Tema - Quem são os que se tornam receptivos à mensagem do Reino de Deus?

Texto - Mateus 11

ICT - O texto faz menção da dinâmica de vida imposta pelo mestre em seu ministério. Da chegada e consulta dos emissários do Batista. Da maneira como o mestre faz menção do ministério de João. E basicamente convida aqueles que estão cansados e afadigados com o jugo desta vida a virem até ele.

Objetivo geral - Levar a congregação ao entendimento de que a vida é muito mais do que fadiga e cansaço.

Objetivo Específico - Levar a congregação ao entendimento de que é muitas vezes numa palavra simples e de fácil percepção como esta do mestre que se revela a natureza profunda do Reino de Deus e do império e primazia da vontade divina.

Tese - O Reino de Deus não é comida nem bebida.




INTRODUÇÃO



     Começo esta leitura e reflexão transcrevendo em sua totalidade o que foi apenas registrado em parte e a propósito do que é a tese que será defendida no transcurso deste texto. Estou falando de Romanos 14:17, onde Paulo falando a cerca do Reino de Deus afirma: "O Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo." Ou seja, o Reino de Deus é a possibilidade factível de pautarmos nossas vidas e comportamentos por princípios que estão para além da vocação natural intrínseca em cada um de nós e consagrado no direito e justiça do homem.

     Todo e qualquer movimento nesta reflexão se deslocará de tal maneira a que tenhamos a nítida percepção de que muito embora não desconsideremos essa tendência e vocação natural do homem, marcadamente contingente e inexorável. Ainda assim a chave linguística para se tocar a vida cristã cristicamente é o conceito de ação coletiva do Reino de Deus inaugurado por Jesus em seus ensinamentos.

     Vale a pena assinalar que aqui faz-se necessário a fundamentação da ideia que se transmite por ensinamentos e de uma forma bem didática e suficientemente pedagógica. E, a se julgar pela maneira com que a multidão acorre para ouvir estes ensinamentos do Senhor Jesus. Isto significa que se tentará demonstrar nas linhas que se seguem, que estes ensinamentos estão longe de serem caracterizados como algo que, de tão simplório que é, acaba por insultar a inteligência daquelas pessoas que se sentem em melhores condições de entender a vida e seus dilemas.

     Senão, passemos a olhar com um pouco mais de especificidade as palavras introdutórias do capítulo 11 de Mateus, objeto desta reflexão. O texto alude a uma espécie de treinamento a que o mestre submete seus discípulos. A referência é clara no verso primeiro, pois tendo ele acabado de dar instruções aos seus doze discípulos, ele parte dali para ensinar e pregar nas cidades desses doze. 

     Faz bastante tempo que a utilização do termo treinamento era utilizado tão somente por empresas. E era um instrumento de melhoria e capacitação dos empregados, com objetivo de apurar com mais esmero a performance e rendimentos dos mesmos. Mas, esta prática popularizou-se de tal forma. Que atualmente ela tem se vulgarizado. E os objetivos para a sua utilização enquanto ferramenta de trabalho são os mais esdrúxulos possíveis.

     De qualquer forma, e da melhor possível. O que o Senhor Jesus aplicou aos seus discípulos enquanto método de trabalho alcançou resultados mais do que esperados. E como resultado disso a sua fama correu por toda a Palestina. Os evangelhos canônicos são testemunha desse fenômeno de popularização dos seus ensinamentos e doutrina, e, consequentemente de sua popularidade. A ponto de sua fama ter chegado a João Batista quando este já estava no cárcere de onde não mais sairia vivo.  

     Foi esta fama de Jesus que provocou o questionamento mais humano e sensato em um homem da envergadura de João Batista. João tinha consciência do tipo de ministério que ele exerceria. Em poucas palavras, era uma espécie de ponte que prepararia o povo para a chegada do Messias. Ele tem noção de que as coisas para ele no cárcere caminham cada vez mais para um desfecho final em sua vida. 

     Nesse ínterim, ele fica solícito e, porque não dizer, angustiado com o rumo dos acontecimentos. Portanto, seu desejo é se certificar que Jesus é realmente aquele sobre quem ele, João, criou todas as expectativas possíveis ante o povo para a chegada do Messias. Então, como providência, ele envia dois de seus discípulos a Jesus com a seguinte pergunta: "És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?"

     Foi um questionamento tão sincero e objetivo, que não mereceria outra resposta senão a que Jesus manda a João. Ele então responde aos discípulos de João recomendando que eles relatem o que ouviram e viram. Fundamentalmente esse foi o princípio que norteou desde sempre a pregação apostólica. Quando o apóstolo João, que não é o Batista, escreve a sua primeira epístola, ele faz questão de assinalar que a base de sua pregação e testemunho a cerca da revelação divina em Cristo é: "O que vimos e ouvimos isso vos anunciamos..." (I João 1:3).

     Outro dado de bastante relevância para esta leitura diz respeito a forma como o Senhor Jesus falando àquelas pessoas tece comentários a cerca do caráter de João Batista. Que em boa parte deveriam conhecê-lo muito bem. Já que num passado não muito distante aquelas pessoas que agora estavam ali ouvindo os ensinamentos de Jesus, antes estavam seguindo a João e ouvindo os seus ensinamentos no deserto. É quando o mestre faz um comentário de João e de suas qualidades como a de um grande homem.

     Além do que, o mestre assinala que a figura de João se notabiliza pela forma emblemática em que se encontra desde uma a perspectiva histórica, apocalíptica e salvífica em Israel. E uma coisa que nos ajudará grandemente a entendermos esta palavra do mestre, talvez seja a visão escatológica subjacente a esta fala de Jesus ao estabelecer a relação entre a lei e os profetas, e, concomitantemente, o encerramento desta relação profética entre ambos. Algo detectável por uma simples leitura de movimento na história de redenção em Israel, e materializado pelo aparecimento de João Batista.

     Por outro lado, o mestre não poupa sua crítica aos seus contemporâneos (Esta geração)  pela falta de aprofundamento nestas questões de natureza histórica e religiosa em Israel. Tanto que é sintomático o tipo de analogia que utiliza para qualificar a expressão "Esta geração". Sua fala reflete a insensibilidade destes que qualifica como meninos. Tanto a palavra representativa em João e que testemunha dos movimentos da história salvífica até que chegue a sua pessoa e existência histórica. Quanto a palavra representativa simbolizada pelo testemunho do Filho do Homem que representa o fim da história, nada é para esta geração.   

     A despeito de a fala do mestre se caracterizar neste capítulo como uma espécie de recuperação dos eventos históricos que se deram como cumprimento até aquele momento e que têm passado despercebidos por "Esta geração". A fala do mestre tem um conteúdo de crítica quanto a forma impenitente com que o povo a estava tratando. E neste momento, ele não omite que o tipo de comportamento do povo não era algo que passaria sem maiores consequências. E tratando-se de juízos divinos, teria consequências danosas.

     Para tanto, o mestre compara o que foi oferecido àquelas cidades: Tiro, Sidom e Sodoma no passado e, por conta de suas incredulidades, sofreram pesados juízos de destruição. A palavra de Jesus chama a responsabilidade ao que se tem e foi oferecido a estas cidades como Corazim e Cafarnaum e os prodígios que lá foram operados. E, mesmo assim, não ofereceram nenhum sinal de arrependimento. A advertência é de que haverá menos rigor no dia do juízo para aqueles que sucumbiram em Tiro e Sidom, bem como os de Sodoma do que para aqueles que testemunharam os prodígios operados em Corazim e Cafarnaum.

     O bloco final deste capítulo que vai do verso 25-30. Tem uma peculiaridade bastante salutar. Pois, o tratamento redacional do evangelista contrapõe uma relação nas formas de tratamento com que o Senhor Jesus aborda a questão daqueles que dominam o conhecimento e que portanto se auto intitulam detentores da verdade. E aqueles, representativo dos setores mais populares, e, que são desprovidos de qualquer tipo de conhecimento no sentido de que possam pautar ou balizar algo como a verdade.

     Curiosamente está subentendido na fala de Jesus em forma de oração que seus ensinamentos se davam com base em perguntas e respostas. Pelo menos é o que se vê em suas palavras no verso 25. Aquelas pessoas ali e naquele exato momento deveriam estar apreensivas quanto a iminência desse juízo divino e avassalador ao serem advertidas por Jesus. Pode ser que uma delas ou um grupo delas o arguiram a cerca da melhor maneira de se tornarem imunes ao juízo condenatório divino que está por vir.
     Por conta disso, a oração enquanto via de acesso a Deus é a forma mais simples e acessível para o povo se penitenciar. Vale lembrar que esse tipo de oração a que o Senhor Jesus utiliza não pode ser confundido com aquelas rezas ou grupo de rezas que fazem parte até hoje como guias litúrgicos de sinagogas judaicas(Kadish)(*). Esta oração de Jesus é aquela que é intimista, subjetiva e que pode ser feita a qualquer hora do dia e em qualquer lugar e está livre de qualquer tipo de formalidade litúrgica ou cúltica.

     É por esta oração que vislumbramos na experiência de relacionamento do mestre com o Pai o único modo de nos sentirmos aliviados de nossas cargas. E a possibilidade de adesão por parte destes que são considerados como os mais humildes e desprovidos de qualquer tipo de conhecimento, ou até mesmo de ter acesso ao conhecimento da verdade por méritos próprios dada sua incapacidade de absorção e aprendizagem. Por isso e, por conta disso se faz menção do caráter revelacional que está em Cristo Jesus na sua relação com Deus-Pai.  

     Esta oração também nos ensina que apenas e somente nestas condições, podemos nos sentir no direito de tratarmos a Deus como Pai. Já que o Pai do ponto de vista de sua relação com o Filho é também a transcendência do Filho. Por essas e outras razões, dá para se deduzir que este tipo de ensinamento ministrado pelo mestre não acontece em um ambiente tal como uma sinagoga daquelas que existiam na região da Galileia no primeiro século. Mesmo porque o verso de número 7 nos informa que ele ao começar a falar de João, falava a um grande número de pessoas. E uma sinagoga não é um local apropriado com condições de abrigar uma grande multidão.




I - É todo aquele que ao estar diante de Jesus se vê na condição de discípulo.(V.V. 1-6)



     Estes primeiros versos, como foi devidamente colocado na introdução, mostram uma relação mais próxima de Jesus com seus discípulos. E o texto deixa claro quanto ao que acontece após o término de uma reunião de treinamento em que Jesus dá instruções a seus discípulos. Logo após estas instruções, ele sai e começa a pregar e ensinar nas respectivas cidades de onde esses discípulos eram naturais, ou onde esses discípulos tinham suas vidas seculares até que recebessem a chamada do mestre.

     Ao se estabelecer na cidade de Cafarnaum (Mateus 4:13; 9:1)como seu domicílio, o mestre está sinalizando não apenas a sua opção natural por um lugar onde ele já  se encontrava devidamente ambientado. Pois, parte de sua infância e adolescência se deram em Nazaré que também ficava na Galileia. Essa escolha acontece a partir do momento em que fica sabendo da prisão de João Batista. Era natural que boa parte de seus seguidores mais diretos também viessem desta cidade ou das cidades circunvizinhas. Betsaida, Cafarnaum e Corazim  são cidades circunvizinhas ao Mar da Galileia

     Não custa lembrar a forma como ocorre a chamada desses discípulos. Em Cafarnaum conforme este evangelho no capítulo 4:18,21 ele chama Simão Pedro e André seu irmão; Tiago e João seu irmão que são filhos de Zebedeu. E um detalhe muito peculiar e próprio desses quatro primeiros discípulos a serem chamados pelo mestre, ambos exerciam a atividade da pesca em Cafarnaum. Outro que fazia parte dos doze é Felipe que era natural de Betsaida juntamente com André e Pedro e que provavelmente também vivesse em Cafarnaum quando foi chamado. (João 1:44)

     Obviamente que o objetivo aqui não se limita a fazer um levantamento das origens de cada discípulo do mestre. E sim estabelecer de forma clara e equilibrada como esta relação entre Jesus e seus discípulos ocorria. Ao mesmo tempo que o texto também relata a relação de Jesus com João Batista e consequentemente a relação dele com os discípulos de João. Queiramos ou não, este tipo de relacionamento pode ser balizado por patamares diferentes conforme se vislumbram alguns sinais de inexistência de afinidades entre um grupo e outro.

     No capítulo 11:1 do evangelho de Lucas, por exemplo, encontramos o relato de um fato onde o mestre havia terminado fazer sua oração e um discípulo não identificado no texto e que observava a maneira como Jesus orava lhe faz um pedido. Neste pedido ele diz para o mestre o ensinar a orar, tal como João, neste caso, o Batista ensinou aos seus discípulos. O que fica bastante claro e sintomático é a existência de nuances distintivas entre um e outro discipulado. Isto pode ser melhor detectado no livro dos Atos dos Apóstolos.

      A pergunta a que os discípulos de João estão imbuídos de fazer a Jesus diz respeito ao que estava por vir e que era a marca do discipulado de João. Pois, ele dizia que não era o Messias e que após ele viria alguém que era maior do que ele. O discipulado de João Batista era um discipulado de transição. Logo, aquela preocupação de João traduzida pela grande pergunta refletia não apenas a preocupação de João como também uma inquietação entre seus discípulos. Por outros detalhes que não nos interessam a esta altura de nossa reflexão, não se pode afirmar com clareza que esta transição tenha ocorrido naturalmente.

     Entretanto, a forma com que Jesus responde a estes discípulos é natural e potencializadora de muitos outros momentos onde a ação efetiva do poder de Deus através do mestre ocorre. A resposta de Jesus, e já fiz menção deste detalhe na introdução é que tendo aqueles discípulos presenciado algumas maravilhas operadas, eles deveriam relatar o que tinham ouvido e visto. Os milagres, ou intervenção sobrenatural de Deus acontecem por meio de Jesus e isto é visível, público e notório. E, acima de tudo, estava havendo o anúncio do Reino de Deus também aos pobres. E feliz é aquele que não se escandalizar em mim, ou comigo.

