O que toca no coração metodológico da crítica textual do Novo Testamento. Deve ser respondido de forma histórica, técnica e comparativa, deixando claro o que muda no conceito de “texto crítico” entre Westcott–Hort e a NA28, e por que essa diferença é decisiva para pesquisas atuais.
1. Contexto histórico geral
Westcott & Hort (1881)
The New Testament in the Original Greek (1881)
Primeira grande tentativa cientificamente sistemática de estabelecer um texto crítico do NT
Baseado em:
poucos manuscritos considerados “superiores”
uma teoria genealógica forte e altamente seletiva
NA28 (2012)
Resultado de mais de um século de pesquisa acumulada
Produzida pelo Institut für Neutestamentliche Textforschung (INTF)
Texto eclético, aberto, constantemente revisado
Integra:
papiros
unciais
minúsculos
versões antigas
pais da Igreja
2. Diferença conceitual fundamental
Westcott & Hort
O texto crítico é a reconstrução do texto original, entendido como uma forma textual praticamente unitária e recuperável.
NA28
O texto crítico é a melhor hipótese provisória sobre a forma inicial do texto, construída a partir de múltiplos critérios e sempre aberta à revisão.
Essa mudança é epistemológica, não apenas técnica.
3. A teoria textual subjacente
3.1 Westcott & Hort: teoria genealógica rígida
Westcott e Hort propuseram uma divisão clara dos textos em famílias:
Texto neutro (Alexandrino)
Representado sobretudo por Codex Vaticanus (B) e Codex Sinaiticus (ℵ)
Considerado o mais próximo do original
Texto ocidental
Livre, parafrástico, expansivo
Texto alexandrino
Levemente editado
Texto sírio (bizantino)
Tardio, conflado, inferior
Consequência:
Se B e ℵ concordam, a leitura é quase automaticamente preferida.
3.2 NA28: ecletismo crítico refinado
A NA28: abandona a noção de “texto neutro”
não privilegia automaticamente nenhum manuscrito
avalia cada variante caso a caso
Critérios:
externos (idade, distribuição, qualidade)
internos (estilo, contexto, tendência scribal)
coerência intrínseca e transmissional
Um manuscrito antigo pode conter leitura secundária, e um tardio pode preservar leitura antiga.
4. Diferença no tratamento das variantes
Westcott & Hort
Variantes são majoritariamente:
corrupções
expansões
harmonizações
O objetivo é eliminá-las para chegar ao texto puro
NA28
Variantes são:
dados textuais legítimos
evidências da história do texto
O aparato crítico é tão importante quanto o texto-base
Para pesquisas sobre recepção, oralidade e performance, o aparato da NA28 é metodologicamente mais relevante do que o próprio texto contínuo.
5. Manuscritos disponíveis
Westcott & Hort (1881)
Conheciam:
poucos papiros (praticamente nenhum relevante)
grandes unciais principais
versões e pais usados de forma limitada
NA28 Inclui: papiros fundamentais (𝔓52, 𝔓66, 𝔓75 etc.) testemunhos recém-publicados revisão constante das citações patrísticas
A base documental da NA28 é incomparavelmente superior.
6. Estabilidade vs. historicidade
Aspecto
Westcott–Hort
NA28
Objetivo
Texto original
Hipótese textual
Epistemologia
Confiança forte
Provisória
Manuscritos
Seleção restrita
Base ampla
Variantes
Problema
Evidência
Revisão
Estática
Contínua
7. Exemplo emblemático: final de Marcos
Westcott & Hort
Mc 16,9–20 = acréscimo tardio
Excluído do texto principal
Pouco interesse no porquê do acréscimo.
A NA28 mantém Mc 16,9–20 entre colchetes e apresenta múltiplos finais no aparato. Reconhece a complexidade transmissional: Isso se alinha diretamente com a abordagem: o problema não é apenas qual final é original, mas por que o texto circulou com finais distintos. A diferença entre Westcott–Hort e NA28 não é apenas de edição, mas de modelo de ciência: Westcott & Hort representam a crítica textual como arqueologia do original. A NA28 representa a crítica textual como história do texto. Essa transição permite exatamente o tipo de investigação que você vem construindo: texto como evento, não apenas como objeto. Por outro lado, a comparação entre Westcott–Hort e NA28 pode ser transformada em uma seção metodológica publicável, com linguagem acadêmica, coerência argumentativa, delimitação epistemológica clara e adequada para integrar um artigo científico em crítica textual do Novo Testamento. O texto está escrito para funcionar tanto em periódico quanto em seu blog científico, sem perda de rigor.
