A memória histórica e a memória afetiva.

 Texto - Neemias 1:1-11


ICT - A relação do povo de Deus com seu Deus mediada pela memória afetiva e memória histórica de Neemias.


A grande questão que se nos apresenta é: Qual dessas memórias deve ocupar o espaço privilegiado no horizonte de nossas experiências?


                               Introdução 

Nesse tempo de ministério pastoral que tenho, não é muito comum de minha parte fazer reflexões ou até mesmo pregar em textos do Antigo Testamento. No momento de preparação deste sermão lembrei do que eu, pastor Edvan e a diaconia Elinete ouvimos do pastor de uma igreja Batista aqui da nossa região. Ele disse que uma referida igreja próxima a dele tinha como norma para seu pastoreio que o pastor pregasse apenas nos textos do Novo Testamento. Esse não é o meu caso, e com certeza se tivesse que escolher algo dessa natureza eu preferiria abrir mão de um ministério se o mesmo tivesse como norma uma imposição como esta. Outro detalhe que carece de um melhor entendimento, diz respeito a composição dessa obra, e principalmente um melhor conhecimento de sua autoria. Muito embora ao se tratar de autoria nos livros da Bíblia, fica sempre aquela dúvida instalada em nome de uma crítica textual bastante liberal. É comum entendermos que uma autoria atribuída a Neemias, não está de todo descartada. Aliás, no cânon judaico Esdras/Neemias é tido como uma obra única cuja autoria é atribuída a Esdras, o escriba. uma questão  que deve ser respondida de imediato é a explicação para a presença de Neemias na cidadela de Susã? Bem, ele exercia um ofício de muita responsabilidade. Ele era o copeiro do rei conforme o relato do versículo 11 deste capítulo primeiro. E o mês de Quislev ou Kislev é uma contagem de tempo no calendário judaico e corresponde aos meses de novembro e dezembro. A temperatura em Susã nesta época do ano correspondia a uma média entre 10⁰C e 20⁰C, mas podia cair para próxima de 0⁰C à noite. É uma das épocas mais amenas do ano. Outro dado que precisa e pode ser esclarecido é o porquê dos persas estarem em Susã? Susã era uma espécie de residência de inverno. Mas, também funcionava como uma das capitais sazonais do império. Os aquemênidas eram reis itinerantes. Havia outras duas capitais além de Susã para o inverno: Ecbátana para o verão por ser montanhosa e tinha um clima fresco. Atualmente tem o nome de Hamadan, e fica no Iran. Persépolis(cerimonial) era a capital itinerante do império durante a primavera/outono e ficava na Babilônia. A presença de Neemias em Susã no mês de Quisleu (novembro/dezembro) coincide exatamente com o período em que a corte real se instalava ali para o inverno.

Resolvida a questão organizacional e geográfica do império aquemênida (O primeiro e maior império persa, fundado por Ciro, o Grande de 550–530 a.C. e que dominou o Mundo Antigo do século VI ao IV a.C., tornando-se o maior império em extensão territorial até então, abrangendo três continentes Ásia, África e Europa. Uma outra dificuldade precisa ser resolvida acerca da ordem dos eventos tais quais são narrados em Esdras e Neemias. Há, portanto, uma questão cronológica não resolvida: Esdras 7 diz que Esdras chegou a Jerusalém no 7º ano de Artaxerxes (458 a.C. se for Artaxerxes I). Neemias 2 diz que Neemias chegou no 20º ano do mesmo rei (445 a.C.). Porém, em Neemias 8–10, Esdras e Neemias aparecem juntos (como se Esdras chegasse depois). Olhando pelo lado tradicional: Esdras veio antes (458 a.C.), Neemias depois (445 a.C.), e atuaram juntos posteriormente. Alguns críticos sugerem que Esdras veio depois de Neemias (no 7º ano de Artaxerxes II, 398 a.C.), e o editor reorganizou a narrativa. Mas, eu quero e tento conduzir esta reflexão tendo por base esses 11 versículos do capítulo primeiro, até para justificar uma proposição que defendo nesta palavra. E o objetivo tem por viés relacionar a sensibilidade de Neemias à memória histórica de seu povo quando foi levado para o cativeiro. O próprio Neemias é vítima e produto desse cativeiro. Muito embora ocupasse uma posição privilegiada na corte, ainda assim se preocupava com os que foram deixados para trás e as condições de vida em que se encontravam. E ao encontrar um de seus irmãos recém chegados de Judá, Hanani. Ele pergunta pelo remanescente que ficou em Jerusalém ao escaparem do exílio. A resposta de Hanani a Neemias foi desalentadora: Eles vivem, ou estão em grande miséria e desprezo. Jerusalém era uma cidade largada ao abandono. A reação de Neemias foi de muita contrição. Ele chorou, lamentou, jejuou e orou ao Deus dos Céus. Neste momento de contrição foi capaz de destacar a fidelidade de Deus para com sua aliança, porém, também destacou o quanto esse Deus era misericordioso para com aqueles que amam e guardam os seus 


