A presente reflexão toma como ponto de partida uma observação atribuída a Umberto Eco — segundo a qual as redes sociais deram voz a indivíduos que, em outros tempos, teriam permanecido como mera audiência silenciosa —, a fim de desenvolver uma análise em três camadas sobre a transformação dos regimes de legitimação do discurso público. Argumenta-se que a contribuição de Eco, embora fecunda, demanda ser precisada e sistematizada, especialmente considerando a sua formação de filólogo e semiólogo.
Em primeiro lugar, convém caracterizar aquilo que se denomina aqui "registro paradigmático filológico". Antes da consolidação das redes sociais, a produção de discurso com pretensão de verdade sobre a cultura, a linguagem e a interpretação estava ancorada em um paradigma que pode ser qualificado como filológico. Esse paradigma exigia erudição verificável, manifesta no domínio de línguas, no acesso às fontes primárias e no conhecimento da tradição interpretativa; pressupunha a existência de um cânone, de modo que aquele que falava se inseria necessariamente em uma linhagem de autores reconhecidos; operava sob uma temporalidade lenta, na qual a publicação era precedida de revisão, seguida de debate e exposta à refutação; e possuía um destinatário implícito definido: o chamado "leitor competente", dotado das habilidades necessárias para avaliar o argumento apresentado. Importa sublinhar que esse registro não configurava apenas uma questão de acesso — ou seja, de quem podia publicar —, mas igualmente uma questão de forma, relativa a como se argumentava, e de autoridade, concernente ao porquê de se acreditar naquele que falava.
Em segundo lugar, as redes sociais não se limitaram a "abrir as portas" para aqueles que antes não dispunham de meios para falar publicamente. Com efeito, elas promoveram a substituição do paradigma filológico por outro, que se propõe denominar aqui de paradigmático performático-algorítmico. Nesse novo regime, a legitimação deixa de derivar da erudição e das fontes para repousar sobre o engajamento e a visibilidade; a temporalidade, antes lenta e cumulativa, torna-se imediata e descartável; a unidade de discurso deixa de ser o argumento para converter-se no post, no clipe e no meme; a autoridade, que antes era construída por obra, passa a ser construída por métricas; e o público deixa de ser o leitor competente para se tornar o usuário distraído. O ponto crucial dessa transformação não reside no fato de que os que Eco qualificaria como "imbecis" passaram a falar, mas sim no deslocamento que ocorreu quando o modo de falar que antes pertencia ao bar ou à conversa privada tornou-se o modo dominante de circulação pública do discurso. A filologia, portanto, não perdeu apenas o seu monopólio de acesso; perdeu o seu monopólio de forma legítima.
Em terceiro lugar, a extensão aqui proposta é fecunda, mas pede cautela em dois pontos. É fecunda porque Eco, enquanto semiólogo, sempre reconheceu que a interpretação não é neutra, uma vez que depende de competência, de contexto e de código. As redes sociais, ao criarem a ilusão de que qualquer pessoa pode interpretar qualquer coisa sem mediação, produzem precisamente o oposto do gesto filológico. Nesse sentido, a extensão é correta: as redes extrapolam o registro filológico não apenas quanto ao número de vozes, mas quanto à natureza do discurso. Contudo, a análise exige cautela em dois pontos. Em primeiro lugar, é necessário evitar a romantização do paradigma filológico, o qual, embora selecionasse por critérios de mérito, também se mostrava excludente de modos que transcendiam essa seleção: excluía mulheres, classes populares, tradições orais e culturas não letradas. A crítica de Eco não deve, pois, ser lida como uma saudade de uma república das letras idealizada. Em segundo lugar, não se deve confundir extrapolação com substituição total. O registro filológico não desapareceu; ao contrário, migrou para nichos específicos, como revistas acadêmicas, podcasts especializados e comunidades de leitura. O que efetivamente ocorreu foi uma perda de centralidade, não uma extinção.
Consideradas essas ressalvas, formula-se uma precisão mais rigorosa da intuição de Eco. A proposição apresentada é a de que as redes sociais não deram voz a quem não a possuía, mas antes conferiram centralidade a um registro de discurso que o paradigma filológico havia marginalizado. O problema, dessa forma, não consiste na coexistência de registros, mas na hegemonia de um registro que não exige competência interpretativa para circular como verdade. Tal formulação preserva a intuição originária de Eco sem cair no elitismo simplista e reconhece, simultaneamente, que a questão decisiva não é "quem fala", mas "que tipo de fala se torna estruturalmente dominante".