     A mensagem que Jesus envia a João é um claro recado de que ele, embora estando na cadeia, não deve se preocupar ou cultivar algum tipo de angústia por um erro ou fracasso na missão que Deus lhe dera para que fosse o precursor do próprio Jesus na preparação do seu caminho. É uma mensagem de mestre para mestre. Por outro lado, a mensagem também se direciona ao discipulado de João uma vez que estavam cientes de que o ministério de João era de transição e aquele que substitui a João é Jesus. Por tudo isto, Jesus também adverte àqueles que por alguma razão ao se escandalizarem nele, tal como faz referência, atribui isto a uma infelicidade.

     O que poderia então significar a expressão escandalizar nele? Basicamente uma deliberação de caráter pessoal que levasse, com relação aos discípulos de João, a não aceitar se submeter ao discipulado de Jesus. Caso uma atitude dessa natureza acontecesse com algum discípulo de João, estaria claro que este não teria entendido ou levado a sério os ensinamentos de seu mestre. A proposição temática sob a forma de uma interrogação onde busca responder o que nos torna receptíveis à mensagem do Reino de Deus, está vinculada a um ato de submissão daquele que se diz discípulo de Jesus. Discípulo é aquele que está ou vive sob a regra ou disciplina de seu mestre(STOTT, John. O discípulo Radical. Viçosa, MG: Ultimato, 2011, p.10)


II - São também aqueles que tendo anteriormente um mestre construíram uma capacidade de discernimento a tal ponto de migrarem de um mestre para outro.(V.V. 7-11)



     Notemos aqui que após o diálogo entre Jesus e os discípulos de João. O Senhor retoma o seu ministério de pregar às multidões. E a referência neste momento é com relação a João Batista. Segundo o que conhecemos com base nos inúmeros exemplos de vidas monásticas, as ordens religiosas e seus respectivos mosteiros. São pessoas que optam por uma vida de consagração a Deus e portanto se retiram de uma provável vida secular aderindo ao monasticismo. Do ponto de vista do isolamento, podemos dizer  que João era um eremita por opção. Ele tinha o deserto como sua moradia ou local de vida reclusa. E isto influenciou até mesmo nos seus hábitos alimentares e de vestimenta(Mateus 3:4) 

     Jesus tendo o exemplo de vida de João Batista pergunta a multidão o que, afinal de contas, eles foram ver no deserto? Ele sabe que João apareceu pregando no deserto(Mateus 3:1). É deste lugar inusitado e sombrio que ecoa um ar de esperança, um suspiro de vida. Foi do deserto e não da cidade ou dos centros e escolas rabínicas que Deus por instrumentalidade de João começa após um grande período de silêncio falar ao  povo. A interpelação de Jesus para com a multidão tem um ar de sarcasmo: O que existe de atrativo no deserto pra que vocês tenham ido até lá? Será que valeria a pena todo este esforço em se deslocar a um lugar inóspito e nada acolhedor tão somente para se contemplar uma vara ou caniço balançando ao vento?

  Não são necessariamente os movimentos e aqueles que aderem a eles com forte apelo popular a razão e o que se busca nestas palavras interrogatórias de Jesus a multidão. Mas, ele chama a atenção daqueles que neste momento o ouvem e que pelas muitas e variadas razões fizeram com que se dirigissem ao deserto a procura de João. Ele torna a repetir a pergunta cada vez mais sarcástica sobre o real motivo daquela multidão ter ido ao deserto. Lá eles não encontrariam ninguém trajando vestimentas finas, pois os que trajam roupas finas podem ser e são encontrados apenas nos palácios. Então, o mestre responde que eles foram ver um profeta e reafirma que era muito mais que um profeta.

     Um profeta prega, profere os juízos de Deus a seu povo e, em algumas situações faz vaticínios a cerca de julgamentos futuros. Apenas aquele que é detentor ou possui o espírito de Deus, pode ser chamado de profeta(JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. São Paulo, Ed. Paulinas, 1977, p. 123-124).E nas palavras de Jesus ao afirmar que João foi mais que um profeta reflete o seu lugar desde uma perspectiva bíblica e histórica onde a cerca dele a escritura se manifestou estabelecendo de que maneira, caso queiram olhá-lo como um profeta, aconteceria o seu ministério. João é um profeta a cerca de quem a escritura profetizou e que o Senhor Jesus estava ali para reforçar o cumprimento desta profecia na vida, ministério e existência histórica de João Batista.  

     O Senhor Jesus está ali não somente para atestar o cumprimento de uma profecia acerca de João. Ele também testemunha a cerca de sua grandeza entre aqueles nascidos de mulher. Objetivamente, que espécie de grandeza seria esta? E algumas atitudes traduzidas por algumas palavras do Batista respondem esta indagação. Se lembrarmos de suas respostas toda vez que alguém pensou ou foi levado a pensar que talvez João fosse o Messias(João1:20)e ele de forma humilde e no estrito cumprimento do que a escritura a cerca dele falava(João 1:23)  respondia dentro da serenidade que todo servo de Deus tem, e, por ter consciência de que sua missão está desempenhada conforme a vontade de Deus.

     Não apenas a consciência e sensação de dever cumprido, bem como o fato de que aqueles que por ele, João, foram orientados agora terão que ter a consciência e discernimento de que tudo que ele fez foi no sentido de abrir caminho para o que agora se apresenta e se materializa na figura do próprio Senhor Jesus. Os discípulos de João e todos aqueles que uma vez tiveram contato com ele através de suas pregações no deserto. Agora estão tendo a oportunidade de constatar na pessoa do Senhor Jesus aquele de quem João falara e acerca do qual ele chegou mesmo a dizer que não era digno de desatar a correia de suas sandálias(João1:27).

     O ato declaratório de Jesus a cerca da grandeza de João Batista do ponto de vista de uma visão puramente histórica e na linha de uma progressividade no tempo, mostra que em João a história humana tem o seu ápice. Como disse a dois parágrafos atrás, o ato de grandeza de João começa pela sua busca primeira e essencial de tão somente cumprir o que dele estava escrito. Ele foi obediente à prescrição da escritura. Ele também não se deixou levar por qualquer outra distração que não fosse o cumprimento da escritura. Talvez, fosse por isso e por ter entendido a responsabilidade da missão se resguardou dos apelos do mundo e optou desde muito cedo por uma vida reclusa e afastada no deserto.

     E o recado de Jesus  juntamente com o reconhecimento que faz em relação a vida e ministério de João. Vem no sentido de dizer que João teve sua grandeza reconhecida, mas o que está para ser revelado através da inauguração do Reino de Deus é muito maior do que até aqui fora visto. E portanto, aquele mais humilde membro do Reino de Deus é muito maior do que João. Esta mensagem era para todos, discípulos ou não de João. O que João e todos os que o precederam fizeram foi fazer com que o povo construísse uma consciência tal que lhes desse o discernimento necessário para entender a forma paulatina com que Deus veio falando a seu povo até que se chegasse a esse desfecho final de um ciclo, que desde uma perspectiva histórica e teológica se resume à revelação final de Deus que agora em Cristo Jesus chega a sua plenitude(Hebreus1:1-3).   



III - São aqueles que ouvem com discernimento e entendem os movimentos da história como o mover sobrenatural de Deus.(V.V. 12-15)



     Inicio este tópico destacando a necessidade de um melhor entendimento e recuperação do que foi e do que é a importância da tradição profética em Israel. Para tanto e em poucas palavras começo por distingui-la da tradição sacerdotal que doravante a identificaremos com o que nos tempos de Jesus estava representado por aqueles que se ocupavam dos serviços religiosos no templo, incluindo assim os escribas e rabinos. Isto é, aqueles que se debruçavam sobre os rolos da lei não apenas para reproduzi-los zelando por sua conservação, bem como interpretá-los. 

     Essa tradição profética ainda que seja uma marca que qualifica a todo Israel, a meu ver desenvolveu-se com mais vigor desde o momento de ruptura política de Israel no Reino do Norte. Alguém poderá me interpelar dizendo _ Mas os gigantes da profecia são quase todos do Reino do Sul tais como Isaías, Jeremias, Ezequiel, etc. E eu poderia responder que embora todos eles tenham sido fundamentais a seu tempo para a tradição profética, digamos que eles foram grandemente influenciados pelo templo e pela elite sacerdotal que do templo se ocupava.

     O que estava acontecendo no Reino do Norte e devido às instabilidades políticas constantes aliado a uma crescente busca por outras expressões de caráter religioso que não tinham relação com a tradição nômade e israelita e suas manifestações teofânicas tais como a que ocorreu com Moisés e seu povo no Sinai. Foi num contexto de instabilidade política e de desagregação social que emerge a figura do grande profeta Elias. E é sintomático e emblemático a referência que se faz a Elias. O contexto onde surge o nome de Elias é o contexto da Galileia, que a rigor, nos tempos de Elias e com a divisão dos reinos compreenderia a parte Norte cuja capital era Samaria.

     Já falamos de contextos com instabilidade política, social, religiosa. Fizemos um paralelo entre este contexto de instabilidade especificamente relacionada ao Reino do Norte. E com isto chegamos a figura ímpar do grande profeta Elias. Ele se notabilizou por ser alguém de origem desconhecida, já que em sua identificação, ou seja, por ser  conhecido na escritura apenas como o TISBITA, da região de Gileade(I Reis 17:1). E que aparece em um cenário caótico em Israel(Reino do Norte) e em nome de Deus questiona os atos do rei. Ele ataca este rei por ter, através de sua esposa a rainha Jezabel, introduzido em Israel um culto pagão em adoração a Baal e a Aserá(I Reis 18:19).

     Também não dá para passar despercebido a forma como o redator do evangelho conduz sua narrativa. Ele elenca para a reflexão e de uma maneira esplêndida ao enaltecer a figura de João Batista, seu ministério profético, e o compara ao profeta Elias. No desenvolvimento do redator é Jesus que alude a Elias e o traz para o cenário atual ao comparar o ministério de Elias com o de João Batista. Ambos foram perseguidos por Reis e eram potenciais vítimas desses reis por influência de suas esposas. Elias condena a idolatria do rei influenciado pela esposa Jezabel e que na tradição bíblica e religiosa é o mesmo que se prostituir. João condena de forma contundente a relação incestuosa e adúltera de Herodes Antipas e por ele também é perseguido. E no exato momento destas palavras de Jesus encontra-se em um cárcere.

     Muito embora neste tópico, e, a despeito de uma descrição de um contexto caótico que se equivalem tanto o ocorrido nos tempos de Elias quanto ao que se sucede nos tempos de Jesus, no exato momento em que faz referência a João Batista. O que não se pode perder de vista é que mesmo assim é passível de se ver que Deus tem estado no controle das coisas. E graças a estes homens que estão a seu serviço para chamarem a consciência tanto seu povo quanto aqueles que se prestam a prevaricar contra o Senhor. Estes homens são chamados de profetas pelo fato de se comprometerem, desde que possuídos pelo Espírito de Deus, a condenar todo tipo de injustiça e pecado que se comete. 

     Quando um profeta do Senhor fala, temos a obrigação de estarmos atentos às suas palavras. E ouvir com a orientação divina a fim de que possamos com o discernimento que nos vem da parte do Senhor Jesus, a exemplo do que se caracterizou o ministério profético de João Batista. A palavra do profeta serve como alerta e advertência para esta disposição em querermos ouvir a voz de Deus por meio de seus servos. A descrição e detalhamento de questões relacionadas a  contextos sociais, políticos, culturais e religiosos, não deve ofuscar o elemento revelatório que se encontra intrínseco neste caos a que se tem tornado a vida humana. O Senhor Jesus chama-nos a responsabilidade enquanto ouvintes para esta situação: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça." apesar do caos instaurado a mensagem do Reino de Deus está para ser filtrada.



IV - A relação dos pais com os filhos e o tipo de inocência apontada por Jesus CONCLUSÃO relação é o grande ponto negativo dessa palavra.(V.V. 16-19)



     A rigor, o trecho acima destacado não faz referência a uma relação entre pais e filhos e sim a filhos enquanto meninos num relacionamento entre faixas etárias iguais. Numa especie de racionamento humano tal como este que tem como característica principal a horizontalidade. E o que chamo de horizontalidade é o que se pode deduzir de algo que não busca um fundo histórico e hierárquico. Portanto, sem nenhuma razão para se aprofundar. É algo de natureza e caráter superficial.

     É basicamente o tipo de analogia que se pode ver quando Jesus se dispõe a comparar o tipo de geração com que ele no exato momento de seu discurso se depara. Meninos tendo o seu momento de lazer numa praça queimando suas calorias. Vale dizer que este tipo de analogia não tem por objetivo ajuizar algum tipo de ação condenatória da parte de Jesus. Esse tipo de analogia mostra o quanto ele estava antenado com sua época. Assim como revela sua capacidade de diálogo ao elencar fatos corriqueiros da vida de um povo em sociedade.

     Como não existe nenhum tipo de aprofundamento a nível de uma reflexão mais aprofundada sobre questões da vida que mais nos afligem. Nossas palavras proferidas são bastante aleatórias e descompromissadas. E, como disse, isto faz parte de nossa vida social e comunitária. São entendidas modernamente como lazer e quando nos encontramos em um estado de espírito como este, a dimensão histórica, existencial e tudo quanto é carga que paira sobre nós se pararmos e contemplarmos as questões que mais nos afligem tendem a nos jogar pra baixo e a exigir um pouco mais de esforço de nossa parte. Isso é deprimente e desgastante.

     A forma banal e descomplicada com que tratamos os nossos problemas acarreta atitudes que beiram a irresponsabilidade pelo fato de não fazermos caso de nenhuma delas. Nos tópicos anteriores foram feitas algumas analogias entre a figura de João Batista e a dimensão e alusão histórica entre ele e o grande profeta Elias. A analogia era bastante adequada até por que ambos embora vivendo em épocas e momentos históricos diferentes em Israel tinham semelhanças quanto aos embates em que estiveram envolvidos e até mesmo no tipo de vida reclusa e solitária eram parecidos. Nas palavras e discurso de Jesus João Batista é dimensionado e equiparado do ponto de vista de um olhar retrospectivo e histórico ao profeta Elias.

