A aproximação entre a tipologia textual proposta e a fenomenologia do tempo desenvolvida por Mircea Eliade revela-se fecunda, embora exija cautela metodológica. Eliade distingue, em sua obra clássica, o tempo sagrado — circular, reversível e hierofânico — do tempo profano — linear, cronológico e irreversível. A aplicação dessa chave analítica aos dois conjuntos textuais em questão permite discernir com maior nitidez as razões de sua diferente resiliência diante da erosão temporal.
Os textos religiosos e míticos operam predominantemente no tempo sagrado: narram o illo tempore, as gestas de deuses e heróis culturais, e os rituais que reatualizam o mito. Daí deriva sua notável resistência à obsolescência, pois cada cópia ou transmissão não constitui uma "atualização técnica", mas a repetição fiel de uma revelação atemporal. Nesse horizonte hermenêutico, a variação textual, quando ocorre, tende a ser interpretada como corrupção a ser restaurada, e jamais como progresso.
Em contrapartida, os textos técnico-científicos operam no tempo profano: registram observações datáveis, resultados de experimentos e soluções para problemas contingentes. Cada nova versão visa superar a anterior, de modo que o movimento textual é cumulativo e irreversível. Nesse campo, a variação constitui signo de aperfeiçoamento, e não de degradação.
A comparação mediada por Eliade revela, em primeiro lugar, que a resiliência dos textos religiosos não deriva de superioridade material ou de "melhor qualidade" de suporte, mas da ontologia do tempo neles pressuposta: eles pretendem narrar o que é verdadeiro sempre, e não o que funcionou em determinado momento histórico. Em segundo lugar, medir o "desenvolvimento histórico" exclusivamente por meio de textos profanos implica privilegiar a métrica ocidental-moderna. Para o homem religioso antigo, o tratado de agricultura pode aperfeiçoar-se, mas o mito da criação não — este constitui a fundação que torna possível o próprio aperfeiçoamento no mundo profano. Em terceiro lugar, incorrer-se-ia em anacronismo metodológico ao aplicar ao texto sagrado a expectativa de progresso que cabe, por natureza, ao texto técnico.
Assim, a comparação entre os dois tipos de resiliência textual é não apenas possível, mas esclarecedora, desde que não se tome a permanência do texto mítico como expressão de "primitivismo técnico", mas como manifestação material de uma experiência temporal radicalmente diversa, irredutível às categorias do tempo profano ocidental.
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