2 DELIMITAÇÃO METODOLÓGICA: DO MODELO GENEALÓGICO DE WESTCOTT–HORT AO ECLETISMO CRÍTICO DA NA28
A presente investigação adota como pressuposto metodológico a compreensão de que diferentes edições críticas do Novo Testamento não representam apenas estágios sucessivos de refinamento técnico, mas expressam modelos epistemológicos distintos de crítica textual. Nesse sentido, a comparação entre o texto crítico de Westcott e Hort (1881) e a edição atual da Nestle-Aland (NA28) é fundamental para delimitar o horizonte teórico que orienta esta pesquisa.
2.1 O paradigma de Westcott e Hort
A edição de Westcott e Hort, The New Testament in the Original Greek (1881), constitui um marco na história da crítica textual neotestamentária por estabelecer, de forma sistemática, um modelo genealógico de classificação dos manuscritos. Seu objetivo central era a reconstrução do texto original, entendido como uma forma textual unitária e, em grande medida, recuperável por meio da análise comparativa dos testemunhos mais antigos.
Esse modelo baseava-se na distinção entre famílias textuais relativamente bem definidas, com especial destaque para o chamado “texto neutro”, representado principalmente pelos códices Vaticanus (B) e Sinaiticus (ℵ). A concordância entre esses manuscritos era frequentemente considerada decisiva, conferindo-lhes um peso quase normativo na avaliação das variantes. Textos caracterizados como “ocidentais” ou “sírios” (bizantinos) eram, em geral, considerados secundários, resultado de expansões, harmonizações ou confluições tardias.
Do ponto de vista metodológico, esse paradigma pressupõe uma visão relativamente estável da transmissão textual, na qual as variantes são interpretadas prioritariamente como desvios em relação a um original ideal, a ser restaurado pelo trabalho crítico. A função do aparato crítico, nesse contexto, é essencialmente negativa: registrar leituras rejeitadas em favor da forma considerada mais antiga e autêntica.
2.2 Limites do modelo clássico
Embora altamente influente, o modelo de Westcott e Hort apresenta limites que se tornaram progressivamente evidentes ao longo do século XX. Em primeiro lugar, a noção de um “texto neutro” foi amplamente questionada, sobretudo à luz do crescimento exponencial da base manuscrita, especialmente com a descoberta e publicação dos papiros. Em segundo lugar, o modelo genealógico rígido mostrou-se insuficiente para explicar a complexidade real da tradição textual, marcada por contaminações, transmissões cruzadas e variações contextuais.
Além disso, a forte orientação para a recuperação do original tende a reduzir o valor histórico das variantes, tratando-as predominantemente como problemas a serem eliminados, e não como dados interpretativos relevantes para a compreensão da recepção do texto nas comunidades cristãs antigas.
2.3 O ecletismo crítico da NA28
A edição Nestle-Aland 28 (NA28), produzida pelo Institut für Neutestamentliche Textforschung (INTF), representa uma mudança significativa de paradigma. Embora mantenha a reconstrução do texto inicial como objetivo, a NA28 opera a partir de um ecletismo crítico metodologicamente refinado, no qual nenhuma família textual ou manuscrito específico exerce autoridade absoluta.
Nesse modelo, o texto crítico é compreendido como uma hipótese histórica provisória, construída a partir da ponderação equilibrada de critérios externos (idade, distribuição geográfica e qualidade dos testemunhos) e internos (probabilidade intrínseca e transmissional das leituras). A concordância entre manuscritos antigos continua relevante, mas não decisiva por si só, e leituras preservadas em testemunhos tardios podem ser consideradas originais se explicarem adequadamente o surgimento das demais variantes.
Metodologicamente, isso implica uma revalorização do aparato crítico, que deixa de ser mero repositório de leituras rejeitadas e passa a funcionar como registro da história do texto, evidenciando os diferentes caminhos de sua transmissão.
2.4 Texto crítico e historicidade da transmissão
Uma das diferenças mais significativas entre os dois modelos reside na concepção do próprio texto crítico. Enquanto em Westcott e Hort o texto estabelecido tende a assumir caráter normativo e relativamente estável, na NA28 ele é explicitamente provisório, aberto à revisão e dependente do avanço contínuo da pesquisa.