     Mas, e esta geração contemporânea a Jesus? Ele simplesmente equipara a pessoas não imbuídas de objetivos, e, portanto, sem qualquer tipo de princípio norteador. A palavra adequada a eles era banalidade. Isto se revela pelo tipo de atitudes que tomavam e que se traduziam por palavras que atingiam em cheio a pessoa naquilo que de mais abjeto o homem faz ao desmerecer e reduzir qualquer pessoa através de um rótulo quase sempre depreciativo. No caso do Batista como fala o Senhor Jesus: "Tem demônio"; e no caso do Filho do Homem e sua missão: "Eis aí um comilão e beberrão."

     A palavra chave neste tópico é relacionamento. É chave por se tratar de um grande desafio. E o que se percebe nas afirmações de Jesus é que relacionamento é o que não existe. Pelas muitas razões e algumas foram aqui observadas e muitas outras são passíveis de se observar. Mas, elas se resumem ao que sinteticamente afirmamos quando não queremos ou não aceitamos que alguém faça parte de nossa vida ou das nossas relações. E se resume no amor ao próximo. Amar o próximo é aceitá-lo fazendo parte de nossa vida enquanto pessoa, enquanto ser humano. Pelo contrário a todo momento estamos dizendo às pessoas que se afastem de nós. Não as queremos perto e muito menos respirar o ar juntos em um mesmo local.

     Relação ou relacionamento como já foi dito até aqui é o grande ponto negativo da existência do homem. E isto tem uma ligação muito forte com o sentido de hierarquia ou hierarquização das coisas. Mas, não pensemos nisto como algo impositivo, autoritário e que nos faça menor do que já somos. Aliás da compreensão deste termo em sua aplicabilidade depende nossa própria existência e posteridade. Quando Jesus alude aos meninos comparando-os a sua geração ele fala das atitudes inconsequentes própria de nossas tenras idades e implicitamente está dado que precisamos da intervenção dos nossos pais para corrigir, orientar e fazer ver, se, nossas atitudes, sejam elas quais forem, têm sempre consequências quando não danosas para nós, para o próximo, ou para ambos. Os pais ou nossos orientadores são o tipo de relação hierárquica da qual dependemos.
     

V - São aqueles que se tornam imunes aos juízos divinos que estão para acontecer num futuro bem próximo.(V.V. 20-24)



     O fato de que estamos a cada dia, todos os dias e sempre com aquela sensação de que algo não anda bem, algo está errado. Prenuncia de alguma forma que há em nós intrinsecamente uma espécie de capacidade para discernimento das coisas. Temos a consciência de que o pecado se alojou e se enraizou em nós. Ao mesmo tempo que, quando adquirimos ainda que superficialmente, a capacidade de não nos conformarmos com este sentimento e sensação incômoda em nós. Entendemos, ou esta presença inoportuna nos faz refletir que nossa criação e vocação não é para o pecado. Eu me lembro de Paulo em seus momentos de crise e da forma como poética e teologicamente se expressa acerca da presença incômoda do pecado. Esse inconformismo de Paulo tem uma vitalidade descomunal:
  "Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros." (Romanos 7:23)

Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros.

Romanos 7:23
Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros.

Romanos 7:23


     Por outro lado, a presença incômoda, inoportuna, inconveniente, e etc. do pecado, aponta para o fato de que somos sim passíveis de sermos trazidos a juízo. Apesar de trazermos conosco um caráter e natureza distorcido pelo pecado. E de que em alguns momentos temos a tendência de justificarmos o injustificado. Ainda assim somos seres morais e, por conta disso, deveríamos ter o desprendimento e capacidade para percebemos que a glória de Deus não cessou de se revelar a nós. Mas, como o próprio Paulo afirma: Distorcemos no sentido de transformar a revelação do Deus incorruptível em algo corruptível (Romanos 1:23)

     Levando em consideração as palavras do apóstolo no parágrafo anterior, podemos deduzir que ao elencar tais fatos como atitudes mesquinhas e depravadas do homem. Paulo poderia estar pensando também nos episódios a que o Senhor Jesus se reporta neste texto de Mateus e do rigor com que as pessoas das cidades, pela ordem: Tiro, Sidom e Sodoma, foram punidas pagando com a própria vida. E mesmo que não estivesse pensando neles especificamente, esses eventos relatados pelo Senhor Jesus se enquadram no tipo de palavra que o apóstolo se utiliza para fazer referência ao que hoje chamamos dentro da HAMARTOLOGIA(**), de depravação do homem.

     A palavra de advertência que Jesus dirige aos seus contemporâneos é no sentido de que se aquele juízo divino foi tão rigoroso para Tiro, Sidom e Sodoma, o tipo de juízo divino que se reserva à sua geração. E especificamente para as cidades da Galileia onde ele mais operou milagres e prodígios. O rigor do juízo divino será ainda maior. Vale aqui um adendo a esse respeito: Muito embora, eu não seja um perito em direito penal. Aqui, não se fala de culpar uns e absolver outros. No que diz respeito ao pecado todos nós somos indesculpáveis. Mas, eu imagino que apesar da passividade da culpa, a dosimetria de aplicação de penas leva em consideração o tipo de delito que se comete. Um homicídio triplamente qualificado terá uma pena maior do que uma infração de transito que redundou apenas em danos materiais.

     Nas palavras de Jesus o que está em discussão não é o tipo de condenação, mas o fato de que por estarmos propensos a pecar independente ou não da gravidade do delito sempre haveremos de transgredir o princípio legal imposto. Este princṕio vale para qualquer ser humano e em qualquer situação. E para nos limitarmos apenas às cidades da Galileia por onde o Senhor mais andou e por onde operou a maior parte de seus milagres. Do ponto de vista social, cultural e principalmente religioso. Eram cidades onde habitavam pessoas humildes. Tanto que na resposta que Jesus envia a João Batista no cárcere, ele diz que aos pobres é anunciado o Reino de Deus. A condição social dessas pessoas não impediu Jesus de lhes pregar o evangelho para arrependimento dos pecados. E estas pessoas não se encontravam imunes diante de Deus de tal forma que não mais fossem passíveis de receber um juízo condenatório divino. 

     Nas palavras de Jesus todos e em qualquer geração que estejam são passíveis de Juízo. No entanto, o rigor seria menor para os de Tiro, Sidom e Sodoma. E porque isto, qual a razão desse abrandamento? Os contemporâneos de Jesus têm um vasto relato de situações e fatos onde a intervenção divina se fez presente de uma forma ajuizadora de pecados e faltas cometidas pelo povo. Como se não bastasse, nesse ato contínuo de revelação progressiva de Deus (Hebreus 1:1), o tempo escatológico é o aspecto demarcador pelo qual Deus se revela agora e de forma definitiva através do Filho. Não existe mais nada a ser revelado da parte de Deus aos homens que vá além dessa relação filial entre Deus e o homem e que se encontra revelado em Cristo.

     Pelas próprias palavras de Jesus fica claro que ninguém pode se tornar indesculpável diante de Deus. O fato de que haverá menos rigor para Tiro, Sidom e Sodoma do que para aquela geração contemporânea de Jesus não os exime de que são passíveis de Juízo e serão submetidas à condenação divina. Embora o rigor seja menor, ainda assim existe um juízo e, portanto, a pressuposição de culpa. Por outro lado, se no passado a manifestação divina fosse mais clara e mediada por intervenções fenomenológicas. Agora, no exato momento em que o Senhor profere essas palavras dos juízos vindouros e divinos a pena destes que não conseguem ver a revelação divina, será por não perceberem a revelação de Deus em Cisto tal qual nos ocuparemos no tópico a seguir. E apenas haverá imunidade quanto aos juízos divino que estão para se manifestar se as pessoas forem capazes de aceitarem se relacionar com Deus pela mediação do filho.

VI - São aqueles que veem na relação e revelação filial de Jesus o caminho da reconciliação com Deus.(V.V. 25-30)



     Outro detalhe que o redator através do texto deixa claro, é que Jesus está sendo interpelado pelos seus contemporâneos. E a forma como ele responde às indagações é outra maneira de apontar a mudança de perspectiva quando o assunto é revelação divina. Apesar do fato de que os prodígios e maravilhas que ele operava no meio do povo seja o indício de que fosse detentor de dons CHARISMATICOS(***). Aquelas pessoas não deveriam apenas se preocupar com o que estavam vendo e sim, em se perguntarem como ele operava tais prodígios. Não nos esqueçamos de que uma das calúnias que sempre se levantou contra ele era de que operava aquelas maravilhas, uma delas a expulsão de demônios, pelo príncipe dos demônios(Mateus 9:34,12:24; Marcos 3:22; Lucas 11:15). Neste mesmo texto, não apenas Jesus, mas o próprio Batista foi vítima deste tipo de blasfêmia(Verso 18). 

     Mas foi feita a afirmação no parágrafo passado de que em Jesus se experimenta, pela observação que se faz ao tipo de relacionamento entre ele e o Pai, uma transformação radical com respeito ao relacionamento com Deus via religião ou culto religioso. Parece que toda aquela parafernália de instrumentais litúrgicos do templo estava carregada de elementos com poder restritivo quando o assunto era um relacionamento direto, próximo e mais intimo com Deus. Ao que tudo indica e há vários indicadores desse pensamento, a religião em Israel nos tempos de Jesus afastava mais do que aproximava o homem de Deus. Aliás este afastamento, historicamente, conduzia o povo a uma espécie de comoção nacional por trazer consigo algumas inquietações nacionalistas ocasionadas pela geopolítica de dominação romana.

     Não é sem propósito que o redator deste evangelho alinha, pela ordem de surgimento no cenário político e religioso em Israel, João Batista e Jesus. Ele conduz a narrativa tendo como pano de fundo o tipo de sentimento que dominou o imaginário político de Israel desde que Deus não mais levantou profeta para falar a seu povo. Pairava sobre todos o sentimento de que Deus literalmente abandonara seu povo, e por isso não mais levantava profeta. E os que se levantaram buscando ocupar este espaço no imaginário do povo não foram a diante e pelas razões óbvias. Primeiro porque não eram chamados por Deus. E depois, com a ocupação romana nesta região da Palestina, no máximo eram oportunistas insurretos que buscavam formar e encabeçar movimentos nacionalistas(Atos 5:34-37), e, para tanto, aduziam ao modo de interpelar o povo elementos com conotações políticas e religiosas.

     A situação em Israel do ponto de vista político, social e religioso era catastrófica. Se por um lado, e, muito embora vivessem sob o jugo romano, esta situação era bem cômoda para a elite religiosa e intelectual principalmente daqueles que habitavam em Jerusalém. Para o restante do povo que habitavam as demais regiões o ambiente era desalentador. Não nos esqueçamos do arranjo político ocorrido entre os romanos e Herodes e que lhe deu o direito de usurpar o trono em Israel sem que, por lei ou linhagem, tivesse qualquer tipo de direito.

     Ainda assim e apesar do quadro catastrófico tal qual fora pintado nos parágrafos anteriores. Jesus em sua oração é claro em afirmar que tudo tem estado debaixo do controle de Deus Pai. E nada do que tinha acontecido até o exato momento de sua oração fugia a ao controle do Pai. Ele também se apresenta como único e real herdeiro do que Deus tem para os homens. E, afinal de contas, toda e qualquer benção que o homem tenha que receber da parte de Deus Pai, apenas acontecerá por meio do Filho. Pois, segundo ele: "Tudo me foi entregue por meu Pai."

     Há algo de emblemático em suas palavras pois alcançar o conhecimento de Deus conforme a oração do mestre, agora depende de como o homem vê, entende e aceita a relação de Jesus enquanto filho de Deus. Não entender, ou não aceitar esta relação significa fica de fora do que Deus tem para revelar ao homem. Ele conhece o Pai e do Pai é conhecido e o conhecimento de Deus agora acontece pela vontade do Filho. Pois apenas se conhece a Deus porque o Filho por sua vontade quis revelar. E essa relação afetiva que envolve a relação do Pai com o Filho que será o padrão utilizado para que também o homem conheça e tenha acesso a revelação divina. É uma relação de pertencimento e de envolvimento.

     Neste convite afetivo e amabilíssimo do mestre a todos os homens, ele sabe que o homem anda sobrecarregado com os afazeres deste mundo. Ele sabe que por mais que o homem possa se tornar alguém bem sucedido profissional e financeiramente, ainda assim isto não é suficiente para que o homem se sinta em paz consigo mesmo. O grande calcanhar de Aquiles do homem desde o Éden foi o fato de que ele almejou ser igual a Deus. E por isso, a sua queda foi trágica e danosa para todos que vieram depois. O que Jesus neste gesto de amor e com uma palavra convidativa faz é ofertar ao homem a oportunidade de se redimir do sentimento que desde a "Queda" faz parte da vida do homem. E essa redenção ocorre pelo reconhecimento de que em Cristo o homem se submete novamente a Deus.

     O primeiro efeito depois dessa atitude de submissão do homem a Deus por meio de Cristo é o alívio desse fardo que o homem tem carregado. Isto implica no reconhecimento de que apesar de sermos livres para tomarmos a decisão que julgarmos correta. Podemos até mesmo dizer que somos escravos da nossa própria liberdade. O que o evangelho nos ensina não é que seremos livres sem que não devamos qualquer tipo de obediência a Deus. Pelo contrário, o que Jesus convida que façamos é nos submetermos ao senhorio e vontade divina.

     Tomar sobre nós o seu jugo, ou canga, ou parelha. A metáfora desse instrumento que faz com que o animal de tração seja conduzido conforme a vontade do seu condutor. A princípio, pode parecer uma atitude arbitrária, impositiva e por demais violenta. Porém, ao mesmo tempo que o Senhor Jesus propõe o seu jugo ao homem ele pede para que este homem aprenda com ele que é manso e humilde de coração.

