Desliteralização e não desmitologização: o estatuto ontológico do símbolo em Paul Tillich frente a Rudolf Bultmann**
A posição de Paul Tillich em relação ao método histórico-crítico e ao programa de desmitologização de Rudolf Bultmann costuma ser interpretada, equivocadamente, como a indicação de uma predisposição à "correlação algorítmica" entre teologia e cultura. Tal leitura, contudo, falha ao inverter a intenção fundamental do pensamento tillichiano: se o teólogo alemão se opõe tanto à exegese histórico-crítica quanto à demitologização bultmanniana, não é para submeter o conteúdo religioso a uma operação mecânica de correspondência, mas, ao contrário, para salvaguardar a profundidade irredutível do símbolo contra toda forma de redução metodológica.
A crítica tillichiana a Bultmann é, em sua essência, uma objeção à categoria de "mito" empregada pelo autor de *Neues Testament und Mythologie* (1941). Para Bultmann, o mito constitui um invólucro remanescente do mundo antigo — o seu esquema cosmogônico tridimensional —, que precisa ser desmontado para que se extraia o núcleo do querigma existencial. Tillich, ao contrário, sustenta que o símbolo e o mito não são resíduos elimináveis da linguagem religiosa, mas a sua própria forma constitutiva, inseparáveis da estrutura da consciência humana em sua relação com o incondicionado. Daí a afirmação contundente de que Bultmann "não compreende o significado do mito" e ignora que "a linguagem religiosa é e sempre será mitológica" (TILLICH, *Systematic Theology*, v. II, p. 140 ss.). A oposição tillichiana a Bultmann, portanto, não abre caminho para a correlação algorítmica, mas reclama o estatuto ontológico do símbolo: o mito não é um estorvo a ser removido, mas a linguagem adequada ao objeto religioso.
Em lugar da "desmitologização" (Entmythologisierung), Tillich propõe a "desliteralização" (deliteralization) do texto bíblica — procedimento hermenêutico que consiste em remover a pretensão de literalidade sem suprimir a forma simbólica. Este movimento é exemplificado na interpretação do Éden, que não deve ser lido como descrição histórica, mas compreendido como expressão simbólica da situação universal humana (TILLICH, *Biblical Religion and the Search for Ultimate Reality*, p. 81). Desliteralizar não é decodificar um conteúdo subjacente, mas "quebrar o mito" — *to break the myth* —, isto é, reconhecer o mito enquanto mito, preservando a sua potência referencial.
Importa esclarecer, neste ponto, que o "método de correlação" desenvolvido em *Systematic Theology* não deve ser confundido com uma operação de correspondência formal entre dados e resultados. A correlação tillichiana responde, por intermédio dos símbolos da tradição cristã, às questões existenciais formuladas pela análise da situação cultural contemporânea — o que Tillich denomina "análise da situação humana". Trata-se de um processo dialógico que exige a participação de sujeitos existenciais, tanto na formulação da pergunta quanto na elaboração da resposta, sendo, portanto, um ato hermenêutico irredutível a cálculo de probabilidades ou a correlação estatística. Onde a gramática algorítmica opera por frequência e dispensa intenção e contexto, a correlação de Tillich pressupõe justamente interpretação, participação e pergunta existencial.
Quanto ao método histórico-crítico, a crítica tillichiana não visa ao método em si, mas ao uso que dele faz a teologia liberal. Tillich reconhece que a abordagem histórica da literatura bíblica constitui "um dos grandes eventos na história do Cristianismo" (TILLICH, *The Interpretation of History*, p. 45). Sua objeção dirige-se à pretensão de fundamentar a fé sobre os resultados da investigação histórica: o método crítico pode oferecer, na melhor das hipóteses, probabilidades, jamais a certeza que o anúncio cristão reclama (TILLICH, *Systematic Theology*, v. I, p. 120). A história dos evangelhos não pode converter-se em fundamento da revelação; o que pertence à fé é o Cristo e não o retrato histórico que se colhe dele (TILLICH, The New Being, p. 30).
Conclui-se, assim, que a desliteralização tillichiana é um ato ontológico e não uma operação algorítmica: visa libertar o símbolo da prisão do literalismo para que este reabra a profundidade do ser. Se a correlação mecânica nivela o símbolo a respostas padronizadas derivadas da frequência, Tillich insiste que o símbolo *participa* na realidade para a qual aponta, e, justamente por isso, não pode ser substituído. Sua teologia reclama um sujeito interpretante — não um sistema de correspondência. A correlação de Tillich é, em última instância, correlação entre pergunta e resposta existenciais, não entre dados e resultados.
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Referências
TILLICH, Paul. *Systematic Theology*. 3 vols. Chicago: University of Chicago Press, 1951–1963.
TILLICH, Paul. *Biblical Religion and the Search for Ultimate Reality*. Chicago: University of Chicago Press, 1955.
TILLICH, Paul. *The Interpretation of History*. New York: Scribner's, 1936.
TILLICH, Paul. *The New Being*. New York: Scribner's, 1955.
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