Conteúdo analítico e historiográfico que tratava tanto da evolução quanto da involução dos pressupostos bíblico-exegéticos dos teólogos da assembleia de Westminster.
Este texto, trata-se de uma observação historiográfica pertinente e conceitualmente precisa. Com efeito, há uma ironia histórica digna de nota: os teólogos que participaram da redação da Confissão de Westminster (1643–1648) operavam com uma metodologia textual significativamente mais crítica — no sentido filológico e comparativo do termo — do que muitos de seus herdeiros teológicos nos séculos XVIII e XIX. Estes últimos, em diversos contextos, passaram a adotar posturas mais defensivas e dogmáticas diante da crítica textual.
A hipótese segundo a qual o Iluminismo constitui o principal divisor de águas nesse processo é fundamentalmente correta. Todavia, a mudança de atitude no interior da teologia reformada pós-Westminster não pode ser explicada por um único fator, mas deve ser compreendida como o resultado de um conjunto de transformações epistemológicas, teológicas e culturais interligadas. A análise pode ser organizada em camadas históricas e conceituais.
1. O Contexto da Assembleia de Westminster (século XVII)
Os teólogos puritanos reunidos em Westminster eram herdeiros diretos do humanismo cristão renascentista, particularmente da tradição inaugurada por Erasmo de Roterdã e assimilada pelos reformadores do século XVI. Tal tradição enfatizava o princípio ad fontes, isto é, o retorno às línguas originais — hebraico e grego — em oposição à primazia da Vulgata latina. Nesse contexto, a crítica textual não era percebida como ameaça à fé, mas como instrumento legítimo para a recuperação do texto mais próximo possível das formas originais das Escrituras.
Além disso, esses teólogos sustentavam uma doutrina robusta da providência divina e da clareza das Escrituras. Acreditava-se que Deus havia preservado, de modo suficiente e eficaz, o conteúdo essencial da revelação bíblica para uso da Igreja. A existência de variantes textuais era entendida como um dado normal do trabalho filológico, e não como um problema teológico. Por essa razão, o uso de notas marginais, indicando leituras alternativas, era amplamente aceito, como demonstram a Bíblia de Genebra e outras traduções do período.
Esse posicionamento também possuía uma dimensão polêmica explícita. O recurso aos textos originais funcionava como estratégia teológica contra a autoridade da tradição católica romana, especialmente contra a supremacia da Vulgata e do magistério eclesiástico. A autoridade final residia no texto bíblico em suas línguas originais, e não na mediação institucional da Igreja.
2. As Transformações Pós-Westminster (séculos XVIII–XIX): a chamada “Grande Reversão”
Nos séculos posteriores, observa-se uma inflexão significativa: a postura filológica relativamente aberta cede lugar a uma atitude defensiva e normatizadora. Tal mudança decorre da convergência de fatores externos e internos ao protestantismo.
a) O impacto do Iluminismo e da crítica radical (fator externo predominante)
O principal adversário teológico deixa de ser o Catolicismo Romano e passa a ser o racionalismo cético emergente. Autores como Baruch Spinoza, Richard Simon e, posteriormente, representantes do Iluminismo radical, empregaram questões de autoria, historicidade e variantes textuais para questionar não apenas a transmissão do texto bíblico, mas também sua integridade e autoridade divina.
Diante desse cenário, muitos teólogos vinculados à ortodoxia protestante — reformados, luteranos e anglicanos — reagiram de forma defensiva. A crítica textual passou a ser associada ao ceticismo e à erosão da fé, e não mais a uma ferramenta filológica legítima. Como consequência, um texto específico, o Textus Receptus, foi progressivamente elevado à condição de texto providencialmente preservado, funcionando como um padrão normativo imune à crítica.
Essa reação revela uma busca por certeza absoluta em um contexto no qual a razão autônoma colocava sob suspeita todas as autoridades tradicionais. O Textus Receptus, por estar na base das primeiras traduções protestantes — como as de Lutero, Tyndale e a King James Version —, foi investido de uma autoridade quase sacral, sendo concebido como um texto perfeito e imutável.
b) Desenvolvimentos internos ao protestantismo: fundamentalismo e dispensacionalismo
No século XIX, o surgimento do dispensacionalismo, seguido no início do século XX pelo fundamentalismo, contribuiu para a consolidação dessa postura. A defesa do Textus Receptus e, em particular, da King James Version, passou a integrar um pacote doutrinário mais amplo, associado à resistência ao modernismo teológico.
Nesse contexto, difundiu-se uma narrativa conspiratória segundo a qual manuscritos mais antigos, como o Codex Vaticanus e o Codex Sinaiticus, seriam textual e teologicamente “corruptos”, supostamente rejeitados pelos reformadores. A crítica textual moderna passou a ser vista como uma estratégia liberal destinada a minar a autoridade das Escrituras. Em suas formas mais extremas, essa posição é conhecida como King James Onlyism ou, de maneira mais ampla, como teologia do texto majoritário.
c) O avanço da crítica textual científica
Paradoxalmente, foi nesse mesmo período que a crítica textual alcançou maior rigor metodológico. Pesquisas conduzidas por estudiosos como Karl Lachmann, Constantin von Tischendorf e, sobretudo, Brooke Foss Westcott e Fenton John Anthony Hort demonstraram que o Textus Receptus se baseava em um conjunto limitado de manuscritos tardios, majoritariamente medievais. Em contraste, manuscritos significativamente mais antigos, datados dos séculos III e IV, apresentavam leituras divergentes em numerosas passagens.
A publicação do texto crítico de Westcott e Hort, em 1881, constituiu um marco decisivo. Contudo, para muitos teólogos conservadores, esse avanço foi interpretado não como progresso científico, mas como uma ameaça à herança da Reforma. A associação dos principais manuscritos antigos ao Vaticano reforçou a percepção de que o novo texto crítico representaria uma “recatolização” do Novo Testamento.
Conclusão: a ironia historiográfica
A mudança fundamental, portanto, não reside no método em si, mas na reconfiguração do campo de batalha teológico. Os teólogos de Westminster, engajados na controvérsia contra a tradição católica romana, viam a filologia humanista e a crítica textual como aliadas indispensáveis. Já seus sucessores dos séculos XVIII e XIX, confrontados com o ceticismo racionalista e o liberalismo teológico, passaram a perceber essas mesmas ferramentas como ameaças à fé cristã.
A necessidade de defender a Bíblia como fundamento inabalável em uma era marcada pela dúvida conduziu à sacralização de uma forma textual específica — o Textus Receptus — e à rejeição do método filológico que havia sido amplamente empregado pelos próprios autores da Confissão de Westminster. Somente a partir da segunda metade do século XX, com contribuições de estudiosos evangélicos como F. F. Bruce e Bruce Metzger, e com a formulação de uma doutrina da inerrância dos autógrafos compatível com a crítica textual, é que setores significativos da tradição reformada começaram a recuperar uma postura mais próxima daquela adotada no século XVII, conciliando rigor acadêmico e compromisso confessional com a autoridade das Escrituras.
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