Os finais do Evangelho de Marcos e a Critica Textual.

Os finais do Evangelho de Marcos e a crítica textual: introdução metodológica


Entre os problemas mais discutidos da crítica textual do Novo Testamento, os finais do Evangelho de Marcos (Mc 16,8–20) ocupam posição singular. Não se trata apenas de uma variante isolada, mas de um conjunto de soluções transmissivas que revelam tensões profundas entre texto, narrativa e recepção. A edição crítica Nestle-Aland 28 (NA28) torna esse fenômeno particularmente visível ao apresentar, de forma controlada, o final em 16,8, o chamado final breve e o final longo (16,9–20), sem reduzi-los a uma síntese editorial artificial.


Do ponto de vista dos testemunhos manuscritos, o encerramento em Mc 16,8 é sustentado pelos códices Sinaiticus (א) e Vaticanus (B), amplamente reconhecidos como representantes de alta qualidade textual. Esse dado externo é reforçado por critérios internos: o final abrupto, marcado pelo medo das mulheres e pelo silêncio diante do anúncio da ressurreição, corresponde a um desfecho literariamente difícil e teologicamente desconcertante. Conforme observa Metzger, trata-se de um caso paradigmático em que a leitura mais problemática apresenta maior probabilidade de originalidade (METZGER; EHRMAN, 2005).


A metodologia adotada neste estudo segue os princípios da crítica textual eclética, conforme sistematizados por Aland e Aland (1989), articulando a avaliação dos testemunhos externos com a análise interna do texto. Nesse sentido, o final longo de Marcos apresenta diferenças significativas de vocabulário, estilo e construção narrativa em relação ao restante do evangelho, além de dependência clara de tradições presentes nos demais evangelhos canônicos. Esses elementos apontam para uma origem secundária, ainda que historicamente influente.


Entretanto, limitar a análise à identificação do texto mais antigo seria metodologicamente insuficiente. Em consonância com abordagens contemporâneas da crítica textual, especialmente aquelas desenvolvidas por Ehrman (1993), este estudo considera as variantes como evidências históricas da recepção do texto. Os acréscimos finais não são interpretados apenas como corrupções, mas como respostas interpretativas ao silêncio de Mc 16,8. O fato de alguns manuscritos preservarem mais de um final sugere que certos copistas reconheceram a instabilidade textual e optaram por transmiti-la, em vez de resolvê-la.


Dessa forma, os finais de Marcos são abordados aqui como um fenômeno textual dinâmico, no qual a história narrada e a história da transmissão se entrelaçam. A crítica textual, tal como refletida na NA28, não encerra a questão do final do evangelho, mas fornece os instrumentos para compreender por que Marcos foi lido, copiado e concluído de maneiras distintas. O silêncio do texto em 16,8 não é apenas um problema a ser corrigido, mas um ponto de partida para a própria história de sua recepção.



Referências


ALAND, Kurt; ALAND, Barbara. The Text of the New Testament: An Introduction to the Critical Editions and to the Theory and Practice of Modern Textual Criticism. 2. ed. Grand Rapids: Eerdmans, 1989.


EHRMAN, Bart D. The Orthodox Corruption of Scripture: The Effect of Early Christological Controversies on the Text of the New Testament. New York: Oxford University Press, 1993.


METZGER, Bruce M.; EHRMAN, Bart D. The Text of the New Testament: Its Transmission, Corruption, and Restoration. 4. ed. New York: Oxford University Press, 2005.


NESTLE-ALAND. Novum Testamentum Graece. 28. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2012.


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