Essa postura epistemológica permite integrar de forma mais consistente fatores como:
práticas de leitura pública;
oralidade residual;
memória comunitária;
performance litúrgica.
As variantes deixam de ser compreendidas exclusivamente como corrupções e passam a ser interpretadas como testemunhos históricos da recepção e do uso do texto, especialmente relevantes em casos como o encerramento do Evangelho de Marcos, no qual a pluralidade de finais reflete tensões narrativas e expectativas comunitárias.
2.5 Implicações metodológicas para esta pesquisa
Diante desse panorama, a presente pesquisa adota como base metodológica o modelo representado pela NA28, não apenas por sua superioridade documental, mas por sua adequação teórica à investigação da transmissão textual como processo histórico e comunicativo. Isso não implica a rejeição das contribuições de Westcott e Hort, cuja obra permanece fundamental para a história da disciplina, mas reconhece seus limites no tratamento da variação textual como fenômeno cultural e comunitário.
Assim, o texto crítico é aqui compreendido não como fim em si mesmo, mas como ponto de partida para a análise da interação entre texto, leitor e comunidade. Essa abordagem permite articular a crítica textual clássica com a história da recepção, oferecendo um quadro metodológico mais adequado à complexidade do corpus neotestamentário.
Há também, a possibilidade de se fazer a articulação direta entre a comparação Westcott–Hort × NA28 e o pensamento de Bruce Metzger e Bart Ehrman, redigida como continuação orgânica da seção metodológica, em linguagem publicável, com citações teóricas explícitas e integração conceitual, sem caráter meramente bibliográfico.
O texto pode entrar sem rupturas após a seção que você já tem.
2.6 Metzger e Ehrman: da reconstrução do texto à história da transmissão
A transição metodológica do modelo genealógico de Westcott e Hort para o ecletismo crítico da Nestle-Aland encontra fundamentação teórica explícita nos trabalhos de Bruce M. Metzger e Bart D. Ehrman, cujas contribuições foram decisivas para a reformulação contemporânea da crítica textual do Novo Testamento. Ambos reconhecem a importância histórica do projeto de Westcott e Hort, mas simultaneamente evidenciam seus limites epistemológicos diante da complexidade da tradição manuscrita.
2.6.1 Metzger: ecletismo crítico e cautela epistemológica
Bruce Metzger, em The Text of the New Testament e em seu Textual Commentary, reafirma o valor do método genealógico inaugurado por Westcott e Hort, mas rejeita a noção de um “texto neutro” como categoria objetiva e normativamente superior. Para Metzger, nenhum manuscrito ou grupo textual pode ser tratado como representante direto do original, uma vez que todos os testemunhos participam, em maior ou menor grau, do processo transmissional (METZGER; EHRMAN, 2005).
Essa postura se reflete diretamente no modelo editorial da NA28, cuja lógica ecletista pressupõe que o texto crítico não é a recuperação definitiva do original, mas a melhor reconstrução possível à luz das evidências disponíveis, sempre aberta à revisão. Metzger insiste que a crítica textual opera no campo da probabilidade histórica, não da certeza absoluta, e que o valor de uma leitura deve ser avaliado tanto por critérios externos quanto internos, sem automatismos decisórios (METZGER, 1994).
Do ponto de vista metodológico, essa abordagem representa uma ruptura com o uso quase axiomático de B e ℵ típico do modelo de Westcott–Hort. A concordância entre testemunhos antigos permanece relevante, mas perde seu caráter decisivo, abrindo espaço para a consideração de leituras preservadas em tradições minoritárias ou tardias, desde que expliquem adequadamente a gênese das demais variantes.
2.6.2 Ehrman: variação textual e agência histórica
Bart Ehrman radicaliza esse deslocamento metodológico ao enfatizar que as variantes textuais não são apenas acidentes da transmissão, mas frequentemente refletem intervenções conscientes ou semi-conscientes de copistas-leitores, motivadas por fatores teológicos, litúrgicos ou pastorais. Em Misquoting Jesus e em seus estudos técnicos, Ehrman chama atenção para o fato de que os copistas eram, antes de tudo, leitores engajados, inseridos em comunidades concretas e portadores de pressupostos interpretativos (EHRMAN, 2005).