     Por mais violenta que possa parecer a imagem utilizada por ele. Ele pede ao homem que preste atenção não apenas no que a imagem por si só apresenta. Ele quer que o homem independente da imagem que é forte quanto ao jugo, preste atenção na figura do condutor que é o próprio Senhor Jesus. Ao experimentar o jugo de Jesus o homem aprenderá que ele é manso e humilde de coração. Ao primeiro contato com o mestre aceitando e se submetendo a seu jugo. Ele diz que o homem encontrará descanso para sua alma. Por uma simples razão: O jugo dele é suave e o seu fardo é extremamente leve. 




CONCLUSÃO


     Ver-se na condição de discípulo significa ser alguém que está propenso a ser discipulado por Cristo e o aceita como seu mestre. Significa que se propõe se submeter enquanto discípulo à disciplina de Jesus. Neste caso, e somente por meio do discipulado de Cristo, nos tornamos receptivos. E apenas e tão somente propagamos a mensagem do Reino de Deus, pelo fato de termos nos tornado antes discípulos de Jesus e receptivos a sua mensagem acerca do Reino de Deus. 

   Curiosamente é com a mensagem trazida por Jesus sobre o Reino de Deus que o mesmo se torna uma realidade. Isto é, o Reino pode ser entendido como aquele estado de espírito onde o que impera é a vontade soberana de Deus. Há vários exemplos no Novo Testamento que evidenciam com clareza este tipo de afirmação. Porém, de minha parte, pelo menos, o exemplo que mais chama minha atenção é a narrativa da oração do Pai Nosso (Mateus 6:9-13; Lucas 11:2-4).
     
   Aqueles que alcançam a condição de discípulos de Jesus, foram capazes através do discernimento que o próprio Jesus lhes oferece de migrarem de um discipulado a outro. Isto aconteceu com boa parte dos discípulos de João Batista. Tanto durante o período de peregrinação de Jesus pela Galileia, quanto durante o período de expansão do cristianismo relatado no livro dos Atos dos Apóstolos (Atos 18:24-25; 19:1-7).  

  E migrar de discipulado significa migrar de um mestre para outro. Notemos que a forma distintiva detectada e que fazia toda a diferença está nas palavras de Paulo do capítulo 19 de Atos, no verso 4. O apóstolo observa que aquele batismo era de transição tal qual foi o ministério de João Batista. O selo de novo batismo está simbolizado pela imposição de mãos, assim como o processo de transição de um discipulado para outro. Aqueles 12 servos agora são discípulos de Jesus.


   E embora tenham a capacidade de migração de um mestre para outro mestre, aduz-se a isso a capacidade de observarem os movimentos da história e discernirem o agir sobrenatural de Deus.  Esse tipo de capacidade deve ser uma realidade sempre presente na vida e experiência de cada discípulo de Jesus. Não dá para ficar apenas na expectativa de que as coisas se modifiquem sem que tenhamos um papel mais proativo em nossas posturas enquanto discípulos. 

     E papel proativo significa percebermos tal qual o próprio evangelho de Mateus neste trecho do capítulo 11: 12-15. Onde o mestre nos ensina a maneira de olharmos o movimento da história com a abordagem de um agir sobrenatural de Deus. Isso faz com que possamos agir com discernimento e poder de síntese. Foi o que Jesus fez neste trecho do evangelho ao aludir a eventos da história de seu povo Israel relacionando-os com a figura de João Batista. 

    João por ser também um profeta, o mestre em forma de advertência deixa aquela expressão típica e característica da qual todo profeta ao falar ao povo em nome de Deus fala: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça." A questão do ouvir era de crucial importância para aquela época. Por possuir forte apelo popular. E por uma simples razão. Apenas as classes abastadas dos palácios e uma elite intelectual e minoritária de rabinos dominavam a confecção e produção de informações através da escrita de textos.

   Por estarmos falando de uma forma em que a participação do discípulo seja proativa. E isto pelo fato de que a interpelação de Jesus deixa margem para isto, já que ele convida a todos a analisarem e observarem com ele os rumos que a história de seu povo tem tomado. Pode ser que alguns entendam e vejam o Reino de Deus apenas com aquela aparência de um ideal subjetivo a ser buscado; Porém, ele é balizador de um ponto vista hierárquico, com uma relação profunda e ajuizadora de nossas ações de tal forma que não nos apresentamos como crianças levianas e inconsequentes. 

   Muito embora a crítica velada de Jesus girasse em torno de uma atitude pueril por parte de seus contemporâneos, isto por si só não os isenta do rigor de Deus quando este traz o homem a juízo. Independente das condições em que nos encontramos somos a todo momento trazidos a juízo por Deus. A única coisa que devemos ter clareza é de que o juízo pode ser mais, ou menos rigoroso. Mas, não há nada que, a rigor, nos isente da culpa que carregamos por sermos pecadores e dos atos que praticamos estando nesta condição de pecadores.

     Agora, vou me valer da oração enquanto uma ferramenta extremamente poderosa e eficaz tal como Jesus nos demonstra a cada momento em que ele interpela a Deus-Pai em oração. Por agora, é importante saber que uma das característica das orações de Jesus é que elas são literalmente desprovidas desse caráter litúrgico  do qual todas elas, sem exceção, se revestem. E mais uma vez a mão do redator aparece de forma providencial neste capítulo. Já que depois dos discursos encadeados por palavras de advertências que marcadamente ditam o ritmo da própria narrativa. O último tópico revela a maneira afetiva com que o Filho se relaciona com o Pai.

     Se observarmos o movimento de todo este capítulo, veremos que o mestre termina de dar instruções a seus discípulos e é logo abordado por alguns discípulos que não são os seus. Porém, são emissários de alguém que falava e pregava a cerca da chegada dele, Jesus. Estes discípulos são instruídos a perguntarem se ele, Jesus, correspondia às expectativas criadas pela pregação de João Batista. E, caso a resposta fosse positiva, esses discípulos consequentemente seriam incorporados ao grupo dos discípulos e seguidores de Jesus.

    Na resposta oferecida pra que estes discípulos levassem a João há o relato de uma série de milagres e prodígios operados por Jesus. Todavia, e ao final do relatos dessas operações milagrosas, o que Jesus acrescenta é que além disso aos pobres é anunciado o Reino de Deus. E quero pegar essa referência ao pobre não necessariamente por razões ideológicas. Até porque, já afirmei inúmeras vezes que o problema da pobreza não é algo que Deus tenha que resolver: "Os pobres sempre os tendes convosco" (João 12:8).

     Essa palavra pobre ou o substantivo pobreza é emblemática, principalmente quando aparece na boca de Jesus. No caso deste capítulo e, especialmente pelo fato de que o mestre fala aos pobres e mesmo assim não abre mão falar principalmente que Deus trará todos a juízo, quer sejam ricos; quer sejam pobres. Outro detalhe interessantíssimo é o fato de que a escolha da Galileia para residir e de onde tem início seu ministério está vinculada a forma como ela sempre fora tratada. Era uma região habitada por gentios. E por isso estigmatizada como região e sombra da morte. Um lugar onde Deus não habitava (Mateus 4:14-17).

     Os pobres ou a forma como a pobreza é tratada a todo tempo e em todo lugar. São a massa, ou os imensos contingentes de pessoas que sem voz se veem alijados de qualquer papel proativo no meio social em que vivem. Eles não têm existência própria e, por conta disso, também não possuem existência histórica. No máximo, o que acontece a partir deles é o descolamento de alguma dessas figuras que emergem de seu meio e potencializam suas amarguras e sofrimentos.

      Anunciar o Reino de Deus aos pobres é dar identidade, autonomia e responsabilidade a ele. E por causa disso eles também são passíveis do juízo divino. E é aí que novamente retomo aquela ideia colocada no início deste tópico onde falava da oração enquanto ferramenta utilizada por Jesus. A sua relação íntima e afetiva junto a Deus-Pai é indicadora de que agora e independente daqueles aspectos litúrgicos e mágicos das orações praticadas nos templos e sanagogas. Agora e em qualquer lugar Deus é passível de ser encontrado e aquele que o invoca pode ter a certeza de que por Ele é ouvido.

     A forma meiga com que Jesus trata o Pai e de como ele convida as pessoas a virem a sua presença. Não apenas inaugura um novo tempo e uma nova maneira de nos relacionarmos com Deus. Ela também nos ensina que nem por isso Deus deixou de impor a sua vontade e soberania. Ela nos convida a aceitarmos o senhorio de Cristo em nossas vidas. Este convite aliado ao conceito de senhorio e soberania é uma forma de aprendizado. E naturalmente experimentamos o quanto este fardo que resolvemos assumir ao aceitar Jesus é suave e leve. Amém !!!


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BIBLIOGRAFIA

STOTT, John. O discípulo radical. Tradução: Meire Portes Santos
       Viçosa - MG: Ultimato, 2011. 120 p.

JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. Trad. João Rezende Costa
       São Paulo, Ed. Paulinas. 1977. 497 p.

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 (*) KADISH - Expressão do aramaico que significa sagrado. Grupo de rezas cotidianas que têm como ênfase a glorificação do nome de Deus.

(**) HAMARTOLOGIA - Termo de origem grega com o qual a Teologia Sistemática aborda a doutrina do pecado.

(***)CHARISMATICOS - termo de origem grega e que está relacionado a dons. O mesmo que capacitação que vem diretamente da parte de Deus e mediada pelo seu Espírito.


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Καὶ ἐγένετο ὅτε ἐτέλεσεν Ἰησοῦς διατάσσων τοῖς δώδεκα μαθηταῖς αὐτοῦ μετέβη ἐκεῖθεν τοῦ διδάσκειν καὶ κηρύσσειν ἐν ταῖς πόλεσιν αὐτῶν
δὲ Ἰωάννης ἀκούσας ἐν τῷ δεσμωτηρίῳ τὰ ἔργα τοῦ Χριστοῦ πέμψας διὰ τῶν μαθητῶν αὐτοῦ εἶπεν αὐτῷ Σὺ εἶ ἐρχόμενος ἕτερον προσδοκῶμεν Καὶ ἀποκριθεὶς Ἰησοῦς εἶπεν αὐτοῖς Πορευθέντες ἀπαγγείλατε Ἰωάννῃ ἀκούετε καὶ βλέπετε τυφλοὶ ἀναβλέπουσιν καὶ χωλοὶ περιπατοῦσιν λεπροὶ καθαρίζονται καὶ κωφοὶ ἀκούουσιν καὶ νεκροὶ ἐγείρονται καὶ πτωχοὶ εὐαγγελίζονται καὶ μακάριός ἐστιν ὃς ἐὰν μὴ σκανδαλισθῇ ἐν ἐμοί

Jesus Testifies about John
16 Τίνι δὲ ὁμοιώσω τὴν γενεὰν ταύτην ὁμοία ἐστὶν παιδίοις καθημένοις ἐν ταῖς ἀγοραῖς προσφωνοῦντα τοῖς ἑτέροις 17 λέγουσιν Ηὐλήσαμεν ὑμῖν Καὶ οὐκ ὠρχήσασθε Ἐθρηνήσαμεν Καὶ οὐκ ἐκόψασθε 18 Ἦλθεν γὰρ Ἰωάννης μήτε ἐσθίων μήτε πίνων καὶ λέγουσιν Δαιμόνιον ἔχει 19 ἦλθεν Υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου ἐσθίων καὶ πίνων καὶ λέγουσιν Ἰδοὺ ἄνθρωπος φάγος καὶ οἰνοπότης τελωνῶν φίλος καὶ ἁμαρτωλῶν καὶ ἐδικαιώθη σοφία ἀπὸ τῶν ἔργων αὐτῆς

Woe to the Unrepentant
20 Τότε ἤρξατο ὀνειδίζειν τὰς πόλεις ἐν αἷς ἐγένοντο αἱ πλεῖσται δυνάμεις αὐτοῦ ὅτι οὐ μετενόησαν 21 Οὐαί σοι Χοραζίν οὐαί σοι Βηθσαϊδά ὅτι εἰ ἐν Τύρῳ καὶ Σιδῶνι ἐγένοντο αἱ δυνάμεις αἱ γενόμεναι ἐν ὑμῖν πάλαι ἂν ἐν σάκκῳ καὶ σποδῷ μετενόησαν 22 πλὴν λέγω ὑμῖν Τύρῳ καὶ Σιδῶνι ἀνεκτότερον ἔσται ἐν ἡμέρᾳ κρίσεως ὑμῖν 23 Καὶ σύ Καφαρναούμ μὴ ἕως οὐρανοῦ ὑψωθήσῃ ἕως ᾅδου καταβήσῃ ὅτι εἰ ἐν Σοδόμοις ἐγενήθησαν αἱ δυνάμεις αἱ γενόμεναι ἐν σοί ἔμεινεν ἂν μέχρι τῆς σήμερον 24 πλὴν λέγω ὑμῖν ὅτι γῇ Σοδόμων ἀνεκτότερον ἔσται ἐν ἡμέρᾳ κρίσεως σοί

Rest for the Weary
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Machado de Assis e o desafio de sua leitura




Capa do livro Machado de Assis: Lido e Relido (2016)

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     Há pelo menos uns cinco anos, quando meu filho caçula ainda era aluno do ensino médio. O seu professor de língua portuguesa comentou que havia um projeto a ser tocado entre os linguistas e especialistas em língua e literatura brasileira que tinha como finalidade reeditar algumas das obras de Machado de Assis, ou todo o seu trabalho de tal forma que ela fosse vertida(parafraseada) para um português mais atual e que fosse acessível a esta geração e às posteriores.

     Alguns aspectos são extremamente importante neste momento em face do desafio que pode ser esta empreitada. O primeiro deles, eu diria que pode até mesmo ser levado para o lado positivo. É a preocupação dos docentes da área em preservar a obra deste grande mestre da língua e literatura brasileira. Uma obra não apenas se preserva pelo fato de que o registro dos escritos estejam arquivados em museus ou bibliotecas. Ela também se preserva no constante diálogo que se estabelece entre autor e leitor.

     Machado de Assis é um desses escritores profundamente preocupado com os rumos da história, da cultura, bem como da vida social brasileira. Seus romances e contos ambientados num Rio de Janeiro que ainda é o centro cultural e político do Brasil. Logo, é para onde acorrem personalidades e políticos desta imensa nação. E que atravessa o tempo entre a monarquia e o império tão bem explorado em "Esaú e Jacó". Ele nos aproxima de algumas ruas e vielas, bem como bairros desse Rio antigo que nós cariocas conhecemos tão bem.

