interpretação. Não se trata, assim, de um espaço interpretativo legítimo, mas de uma ruptura metodológica com os pressupostos da filologia histórica. 

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