Essa perspectiva reforça a compreensão do texto como realidade dinâmica, na qual a transmissão não pode ser reduzida a um processo mecânico de cópia. Ao contrário, a variação textual torna-se um dado historicamente significativo, revelando disputas interpretativas, harmonizações doutrinais e esforços de clarificação narrativa. Assim, a crítica textual deixa de ser apenas um exercício de restauração e passa a ser também uma ferramenta de análise histórica da recepção do texto.
Nesse sentido, Ehrman contribui para deslocar o foco da pergunta “qual é o texto original?” para questões mais amplas, como “como e por que o texto foi modificado?” e “o que essas modificações revelam sobre as comunidades cristãs primitivas?”. Essa mudança de enfoque encontra plena consonância com o aparato crítico ampliado da NA28, que registra a pluralidade textual sem necessariamente resolvê-la de forma simplificadora.
2.6.3 Convergência metodológica com a NA28
A edição NA28 pode ser compreendida, portanto, como a materialização editorial de pressupostos teóricos desenvolvidos por Metzger e aprofundados por Ehrman. O abandono de categorias rígidas como “texto neutro”, a recusa de hierarquias manuscritas absolutas e a valorização da história da transmissão refletem uma concepção de crítica textual mais sensível à complexidade histórica do cristianismo primitivo.
Enquanto Westcott e Hort concebiam a crítica textual sobretudo como um caminho para trás, em direção ao texto original, Metzger e Ehrman contribuem para uma crítica textual que também olha para frente, isto é, para os efeitos históricos da transmissão, para o uso do texto e para sua recepção comunitária. O texto crítico deixa de ser apenas um ponto de chegada e passa a ser um ponto de partida para investigações históricas, literárias e sociológicas.
2.6.4 Implicações para o presente estudo
A presente pesquisa se alinha explicitamente a essa tradição metodológica, adotando o texto da NA28 não como reconstrução definitiva, mas como instrumento heurístico. As variantes textuais são tratadas não apenas como desvios a serem corrigidos, mas como indícios de práticas de leitura, oralidade e performance que moldaram a tradição manuscrita. Essa postura permite integrar a crítica textual clássica, representada por Westcott e Hort, com uma abordagem histórica da transmissão, conforme articulada por Metzger e Ehrman. O resultado é uma metodologia que reconhece simultaneamente a necessidade de reconstrução textual e a legitimidade histórica da variação, especialmente em casos paradigmáticos como o encerramento do Evangelho de Marcos.
Existe a possibilidade de se apresentar um texto específico, autônomo e publicável sobre o aparato critico da NA28 e redigido em nivel acadêmico, com enfoque metodológico, adequado tanto para artigo científico quanto para postagem em blog especializado em crítica textual do Novo Testamento. Neste caso, é fazer com que o texto dialogue explicitamente com Metzger e Ehrman, mas sem caráter introdutório. A seguir está um texto específico, autônomo e publicável sobre o aparato crítico da NA28, redigido em nível acadêmico, com enfoque metodológico, adequado tanto para artigo científico quanto para postagem em blog especializado em crítica textual do Novo Testamento. O texto dialoga implícita ou explicitamente com Metzger e Ehrman, sem caráter introdutório excessivo.
O APARATO CRÍTICO DA NA28: FUNÇÃO, LIMITES E POTENCIAL HERMENÊUTICO
O aparato crítico da Nestle-Aland Novum Testamentum Graece, atualmente em sua 28ª edição (NA28), constitui um dos instrumentos centrais da crítica textual contemporânea do Novo Testamento. Mais do que um repositório técnico de variantes, o aparato da NA28 representa uma síntese metodológica da compreensão moderna da transmissão textual, refletindo mudanças significativas na epistemologia da disciplina ao longo do último século.
1. O aparato crítico como expressão de um modelo textual
Tradicionalmente, o aparato crítico foi concebido como um mecanismo auxiliar destinado a justificar as escolhas do editor na constituição do texto-base. Nesse modelo, herdado em grande parte da filologia clássica do século XIX, o texto contínuo ocupava posição normativa, enquanto as variantes eram relegadas a um espaço marginal, indicadas como leituras rejeitadas ou secundárias.
Na NA28, embora essa estrutura formal seja mantida, o aparato crítico assume uma função ampliada. Ele não apenas documenta divergências textuais, mas registra a pluralidade efetiva da tradição manuscrita, evidenciando que o texto do Novo Testamento nunca circulou de forma absolutamente uniforme. O aparato torna-se, assim, um espaço privilegiado para a observação da história da transmissão, mais do que um simples mecanismo de correção textual.