    Isto é, eu presumo que os cariocas, dentre os quais me incluo, devemos conhecer tão bem. Pelo menos quando se faz referencia a algumas de suas personagens as quais são devidamente ambientadas nas ruas, vielas, casas, palácios, etc. deste Rio de Janeiro descrito com tamanha propriedade e peculiaride por este genial escritor: "A obra de Machado de Assis reflete esse passeio pela cidade. Portanto, nada mais apropriado do que essa justa homenagem da Cidade ao seu filho ilustre." (* Trecho do parecer da Conselheira Natércia Rossi, do Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural, relatora no processo de declaração da obra de Machado de Assis Patrimônio Cultural Carioca.)

     De outra maneira, caso não se destacasse o lado positivo mencionado nos parágrafos anteriores. Eu diria que nossa situação é tremendamente preocupante. E digo que é preocupante pelo fato de que o termo paráfrase empregado neste projeto docente já possui grau correspondente a uma situação catastrófica enquanto projeto cultural. Uma língua como a nossa, a portuguesa, que doravante me permitirei chamá-la de brasileira em homenagem ao grande mestre Afrânio Coutinho¹. Assim como todas as outras línguas de origem românicas, são uma evolução do latim falado, ou modo vulgar de se comunicar entre os cidadãos do império. Assim era a designação atribuída ao povo pelos latinistas ou puristas. Em síntese, as línguas românicas são uma corrupção degradante do latim e seu tempo áureo.

     E, se não fosse o destemido arrojo de tantos poetas e artistas que, acima de tudo, entendiam que a arte literária deveria ser consumida pelo povo e que para se alcançar esse povo(Plebe)², era necessário andar com ele, comer da sua comida e falar a sua língua, talvez, jamais tivéssemos o que, do ponto de vista literário, chamamos de ROMANCE(A moda romana). A literatura criada e construída sobre esta base popular foi fundamental na construção de uma natureza identitária das populações fazendo com que o conceito de latinidade se circunscrevesse a uma determinada região e posteriormente avançasse para as demais áreas de influência destes povos.  

     Mas, voltando a Machado  de Assis, quem conhece sua obra ou parte dela pode ver que o autor desde o início busca um diálogo com seu leitor e neste diálogo está subentendido que o leitor com quem dialoga é parte importante e vital na condução dos acontecimentos e até mesmo no ajuizamento moral que se faz a cerca das personagens envolvidas em suas crônicas e romances. Muito antes de nos preocuparmos com questões atreladas ao domínio e conhecimento de termos utilizados pelo autor, deveríamos nos preocupar com esta relação dialógica proposta pelo autor em sua obra, e, se efetivamente nestes tempos modernos, este diálogo ainda subsistiria com seus atuais leitores².

     E é exatamente essa relação com os atuais leitores um dos grandes problemas na leitura e releitura machadiana. E qual seria o leitor idealizado por Machado de Assis?³ Nos círculos acadêmicos Machado ainda é muito lido e celebrado. Mas, o nosso problema e discussão neste texto não diz respeito a este pequeno e seleto grupo de intelectuais que se debruçam aqui e nos exterior sobre a produção literária machadiana. A questão está localizada no  aluno do ensino médio e provável consumidor de uma literatura de qualidade, e, que pode sim, em contato com os textos de Machado, refinar ainda mais o seu gosto por literatura.

     Esse binômio leitor-consumidor é muito importante tanto para o grau de refinamento a que se chega qualquer bom leitor, quanto para estabelecer parâmetros no mercado editorial brasileiro no sentido de se consumir uma literatura de boa qualidade e de baixo custo. Por isso foi feito referência ao leitor enquanto consumidor. O ponto nevrálgico da realidade brasileira nas escolas de ensino médio coincide com a deficiência desse cliente(Aluno) e sua incapacidade diante de um texto qualquer, em articular ou conseguir relacionar as ideias disseminadas no mesmo, de tal forma que tenha competência para identificá-las.

     Não é meu objetivo identificar e catalogar nesta reflexão os muitos projetos e iniciativas que objetivavam o parafraseamento em algumas edições de obras de Machado de Assis. Tendo por base o significado do verbo parafrasear que subentende a tradução das palavras de um texto por outras de sentido equivalente, mantendo, porém, as ideias originais, não vejo com bons olhos uma inciativa como esta. Acho que qualquer tipo de iniciativa que preserve a memória e a obra machadiana são bem vidas. Pois, como carioca, sou defensor daquela ideia de que o Rio é Machado e Machado é o Rio. Preservá-lo é preservar a cidade, seus monumentos e logradouros.

     No entanto, o tipo de preservação que deve ser primordial em se tratando da obra de Machado de Assis e, que entendo, acontece apenas nos meios acadêmicos. É aquele onde o autor, desde uma perspectiva e época que remonta o Rio de Janeiro, entre o final do segundo reinado e início da República Velha, dialoga com os meandros e espaços culturais, políticos, filosóficos e religiosos. E penetra na alma de seus personagens estando estes inseridos em cada um destes contextos, os quais se constituem, por assim dizer em seus focos narrativos. Não conhecer Machado de Assis a partir de sua obra tal qual ela foi produzida. É um sintoma sério de perda de habilidade em narrar ou contar uma história. E a modernidade tem produzido este tipo de deformidade em nossa sociedade.

     De uma maneira bastante sintética, imaginação e vocabulário são condições imprescindíveis para todo e qualquer escritor assim como para todo e qualquer leitor. São elementos fundamentais para a construção de qualquer tipo de narrativa. É também por onde nos damos conta de nossa condição de seres humanos e de como nossas experiências carregadas de paradoxos se transmitem às gerações futuras. O código língua portuguesa é um conjunto de signos mediados por um sistema convencional e que pertence a um grupo de indivíduos. É preciso então, compreender o processo que acontece mediante a materialização das palavras utilizadas na construção de discursos e, assim, expor pensamentos e opiniões. Foi exatamente isto, no caso específico de Machado de Assis, que aconteceu para que ele produzisse uma obra volumosa e de qualidade.










     

     

       

     

     

     



     
      





Texto - Lucas 17:1- 37

Tema - O tempo na perspectiva do Reino de Deus inaugurado por Jesus.

ICT - O tipo de cronologia aplicada por Jesus nesta passagem em nada se pode comparar àquela que faz parte de nossa vida e da maneira como aplicamos a mesma em nosso dia a dia.

Objetivo Geral - Levar a congregação ao entendimento de que para se fazer parte do Reino de Deus é necessário primeiramente que nos conscientizemos que ele está entre nós.

Objetivo específico - Levar a congregação ao entendimento de que qualquer instrumental de leitura do tempo que não passe por uma relação de igualdade entre todos, não pode também ser indício de que o Reino de Deus está entre nós. 

Tese - "Porque o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo." (Romanos 14:17).




INTRODUÇÃO


     Os evangelhos e, neste caso, sem exceção, isto porque o que vale para os sinóticos vale também para o evangelho de João, são um conjunto de regras e ensinamentos deixados por Jesus e que fundamentalmente estabelecem parâmetros de conduta, de bem viver uns com os outros e, por extensão, um bom relacionamento para com Deus mediado por Cristo. A rigor, os mesmos não se constituem como princípios a serem observados sob a tutela de uma estrutura eclesiástica(Nominalmente conhecida por Igreja)tal como a conhecemos e com a qual nos relacionamos atualmente.

     Essa proposição de conduta iniciada por Jesus, seguindo um traço bastante distintivo da cultura e religiosidade judaica tem como objetivo o estabelecimento de regras de convivência entre todos. Assim como, ao se falar de uma questão como esta, o objetivo não é o fortalecimento de uma instituição que se diz portadora da mensagem e dos ensinamentos de Cristo e dos quais se diz sua guardiã. Isso é melhor compreendido naquele princípio conhecido como personalidade corporativa. Princípio que o próprio Paulo como um bom judeu soube aproveitar com maestria em suas epístolas quando fala da nova vida "Em Cristo".

     A simples alusão que se faz a cerca de uma dinâmica nova e diferente do ponto de vista de um relacionamento entre os homens e entre o homem e Deus mediado por Cristo. Já deixa claro, e, é bastante significativo que os tempos são outros. A ideia de um ciclo de tempo diferente surge pelo sentido, sentimento e percepção de que há algo de novo e passível de comparação com alguns pressupostos que trazemos do passado. O passado para os discípulos e contemporâneos de Cristo tem relação direta com a tradição veterotestamentária e a casta daqueles que reivindicavam para si o direito de serem os seus representantes.

     A religiosidade judaica como um sistema bem fundamentado, estabelecido e com um instrumental de aferição de verdade é a chave linguística na formatação de ajuizamentos éticos e morais de que o próprio Jesus, por ser um bom judeu, também se vale. Conceitos como escândalo, perdão, etc. estão muito presentes na relação social do dia a dia dos judeus. Essa dinâmica torna-se cada vez mais perceptível a medida que a narrativa deste capítulo se desenvolve com a utilização de formas verbais que demarcam, em um primeiro momento, o sentido de inexorabilidade do tempo.

     Do jeito que as coisas caminham, pelo menos, é o que o Senhor Jesus nos adverte ao fazer menção do caráter de irreversibilidade do tempo pra que não haja algum tipo de escândalo. Ou seja, alguém haverá de tropeçar nesta trajetória de vida e caminhada, moral e ética no meio deste povo. E, isto vindo a acontecer, seria melhor que o dito cujo prendesse ao pescoço uma pedra de moinho e se lançasse ao mar. Pra que serve então a advertência de Jesus? Ela incentiva a prática do perdão entre cada discípulo, uma vez que informa a possibilidade de que alguém esteja sempre na iminência de se tornar objeto de escândalo pela prática do pecado entre o povo.

     Não existe a mínima possibilidade de que não se tropece, nem se cometa qualquer tipo de falta grave, ou, até mesmo um pecado. O que se deve fazer então, de acordo com a orientação de Senhor Jesus? Aderir à prática do perdão, desde que aquele que foi o autor de tal falta se mostre arrependido. E, neste caso, o que salta os olhos é tanto a disposição e capacidade de cada um de nós para liberarmos o perdão e a consequente duração do tempo. Parece, e, não era pra menos, que os discípulos do Senhor Jesus tinham uma grande dificuldade na liberação do perdão tal como Senhor Jesus lhes ensinava. Eles chegam a pedir ao Senhor que aumente ou lhes acrescente mais fé.

     Todavia, a dificuldade dos discípulos era também no sentido de como deveriam ser as tratativas para com os seus servos. E o Senhor Jesus ao fazer a analogia da forma de tratamento com que alguns dispensavam a seus servos ensina que essa relação é também levada em consideração por Deus. Quando Ele, enquanto Senhor da vida de todos, nos dispensa os mesmos tratamentos com que dispensamos a nossos servos. E não acharmos que merecemos ou deveríamos obter da parte do Senhor um tratamento diferenciado daquilo que efetivamente fazemos.

     A sequência da narrativa nos informa que o Senhor Jesus estava a caminho de Jerusalém e toma o caminho que nenhum judeu tomava. Aquele que passava por Samaria e pela Galileia. Aquele senso de pureza regrado pelo sistema religioso judaico que se mostrava incapaz de prover o povo que o seguia de acolher o sentimento de amor e misericórdia para com o próximo. Agora, está sendo colocado a prova. Jesus está passando por duas regiões tidas e habitadas por pessoas imundas. O verso 12 diz que ao entrar em uma aldeia, lhe vem ao encontro dez homens leprosos. Estes, de longe, param e levantam a voz rogando pra que usasse de compaixão para com eles.

     A recomendação de Jesus era, segundo o que também estava estabelecido no princípio legal (Levítico 14), de que eles se apresentassem ao sacerdote. A chancela de que estavam ou não limpos, no caso da lepra, era uma prerrogativa do sacerdote. E o Senhor Jesus, como se deve sempre destacar e, como um bom judeu piedoso, segue a orientação da Lei. Então ele recomenda que eles se dirijam ao sacerdote para que sejam examinados, e, se limpos, tenham o aval da autoridade religiosa para que sejam reintegrados ao convívio de suas famílias e ao conjunto da sociedade.

     Evidentemente que houve, desde o momento que o Senhor lhes recomenda que procurem o sacerdote, a operação de milagres na vida daqueles homens. E ainda assim os homens e discípulos de Jesus que o acompanhavam não eram capazes de ver nessas operações de maravilhas traços distintivos que marcavam a presença do Reino de Deus pela própria presença de Jesus. A advertência de que o Reino de Deus não vem e não tem aparência exterior, é algo com que temos de lidar e termos o máximo de cuidado possível. Pois, desse tipo de tentação a nossa história está repleta de exemplos daqueles que se aventuraram em um identificação do Reino de Deus com determinados poderes hegemônicos e geopolíticos e, no máximo, o que aconteceu foi uma aliança entre a fé cristã e o braço político de um estado qualquer.

     Notem que no exato momento em que os fariseus indagam a Jesus a cerca do Reino de Deus, eles tinham presenciado a operação de um milagre. E não foram capazes de associar o milagre a presença de Jesus e como resultado de que o Reino de Deus se fazia presente pela identificação do mesmo com a pessoa de Jesus. Ainda pior seria o risco de que pela falta de discernimento na identificação do Reino com a presença de Jesus. Proporcionaria uma escalada de aparecimento de oportunistas e enganadores do povo se passando pelo Messias e dizendo que o Reino se fazia presente aqui e acolá.

     Uma das maiores dificuldades para se entender uma linguagem carregada de paradoxos, é que num primeiro momento, nada efetivamente faz qualquer tipo de sentido. É o tipo de linguagem que melhor se articula através daqueles que não se submetem a uma escala de pensamento mais ordinária. Este capítulo, nos apresenta algumas situações que vão desde a análise dos preceitos legais sobre os quais estão baseados a vida e a moralidade religiosa do povo judeu e a consequente insensibilidade entre os mesmos de se praticar algum tipo de compaixão entre si. Até que se chegue a necessidade de uma pregação sobre o Reino de Deus e seu caráter humanitário e de acolhimento e misericórdia para com aquele que padece por ter cometido algum tipo de pecado.

