A famosa frase L'État, c'est moi (O Estado sou eu), atribuída a Luís XIV, constitui a expressão máxima dessa mudança e, de fato, representa uma resposta direta do poder temporal às autoridades religiosas e a todos os demais poderes que limitavam o soberano.
Contudo, um detalhe fascinante aprofunda ainda mais a análise histórica: a frase provavelmente nunca foi realmente dita. A frase ficou associada a Luís XIV (1638-1715), o Rei Sol, e ao auge do absolutismo monárquico. A data mais citada é 13 de abril de 1655, quando o rei, ainda jovem, teria proferido essa declaração ao Parlamento de Paris. No entanto, historiadores sérios apontam que a primeira vez que essa frase apareceu foi em 1818, na obra do historiador P.E. Lémontey, mais de cem anos após a morte de Luís XIV. A famosa declaração é, muito provavelmente, uma criação póstuma, uma lenda histórica que resume perfeitamente o espírito de uma época.
O que importa, portanto, não é se a frase foi dita, mas sim o que ela representa. E o que ela representa é, precisamente, a percepção sobre a mudança na mediação entre os poderes. No modelo medieval, a autoridade do rei vinha de Deus, mas era mediada e legitimada pela Igreja por meio da unção e da coroação. O papa e os bispos detinham autoridade espiritual sobre o rei, que era um filho da Igreja. O absolutismo representado por L'État, c'est moi é a declaração de independência total do poder temporal. Significa que o rei deixa de ser visto como parceiro ou "braço secular" da Igreja e passa a ser considerado a única e suprema autoridade no reino. Nesse modelo, a vontade do rei está acima de qualquer outra lei, inclusive da Igreja, e o poder, antes compartilhado entre Igreja, nobreza e rei, torna-se concentrado.
A frase, portanto, responde diretamente à pretensão da Igreja de ser a ponte ou a árbitra. Luís XIV, como símbolo, declara: "Não preciso de mediador. Eu sou o Estado. Minha autoridade não vem da Igreja; ela é inerente à minha pessoa e à minha função real."
Mesmo assim, mesmo no auge do absolutismo, a frase era mais uma declaração de princípio do que um fato completo. Na prática, a Igreja continuava sendo fundamental para manter a unidade religiosa do reino. O lema absolutista era Un roi, une foi, une loi (Um rei, uma fé, uma lei). Luís XIV revogou o Édito de Nantes, que concedia liberdade aos protestantes, para impor a uniformidade católica, justamente usando o poder do Estado a serviço da Igreja. Além disso, o rei continuou sendo um rei "cristianíssimo", ungido em Reims. A Igreja mantinha a legitimidade moral e o controle sobre a educação, os registros civis e o casamento. Os tribunais eclesiásticos continuaram operando. O rei podia dizer "sou o Estado", mas não podia se divorciar nem sacramentar um casamento. A Igreja ainda detinha jurisdição sobre as almas, inclusive a do próprio rei.
Assim, a frase reflete exatamente a mudança identificada. L'État, c'est moi é o grito de independência do poder temporal, que deixa de se ver como parceiro ou "braço secular" da Igreja e passa a se ver como a única e suprema autoridade no reino. O fato de ser uma frase lendária torna seu valor ainda maior para o historiador: ela é um símbolo, uma síntese perfeitamente representativa de como o século XVII pensava a si mesmo como a época em que o Estado finalmente se libertou da tutela espiritual para se tornar "absoluto".
Essa transição, dos reis cristãos submetidos ao papa para os reis absolutos que dizem "a lei sou eu", constitui o pano de fundo político sobre o qual o moderno Direito Canônico, como o Código de 1917, foi reescrito. A Igreja estava, então, dialogando com Estados que já não a reconheciam como superior ou sequer como igual, mas muitas vezes como uma instituição privada dentro de suas fronteiras.
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