Pontos de aproximação entre Paul Tillich e Paul Ricouer.

Existem pontos de aproximação entre o pensamento de Paul Ricouer e Paul Tillich? Primeiramente é importante afirmar que a comparação entre Paul Ricoeur e Paul Tillich no tratamento do símbolo religioso é muito pertinente, pois ambos são pilares do pensamento protestante do século XX que colocaram a noção de símbolo no centro de sua reflexão sobre a fé. No entanto, suas abordagens partem de tradições filosóficas distintas e levam a consequências teológicas diferentes. O que podemos fazer é traçar as semelhanças e, principalmente, as diferenças:


Pontos de Aproximação (Convergências Fundamentais)

1. Rejeição do Literalismo e da Demitologização Radical: Ambos se opõem a uma leitura literalista (fundamentalista) dos textos sagrados e também a uma demitologização que, como a de Rudolf Bultmann, buscasse eliminar o mito para encontrar um suposto "cerne" filosófico ou existencial. Para ambos, o símbolo é insubstituível e irredutível.

2. O Símbolo como "Abertura" ou "Transparência": Para Tillich e Ricoeur, o símbolo não é um signo arbitrário. Ele participa da realidade que simboliza e a torna presente. O símbolo religioso "abre" uma dimensão do Real (o Sagrado, o Fundamento do Ser) que de outra forma permaneceria inacessível. É uma janela para o transcendente.

3. Função Existencial e Constitutiva: Em ambos, os símbolos não são apenas objetos de conhecimento, mas moldam a existência do crente. Eles respondem a questões humanas profundas (a finitude, a culpa, o sentido) e nos interpretam antes de nós os interpretarmos. Eles estruturam nossa experiência do mundo e de nós mesmos.

4. A Crise do Símbolo na Modernidade: Ambos partem do diagnóstico de que a linguagem religiosa simbólica entrou em crise na cultura secular moderna e buscam um caminho para recuperar seu significado e poder, sem cair no dogmatismo.


Pontos de Afastamento (Divergências Cruciais). Aqui reside a riqueza da comparação. As diferenças são, em grande parte, derivadas de seus métodos filosóficos de base. Segue um quadro básico do perfil de abordagem de ambos, por sua ordem respectivamente: 

Paul Tillich / Paul Ricoeur

TILLICH _ Ponto de Partida Ontologia e Teologia Sistemática. Sua pergunta é: "O que é o Ser?" e "Como o Divino se manifesta na estrutura do Ser?". O símbolo é analisado a partir de uma teologia da cultura. 

RICOEUR _ Fenomenologia e Hermenêutica Filosófica. Sua pergunta é: "Como o ser humano compreende a si mesmo através dos signos?" e "Como interpretar textos?". O símbolo é abordado a partir de uma filosofia da linguagem e da narrativa.

TILLICH _ Natureza do Símbolo Correlação entre a questão humana e a resposta divina. O símbolo surge da "fonte" do Sagrado (o Fundamento do Ser) e aponta para ela. Ele é uma expressão da preocupação última (ultimate concern). É mais estático e ontológico. 

RICOUER _ Mediação linguística e narrativa. O símbolo é primeiramente um evento de discurso que chega até nós através de textos, mitos, narrativas. Sua análise passa necessariamente pelo labor da interpretação (hermenêutica). É mais dinâmico e histórico.

TILLICH _ Método de Acesso Intuição Correlacional. O teólogo/filósofo estabelece uma correlação entre as situações existenciais de desespero, finitude, etc., e os símbolos cristãos que as respondem (ex: o símbolo "Cruz" responde à experiência do sofrimento e da ambiguidade). 

RICOUER _ Arco Hermenêutico. O acesso ao símbolo é mediado e indireto. Requer um longo desvio: passar pela crítica histórica, análise estrutural, compreensão do gênero literário, para então poder "escutar" o símbolo de novo numa "segunda ingenuidade". A desmitologização (crítica) é uma etapa necessária.

TILLICH _ Relação com a História A História é o lugar da manifestação (theophany), mas o símbolo em si tem um caráter supra-histórico. O evento de Jesus como o Cristo é o símbolo central por excelência, porque une a finitude histórica com a manifestação do Novo Ser. A historicidade do texto e da recepção é constitutiva. 

RICOUER _ O significado do símbolo está inextricavelmente ligado à trama narrativa (plot) e à tradição de interpretação que o carrega. A Ressurreição, por exemplo, é um símbolo inextricável da narrativa pascal.

TILLICH _ Exemplo Prático: A "Ressurreição" Para Tillich, a Ressurreição é o símbolo principal do "Novo Ser", da vitória sobre a alienação e a morte existencial. Ela aponta para uma nova realidade ontológica, participável na fé. Questionar sua factualidade histórica é perder seu sentido simbólico. 

RICOUER _ Para Ricoeur, a Ressurreição é um evento narrativo que constitui o clímax das narrativas pascais. Seu significado surge da sua posição na trama e do seu poder para reconfigurar a experiência temporal dos discípulos (e dos leitores). A hermenêutica deve trabalhar o texto que a proclama.


Em suma, onde se Tocam e Onde se Separam:

· Aproximam-se na função do símbolo: ambos o veem como o meio privilegiado, insubstituível e participativo de acesso ao Sagrado, que estrutura a existência humana.

· Afastam-se na rota de acesso e no estatuto do símbolo:

  · Tillich parte de cima para baixo, da ontologia para a existência. Seu método é mais sistemático-sintético. O símbolo é uma resposta revelada a uma pergunta humana.

  · Ricoeur parte de baixo para cima, da linguagem e do texto para a existência. Seu método é mais crítico-hermenêutico. O símbolo é um convite à interpretação que nos chega através das mediações culturais e históricas. Em uma imagem: Tillich nos oferece um mapa sistemático do território simbólico, mostrando como cada símbolo se conecta ao Fundamento do Ser. Ricoeur nos ensina a arte de viajar e ler os mapas antigos (os textos) que descrevem esse território, sabendo que cada leitura é uma nova jornada de interpretação. Pode-se dizer então que Tillich elabora uma teologia dos símbolos, enquanto Ricoeur elabora uma hermenêutica dos textos simbólicos. Suas abordagens são profundamente complementares e representam duas das contribuições mais sofisticadas do protestantismo à compreensão da linguagem religiosa na modernidade.


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