O Natal Lucano entre Teologia e Historicodade.

Tangenciamento Histórico como Categoria Metodológica na Análise de Fenômenos Religiosos:

o Natal Lucano entre Teologia e Historicidade


Resumo

O presente artigo propõe o conceito de Tangenciamento Histórico como categoria metodológica intermediária para a análise de fenômenos religiosos de projeção universal. Tal conceito visa superar a polarização entre historicismo estrito e ahistoricismo, reconhecendo a dimensão histórica das narrativas religiosas sem reduzi-las a produtos exclusivamente sociopolíticos. A partir dessa chave hermenêutica, analisa-se a narrativa do nascimento de Jesus no Evangelho de Lucas, especialmente sua referência ao censo associado a Quirino, frequentemente apontada como problema cronológico. Argumenta-se que a função primária da narrativa lucana é teológica, ainda que se apoie em elementos históricos tangenciais. O estudo dialoga com a historiografia do Novo Testamento e com a teologia sistemática do século XX, especialmente com Paul Tillich, Wolfhart Pannenberg e Paul Ricoeur, demonstrando a fecundidade do conceito proposto para pesquisas em Teologia e Ciências da Religião.

Palavras-chave: Tangenciamento Histórico; Natal; Evangelho de Lucas; Historicidade; Teologia da História.


Abstract

This article proposes the concept of Historical Tangency as an intermediate methodological category for the analysis of religious phenomena with universal projection. The concept seeks to overcome the polarization between strict historicism and ahistoricism by acknowledging the historical dimension of religious narratives without reducing them to purely socio-political products. Using the Lucan narrative of Jesus’ birth as a case study—particularly its reference to the census associated with Quirinius, often identified as a chronological problem—the article argues that the primary function of the narrative is theological, even while it tangentially engages historical data. The discussion engages New Testament historiography and twentieth-century systematic theology, especially the works of Paul Tillich, Wolfhart Pannenberg, and Paul Ricoeur, highlighting the analytical potential of the proposed category for research in Theology and Religious Studies.

Keywords: Historical Tangency; Nativity; Gospel of Luke; Historicity; Theology of History.



1. Introdução

A relação entre história e religião constitui um dos debates metodológicos mais persistentes nas ciências humanas. No campo dos estudos bíblicos e da teologia, essa relação é frequentemente tensionada por abordagens que oscilam entre o historicismo estrito — que reduz o fenômeno religioso a construções histórico-sociais — e o ahistoricismo, que ignora as mediações temporais e culturais dos textos e tradições religiosas.

Este artigo propõe o conceito de Tangenciamento Histórico como ferramenta metodológica capaz de articular, de modo crítico e não reducionista, a interação entre fenômenos religiosos e o processo histórico. Tal proposta será desenvolvida teoricamente e aplicada à análise da narrativa lucana do nascimento de Jesus, tradicionalmente celebrada no contexto do Natal cristão.


2. Tangenciamento Histórico: definição e estatuto metodológico

O termo Tangenciamento Histórico é empregado aqui como um conceito operacional destinado a descrever uma relação de contato seletivo entre o fenômeno religioso e a história. Diferentemente de modelos deterministas, o tangenciamento não pressupõe que a essência ou a validade de um fenômeno religioso derivem exclusivamente de seu contexto histórico de origem.

Trata-se de uma relação de toque, e não de fusão: o fenômeno religioso faz contato com a história em pontos específicos — surgimento, institucionalização, difusão — sem que sua mensagem ou sua projeção simbólica se esgotem nesses condicionamentos. Essa abordagem permite reconhecer a historicidade das mediações linguísticas, institucionais e narrativas, preservando, ao mesmo tempo, a autonomia do núcleo simbólico ou experiencial do fenômeno religioso¹.


3. Entre o historicismo e o ahistoricismo

Metodologicamente, o Tangenciamento Histórico posiciona-se entre dois extremos interpretativos. De um lado, o historicismo estrito, criticado por Karl Popper, que tende a explicar integralmente os fenômenos religiosos a partir de causalidades históricas². De outro, o ahistoricismo, que ignora o caráter situado das tradições religiosas.

A proposta aqui defendida reconhece que o fenômeno religioso interage instrumentalmente com a história, utilizando-a como meio de expressão e inteligibilidade, mas não como origem última nem como critério exclusivo de verdade. Essa perspectiva dialoga com debates sobre a invenção da tradição (Hobsbawm), a inculturação teológica e a escatologização da história nas religiões monoteístas³.