                               Intercessão 

Há um aspecto no relato deste capítulo primeiro que é digno de nota e de ser amplamente comentado. Primeiro: Há uma mudança radical no comportamento de Neemias. Ele não é de linhagem sacerdotal como Esdras era. Não há qualquer tipo de relação entre ele e a tradição profética de Israel. O máximo que você tem de informação a seu respeito é que ele era filho de Hacalias. No entanto, o que ele faz a partir do verso 6 é uma oração de intercessão e de confissão  de pecados a Deus por ele por todo o povo, mesmo estando disperso.

O diferencial desta oração foi aquela declaração divina quando o templo de Salomão foi consagrado II Crônicas 7:14-15. Era o fato destacado agora por Neemias que ao clamar busca pela atenção divina: “Estejam, pois, atentos os teus ouvidos, e os teus olhos, abertos, para acudires à oração do teu servo, que hoje faço à tua presença, dia e noite, pelos filhos de Israel…”

Não há mais templo, mas este servo de Deus conserva a Memória litúrgica para a qual o templo de Salomão foi construído. É a intercessão pelos seus pecados e pelos pecados do povo.

O reconhecimento de que a situação em que seu povo se encontra é consequência da corrupção, da não observância dos mandamentos, nem os estatutos, nem os juízos que ordenaste a Moisés, teu servo.

A memória de que a Lei, a Torá é o parâmetro estabelecido por Deus, dado com promessa ao povo por intermédio de Moisés. A Torá seria o instrumento de se medir a fidelidade do povo para com Deus.

Caso este povo não a observasse a consequência seria que este povo seria espalhado pela terra. Ou seja, passariam por um processo de descaracterização. Isso está dado na expressão utilizada em Levítico 26:33-35, a terra descansará e folgará nos seus sábados. Neemias vive essa realidade. Sem templo, sem serviço litúrgico por causa da inexistência do templo, descanso e folga religiosa em pleno sábado.

E novamente Neemias apela para a sua memória ante a presença de Deus. Ele também invoca a memória do Senhor por intermédio do registro da escritura, a Lei. Quando ele faz isso, apela para a promessa divina de que se seu povo se converter e novamente guardar os mandamentos. Então, ainda que esses rejeitados estejam espalhados pelas extremidades do céu, de lá os ajuntarei e os trarei para o lugar que tenho escolhido para ali habitar o meu nome.

Quando Neemias apela para a misericórdia de Deus, ele relembra que pelo fato de terem transgredido a lei, os mandamentos e os estatutos do Senhor, não faz com que eles deixem de ser seu povo. Nessa oração Neemias já dá como certa que Deus fará uso de sua misericórdia para resgatar o seu povo com poder e com mão poderosa.Ele ainda insiste para que Deus esteja permanentemente com os ouvidos atentos a sua oração e a oração  daqueles que se agradam de temer o nome do Senhor.Ao final de sua oração ele ainda intercede a Deus para o momento em que estiver diante do rei por causa de sua função como copeiro do rei.










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