Memória Histórica, Identidade Religiosa e Geopolítica: A Construção do Inimigo no Discurso Israelense
1. O Egito: Trauma Teológico versus Ausência de Fundamento Arqueológico
A narrativa bíblica do Êxodo — que descreve a escravidão dos hebreus no Egito faraônico e sua subsequente libertação — constitui um dos pilares fundadores do judaísmo, manifestando-se ritualmente na celebração da Páscoa (Pessach) e na entrega da Lei no Sinai. Todavia, a ausência de evidências arqueológicas consistentes que corroborem um êxodo em massa de escravos hebreus do Antigo Egito impõe uma distinção crucial entre memória teológica e memória histórica documentada.
A presente análise indaga: por que essa narrativa fundante não se traduziu em obstáculo à política externa do Estado de Israel moderno? A resposta reside em três fatores interdependentes.
Primeiro, o Egito dos faraós desapareceu enquanto entidade política e civilizacional. O Egito contemporâneo constitui-se como nação árabe e muçulmana, não reivindicando a herança faraônica como elemento constitutivo de sua identidade política. Segundo, a memória bíblica do Egito foi submetida a um processo de teologização: a expressão "casa da servidão" (beit avadim) opera como símbolo existencial e espiritual, não como designação de inimigo concreto. Terceiro, a assinatura do Tratado de Paz entre Israel e o Egito em 1979 demonstrou que a memória bíblica não vetou o realismo político: líderes religiosos sionistas não levantaram objeções fundamentadas no Êxodo à normalização das relações.
Conclui-se, portanto, que o Egito funciona como inimigo ritualizado no âmbito da tradição religiosa, mas configurou-se como parceiro geopolítico necessário na arena internacional.
2. Irã/Pérsia: Domínio Histórico Documentado e Ambivalência Bíblica
O caso persa apresenta-se como o elemento mais instigante desta análise comparativa. O Império Aquemênida, particularmente durante os reinados de Ciro II, Dario I e Artaxerxes I, conquistou a Babilônia em 539 a.C. e promulgou o decreto que permitiu o retorno dos judeus exilados e a reconstrução do Templo de Jerusalém — eventos narrados nos livros de Esdras e Neemias.
A convergência entre fontes persas e bíblicas é notável: o Cilindro de Ciro, documento cuneiforme que registra a política de tolerância religiosa do conquistador, corrobora a designação bíblica de Ciro como "ungido de Yahvé" (mashiach YHWH) em Isaías 45:1. Assim, na Bíblia Hebraica (Tanakh), a Pérsia aparece predominantemente como potência libertadora, não opressora. Historicamente, a província de Yehud Medinata ("Judá") funcionou como entidade administrativa subordinada (Abar Nahara — "Além do Rio"), gozando de autonomia religiosa sem registro de escravidão em massa.
3. A Reconfiguração do Inimigo: Da Pérsia Libertadora ao Irã Ideológico
A transformação da Pérsia histórica em "pedra de tropeço" contemporânea exige a compreensão de dois movimentos históricos distintos.
Inicialmente, o sionismo secular do século XX operou uma seleção mnemônica que ignorou a figura de Ciro, concentrando-se nos conflitos com nacionalismos árabes e persa. Durante o período Pahlavi (1925-1979), o Irã manteve relações de aliança com Israel, fundamentadas em interesses estratégicos mútuos.
A Revolução Iraniana de 1979 representa o ponto de inflexão decisivo. O regime islâmico xiita ressignificou radicalmente a história: Israel foi reconfigurado como a "Pequena Satanás" (Shaytân-e Kuchak), representante do Ocidente corrupto, enquanto a memória da Pérsia aquemênida foi substituída pela ideologia da "Guarda da Revolução" (Sepâh-e Pâsdârân-e Enqelâb-e Eslâmī).
Consequentemente, o Estado de Israel não percebe no Irã contemporâneo um "antigo senhor" — analogamente ao Egito faraônico —, mas um inimigo existencial que nega seu direito à soberania e existência.
4. A Inversão da Lógica Vingativa: Presente, Passado e Futuro na Doutrina de Segurança Israelense
Indaga-se: Israel cogita a aniquilação do Irã em virtude de alguma servidão passada? A resposta é negativa, fundamentada em três argumentos.
Primeiro, não existe memória nacional de opressão sob domínio persa; ao contrário, persiste a memória do decreto de libertação de Ciro. Segundo, o medo israelense do Irã é projetado no futuro e ancorado no presente — programa nuclear, patrocínio ao Hezbollah, retórica de "varrer Israel do mapa" —, não no passado histórico. Terceiro, qualquer ação militar preventiva contra o Irã seria justificada enquanto autodefesa (anticipatory self-defense), análoga à lógica aplicada à Alemanha nazista, e não como vingança histórica.
Contudo, a análise não pode ignorar o substrato psicológico real que permeia o discurso de segurança israelense. A memória do Holocausto (Shoah), perpetrado pela Europa cristã, constitui o verdadeiro "passado de servidão" que alimenta a doutrina de autonomia militar absoluta e de não-dependência de terceiros. Quando o regime iraniano nega o Holocausto e ameaça destruir Israel, aciona-se esse gatilho existencial — não a memória da Pérsia antiga, mas o trauma do genocídio europeu do século XX.
Considerações Finais
Na Bíblia Hebraica, o Egito figura como o grande opressor — embora sem comprovação arqueológica consistente. Por essa razão, Israel moderno pôde estabelecer a paz com o Egito árabe sem contradição teológica aparente. Inversamente, o Irã foi, tanto nos textos bíblicos quanto na documentação histórica, o libertador (Ciro). Todavia, o regime pós-revolucionário transformou a Pérsia em inimigo ideológico.
Esse processo gera um paradoxo aparente: Israel não nutre mágoa histórica contra o Irã, mas teme seu potencial nuclear futuro. O "passado de servidão" que efetivamente assombra a política externa israelense é o Holocausto europeu, não o cativeiro babilônico ou a experiência sob domínio persa. Portanto, o Irã configura-se como "pedra de tropeço" existencial não por causa de Ciro, mas em virtude de Ahmadinejad, Khamenei e da ideologia revolucionária que instituíram.
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