2. Seleção e economia das variantes
Um dos aspectos mais relevantes do aparato da NA28 é seu caráter seletivo. Diferentemente de edições documentais ou diplomáticas, a NA28 não pretende registrar todas as variantes existentes, mas apenas aquelas consideradas textualmente e historicamente significativas. Essa economia editorial é orientada por critérios internos ao Institut für Neutestamentliche Textforschung (INTF), que privilegiam variantes capazes de afetar o sentido, a estrutura narrativa ou a interpretação teológica do texto.
Essa seletividade, embora necessária, implica limites metodológicos. O aparato da NA28 não oferece uma visão exaustiva da tradição textual, mas uma amostra interpretada dela. Consequentemente, o pesquisador deve estar atento ao fato de que a ausência de uma variante no aparato não implica sua inexistência na tradição manuscrita, mas apenas sua exclusão por critérios editoriais.
3. Testemunhos e sua representação no aparato
O aparato crítico da NA28 integra uma ampla gama de testemunhos, incluindo papiros, códices unciais, manuscritos minúsculos, versões antigas e citações patrísticas. No entanto, esses testemunhos não são apresentados de forma neutra. A seleção, abreviação e organização dos dados refletem uma avaliação prévia da relevância de cada testemunho para a reconstrução textual.
Nesse sentido, o aparato não deve ser lido como um inventário bruto, mas como uma interpretação crítica da evidência manuscrita. A forma como determinados manuscritos são agrupados ou citados sugere relações textuais, ainda que a NA28 evite explicitamente classificações rígidas em famílias textuais, como as propostas por Westcott e Hort.
4. O aparato e a lógica do ecletismo crítico
O funcionamento do aparato crítico está intrinsecamente ligado ao ecletismo crítico que orienta a edição. Não há correspondência mecânica entre o peso quantitativo dos testemunhos e a escolha da leitura adotada no texto-base. Em muitos casos, leituras apoiadas por poucos manuscritos são preferidas por razões internas, enquanto leituras amplamente atestadas são relegadas ao aparato.
Essa lógica reforça a compreensão do texto crítico como hipótese histórica, não como reconstrução definitiva. O aparato, ao expor leituras concorrentes, explicita o caráter provisório das decisões editoriais e convida o leitor a participar criticamente do processo avaliativo.
5. Aparato crítico e história da recepção
Um dos potenciais mais relevantes do aparato da NA28 reside em sua capacidade de servir como fonte para a história da recepção do texto neotestamentário. Variantes registradas no aparato frequentemente refletem tentativas de clarificação, harmonização ou expansão narrativa, especialmente em contextos de leitura pública e litúrgica.
Casos como o encerramento do Evangelho de Marcos, as variantes cristológicas nos evangelhos ou as harmonizações sinópticas ilustram como o aparato preserva vestígios das preocupações teológicas e pastorais das comunidades transmissoras. Assim, o aparato não apenas informa sobre o que foi excluído do texto-base, mas testemunha como o texto foi lido, interpretado e adaptado ao longo do tempo.
6. Limites e cautelas hermenêuticas
Apesar de seu valor inegável, o aparato crítico da NA28 não deve ser absolutizado. Sua estrutura compacta, a ausência de justificativas explícitas para as escolhas editoriais e a codificação técnica das variantes exigem do intérprete formação específica e diálogo com outras ferramentas, como comentários textuais, edições digitais e estudos monográficos.
Além disso, o aparato não substitui a análise contextual das variantes. Uma leitura puramente técnica pode obscurecer o fato de que muitas variações surgem em ambientes marcados por oralidade, memória e performance, elementos que não são diretamente visíveis no registro manuscrito, mas que devem ser considerados na interpretação histórica.
7. Considerações metodológicas finais
O aparato crítico da NA28 representa um ponto de equilíbrio entre rigor filológico e sensibilidade histórica. Ele não pretende resolver definitivamente a pluralidade textual, mas torná-la visível de forma controlada e metodologicamente responsável. Para pesquisas que articulam crítica textual com história da recepção, o aparato não é um apêndice marginal, mas um campo hermenêutico central, no qual se manifestam as tensões entre estabilidade textual e dinâmica transmissional. Ler o aparato crítico da NA28 é, portanto, ler a história viva do texto — não como ruído a ser eliminado, mas como testemunho da interação contínua entre texto, leitor e comunidade.
