É plausível e filosoficamente sofisticado estabelecer uma analogia entre a arbitrariedade do signo, conforme desenvolvida por Umberto Eco, e a perversão semiótica descrita em Judas 4, desde que tal aproximação seja feita com a precisão teológica que o texto bíblico exige. Esta análise toca num ponto nevrálgico da comunicação contemporânea, onde os mesmos vocábulos são constantemente ressignificados para propósitos ideológicos diversos.
Em obras como Tratado Geral de Semiótica e O Nome da Rosa, Eco demonstra que o signo linguístico não possui uma ligação natural com seu referente. A palavra "graça", por exemplo, pode significar: (1) favor imerecido de Deus, no sentido teológico; (2) leveza e elegância, no sentido estético; (3) perdão ou clemência, no sentido jurídico; ou (4) aquilo que se diz antes da refeição, no sentido litúrgico reduzido. A arbitrariedade do signo significa que não há nada na sequência fonética que obrigue determinado significante a significar apenas o que a Escritura ensina. Qualquer comunidade linguística ou ideológica pode sequestrar o mesmo significante para veicular outro significado.
O verso 4 da epístola de Judas apresenta um mecanismo semiótico preciso: "Porque se introduziram furtivamente certos homens, que já antes estavam escritos para este juízo, homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de Deus". O verbo grego empregado, metatithemi, denota mudar de lugar, perverter ou transferir, configurando-se como um ato semiótico deliberado. O signo original, charis, referia-se ao favor divino que liberta do pecado e ensina a viver com disciplina, conforme Tito 2:11-12. Os falsos mestres, contudo, descolavam esse mesmo significante de seu significado original — arrependimento, santidade, transformação — para atrelá-lo à ideia de que Deus não se importa com o pecado, posto que a graça cobriria todas as transgressões.
A analogia entre a arbitrariedade do signo ecoana e a perversão descrita em Judas ilumina corretamente três aspectos fundamentais. Primeiro, a linguagem não é neutra: o mesmo vocabulário cristão pode ser utilizado tanto para edificar quanto para destruir. Segundo, o erro dos "homens ímpios" não consistia em negar a palavra "graça", mas em preenchê-la com conteúdo errado. Eco diria que eles operaram uma "semiose ilimitada" abusiva, estendendo o significado além dos limites estabelecidos pela tradição revelada. Terceiro, o diácono contemporâneo enfrenta exatamente esse fenômeno: pessoas utilizando termos como "amor", "inclusão", "liberdade" e até "Evangelho" para defender o oposto do que Cristo ensinou.
Entretanto, a analogia exige duas ressalvas teológicas indispensáveis. Para Eco, toda verdade é discursiva e convencional, não existindo um significado "correto" fora do jogo da linguagem. Para Judas, ao contrário, a "fé que uma vez por todas foi entregue aos santos" (v. 3) constitui um significado fixo, revelado e não negociável. O diaconato não pode cair no relativismo de que "toda interpretação é válida". Ademais, a arbitrariedade do signo em Eco tende ao ceticismo, sugerindo que "nunca saberemos se estamos falando a verdade". Judas opera com a certeza de que a verdade pode ser conhecida, defendida e vivida. A analogia serve, portanto, para diagnosticar o problema — isto é, como a linguagem é manipulada —, mas não para adotar a solução de Eco, que implicaria abandonar a verdade como ilusão.
Sabendo que os signos são arbitrários e podem ser sequestrados, o diácono deve adotar uma postura comunicativa precisa. Não deve desistir da linguagem, mas utilizá-la com precisão cirúrgica. Deve definir os termos antes do debate, perguntando explicitamente: "Quando você diz 'graça', o que quer dizer exatamente?". Deve recusar o campo semântico do inimigo, não chamando de "casamento" o que Deus chama de imoralidade, nem de "amor" o que a Bíblia chama de permissividade. Finalmente, deve viver o significado correto, de modo que sua própria vida se torne um signo visível da verdadeira graça: firme contra o pecado, mas cheia de misericórdia.
A referência a Eco é útil como ferramenta diagnóstica, mas insuficiente como fundamento epistemológico. Deve-se utilizá-la para demonstrar como a linguagem é distorcida, esclarecendo o mecanismo semiótico em operação, mas deixando claro que a solução não reside no ceticismo, e sim no retorno à Regula Fidei — a regra da fé entregue "uma vez por todas". O diácono é, antes de tudo, um guardião de significados sagrados, cuja responsabilidade consiste em preservar a integridade semântica da mensagem cristã diante das constantes tentativas de ressignificação ideológica.
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