     A consequente identificação de Jesus como aquele que pela própria presença já se constitui em indício da presença do Reino  de Deus. Mesmo que, neste exato momento, o objetivo não é primordial para identificação do Reino com  sua presença. Já que uma etapa anterior a esse processo de anunciação e implantação do Reino precisa ser cumprida. Enquanto isto não ocorre, ficaremos a mercê de enganadores como já foi feito menção aqui que se levantarão dizendo que o messias está aqui e acolá. Todavia, a advertência de Jesus é no sentido de que se busque como exemplo alguns relatos que constam das escrituras sagradas e que fazem menção de como o povo já foi relapso no passado a cerca de quando Deus haveria de trazer os seus juízos sobre eles.

     Em poucas palavras, a advertência do Senhor Jesus chama-nos a atenção para aqueles que tiverem a capacidade de discernir a chegada de um novo tempo. Mas, este tempo não deve ser entendido como algo sequencial. É como a experiência de quem estuda história e num determinado momento de seus estudos, se dá conta, por exemplo, de que no idioma alemão existe dois termos para história. Um deles segue a estrutura morfológica do termo tal como o herdamos da tradição greco-latina _ historie, este se vincula a descrição do ponto de vista de um tempo rigorosamente cronológico e sequencial. O outro, geschichte _ Digamos que este termo tem uma relação mais abrangente com a sequência dos fatos propriamente dito, sem contar a sua relação com o caráter mais existencial do homem e que lhe proporciona a capacidade de ver, ler e entender a natureza de um evento.





I - Uma ideia de tempo e de perdão atrelada ao conceito de dia, ou em torno de um dia.(V.V.1-4)


     Há um crítica velada a forma como a vida do povo que vive sob a tutela da Lei mosaica. Nesta crítica, o Senhor Jesus não ataca o princípio legal, mas a forma como ele é disposto para ser observado pelo povo. As relações pessoais e sociais correm sério risco a continuar com este tipo de dinâmica. Ao olhar para o futuro e para a frente, seu diagnóstico quanto àqueles que não se adequarem a estes princípios legais é sombrio. Daí ele falar em um tempo que se torna implacável para os que não se ajustam a ele. A consequência disso, como opção menos pior para o tipo de desgraça que se avizinha é o suicídio.

     Se você está lendo este texto e de repente se depara com a interpretação de um relato em que palavras reputadas a Jesus estabelecem como opção em uma determinada situação o suicídio. Tenho a absoluta certeza de que seu ajuizamento a cerca do caráter e personalidade deste intérprete, não será dos melhores. Entretanto, e, no caso das palavras de Jesus, o que ele faz é uma analogia do princípio legal, e este representado por um sistema regulatório da vida do povo em sua época e que era altamente alienante e opressor. Pois idealizava uma perfeição exarada no princípio legal sem levar em conta as condições de sua observância por parte daqueles que deveriam observá-lo.

     Há inúmeros registros nos evangelhos a cerca de falas de Jesus advertindo aqueles que se diziam guardiões da lei e dos profetas também conhecidos como escribas e fariseus. Seus principais pecados se revelavam pela forma hipócrita com que lidavam com a lei e pelo fato de legislarem em benefício próprio. No trato com a lei não sabiam usar de misericórdia de tal maneira que eram capazes de coar um mosquito e engolir um camelo(Mateus 23:23-24). Também eram hipócritas no tratamento que dispensavam aos profetas(Mateus 23:29.

     Notemos que a fala do mestre nestes quatro primeiros versos aborda uma relação de pessoa a pessoa. Ele até mesmo estabelece uma espécie de parâmetro com um compromisso fundado e formado somente entre as partes: "Olhai por vós mesmos". É uma fala que, a princípio, não visa uma relação entre as pessoas através da mediação da lei ou de qualquer outro princípio legal. Ele chama atenção para a relação interpessoal que temos e, se não a temos, deveríamos ter, uns com os outros. E, é neste tipo de relação que o perdão pode e deve acontecer.

     Entretanto, ao se falar do perdão não se deve imaginar que o perdão seja algo automático ou instantâneo e que não obedeça determinados critérios até que o mesmo seja liberado. A parte ofendida precisa ser convencida de que quem cometeu a ofensa está realmente arrependido. Não sem antes sofrer algum tipo de repreensão. Para então, e, somente depois da repreensão e arrependimento o perdão possa ser liberado. Havendo essa dinâmica de liberação do perdão cumprido todos esses pré requisitos tantas vezes quantas forem necessárias durante o dia. Então, não há limites para se perdoar.

     Uma outra característica que deve ser abordada aqui diz respeito ao tipo de relação que temos, ou devemos ter com os nossos semelhantes. Para tanto, torna-se necessário o discernimento de duas esferas que interagem neste momento. É sempre uma dificuldade. Principalmente em se falando de Brasil se fazer uma distinção entre o que é público e o que é privado. No caso do princípio regulatório e legal da vida do povo judeu neste momento da história de Israel, e, de acordo com  a visão do próprio Cristo, que é capaz de alocar tanto a natureza da ofensa quanto a atitude do perdão no âmbito das relações pessoais sem que as mesmas sejam levadas para esfera pública bem como religiosa.

     A prática do perdão é um exercício diário. E sendo assim ela acaba se tornando um poderoso instrumento de educação religiosa, de civilidade e que contribui em grande medida para o crescimento das relações interpessoais. O perdão é o melhor princípio para nortear a nossa convivência pacífica. Ao mesmo tempo que se notabiliza como melhor antídoto contra a intolerância. Onde a prática do perdão se torna uma realidade não existe espaço para o que chamamos de ódio histórico.

     Agora, o que precisa ficar claro para qualquer discípulo de Jesus, é que essa prática não é facultativa. O que o Senhor Jesus está fazendo no verso 4 é dizer que a prática do perdão no seu discipulado é mandamento. Talvez até haja a necessidade de se fazer uma espécie de apropriação de algumas terminologias tais como o termo EPHẼMERO _ Ou como queira a forma de sua composição: EPI-HEMERA,  ou seja, uma preposição mais um nominativo singular de primeira declinação que tão somente significa: Aquilo que tem  a duração, ou gira em torno de um dia. Digamos, que depois de explicado como acontece o mecanismo de liberação do perdão. Vale lembrar mais uma vez que o perdão é condição básica para todo aquele que queira fazer parte do discipulado de Jesus.

 

II - Fé como elemento de apropriação do conceito de tempo no reino de Deus.(V.V. 5-10)


     O que o Senhor Jesus nos ensina neste trecho do evangelho é de uma riqueza inesgotável. E derruba qualquer tipo de convenção criada pelos homens. Se até o verso quatro a questão  a ser abordada tinha uma relação direta com a liberação do perdão e que, a rigor, tudo tinha a duração de uma dia. Neste exato momento os apóstolos se dão conta de que a proposta de discipulado que Jesus lhes oferece exigirá de acada um deles muito mais fé. O pedido deles vem nesta direção, pois precisam de muito mais fé do que possuem.

     Eles, ao fazerem tal pedido, demonstram de uma maneira simples e teológica que até mesmo a fé que possuem não é algo de sua natureza, porém uma dádiva divina: "Isto não não vem de vós, é dom de Deus"(Efésios 2:8). Eu diria que a fé seguindo o discurso proposto por Hebreus 11:1 é  a capacidade dada por Deus de anteciparmos, melhor dizendo, de vivermos escatológica e antecipatória a plenitude do Reino de Deus. E a resposta de Jesus apenas corrige não o fato de que a fé é um dom divino, mas o fato de que os discípulos estavam subestimando o dom e a capacidade divina que lhes fora dada. Por isso a comparação com o grão de mostarda. Os discípulos em meio ao que se apresentava como desafio minimalizavam suas capacidades ao mesmo tempo em que, de certa forma, omitiam suas responsabilidades.  

     Neste trecho do evangelho é possível ver que o discipulado que Jesus lhes propõe mexerá com a própria estrutura de funcionamento da sociedade e a relação servo e senhor. Pois esta também é a relação que vigorará na razão direta entre eles e o próprio Deus. A partir do que são capazes de fazer a seus servos na condição de seus senhores, o mestre está dizendo que a relação entre eles e Deus não será assimétrica e que não existe a possibilidade de que o tratamento dado por Deus a eles vá além daquilo que eles mesmos são capazes de fazer para com seus semelhantes. Pensando em parte no que foi registrado no parágrafo anterior, subavaliar uma competência não exime quem quer que seja de suas responsabilidades ou culpas.

     A relação Senhor-servo, patrão-empregado não pode se constituir como camisa de força em nosso relacionamento com o próximo. E mais uma vez chamo a atenção para o que o Senhor Jesus tem afirmado e consequentemente trazido para o campo das relações pessoais. Afora o peso institucional pelo qual são pautadas nossas relações na esfera pública e onde a lei é vigente. Em nossas relações interpessoais no âmbito doméstico, no seio da nossas casas o que deve pautar nossos relacionamentos é o acolhimento do outro, ou aquilo que também chamamos de relação afetuosa e fraterna.

     As principais imagens que encontramos nos evangelhos quando se faz algum tipo de referência ao Reino de Deus, são aquilo que se convencionou chamar no meio teológico de comunhão de mesa(Mateus 8:11; Lucas 5:29) e que tem por objetivo enfatizar essa relação pessoal e próxima que devemos ter e cultivar entre nós. A crítica em apenas se fazer o que se manda é um retrato do tipo de convenção que estabelecemos para nós mesmos e que num determinado momento esse tipo de convenção adquire vida própria e passa a regular as nossas ações.



III - Fé como elemento de percepção simultânea e de síntese(V.V. 11-19).

     Falamos no último parágrafo e tópico anterior a cerca das convenções. E agora, o que vemos é o Senhor Jesus quebrando as convenções estabelecidas pelo homem. Isto se dá pelo trajeto escolhido para se chegar a Jerusalém. Fico imaginando como deve ter ficado o semblante de seus discípulos quando o Senhor Jesus escolhe ir por onde foi. E, principalmente, ao se depararem com um grupo de dez homens que padeciam de lepra e por isso mesmo estavam alijados da vida social e religiosa em Israel. Ao que parece esses homens, muito embora estivessem em Samaria, a sua maioria era composta por judeus e apenas um era samaritano.

     Eles sabiam da fama de Jesus e como última tentativa na vida antes que caíssem num completo esquecimento por parte de seus parentes, amigos e as relações pessoais e sociais que possuíam em Israel. Ao longe, e, ao avistarem o Senhor Jesus, clamam por sua misericórdia. O outro dado que mostra a nacionalidade judaica deles, pelo menos de nove deles, é o fato de Jesus lhes mandar que se apresentem ao sacerdote. Como foi mencionado na introdução deste texto, Jesus como um judeu piedoso orienta conforme o princípio legal estabelece em caso de lepra. Mas, o fato de ter dado esta orientação a estes leprosos significa que ele havia liberado a cura para aqueles homens. 

     Se dirigir à presença da autoridade religiosa, neste caso, era meramente uma formalidade que precisava ser cumprida e que chancelaria a liberação da cura por parte do Senhor Jesus. Curiosamente, apenas um deles retorna a Jesus. Ele reconheceu que se não fosse a intervenção miraculosa do mestre não haveria purificação de sua lepra. Os outros nove ainda que tenham sido também agraciados pelo milagre não conseguiam ver que houve um milagre operado em suas vidas. Como o texto diz, o que voltou reconheceu que o responsável pela operação deste milagre foi Jesus. Ele volta se prostra a seus pés e glorifica a Deus.

     É muito significativa a atitude deste homem não apenas por ele ter obedecido ao Senhor Jesus que o orientou e aos outros nove leprosos a se apresentarem ao sacerdote cumprindo assim um rito formal estabelecido pela lei. Os dez compreendiam a importância deste princípio legal como elemento regulador da sociedade judaica como um todo. Entendiam este princípio como a própria palavra de Deus. E se, afinal de contas, alguém padece de um mal, isto tem relação com a prática de algum tipo de pecado e se, objetivamente, esta enfermidade foi curada deve se concluir que houve também a liberação de perdão e a consequente purificação do pecado cometido.

     O décimo leproso foi o único que compreendeu desta forma o milagre que lhe acontecera. É fato conforme o próprio registro do texto que diante do próprio mestre ele se prostra. Ele se reconhecia na condição de pecador e isto está bastante claro pois, apesar de ser visto como estrangeiro por ser samaritano, também foi a presença do sacerdote. A forma que faço menção em termos de ajuizamento de pensamento tem ligação direta com o que foi discutido pelo Senhor Jesus quando aqueles homens que introduziram um paralítico em sua presença e pelo telhado(Mateus 9:1-5; Marcos 2:3-9). Naquela ocasião, o mestre propõe uma questão aos escribas e fariseus presentes quando pergunta-lhes o que seria melhor e mais lícito, perdoar os pecados, ou dizer àquele paralítico pra se levantar tomar o leito e ir embora?

     Este samaritano ao retornar a Jesus reconheceu que o que lhe acontecera na vida foi obra da misericórdia divina. Ele tinha muitos motivos para glorificar a Deus. Todavia, o principal deles e que com absoluta certeza foi o que lhe motivou voltar e agradecer se resume a uma outra palavra do Senhor Jesus a cerca do perdão e que fala do entendimento que se tem quando se experimenta uma ação misericordiosa de Deus(Lucas 7:39-43). Ou seja, quanto mais nos sentimos e nos vemos na condição de pecadores e nos conscientizamos que não temos mérito algum do ponto de vista de nossa relação com Deus. Muito mais nos sentiremos gratos, e motivos não nos faltarão quando o assunto é a glorificação do nosso Deus por meio de Jesus.