Abaixo segue um quadro comparativo metodológico com exemplos gregos concretos, pensado para uso acadêmico (artigo, aula ou blog científico). O objetivo do quadro não é apenas ilustrar variantes, mas mostrar como o aparato crítico da NA28 funciona na prática e como ele difere de uma leitura ingênua do texto-base. Quadro comparativo: texto crítico da NA28 e seu aparato. Exemplos gregos e implicações metodológicas:
1. Estrutura geral do quadro
O quadro está organizado em quatro eixos: Texto-base da NA28/Variantes registradas no aparato/Tipo de variação/Relevância metodológica/Exemplo 1 — Marcos 16,8–20 (final longo)
Elemento/Conteúdo/Texto-base (NA28): ἐφοβοῦντο γάρ. Variantes no aparato/① Ausência de Mc 16,9–20 (ℵ B)② Final curto: πάντα δὲ τὰ παρηγγελμένα…③ Final longo: ἀναστὰς δὲ πρωῒ πρώτῃ σαββάτου…/Tipo de variação/Acréscimo narrativo múltiplo/Relevância metodológica: O aparato registra três estados textuais concorrentes, evidenciando que a transmissão de Marcos envolve recepção comunitária e pressão narrativa, não apenas erro scribal. Nota metodológica: a NA28 não “resolve” o problema no texto-base; ela expõe a pluralidade textual./Exemplo 2 — João 1,18 (μονογενής θεός / μονογενὴς/υἱός)/Elemento/Conteúdo/Texto-base (NA28)/μονογενὴς θεός/Variantes no aparato/μονογενὴς υἱός/Tipo de variação/Variante cristológica/Relevância metodológica: O aparato revela uma tensão teológica na transmissão: linguagem mais ousada (θεός) versus formulação mais tradicional (υἱός). Aqui o aparato mostra que a variante não é neutra: ela reflete debate doutrinário/Exemplo 3 — Lucas 24,53 (αἰνοῦντες /εὐλογοῦντες)/Elemento/Conteúdo/Texto-base (NA28)/αἰνοῦντες τὸν θεόν/Variantes no aparato/εὐλογοῦντες τὸν θεόν/Tipo de variação/Variação litúrgica/Relevância metodológica
Ambas as leituras fazem sentido em contexto cultual; o aparato preserva vestígios da prática litúrgica/Variante provavelmente influenciada pela linguagem da oração comunitária: Exemplo 4 — Mateus 6,13 (doxologia do Pai-Nosso). Elemento/Conteúdo/Texto-base (NA28) — (ausente). Variantes no aparato: ὅτι σοῦ ἐστιν ἡ βασιλεία καὶ ἡ δύναμις καὶ ἡ δόξα…
Tipo de variação: Acréscimo litúrgico. Relevância metodológica: O aparato mostra como uma fórmula oral e litúrgica entrou progressivamente na tradição escrita: Exemplo clássico de oralidade influenciando a tradição manuscrita. Exemplo 5 — Romanos 8,1 (omissão / acréscimo parenético). Elemento, Conteúdo e Texto-base (NA28) / οὐδὲν ἄρα νῦν κατάκριμα. Variantes no aparato: τοῖς μὴ κατὰ σάρκα περιπατοῦσιν; Tipo de variação, Acréscimo explicativo, Relevância metodológica. O aparato evidencia uma tendência moralizante, possivelmente catequética, A variante visa clarificar implicações éticas do texto paulino.
Síntese interpretativa do quadro
A leitura comparativa dos exemplos revela que o aparato crítico da NA28: não registra apenas “erros”. Documenta decisões interpretativas históricas. Preserva traços de:
oralidade, liturgia, teologia comunitária e performance textual. Metodologicamente, isso confirma que: o texto crítico não é o fim da crítica textual, mas o início da interpretação histórica. Formulação metodológica aplicável ao seu artigo. O uso do quadro é passível de ser sintetizado com uma frase como: “Os exemplos extraídos do aparato crítico da NA28 demonstram que a variação textual não pode ser reduzida a fenômeno acidental, mas deve ser interpretada como resultado da interação entre texto, leitor e comunidade, especialmente em contextos marcados por oralidade e prática litúrgica.”
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