4. O Natal como estudo de caso teológico-histórico

O Natal cristão exemplifica de modo paradigmático o funcionamento do Tangenciamento Histórico. Embora o nascimento seja um evento universal e cotidiano, apenas um nascimento é investido, pela tradição cristã, de significado salvífico universal. Essa singularização não decorre de sua excepcionalidade empírica, mas de sua interpretação teológica.

O Evangelho de Lucas ancora essa interpretação ao inserir a narrativa do nascimento de Jesus em um quadro histórico mais amplo, mencionando o recenseamento imperial e o deslocamento de José e Maria a Belém (Lc 2,1–7). Tal estratégia narrativa revela uma tentativa deliberada de conferir densidade histórica a um evento cuja função primária é teológica⁴.


5. O censo de Quirino e a função teológica da narrativa

A referência ao censo sob Quirino encontra paralelo na obra de Flávio Josefo, que o situa em 6 d.C., após a deposição de Herodes Arquelau⁵. Essa datação, contudo, entra em tensão com a tradição que localiza o nascimento de Jesus durante o reinado de Herodes, o Grande.

A maioria dos historiadores reconhece essa discrepância como um problema cronológico real, possivelmente resultante de uma imprecisão do autor lucano⁶. À luz do Tangenciamento Histórico, entretanto, essa imprecisão não compromete a inteligibilidade da narrativa, mas evidencia sua intenção teológica: apresentar o nascimento de Jesus como um evento de alcance universal, simbolicamente situado no centro da ordem imperial romana.


6. Memória histórica, tributação e conflito

O impacto do censo de 6 d.C. foi profundo, desencadeando a revolta de Judas, o Galileu, e marcando a memória coletiva judaica⁷. Essa memória fornece o pano de fundo para a pergunta dirigida a Jesus sobre o pagamento do imposto a César (Lc 20,19–25).

A resposta de Jesus não constitui mera evasão política, mas uma redefinição teológica da soberania, distinguindo, sem separar, o domínio de César e o de Deus. O episódio ilustra como a tradição evangélica utiliza eventos históricos traumáticos como suporte narrativo para a formulação de uma teologia do Reino que transcende as categorias políticas vigentes⁸.


7. História, fé e símbolo: contribuições teológicas

A distinção proposta por Paul Tillich entre o “Jesus histórico” e “Jesus como o Cristo” é particularmente relevante para esta abordagem. Para Tillich, o objeto da fé não é o dado historiográfico, mas o evento simbólico do Novo Ser, que ocorre na história sem se reduzir a ela⁹.

Wolfhart Pannenberg, em contraste, insiste na centralidade da ressurreição como evento historicamente fundamentável, representando um contraponto dialético à tradição tillichiana¹⁰. Paul Ricoeur, por sua vez, contribui ao enfatizar a função simbólica e narrativa dos textos religiosos, que não apenas informam sobre o passado, mas abrem horizontes de sentido¹¹.


8. Considerações finais

O conceito de Tangenciamento Histórico mostra-se uma ferramenta analítica promissora para o estudo de fenômenos religiosos, especialmente aqueles que reivindicam validade universal a partir de eventos historicamente situados. No caso do Natal, a narrativa lucana exemplifica como a fé cristã se ancora na história sem depender exclusivamente dela, preservando sua força simbólica e teológica.

Desse modo, a abordagem proposta permite reconhecer as tensões entre teologia e história não como obstáculos, mas como elementos constitutivos da própria inteligibilidade do fenômeno religioso.


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Referências (ABNT)


BERGER, Peter. O dossel sagrado. São Paulo: Paulus, 2011.

BROWN, Raymond. The Birth of the Messiah. New York: Doubleday, 1993.

HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (org.). A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.

HORSLEY, Richard. Bandits, prophets, and messiahs. Harrisburg: Trinity Press, 1999.

JOSEFO, Flávio. Antiguidades Judaicas. Livro XVIII.

PANNENBERG, Wolfhart. Jesus — Deus e homem. São Paulo: Paulus, 2009.

POPPER, Karl. A miséria do historicismo. São Paulo: Cultrix, 1980.

RICOEUR, Paul. A simbólica do mal. Lisboa: Edições 70, 1988.

TILLICH, Paul. Teologia sistemática. São Leopoldo: Sinodal, 2005.

WRIGHT, N. T. Jesus and the victory of God. Minneapolis: Fortress Press, 1996.


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