O Tríptico da Dúvida.

O Tríptico da Dúvida: "Missa do Galo", "A Igreja do Diabo" e "O Segredo de Augusta" como Variantes de uma Hermenêutica da Impossibilidade


1. Introdução: três contos, uma estrutura

Publicados entre 1883 e 1893, "A igreja do Diabo", "O segredo de Augusta" e "Missa do Galo" constituem um tríptico hermenêutico: três abordagens do enigma, três registros temáticos, uma mesma estrutura de indeterminação. Se "Missa do Galo" opera no campo do desejo erótico-religioso, "A igreja do Diabo" desloca-se para o terreno da instituição eclesiástica, e "O segredo de Augusta" para o âmbito da moralidade burguesa. Em cada um, a hermenêutica da impossibilidade assume configurações distintas, revelando a versatilidade do método machadiano.


2. "A igreja do Diabo" (1883): a hermenêutica institucional

O conto narra a história de um padre que, cansado da hipocrisia da Igreja oficial, funda uma "igreja do Diabo" onde se pratica o mal abertamente, como forma de sinceridade. O final revela que tudo era um sonho — ou não: o narrador desdiz a interpretação onírica, sugerindo que talvez o sonho fosse a própria realidade.


2.1. A instituição como texto

Se em "Missa do Galo" o objeto hermenêutico é o desejo individual, em "A igreja do Diabo" é a Igreja como instituição interpretativa. A Igreja católica, na tradição filológico-teológica, é o guardiã do método hermenêutico: ela fixa o canôn, estabelece as regras de leitura, media entre o texto sagrado e o fiel. Machado subverte essa função: a Igreja no conto é aparato de dissimulação, não de revelação.

O padre-protagonista propõe uma contra-hermenêutica: se a Igreja oficial lê o mundo como bem (mas pratica o mal), sua igreja lerá o mundo como mal (mas praticará a sinceridade). Essa inversão, contudo, não resolve o problema hermenêutico — apenas o duplica. O mal, quando institucionalizado, torna-se tão convencional quanto o bem; a sinceridade forçada é tão falsa quanto a hipocrisia.


2.2. O sonho como aporia

O final do conto é uma aporia estrutural: "Era sonho? Não era sonho?". Esta indeterminação não é recurso literário menor, mas teoria do conhecimento em ação. A distinção entre realidade e sonho pressupõe um critério de verdade que o texto recusa fornecer. Se era sonho, a crítica à Igreja é desarmada (não passou de devaneio); se não era, a crítica é redobrada (a realidade é tão absurda quanto o sonho). Ambas as leituras são igualmente válidas e igualmente insuficientes.

Comparativamente: enquanto "Missa do Galo" suspende o juízo moral (adulterou ou não?), "A igreja do Diabo" suspende o juízo ontológico (aconteceu ou não?). A hermenêutica da impossibilidade, aqui, atinge o fundamento da realidade.


3. "O segredo de Augusta" (1892): a hermenêutica social

O conto apresenta Augusta, mulher casada, que possui um "segredo" nunca revelado ao leitor. Sua amiga, D. Fernanda, tenta descobri-lo; o narrador, posicionado como observador, também especula. O segredo permanece oculto, mas sua existência transforma Augusta em objeto de fascinação.


3.1. O segredo como commodity

Em "Missa do Galo", o não-dito é estrutural (o desejo não pode ser nomeado); em "O segredo de Augusta", o não-dito é socialmente produzido. A burguesia machadiana, como observa Roberto Schwarz, vive da aparência: o que importa não é o que se é, mas o que se parece ser. O segredo de Augusta funciona como capital simbólico — seu valor reside precisamente na não-revelação.

A hermenêutica social opera aqui como economia da curiosidade: D. Fernanda e o narrador investem energia interpretativa na descoberta do segredo, mas esse investimento não busca retorno, apenas a manutenção do investimento mesmo. O segredo, uma vez revelado, perderia valor; a dúvida, mantida, gera renda simbólica contínua.


3.2. A mulher como enigma

A comparação com "Missa do Galo" é reveladora. Ambos os contos têm narradoras femininas (ou focalizadas por mulheres) cujo interior é inacessível. Mas enquanto a viúva de "Missa do Galo" narra sua própria opacidade (sabe que não sabe), Augusta performa sua opacidade (sabe que os outros não sabem, e lucra com isso).

Isso introduz uma terceira camada hermenêutica: em "Missa do Galo", temos leitor → narradora → evento; em "O segredo de Augusta", temos leitor → narrador → D. Fernanda → Augusta → segredo. Cada mediação aumenta a distância interpretativa, mas também aumenta o prazer da mediação. A hermenêutica da impossibilidade, aqui, é erótica social: o desejo de saber substitui o saber, e a sedução da interpretação substitui a interpretação bem-sucedida.