     O comportamento de Jesus diante da atitude deste homem que ele faz questão de qualificá-lo como estrangeiro. Revela, a nível de discurso, a intenção de se estabelecer algum tipo de ensinamento, não sem antes deixar um ar de surpresa: "Mas, não foram dez os limpos? E onde estão os nove?" E a cobrança do mestre se resumia ao fato que apenas aquele estrangeiro retornou não para glorificá-lo, mas para glorificar a Deus. Uma caracterização do que se chama de fé no contexto da religião cristã que não observe a presença do elemento de percepção simultânea e de síntese que foi o que este estrangeiro fez, não será capaz de entender a principal característica do Reino de Deus e que se destaca como seu principal traço distintivo.



IV - O Reino de Deus não é perceptível pelas categorias da nossa finitude(V.V. 20-24).


     Além de não ser perceptível através das categorias de nossa finitude pela forma com que os fariseus interrogam o mestre a cerca do Reino. Ele apenas tem como chave linguística para entendimento e percepção de sua presença entre nós a figura do próprio Cristo.  A resposta aos fariseus diz respeito a um Reino desprovido de características externas. Numa alusão mais recente ao momento e situação política em que se encontrava a Palestina, o que Jesus afirma é no sentido de não se pensar um Reino tal qual o poder e domínio romano.

     E o verso 21, quando ainda o Senhor Jesus se dirige aos fariseus, ele desautoriza todo e qualquer tipo de utilização desta imagem de opressor do império romano para alimentar algum tipo de insurreição sob a forma de uma propaganda de um reino que não fosse aquele de poderio opressor estigmatizado pelos romanos. O Reino de Deus não está nem aqui nem ali. Ele está em todo lugar desde que esteja dentro de nós. O Reino de Deus dentro dessa compreensão extrapola todo e qualquer tipo de limite territorial ou geopolítico.

     E a questão do tempo fica mais interessante, se pensarmos que é fundamental para o entendimento das palavras de Jesus a cerca do Reino essa capacidade de discernir o tempo. O tempo precisa ser claramente entendido sob essa dinâmica de uma revelação divina. Porém, o que se percebe é que estes homens que estão inquirindo ao Senhor Jesus, não são capazes de ver que é a própria pessoa de Jesus a chave para o discernimento da mensagem do Reino de Deus. Primeiro pela afirmação de que o Reino está dentro de nós.  Ou seja, não vá atrás, aqui e ali, acerca daqueles que se dizem arautos do Senhor, ou mesmo o próprio Messias e que anunciam que o Reino de Deus está aqui ou acolá.

     O Reino de Deus, por assim dizer, extrapola a nossa capacidade de quantificar o tempo. Seu caráter é extremamente revelacional. Logo, não pode ser quantificado ou vislumbrado sob o aspecto até mesmo intuitivo humano. A figura do raio utilizada pelo Senhor Jesus, para o momento e época onde ocorre tal situação, neste caso, é muito emblemático. O raio enquanto um fenômeno natural em que a percepção de luz e seu exato comprimento e amplitude, faz com que também tenhamos a dimensão de espaço. Em outras palavras, este sinal leva-nos a compreensão e natureza de um evento e este caracterizado pela revelação divina no Cristo compreendida pela existência histórica deste homem chamado Jesus. 

     O verso 24 deste capítulo faz alusão ao elemento profético a cerca do próprio Jesus, que enquanto cidadão bem como tendo uma existência histórica, segundo a compreensão falha de seus interlocutores, os escribas e fariseus, apenas conseguem vislumbrar uma natureza de evento circunscrita ao ambiente histórico e localizado. A palavra de Jesus e a imagem do raio por ele utilizada extrapola esse tipo de dimensionamento e deveria provocar algum tipo de reviravolta senão em todos, porém, em boa parte dos contemporâneos do mestre, inclusive seus discípulos para que chegassem a esta compreensão. Então, seriam capazes de identificá-lo como Filho do Homem, um título de natureza messiânica.



V - A compreensão do tempo desde a perspectiva da finitude(V.V. 25-30).
  

     Nas palavras do próprio Jesus percebe-se que os homens têm escolhido viver uma vida marcadamente banal. Digamos que esta situação tal qual foi qualificada como banal seja a reprodução daquilo que também pode ser chamado de inclinação para a maldade, o pecado, a iniquidade, etc. A escritura já adverte que este tipo vida é a que conduz o homem para a perdição. Ou seja, ela configura o estado de total afastamento de Deus. Acho que valeria a pena uma leitura revisada do capítulo 3 de Gênesis, e, quem sabe refletir sobre a real a situação do homem antes da queda. Pois ali, não há nenhum tipo de referência a perenidade do homem. Sua perenidade ou vida eterna era tão somente desfrutada pelo fato de o mesmo gozar de uma comunhão plena para com Deus. A medida que houve uma espécie de ruptura pela desobediência e queda, ele perde essa condição.

     O verso 25 aponta para a forma banal que os homens da época de Jesus vivem. E, que por isso, não serão capazes de reconhecer nesta revelação máxima de Deus em Cristo a solução para os seus problemas e dificuldades. A expressão "Esta geração" e a atitude de reprovação que a mesma tomará em relação a Jesus e a messianidade nele presente e revelada é fator significativo que aponta para a banalidade com que os homens de uma maneira geral lidam com as coisas de Deus. E ela dá bem a consciência de nossa finitude e consequente falta discernimento no momento de nossa necessidade quando visamos o restabelecimento de nosso relacionamento para com Deus.

     "Esta geração" também pode ser entendida como elemento demarcador da existência histórica do Cristo e do fato de que foi através da existência deste homem de Nazaré que a plenitude divina se manifestou fazendo com que este, ainda que num determinado momento se transformasse num homem de dores e sofrimento. Ainda assim essas mazelas da vida a que foi submetido não foram suficientes para ofuscar a glória que nele se revelava. De um lado temos um Cristo rejeitado pela sua geração e, por outro, o próprio faz uma alusão às escrituras, mais especificamente aos tempos de Noé, e depois a Ló e sua família no contexto de Sodoma. Onde as pessoas tocavam suas vidas de forma banal e corriqueira e nunca se deram conta da iminência do juízo divino.

     E, ao que parece, pois já falamos aqui das palavras do Senhor num tom profético. Entre a existência histórica do Cristo e seu consequente martírio em decorrência da rejeição a sua palavra e o seu retorno em glória, há este mesmo tipo de comportamento banal apontados como exemplo das escrituras tanto na vida de Noé quanto na vida de Ló. É um total desdém em relação ao juízo divino. E a referência a palavra de Jesus qualificando-a como profética precisa ser melhor exemplificada. Para tanto, é necessário acrescentar ao caráter profético dessa palavra desde uma perspectiva escatológica como sendo algo que terá lugar num futuro, não sei se longínquo ou não, mas, que se pode vislumbrar de forma antecipatória.

     E aí mesmo quando Jesus se reporta ao passado citando personagens como Noé e Ló. E agora ao fazer menção por analogia desse passado com as consequências que lá ocorreram e que elas são passíveis de se reproduzirem a qualquer momento. O mesmo tipo de ordenança que fora dada a Noé e a Ló com relação a atitude de se olhar tão somente pra frente e jamais pensar em retroceder tal como o ocorrido com  a esposa de Ló. A forma banal como as pessoas vivem suas vidas ocasiona uma maneira de se ofuscar o que está por vir do ponto de vista da finitude humana. Usando a maneira grega de se pensar e refletir sobre a vida, sua banalidade e de como, de repente, de um modo trágico tudo pode se tornar em um grande drama, acentua muitissimamente bem a presença do elemento trágico destacado artisticamente através de seus grandes poetas.

     É com essa expectativa marcadamente de caráter estético que que identificamos a maneira como somos passíveis a acontecimentos que fogem ao nosso controle e que mesmo os deuses de uma cultura e mitologia como a grega. Portadora de um phanteon bastante elevado, também se veem impedidos de agir a favor daqueles que se dizem seus devotos. Podemos, por agora, chamar este tipo de sentimento de que nos vemos tomados como uma espécie de aptidão de nossa parte para a finitude. Na mensagem do Reino trazida por Jesus, há tanto o sentimento de finitude do ponto de vista de nossas subjetividades, quanto o entendimento de que a manifestação do filho do homem é o momento de determinação do fim da história.

     Não sei dizer se, curiosa ou lamentavelmente, este tipo de situação não se levanta com tamanha frequência na história do cristianismo. Entretanto, quando isto acontece, as coisas tendem a sair do controle e tem consequências que resultam em comoção social. A Reforma é um grande exemplo. A julgar pelo tipo de repercussão que ela provocou desde que Lutero, um monge agostiniano começou a ler as escrituras buscando tirar delas algum tipo de conforto ao se sentir diante do abismo iminente para onde caminhava sua vida sem uma certeza de que diante do encontro consigo próprio e com sua finitude, não concebia ainda a presença de um Deus misericordioso. E muito menos o conhecimento de todos os argumentos de natureza filosófica, teológica e até mesmo ontológica não lhes eram suficientes para lhe trazerem refrigério diante de sua agonia.



VI - O reino de Deus está em nosso meio, mas não se compõe de valores palpáveis(V.V. 31-37).


     Um primeiro dado que necessita ser destacado neste tópico é o fato de que o tempo na dinâmica de reconhecimento e apropriação da ideia e conceito do que é o Reino de Deus. Resume-se ao fato de que nessa perspectiva lidamos com duas modalidades de tempo antes dos fim: O dia de ontem e hoje. Já foi aqui falado ao se fazer alusão aos dias de Noé e de Ló que foram listados como exemplo pelo próprio Cristo. Que durante este período tal como relata a escritura, as pessoas estavam ocupadas com seus afazeres e preocupações do dia a dia. Elas também casavam, compravam, vendiam de tal forma que eram incapazes de entender ou ver a iminência de um perigo e principalmente o fato de que Deus lhes traria algum tipo de juízo.

     Ou seja, eu levo minha vida do jeito que todos levam faço minhas projeções para o futuro e para frente não levando em consideração de que algo pode acontecer e que acontecendo estão fora do meu controle. Valores palpáveis são valores que estão ali e são passíveis de serem por mim manipulados e sofrem ação do meu olhar controlador. O Reino de Deus e sua natureza extrapola a este tipo de identificação e controle do homem. Ele se reveste de uma maneira diferente quanto ao tipo de valoração que seja atribuída. Ou nos sentimos parte dele e nos contentamos ser sua parte constituinte sem que nada possamos lhe impor como condição, ou dele estamos fora.

     Nele todo tipo de preocupação ou carga emocional; Todo tipo de consciência indigna por causa das nossas iniquidades e pecados estão totalmente zeradas e inexiste qualquer tipo de preocupação quanto ao futuro, pois não não há futuro, uma vez que o tempo sempre se configura como o dia de hoje. Parafraseando a ideia que Paulo nos transmite com tamanha singularidade e perfeição ao aludir a justificação que Deus em Cristo nos proporciona pela fé: Ontem, eu era o mais indigno dos pecadores e hoje eu sou um pecador que fui justificado, tornado justo e aceito por Deus para fazer parte do seu Reino.

     Muito embora este trecho do evangelho de Lucas sinalize desde uma perspectiva de fala de Jesus para acontecimentos que terão seu lugar em um futuro. Bem como adverte aos seus discípulos a cerca de situações que provocarão transtornos e constrangimentos mútuos. Eles são muito mais comuns do que parecem. Agora pouco estávamos falando, melhor dizendo, no tópico anterior falávamos sobre acontecimentos abruptos nos relatos que o Senhor Jesus fez menção valendo-se da escritura. Tais como o que aconteceu nos dias de Noé e nos dias de Ló respectivamente. As pessoas simplesmente tocavam suas vidas dentro da mais pura normalidade. Fazendo, inclusive, planos para o futuro: Comiam, bebiam, casavam-se e davam-se em casamentos(...) comiam, bebiam...

     O grande apego que se tinha sobre as coisas fazia com que esquecessem de outros valores que, a rigor, não se constituem como palpáveis. E, por mais que estes esforços humanos tenham como objetivo a preservação da vida. Eles se constituem em erros fundamentalmente graves. A advertência do mestre vem acompanhada do grande exemplo que ele nos oferece ao fazer referência a mulher de Ló. Ele apela para a memória de seus discípulos a cerca do que aconteceu com esta mulher quando Ló e sua família estavam em uma rota de fuga em meio a destruição que ocorria em Sodoma. Ela estava tão apegada aos bens e valores materiais que foi capaz de desobedecer uma ordem divina para que não se olhasse para trás.

     Essas advertências do mestre dão bem o retrato da situação que reina no coração do homem que se apega às coisas de menos importância em detrimento daquelas que realmente importam e que nos colocam em uma dimensão de vida onde podemos identificar os indícios e manifestação do que chamamos de Reino de Deus. E a melhor percepção de indício do Reino de Deus está registrada na oração do mestre também conhecida como "Pai Nosso". O Reino de Deus é o que se pode chamar de império da vontade divina: "Venha o teu Reino seja feita a tua vontade assim na terra como no Céu".

     É suficientemente emblemática a declaração de Jesus no verso 37 deste capítulo. Todo o desenvolvimento deste tópico está pautado no grau de diferença entre o que é a valorização dos bens materiais e seu consequente apego por parte daqueles que os acumularam durante suas vidas e, que, por isso mesmo se tornam reféns desses valores materiais. Novamente volto a fazer menção do exemplo deixado pela esposa de Ló. Por outro lado, na advertência do mestre quando em um futuro ainda incerto este tipo de diferenciação atingir mais diretamente as nossas relações mais próximas e pessoais e em uma escala bem mais abrangente e avassaladora, o exemplo desta mulher deve fazer parte de nossas memórias.

     Este caráter aparentemente seletivo em que uns serão deixados e outros não. É o elemento indicador de que o Reino de Deus sempre esteve presente em nosso meio, muito embora alguns, ou seja, aqueles que eventualmente serão deixados nunca deram a real importância para ele. E são exatamente estes que nunca lhe deram importância e, que, se vivessem na época dos irmãos Esaú e Jacó, escolheriam vender sua primogenitura por um prato de lentilhas. O Reino de Deus para estes não tem aparência e muito menos é perceptível materialmente. Lembro-me do Senhor falando ao profeta Elias assim que o profeta em tom de bastante arrogância relatou que somente ele havia ficado depois de tão grande perseguição imposta pelo rei Acabe e a rainha Jezabel, o Senhor então responde ao profeta: "Também deixei ficar em Israel sete mil: todos os joelhos que não dobraram a Baal e toda boca que não o beijou." (I Reis 19:18).



