Machado de Assis e a Tensão entre Estética (Proto)Modernista e Teologia Filológica: Uma Análise Crítica
1. Situando o problema: cronologia e conceitos
Machado de Assis (1839–1908) é, cronologicamente, um escritor situado entre o Realismo, o Romantismo tardio e o Pré-Modernismo. Não pertence, estritamente, ao Modernismo brasileiro, movimento inaugurado em 1922. Contudo, sua obra tardia — especialmente romances como Dom Casmurro (1899) e Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), bem como contos como "Missa do Galo" (1893) — antecipa sensibilidades que serão plenamente desenvolvidas pelo modernismo: a ironia corrosiva, a fragmentação narrativa, o narrador não confiável, a dissolução do eu psicológico, a metalinguagem e o desprezo pelo sentimentalismo romântico. Assim, quando se fala em "estilo modernista" em Machado, refere-se a uma antecipação de procedimentos estéticos modernos, não a um pertencimento histórico ao movimento de 1922.
A tradição teológica embasada na filologia compreende a leitura de textos sagrados (e, por extensão, de textos literários canônicos) como artefatos linguísticos sujeitos à decifração mediante a crítica textual, a história das palavras, a análise de variantes manuscritas e o estudo de contextos culturais. Essa tradição remonta à escola de Alexandria, passa por Erasmo de Roterdã, desenvolve-se na crítica bíblica do século XIX (Lachmann, Harnack) e prossegue no século XX com teólogos como Rudolf Bultmann, que aplica a filologia à desmitologização das Escrituras. Supõe-se, nessa abordagem, que o texto possui uma profundidade vertical — camadas de sentido que a análise minuciosa da letra pode revelar, incluindo a intenção autoral, o contexto original e a verdade revelada ou histórica.
2. Pontos de tensão: incompatibilidades aparentes
A estética machadiana parece, à primeira vista, hostil a essa abordagem filológico-teológica. Há, nesse sentido, três pontos de tensão fundamentais.
Em primeiro lugar, a ironia e a ambiguidade em Machado funcionam como fim, não como meio. Ao contrário da tradição filológica, que busca revelar um sentido oculto mediante a análise das palavras, Machado celebra a indeterminação. Em "Missa do Galo", por exemplo, nunca se sabe com certeza se houve adultério ou apenas desejo imaginado. Uma teologia filológica convencional tenderia a resolver essa ambiguidade pela análise semântica dos termos "olhos", "hora", "missa". Machado, porém, constrói a ambiguidade como estrutura constitutiva do texto — não como defeito a ser sanado pela erudição.
Em segundo lugar, há uma recusa do transcendente como garantia de sentido. Diferentemente de autores medievais ou barrocos (como Padre Antônio Vieira, a quem Machado admirava, mas não imitava), o narrador machadiano não assume a existência de um Logos divino ordenando o discurso. A palavra machadiana é, por natureza, falível, dissimulada e lacunar.
Em terceiro lugar, observa-se o fim da "teologia do autor". Na tradição filológica, mesmo quando anônimo, o autor é compreendido como canal de verdade. Machado subverte essa premissa: seus narradores são mentirosos, vaidosos ou esquecidos. Não há "verdade final" que a filologia possa restaurar — apenas camadas sucessivas de interpretação.
3. Pontos de aproximação: diálogos possíveis
Nem tudo, porém, separa a estética machadiana da teologia filológica. É possível identificar três níveis de aproximação.
Primeiramente, se a filologia for compreendida não como busca da intenção original, mas como arte da leitura atenta das variantes e dos silêncios do texto, então Machado revela-se um filólogo avant la lettre. Seus contos demandam uma microanálise das palavras, dos tempos verbais, das pausas narrativas — procedimento que dialoga com a atenção filológica aos detalhes linguísticos.
Em segundo lugar, há uma afinidade entre a escrita machadiana e a teologia apofática (ou negativa), presente em autores como Pseudo-Dionísio, o Areopagita, e Mestre Eckhart. A teologia apofática sustenta que só podemos falar de Deus pelo que ele não é. Machado opera de modo semelhante com o desejo, a memória e a culpa: em "Missa do Galo", sabemos mais sobre o que não aconteceu do que sobre o que efetivamente ocorreu. Uma teologia filológica atenta à negatividade do texto poderia, portanto, estabelecer um produtivo diálogo com a ficção machadiana.
Finalmente, o sagrado profanado em Machado pode ser lido como objeto teológico. Um teólogo formado na filologia poderia analisar "Missa do Galo" como um tratado sobre o rito sem fé — a missa que não se realiza plenamente (o narrador assiste, mas apenas enxerga desejo), a hóstia que não é consumida, o confessionário invertido. Essa leitura exige conhecimento filológico: saber o que é uma "missa do galo", seu horário litúrgico, seu significado teológico. Machado conta com esse saber para melhor subvertê-lo.
4. Proposta metodológica: uma teologia da dúvida
O enquadramento proposto é viável desde que se desloque o objeto da análise. Não se trata de aplicar a "Missa do Galo" uma teologia filológica para encontrar "o sentido cristão" do conto — o que seria forçado e reducionista. Trata-se, antes, de utilizar o método filológico-teológico como lente crítica para demonstrar como Machado desconstrói a tradição que conhecia profundamente.
Machado dominava o latim, havia lido os clássicos, conhecia a Bíblia e os Padres da Igreja. Sua ironia não é ignorante, mas erudita: é a ironia de quem dominava a filologia e a teologia para melhor dissolvê-las em ambiguidade. A filologia, aplicada a Machado, não produz uma certeza, mas uma teologia da dúvida.
5. Considerações finais
É possível, portanto, enquadrar o estilo (proto)modernista de Machado de Assis numa perspectiva teológica filológica, desde que essa perspectiva não seja ingênua. Não como busca de uma verdade oculta, mas como demonstração de como a modernidade literária emerge da dissolução interna da tradição. Machado não nega a teologia: assume-a como fantasma — e a filologia serve para mostrar onde esse fantasma foi exorcizado pela ironia e pela indeterminação narrativa.
Referências sugeridas para desenvolvimento:
ASSIS, Machado de. Missa do Galo e outros contos. Organização de John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
BULTMANN, Rudolf. História da tradição sinótica. Petrópolis: Vozes, 2010.
COMPAGNON, Antoine. A literatura, para que serve? São Paulo: Unesp, 2010.
GLEDSON, John. The deceptive realism of Machado de Assis. Liverpool: Francis Cairns, 1984.
SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades, 2000.
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