A tradição da piedade judaica do período do Segundo Templo, aproximadamente entre 200 a.C. e 200 d.C.

A tradição da piedade judaica do período do Segundo Templo, aproximadamente entre 200 a.C. e 200 d.C., constitui o exemplo histórico máximo daquilo que se pode denominar "passivo divino", isto é, a compreensão de que a relação de Israel com Deus repousa primariamente sobre a iniciativa graciosa e eletiva do divino, e não sobre um sistema de mérito humano. A Nova Perspectiva sobre Paulo, com expoentes como E.P. Sanders, James D.G. Dunn e N.T. Wright, erigiu seu edifício teológico exatamente sobre essa base historiográfica, argumentando que o judaísmo rabínico não configurava uma religião de obras meritórias, mas de graça pactual. A análise de como essa teologia da graça se construiu no seio do judaísmo rabínico e de como ela serve de fundamento para a Nova Perspectiva sobre Paulo possui implicações diretas para a compreensão da graça soberana em Paulo.

O marco inicial da Nova Perspectiva sobre Paulo encontra-se na obra Paul and Palestinian Judaism, de E.P. Sanders, publicada em 1977, na qual o autor cunhou o termo "nomismo pactual" para descrever a estrutura da religião judaica do período. A lógica interna desse sistema opera em dois movimentos distintos, porém interdependentes. Em primeiro lugar, a entrada no pacto, ou seja, a condição de pertencer ao povo de Deus, dá-se por pura graça eletiva. Deus escolheu Abraão, libertou Israel do Egito e outorgou-lhe a Lei, de modo que não há qualquer mérito na entrada nessa aliança; trata-se de um ato soberano e unilateral do divino. Esse é precisamente o "passivo divino" ao qual se alude: a iniciativa fundante é de Deus, e Israel é o receptor passivo dessa eleição. Em segundo lugar, uma vez estabelecido dentro do pacto, a obediência à Torá constitui a condição para a permanência nesse estado. Guardar a Lei não significa conquistar a salvação, mas manter o status de povo eleito, respondendo fielmente à graça já recebida. Ademais, o sistema sacrificial e o arrependimento funcionam como meios divinamente providos para lidar com as transgressões, permitindo a restauração e a permanência no pacto. Dessa forma, a graça permeia todo o sistema religioso, não apenas o momento inicial da eleição. Para Sanders, essa configuração representa a religião padrão do judaísmo do Segundo Templo e do período rabínico, não se tratando de uma religião de obras no sentido de autojustificação, mas de graça mantida por uma vida de aliança.

Essa estrutura teológica encontra respaldo em uma vasta literatura do período compreendido entre 200 a.C. e 200 d.C. A eleição incondicional é enfatizada em textos como Jubileus, Salmos de Salomão e a literatura de Qumran, notadamente a Regra da Comunidade, nos quais a pertença a Israel é atribuída à eleição divina, e não ao mérito humano. Em Qumran, os "filhos da luz" são designados como tais pelo desígnio soberano de Deus. Paralelamente, a oração de penitência presente em Esdras 9, Neemias 9, Daniel 9 e Baruque 1-2 segue um padrão consistente: reconhece-se a graça eletiva fundante, confessa-se a falha em guardar a Lei e apela-se à misericórdia divina para além de qualquer mérito. A própria existência contínua de Israel após o exílio é interpretada como um ato de pura graça. Na literatura rabínica posterior, como a Misná e o Talmude, desenvolve-se a ideia do z'khut avot, ou mérito dos pais, pelo qual o mérito dos patriarcas, especialmente Abraão, intercede e sustenta Israel. Essa noção representa uma sofisticação da ideia de que a base da relação com Deus repousa sobre a promessa e a eleição, e não sobre o desempenho presente do indivíduo.

A Nova Perspectiva sobre Paulo se apropria dessa visão do judaísmo para reler as cartas paulinas, especialmente as epístolas aos Romanos e aos Gálatas. O argumento central é que Paulo não estava combatendo uma religião de obras meritórias para a salvação individual, como se o judeu típico estivesse tentando acumular méritos para conquistar o céu; para os representantes dessa corrente, tal judeu nunca existiu. O que Paulo combatia, segundo James D.G. Dunn, era o particularismo etnocêntrico. A Lei, para os judeus piedosos, não funcionava como meio de ganhar a salvação, mas como marcador de identidade que distinguia Israel das nações. As "obras da lei" que Paulo condena não seriam obras meritórias em si, mas práticas como a circuncisão, as leis alimentares e a guarda do sábado, isto é, os boundary markers, ou marcadores de fronteira, que definiam quem estava dentro e quem estava fora do povo da aliança. Já N.T. Wright compreende a justificação pela fé como a doutrina sobre como, na fidelidade do Messias Jesus, Deus redesenhou as fronteiras do pacto para incluir os gentios sem que estes precisassem se tornar judeus étnicos. A fé em Cristo, e não a Torá, constituiria o novo e universal marcador de identidade do povo da aliança. O problema do judaísmo do primeiro século, nessa leitura, não seria o legalismo, mas o nacionalismo.

A Nova Perspectiva sobre Paulo, ao basear-se nessa compreensão do judaísmo como religião de graça, oferece uma leitura de Paulo que, paradoxalmente, radicaliza a soberania da graça, porém em direção distinta daquela proposta pela Reforma. Na leitura reformada clássica, a graça soberana resolve o problema da incapacidade humana de cumprir a Lei para autojustificação, sendo o único poder capaz de transformar o pecador individual. Na leitura da Nova Perspectiva, a graça soberana resolve o problema do "passivo divino" tornando-se ativa e universal: o problema não seria a impossibilidade de cumprir a Lei, mas a exclusividade étnica que a Lei havia gerado. A graça soberana em Cristo derrubaria o muro de separação, conforme Efésios 2:14, criando um novo povo unificado não com base em marcadores étnico-religiosos, mas com base na fidelidade do Messias. Assim, a tradição da piedade judaica e a Nova Perspectiva sobre Paulo que dela emana não negam a graça, mas a situam na eleição histórica e pactual de Israel, identificando o problema não na tentativa humana de autojustificação, mas na tendência humana de transformar os dons da graça em muralhas de exclusão.

Se o judaísmo já era uma religião de graça, qual seria, então, a novidade radical da graça paulina? Tanto a Nova Perspectiva quanto a teologia reformada concordam em sua soberania, mas divergem quanto ao objeto exato dessa soberania: se o legalismo meritório do coração humano ou o etnocentrismo excludente do povo da aliança. Essa tensão constitui precisamente o ponto que exige a leitura de Paulo com olhos renovados, livres tanto do anacronismo apologético quanto do triunfalismo teológico. 

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