4. Tabela comparativa: três modos de indeterminação

Aspecto "A igreja do Diabo" (1883) "O segredo de Augusta" (1892) "Missa do Galo" (1893) 

Registro temático Instituição religiosa Moralidade burguesa Desejo erótico-religioso 

Objeto hermenêutico Realidade vs. sonho Segredo social Culpa vs. inocência 

Tipo de indeterminação Ontológica (aconteceu?) Social (existe o segredo?) Moral/psicológica (houve ato?) 

Narrador Homem, autoritário, duvidoso Homem, voyeur, frustrado Mulher, auto-ocultante, ambígua 

Instituição em questão Igreja Católica Casamento burguês Liturgia católica 

Efeito no leitor Desestabilização ontológica Complicidade voyeurística Identificação melancólica 

Tempo narrativo Presente onírico Presente social Passado rememorado 

Teologia correspondente Teologia negativa (Deus oculto) Teologia da glória (aparência) Teologia da dúvida (indeterminação) 


5. A hermenêutica da impossibilidade como método geral


Esses três contos permitem sistematizar a hermenêutica machadiana em três princípios:

Princípio da equidistância: o texto mantém abertas interpretações incompatíveis, sem favorecer nenhuma. Em "A igreja do Diabo", sonho e realidade têm peso igual; em "O segredo de Augusta", a existência e a inexistência do segredo são igualmente plausíveis; em "Missa do Galo", culpa e inocência coexistem.

Princípio da regressão infinita: toda interpretação gera necessidade de mais interpretação. O narrador de "A igreja do Diabo" interpreta o sonho, depois interpreta a interpretação; D. Fernanda especula sobre o segredo, gerando novas especulações; a viúva relembra, questionando o próprio relembrar.

Princípio do efeito de vazio: a indeterminação não é defeito a ser sanado, mas efeito estético buscado. O vazio hermenêutico é o lugar onde o leitor é forçado a confrontar sua própria projeção interpretativa — não o sentido do texto, mas o texto como espelho do desejo de sentido do leitor.


6. Implicações: além da hermenêutica filosófica

Gadamer e Ricœur, como vimos, pressupõem que a interpretação, embora histórica, ainda assim enriquece o sentido. Machado demonstra que há um limite onde a interpretação não enriquece, apenas repete a estrutura do vazio.


Este limite tem consequências:

Para a teoria literária: a hermenêutica da impossibilidade sugere que a "abertura" do texto (Eco) ou a "escrita" (Derrida) não são invenções do século XX, mas já operavam na ficção realista brasileira — precisamente como crítica interna ao realismo.

Para a história das ideias: Machado antecipa não apenas a hermenêutica filosófica, mas sua deconstrução pós-moderna. Se Gadamer é a "idade de ouro" da hermenêutica (sentido possível) e Derrida é a "idade de ferro" (sentido impossível), Machado é a idade do limiar — onde a possibilidade e a impossibilidade se tocam.

Para a crítica brasileira: a leitura de Roberto Schwarz, que enfatiza a "ideia fora do lugar" de Machado, pode ser complementada por uma leitura que enfatize a dúvida fora do lugar — a impossibilidade de fixar sentido como marca da modernidade periférica.


7. Conclusão: o tríptico como teoria da ficção

Lidos em conjunto, "A igreja do Diabo", "O segredo de Augusta" e "Missa do Galo" constituem uma teoria da ficção machadiana. Cada conto explora uma dimensão da indeterminação: a ontológica, a social, a psicológica. Juntos, demonstram que a hermenêutica da impossibilidade não é um recurso temático (aplicável apenas a certos assuntos), mas uma estrutura formal (aplicável a qualquer assunto).

A comparação com Gadamer e Ricœur, novamente, revela a especificidade de Machado. Para os filósofos hermenêuticos, o texto é diálogo — mesmo que infinito, mesmo que histórico, ainda assim diálogo. Para Machado, o texto é monólogo que se desfaz — a voz que fala para si mesma, descobrindo que não há interlocutor, nem mesmo em si mesma.

A "aplicação" de Gadamer e Ricœur a esses três contos produz, portanto, não uma interpretação, mas uma auto-refutação hermenêutica: o método filosófico, levado ao limite, demonstra sua própria insuficiência. E é precisamente essa insuficiência que Machado celebra — não como tragédia, mas como condição da literatura moderna.


Referências

Assis, Machado de. Contos completos. Organização de João Cezar de Castro Rocha. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006.

Schwarz, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades, 2000.

Schwarz, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. São Paulo: Duas Cidades, 1990.

Gadamer, Hans-Georg. Verdade e método. Petrópolis: Vozes, 1999.

Ricœur, Paul. Tempo e narrativa. Campinas: Papirus, 1994.

Derrida, Jacques. De la grammatologie. Paris: Minuit, 1967.

Eco, Umberto. Lector in fabula. Milano: Bompiani, 1979.

Iser, Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. São Paulo: Edusp, 1996.

Jauss, Hans Robert. Experiência estética e hermenêutica literária. São Paulo: Edusp, 1994.

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