CONCLUSÃO


     Chegamos ao término desta reflexão e a julgar por tudo que até aqui fora discutido tendo por base os ensinamentos do mestre, por meio de suas palavras e milagres. Podemos afirmar em tom categórico que ninguém nesta vida está habilitado a fazer um diagnóstico fiel a cerca de nossa natureza pecaminosa, da necessidade voraz em recebermos o perdão da parte de Deus Pai e de como temos dificuldade quando somos nós que precisamos liberar o perdão para  com os nossos semelhantes. 

     A própria escritura sempre denunciou a relação assimétrica que temos para com Deus quando o assunto é o perdão e este na razão direta de nosso relacionamento tanto para com Deus que nos perdoou primeiro quanto para com o próximo(I João 4:20). Sem dúvida ao se falar tanto do relacionamento ideal que devemos buscar para com Deus, assim como o mandamento de que devemos, é nossa obrigação enquanto discípulos do mestre, buscar o melhor relacionamento para com o nosso próximo, mesmo quando somos obrigados a liberar o perdão a este próximo, o que está em discussão em todo este texto são as nossas ações e como elas estão sendo ajuizadas por Deus.

     No pedido dos apóstolos no sentido de que o mestre lhes acrescentasse fé, percebe-se uma espécie de dissimulação por parte dos discípulos. Algo que pudesse justificar algum tipo de incapacidade natural para o exercício de tamanho aprendizado. A atitude de Jesus tem uma base pedagógica, porém com o objetivo de confrontar valores já enraizados nestes discípulos e que simultaneamente lhes tirasse dessa zona de conforto. Em outras palavras, os discípulos estão dizendo que não tinham fé e, por conta disso, se sentiam incapazes para algo tão complicado para quem trazia consigo uma cultura religiosa que não tinham como prática corriqueira a liberação do perdão.

     A analogia de Jesus ao se utilizar do grão de mostarda e sua associação a uma atitude de fé deve ser entendida antes que alguém lhe dê algum tipo de definição superficial tais como os coachers ou palestrantes de auto ajuda. O mestre está chamando a atenção dos discípulos para o insignificante grão de mostarda e a sua exuberante folhagem depois que o mesmo germina. E que tamanho e dimensão não podem definir o real potencial das coisas. Ou seja, tudo girava em torno de potencialidades que a própria natureza nos oferecia. Não esquecendo de que esta palavra do mestre se constitui numa primeira etapa  dos ensinamentos que ele está transmitindo a seus discípulos.

     A segunda etapa desses ensinamentos está baseada na relação de confiança e de perseverança que naturalmente surgem em decorrência do perdão que se libera. Uma lição extremamente fantástica se pode tirar deste ensinamento desde que haja como prática de vida a solução de problemas tidos como verdadeiros tabus quando se trata de algo que é parte imprescindível das nossas relações pessoais. São, afinal de contas, estas desconstruções ocasionadas pelo perdão que fazem com que tenhamos a ampliação de nossos horizontes. A metáfora do grão de mostarda é o exemplo emblemático de Jesus.

     Todos estes elementos sinestésicos(Não se aplicar este termo desde uma moderna literatura médica de diagnose, mas, se ater apenas ao que a estrutura morfológica deste termo nos indica a cerca de seu significado) alimentados por esta dinâmica de relacionamentos somente terá algum tipo de eficácia caso sua vigência ocorra em torno de um dia. E por causa de que esta ênfase, pelo menos do ponto de vista temporal, tem que ter a vigência de um dia? Primeiramente o que se tem buscado desenvolver durante a leitura deste texto está relacionado a perspectiva do Reino de Deus.

     Se o Reino de Deus é chegado, ou está próximo(Marcos 1:15) e estamos em pleno processo de sua implantação, significa, entre outras coisas e de acordo com a ótica Paulina, que ele se apresenta como parâmetro demarcador entre os que estão de fora e os que estão de dentro. Que o elemento único delimitador desta situação, é o que se pode chamar de incredulidade: Os que creem e os não creem. E esta incredulidade está claramente contaminada pela arrogância. Por isso não se consegue ver em sua plenitude a presença do Reino de Deus.

     O reino de Deus é inconfundível. Talvez, seja por isso que Jesus certa vez caracterizou o Reino como uma pérola de grande valor que fez com que um negociante de pérolas, ao encontrá-la, desfaz-se de tudo para comprar aquela pérola(Mateus 13:46). E, por conta disso, penso que nossa oração deveria ser sempre no sentido de que o Senhor, cada vez mais abrisse os nossos olhos e assim podermos descobrir as preciosidades deste reino que em algumas situações passam despercebidas dos nossos olhares.


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Luke 17 Tischendorf
1Εἶπεν δὲ πρὸς τοὺς μαθητὰς αὐτοῦ· ἀνένδεκτόν ἐστιν τοῦ τὰ σκάνδαλα μὴ ἐλθεῖν, οὐαὶ δὲ δι’ οὗ ἔρχεται· 2λυσιτελεῖ αὐτῷ εἰ λίθος μυλικὸς περίκειται περὶ τὸν τράχηλον αὐτοῦ καὶ ἔρριπται εἰς τὴν θάλασσαν, ἢ ἵνα σκανδαλίσῃ τῶν μικρῶν τούτων ἕνα. 3προσέχετε ἑαυτοῖς. ἐὰν ἁμάρτῃ ὁ ἀδελφός σου, ἐπιτίμησον αὐτῷ, καὶ ἐὰν μετανοήσῃ, ἄφες αὐτῷ· 4καὶ ἐὰν ἑπτάκις τῆς ἡμέρας ἁμαρτήσῃ εἰς σὲ καὶ ἑπτάκις ἐπιστρέψῃ πρὸς σὲ λέγων· μετανοῶ, ἀφήσεις αὐτῷ. 5Καὶ εἶπαν οἱ ἀπόστολοι τῷ κυρίῳ· πρόσθες ἡμῖν πίστιν. 6εἶπεν δὲ ὁ κύριος· εἰ ἔχετε πίστιν ὡς κόκκον σινάπεως, ἐλέγετε ἂν τῇ συκαμίνῳ ταύτῃ· ἐκριζώθητι καὶ φυτεύθητι ἐν τῇ θαλάσσῃ, καὶ ὑπήκουσεν ἂν ὑμῖν.
7Τίς δὲ ἐξ ὑμῶν δοῦλον ἔχων ἀροτριῶντα ἢ ποιμαίνοντα, ὃς εἰσελθόντι ἐκ τοῦ ἀγροῦ ἐρεῖ αὐτῷ· εὐθέως παρελθὼν ἀνάπεσε; 8ἀλλ’ οὐχὶ ἐρεῖ αὐτῷ· ἑτοίμασον τί δειπνήσω, καὶ περιζωσάμενος διακόνει μοι ἕως φάγω καὶ πίω, καὶ μετὰ ταῦτα φάγεσαι καὶ πίεσαι σύ; 9μὴ ἔχει χάριν τῷ δούλῳ ὅτι ἐποίησεν τὰ διαταχθέντα; 10οὕτως καὶ ὑμεῖς, ὅταν ποιήσητε πάντα τὰ διαταχθέντα ὑμῖν, λέγετε ὅτι δοῦλοι ἀχρεῖοί ἐσμεν, ὃ ὠφείλομεν ποιῆσαι πεποιήκαμεν.
11Καὶ ἐγένετο ἐν τῷ πορεύεσθαι εἰς Ἱερουσαλὴμ καὶ αὐτὸς διήρχετο διὰ μέσον Σαμαρίας καὶ Γαλιλαίας. 12καὶ εἰσερχομένου αὐτοῦ εἴς τινα κώμην ὑπήντησαν αὐτῷ δέκα λεπροὶ ἄνδρες, οἳ ἔστησαν πόρρωθεν, 13καὶ αὐτοὶ ἦραν φωνὴν λέγοντες· Ἰησοῦ ἐπιστάτα, ἐλέησον ἡμᾶς. 14καὶ ἰδὼν εἶπεν αὐτοῖς· πορευθέντες ἐπιδείξατε ἑαυτοὺς τοῖς ἱερεῦσιν. καὶ ἐγένετο ἐν τῷ ὑπάγειν αὐτοὺς ἐκαθαρίσθησαν. 15εἷς δὲ ἐξ αὐτῶν, ἰδὼν ὅτι ἰάθη, ὑπέστρεψεν μετὰ φωνῆς μεγάλης δοξάζων τὸν θεόν, 16καὶ ἔπεσεν ἐπὶ πρόσωπον παρὰ τοὺς πόδας αὐτοῦ εὐχαριστῶν αὐτῷ· καὶ αὐτὸς ἦν Σαμαρίτης. 17ἀποκριθεὶς δὲ ὁ Ἰησοῦς εἶπεν· οὐχὶ οἱ δέκα ἐκαθαρίσθησαν; οἱ ἐννέα ποῦ; 18οὐχ εὑρέθησαν ὑποστρέψαντες δοῦναι δόξαν τῷ θεῷ εἰ μὴ ὁ ἀλλογενὴς οὗτος; 19καὶ εἶπεν αὐτῷ· ἀναστὰς πορεύου· ἡ πίστις σου σέσωκέν σε.
20Ἐπερωτηθεὶς δὲ ὑπὸ τῶν Φαρισαίων πότε ἔρχεται ἡ βασιλεία τοῦ θεοῦ, ἀπεκρίθη αὐτοῖς καὶ εἶπεν· οὐκ ἔρχεται ἡ βασιλεία τοῦ θεοῦ μετὰ παρατηρήσεως, 21οὐδὲ ἐροῦσιν· ἰδοὺ ὧδε ἤ, ἐκεῖ· ἰδοὺ γὰρ ἡ βασιλεία τοῦ θεοῦ ἐντὸς ὑμῶν ἐστιν.
22Εἶπεν δὲ πρὸς τοὺς μαθητάς· ἐλεύσονται· ἡμέραι ὅτε ἐπιθυμήσετε μίαν τῶν ἡμερῶν τοῦ υἱοῦ τοῦ ἀνθρώπου ἰδεῖν, καὶ οὐκ ὄψεσθε. 23καὶ ἐροῦσιν ὑμῖν· ἰδοὺ ἐκεῖ, ἰδοὺ ὧδε· μὴ ἀπέλθητε μηδὲ διώξητε. 24ὥσπερ γὰρ ἡ ἀστραπὴ ἀστράπτουσα ἐκ τῆς ὑπὸ τὸν οὐρανὸν εἰς τὴν ὑπ’ οὐρανὸν λάμπει, οὕτως ἔσται ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου ἐν τῇ ἡμέρᾳ αὐτοῦ. 25πρῶτον δὲ δεῖ αὐτὸν πολλὰ παθεῖν καὶ ἀποδοκιμασθῆναι ἀπὸ τῆς γενεᾶς ταύτης. 26καὶ καθὼς ἐγένετο ἐν ταῖς ἡμέραις Νῶε, οὕτως ἔσται καὶ ἐν ταῖς ἡμέραις τοῦ υἱοῦ τοῦ ἀνθρώπου· 27ἤσθιον, ἔπινον, ἐγάμουν, ἐγαμίζοντο, ἄχρι ἧς ἡμέρας εἰσῆλθεν Νῶε εἰς τὴν κιβωτόν, καὶ ἦλθεν ὁ κατακλυσμὸς καὶ ἀπώλεσεν ἅπαντας. 28ὁμοίως καθὼς ἐγένετο ἐν ταῖς ἡμέραις Λώτ· ἤσθιον, ἔπινον, ἠγόραζον, ἐπώλουν, ἐφύτευον, ᾠκοδόμουν· 29ᾗ δὲ ἡμέρᾳ ἐξῆλθεν Λὼτ ἀπὸ Σοδόμων, ἔβρεξεν πῦρ καὶ θεῖον ἀπ’ οὐρανοῦ καὶ ἀπώλεσεν ἅπαντας. 30κατὰ τὰ αὐτὰ ἔσται ᾗ ἡμέρᾳ ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου ἀποκαλύπτεται. 31ἐν ἐκείνῃ τῇ ἡμέρᾳ ὃς ἔσται ἐπὶ τοῦ δώματος καὶ τὰ σκεύη αὐτοῦ ἐν τῇ οἰκίᾳ, μὴ καταβάτω ἆραι αὐτά, καὶ ὁ ἐν ἀγρῷ ὁμοίως μὴ ἐπιστρεψάτω εἰς τὰ ὀπίσω. 32μνημονεύετε τῆς γυναικὸς Λώτ. 33ὃς ἐὰν ζητήσῃ τὴν ψυχὴν αὐτοῦ περιποιήσασθαι, ἀπολέσει αὐτήν, καὶ ὃς ἐὰν ἀπολέσει, ζῳογονήσει αὐτήν. 34λέγω ὑμῖν, ταύτῃ τῇ νυκτὶ ἔσονται δύο ἐπὶ κλίνης μιᾶς, εἷς παραλημφθήσεται καὶ ὁ ἕτερος ἀφεθήσεται· 35ἔσονται δύο ἀλήθουσαι ἐπὶ τὸ αὐτό, ἡ μία παραλημφθήσεται ἡ δὲ ἑτέρα ἀφεθήσεται. 36 37καὶ ἀποκριθέντες λέγουσιν αὐτῷ· ποῦ, κύριε; ὁ δὲ εἶπεν αὐτοῖς· ὅπου τὸ σῶμα, ἐκεῖ καὶ οἱ ἀετοὶ ἐπισυναχθήσονται.
Tischendorf's 8th edition Greek New Testament
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A Tensão entre Multiculturalismo Acadêmico e Teologia Evangélica Protestante.

1. O debate sobre inspiração O debate sobre a inspiração bíblica evidencia que a tensão entre multiculturalismo e teologia evangélica não é ...