1. A parábola como texto pré-secular: limites metodológicos para aplicações diretas
A parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,10-14, NA28) não pode ser utilizada como texto fundante para uma discussão direta acerca do secularismo. Essa reserva metodológica fundamenta-se em três constatações textuais. Primeiramente, o cenário narrativo pressupõe um ambiente sagrado compartilhado: ambos os personagens encontram-se no Templo, locus da presença divina e centro da vida litúrgica judaica. Em segundo lugar, a parábola opera com um pressuposto transcendente inequívoco, uma vez que tanto o fariseu quanto o publicano se dirigem a Deus como realidade pessoal e moralmente relevante. Terceiro, a linguagem empregada pelos personagens é intrinsecamente litúrgica, mesmo no caso do publicano, cuja fala direta — "Deus, propícia-te a mim, o pecador" (Lc 18,13) — mobiliza categorias religiosas como pecado, misericórdia e juízo divino. O secularismo, conforme o diagnóstico clássico de Charles Taylor em *A Secular Age*, implica uma "mutualidade" na qual a transcendência deixou de constituir o horizonte inevitável da existência humana. Nesse sentido, a parábola é estritamente pré-secular, e qualquer aplicação direta incorreria em anacronismo hermenêutico.
2. Uma analogia estrutural: a "morte da consciência de Deus" como resquício secular na figura do fariseu
Não obstante os limites metodológicos acima delineados, é possível estabelecer uma ponte analógica indireta entre a condição do fariseu e o fenômeno do secularismo. A contribuição hermenêutica reside na seguinte proposição: o fariseu não está imune ao pecado, mas está imune à consciência do pecado — e essa "morte da consciência de Deus" funciona como análogo estrutural do secularismo.
A analogia pode ser sistematizada da seguinte forma. O fariseu fala de Deus, porém não se dirige a Deus como juiz; de modo correlato, o homem moderno secularizado fala de "Deus" como conceito cultural, mas perdeu a relação existencial com a transcendência. O fariseu utiliza linguagem religiosa para autojustificação; o homem secular emprega categorias religiosas esvaziadas — como "espiritualidade" sem juízo ou "fé" sem conteúdo objetivo. O fariseu não reconhece sua própria condição de réu diante de Deus; o homem secular não reconhece que está diante de um juízo transcendente. Em ambos os casos, a "consciência de Deus" está morta: no fariseu, embora Deus exista objetivamente; no homem moderno, como diagnóstico cultural.
3. Fundamentação teológica: Tillich e Nietzsche como interlocutores
A referência a Paul Tillich e Friedrich Nietzsche é precisa e hermenêuticamente produtiva. Em *A Coragem de Ser*, Tillich interpreta a proclamação nietzscheana "Deus está morto" não como declaração ontológica acerca da inexistência de Deus, mas como diagnóstico cultural: o Deus que "morreu" é o Deus como ser supremo, o garantidor de sentido e moral para a civilização ocidental. O que resta é o "abismo" (*Grund*), que Tillich designa como "Deus acima de Deus". A aplicação aqui proposta, contudo, é ainda mais direta: a consciência de Deus — entendida como a capacidade de se perceber como criatura diante do Criador, como réu diante do Juiz — é o que efetivamente está morto no homem moderno. Essa condição corresponde estruturalmente à do fariseu na parábola: ele possui teologia, possui ritual, mas carece de consciência de estar diante do Deus vivo.
4. Resposta a uma objeção possível
Poder-se-ia objetar que o fariseu não é secular, mas religiosamente hipócrita, e que o secularismo configura indiferença, não arrogância religiosa. A resposta a essa objeção é a seguinte: a arrogância religiosa do fariseu produz o mesmo efeito prático que o secularismo produz no homem moderno, a saber, a ausência de uma relação real com Deus como juiz. O fariseu está imune à consciência do pecado porque sua religiosidade o blindou; o homem secular está imune à mesma consciência porque a transcendência foi removida de seu horizonte existencial. Trata-se de causas distintas — blindagem religiosa versus exclusão transcendental —, mas de consequência existencial idêntica: a morte da consciência de Deus.
5. Conclusão
Os argumentos aqui apresentados são plausíveis, bem fundamentados e exegeticamente respeitosos, na medida em que não forçam a parábola a falar diretamente de secularismo, mas propõem uma analogia estrutural. A articulação final — que vincula o fariseu, imune ao pecado mas não imune à consciência do pecado, ao diagnóstico tillichiano da "consciência de Deus morta" no homem moderno — constitui uma contribuição hermenêutica legítima e criativa.
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