A Unidade da Fé: Aspectos Objetivo e Subjetivo no Pensamento Bíblico-Reformado
A distinção teológica entre fé objetiva (fides quae creditur) e fé subjetiva (fides qua creditur) constitui uma das questões mais relevantes para a compreensão sistemática da soteriologia cristã, embora tal distinção demande cautela hermenêutica para que não se configure em dualismo não autorizado pelas Escrituras Sagradas. A resposta mais precisa à questão que se coloca — se existiriam dois princípios de fé — é negativa: não há dois princípios de fé, mas tão-somente dois aspectos ou usos distintos de uma única fé.
A teologia bíblica e reformada compreende que a pistis (fé) é uma só, podendo, contudo, ser considerada sob dois ângulos analíticos. Como habitus, trata-se do instrumento pelo qual o pecador se une a Cristo, configurando-se como a confiança, a adesão da vontade e do entendimento à graça divina (cf. Heb 11:1; Ef 2:8). Como depositum, corresponde ao corpo de verdades reveladas por Deus nas Escrituras e confiado aos apóstolos, sendo o quid do credo, ou seja, aquilo que deve ser crido (cf. 1Tm 6:20; 2Tm 1:12-14). Paulo e Judas não apresentam doutrinas concorrentes, mas, sob a inspiração do mesmo Espírito Santo, enfatizam aspectos diferenciados da mesma realidade teológica, dirigindo-se a problemáticas distintas em seus respectivos contextos histórico-literários.
A formulação de "dois princípios" de fé implicaria a existência de duas fontes de autoridade, dois tipos de salvação ou duas realidades paralelas e autônomas, hipótese que deve ser rejeitada por fundamentos teológicos incontornáveis. O conteúdo (fé objetiva) existe para gerar o ato (fé subjetiva), de modo que a doutrina — o depositum — não constitui um fim em si mesma. O evangelho foi "entregue" para que fosse "crido", e o conhecimento objetivo das Escrituras visa produzir a confiança subjetiva em Cristo, pois sem o ato de crer, o conteúdo permanece como letra morta (cf. 2Co 3:6). Reciprocamente, o ato de fé (fé subjetiva) depende necessariamente do conteúdo (fé objetiva), uma vez que a fé que salva não se configura como confiança vazia ou genérica. No cristianismo histórico, o obiectum fidei possui importância constitutiva, e o próprio Paulo adverte que, se alguém pregar "outro Jesus" ou "outro evangelho", a fé depositada nesse objeto é inútil (2Co 11:4; Gl 1:6-9). Portanto, a fé subjetiva saudável é aquela que se apega ao conteúdo objetivo entregue pelos apóstolos.
A melhor maneira de visualizar a relação entre fé objetiva e fé subjetiva não é como duas entidades separadas, mas como dois lados da mesma moeda — distintos, porém inseparáveis. A fé objetiva (fides quae creditur) corresponde à revelação, à verdade, ao evangelho, respondendo à pergunta "O que devo crer?" (Quid credendum?). Judas enfatiza guardar o depósito contra heresias, enquanto Paulo apresenta Cristo como conteúdo da fé. Seu perigo, quando isolada, é a ortodoxia morta, pois Tiago adverte que "os demônios creem e tremem" (Tg 2:19). A fé subjetiva (fides qua creditur), por sua vez, corresponde à confiança, ao assentimento, à rendição pessoal, respondendo à pergunta "Como me aproprio disso?" (Quomodo credendum?). Judas enfatiza a luta como engajamento pessoal, enquanto Paulo ensina que pela fé pessoal somos justificados. Seu perigo, quando isolada, é o misticismo vazio sem ancoragem na verdade.
As próprias Escrituras demonstram que esses aspectos são inseparáveis. Em Romanos 10:8-10, Paulo une os dois aspectos em unidade sintética: a "palavra da fé" (conteúdo) está próxima, e com o coração se "crê" (ato) para a justiça, de modo que o quod e o quo operam conjuntamente na experiência salvífica. Em 1 Timóteo 1:19, Paulo exorta Timóteo a "conservar a fé" (conteúdo) e "a boa consciência" (vida de fé), demonstrando que o depósito doutrinário e a vivência pessoal caminham em conjunto inseparável. Em Judas 1:20, no mesmo versículo em que ordena lutar pela fé, Judas conclama: "edificando-vos na vossa santíssima fé", onde "fé" é simultaneamente a base objetiva sobre a qual se edifica e o exercício subjetivo de santificação.
Não há dois princípios de fé, pois tal afirmação criaria uma dicotomia artificial entre crer e saber, entre experiência e doutrina — dualismo não autorizado pela teologia bíblica. O que se constata é uma única fé que se manifesta de forma integrada: objetivamente, como o evangelho imutável, o depositum confiado à Igreja, que deve ser guardado, defendido e transmitido intacto às gerações futuras; subjetivamente, como o instrumento pessoal pelo qual o pecador arrependido abraça esse evangelho, confia em Cristo e é justificado perante Deus. A luta pela fé, conforme enfatiza Judas, destina-se precisamente a preservar a pureza do conteúdo objetivo, para que a fé subjetiva, conforme ensina Paulo, continue sendo verdadeiramente salvífica. Se o conteúdo se corrompe, o ato de crer torna-se vão; se o ato de crer não existe, o conteúdo permanece morto. Portanto, a teologia bíblica exige que se mantenham os dois aspectos unidos, sem confundi-los, mas também sem separá-los em "dois princípios" distintos. A fides quae creditur e a fides qua creditur constituem, em última instância, a mesma fé cristã considerada sob duas perspectivas — a da graça objetivamente revelada e a da graça subjetivamente experimentada — em perfeita unidade teológica.
Referências:
Bíblia Sagrada (Almeida Revista e Corrigida);
Calvino, João. Institutas da Religião Cristã;
Bavinck, Herman. Reformed Dogmatics;
Murray, John. Redemption Accomplished and Applied;
Berkhof, Louis. Systematic Theology.
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