A ideia de uma "gramática dos símbolos" é, de fato, uma metáfora poderosa para descrever o que Ricoeur e Tillich, cada um à sua maneira, buscaram construir. Essa "gramática" seria o antídoto filosófico-teológico ao literalismo, pois mostra que os símbolos obedecem a uma lógica própria, distinta da lógica factual ou científica.
E o que se pretende explorar é como cada um deles elabora essa "gramática" e como isso permite superar a leitura literalista.
Paul Tillich: A Gramática Ontológica dos Símbolos
Para Tillich, os símbolos religiosos possuem uma gramática interna baseada em sua relação com o "Fundamento do Ser" (Being-Itself). Essa gramática tem "regras" que podem ser descritas:
1. A Regra da Participação: O símbolo participa da realidade do Sagrado que simboliza. Não é mera alegoria ou sinal convencional. A cruz não é apenas um lembrete do sacrifício de Jesus; ela traz consigo o poder do sacrifício e da vitória sobre a morte.
2. A Regra da Auto-transcendência: O símbolo aponta para além de si mesmo. Ele abre uma dimensão de profundidade na realidade. Ao mesmo tempo que é uma realidade finita (pão, vinho, água), ele transcende essa finitude, apontando para o infinito.
3. A Regra da Eficácia: O símbolo desvela aspectos da realidade que de outra forma permaneceriam ocultos. Ele não apenas descreve, mas faz acontecer uma nova compreensão da relação do ser humano com o divino, consigo mesmo e com o mundo.
4. A Regra do Nascimento e Morte: Os símbolos nascem e morrem. Nascem da "fonte" do Sagrado em resposta a uma situação humana. Morrem quando perdem seu poder de convocar e revelar (ex: símbolos mitológicos de culturas extintas). O símbolo da "realeza de Deus" pode perder força em uma república democrática, exigindo novas expressões.
5. A Regra da Negação (o "Método da Correlação"): Esta é uma regra fundamental da gramática Tillicheana: Nenhum símbolo finito é idêntico ao Sagrado. Todos devem ser, em última instância, negados ("abolidos") em sua pretensão de esgotar a divindade. Só se pode dizer que "Deus é Pai" se imediatamente se acrescentar que "Ele não é pai como qualquer pai humano". A gramática inclui o operador de negação dialética.
Como isso combate o literalismo? O literalismo viola as regras 1 e 5 de forma grosseira. Ele confunde a participação com a identidade (o símbolo é a coisa, não participa dela) e elimina a auto-transcendência e a negação necessária, congelando o símbolo em sua materialidade finita. Para Tillich, ler a Bíblia literalmente é um insulto à natureza dinâmica e auto-transcendente do símbolo sagrado.
Paul Ricoeur: A Gramática Narrativa e Hermenêutica dos Símbolos
Para Ricoeur, a "gramática" não é um sistema ontológico abstrato, mas uma lógica inscrita na própria mediação textual e na dinâmica da interpretação.
1. A Regra da Mediação Textual: O acesso aos símbolos fundamentais (do Mal, do Sacrifício, da Culpa, da Esperança) sempre nos chega através de uma mediação: mitos, narrativas, salmos, parábolas. A gramática está na trama narrativa (plot), na estrutura do gênero literário (lei, profecia, sabedoria, evangelho).
2. A Regra do "Arco Hermenêutico": A compreensão de um símbolo segue uma "gramática da interpretação": parte de uma compreensão ingênua (a primeira leitura), passa por uma explicação crítica (análise histórica, linguística, estrutural – a "desmitologização" como etapa necessária), para então retornar a uma compreensão enriquecida (a "segunda ingenuidade"). Ignorar essa regra e ficar na primeira etapa é o caminho do literalismo.
3. A Regra da "Luta pela Interpretação": Os símbolos são polissêmicos (têm múltiplos sentidos). Sua gramática não é unívoca, mas dialética. A interpretação é um campo de luta entre sentidos possíveis. O literalismo é uma tentativa autoritária de matar a polissemia, impondo um único sentido "óbvio".
4. A Regra da Referência indireta (ou "Referência dupla"): A linguagem religiosa, em sua primeira referência, descreve o mundo (ex: "Jesus subiu ao céu"). Mas sua referência mais importante é uma referência de segundo grau, que abre um mundo possível diante do texto (o mundo da reconciliação, do perdão, da nova criação). O literalismo fica preso na referência descritiva de primeiro grau, traindo a função poética e reconfiguradora do símbolo.
5. A Regra da Apropriação: O sentido último do símbolo não está no texto, mas na frente do texto, no seu poder de reconfigurar a existência do leitor. A gramática exige que o intérprete seja também interpretado pelo símbolo.
Como isso combate o literalismo? O literalismo, para Ricoeur, é uma recusa em percorrer o arco hermenêutico. É uma preguiça ou um medo intelectual que se agarra à explicação ingênua, rejeita o trabalho crítico e, portanto, nunca alcança a riqueza da segunda ingenuidade. É uma leitura que não se deixa desafiar pela polissemia e pela referência indireta do texto.
Convergência Final contra o Literalismo
Ambos, portanto, estabelecem uma gramática da não-identidade:
· Para Tillich, a regra é: "Isso, mas não apenas isso; e, em última instância, não isso". O símbolo participa do divino, mas não é o divino.
· Para Ricoeur, a regra é: "Isso diz, mas para dizer algo mais, que só se diz através disso e do trabalho de interpretá-lo". O texto diz "ressurreição de um corpo", para abrir o mundo da "nova criação".
Eles são capazes de estabelecer uma gramática dos símbolos. Essa gramática, seja de natureza ontológico-sistemática (Tillich) ou narrativo-hermenêutica (Ricoeur), tem como função primeira explicitar a lógica própria do simbólico, que é uma lógica de participação, mediação, transcendência e interpretação. Literalismo é, em essência, a violação dessa gramática. É a redução de uma linguagem que opera com regras complexas de sentido a uma linguagem que opera com regras simples de correspondência factual. Ao demonstrar a sofisticação e as "regras do jogo" do discurso simbólico, ambos os pensadores oferecem as ferramentas intelectuais para uma fé que é ao mesmo tempo crítica e profundamente comprometida com o poder de transformação dos símbolos sagrados.
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