Texto - Lucas 19:28-40

Tema - O conceito de mentira a luz do que é a verdade revelada nas escrituras.

ICT - O capítulo 19 a partir do verso 28 relata algumas medidas tomadas pelo mestre que precederam sua entrada em Jerusalém. O relato indica que foi uma ida a cidade santa planejada. Como todo planejamento está sujeito a algumas surpresas. O que não se previu foi o tom festivo que precedeu a sua entrada na cidade. 

Objetivo Geral - Levar a congregação ao entendimento de que, a julgar pela reação do povo, algumas situações não são passíveis de controle.

Objetivo Específico - Levar a congregação ao entendimento de que nas situações em que se perde  o controle, o que se deve ter em mente é que nem tudo, muito embora esteja sob a direção divina, tem ou não a sua aprovação, ou independe dela.

Tese - Consciente ou inconscientemente a verdade é irrefutável.




INTRODUÇÃO


     Toda e qualquer atitude quando assume o caráter de um movimento popular possui uma forte tendência em ser registrada e, consequentemente, passar para a história. A história é sempre o relato dos movimentos que ganham corpo e protagonismo por meio de um grupo social. Em que pese as restrições dos teólogos, claro que com o auxílio de métodos científicos dentre os quais se destaca o histórico-crítico. O que está em torno de Jesus e a partir dele cresce, se propaga e ganha vulto histórico. É irreversível e não há como ser controlado.

     O perfil de um seguidor de Jesus da metade do primeiro século até o quarto século, por assim dizer, é muito diferente do que após o quarto século se tornará. Uma vez que quando este se reunia, o tipo de reunião era qualificada pelos que a perseguiam como clandestina, subversiva e perigosa. Os judaístas a viam como uma seita ou vertente em seu interior, porém não reconhecida. A partir de um determinado momento o devoto ou seguidor que se reunia nas dependências do templo em Jerusalém, ou em alguma sinagoga espalhada primeiramente pela Palestina. Dado a natureza do ambiente hostil entre os judaístas,  passam a se reunir em suas casas. 

   Começam a partir daí a relatar de forma oral, num primeiro momento, as experiências que alguns destes tiveram quando Jesus, depois de ressurreto, lhes aparece em reuniões desse pequeno grupo em suas casas. São: "As aparições do ressuscitado" a quem tinham como seu mestre. A seguir e, por conta de um crescimento exponencial desses seguidores(Discípulos) do nazareno, surgem algumas regras para que estas reuniões que, num determinado momento, foram colocadas na clandestinidade graças a perseguição. As quais podem ser entendidas como ritos litúrgicos(Há resquícios de doxologias nos evangelhos canônicos) onde o reconhecimento do elemento divino está presente neste a quem chamam de nazareno.

     O Cristo até então entendido nas primeiras comunidades como o mestre nazareno ganha vulto e relevância histórica pelo fato de que estão havendo conversões ou adesões a seu movimento. Os lideres deste movimento também conhecidos como apóstolos, são suas primeiras testemunhas. E o que eles efetivamente testemunham é que naquele homem natural de Nazaré, uma vila localizada na região da Galileia, subsistiu a presença do Deus hebreu por excelência. De forma que através de seus ensinamentos e no convívio direto com sua pessoa, estes a quem denominamos apóstolos, puderam comprovar que a plenitude divina nele esteve presente desde que ele se apresentou publicamente a Israel. Anunciando que o Reino de Deus estava mais próximo do que eles pudessem imaginar. 

     Muito mais do que falar a cerca das aparições do ressuscitado, o que se pode depreender a partir dos registros canônicos, ou evangelhos, a cerca deste personagem de Nazaré são seus gestos e atitudes para com aqueles que com ele se deparavam. A primeira impressão que se tem de sua atitude é do acolhimento de sua parte para com o outro independente de sua condição social, religiosa e até mesmo de saúde. O seu olhar para com os menos favorecidos se notabilizou como um olhar de misericórdia. Porém, como foi afirmado seu gesto ou atitude de acolhimento não ficou somente por aí.

  Ele também agiu de forma a transformar a condição daqueles que a ele se dirigiam. Os escritos contidos nos evangelhos canônicos, por conta destes relatos, se constituem numa retrospectiva biográfica que justifica para aqueles que agora aderem ao movimento e que, por uma ou outra razão, não conheciam a história do ressuscitado que toma vulto entre seus contemporâneos, o porque de se reverenciar a este homem de Nazaré. Esta é a grande sacada da literatura do Novo Testamento e, em especial, dos relatos encontrados nos evangelhos canônicos. 

  E o que o evangelho tido pelos teólogos e exegetas como o mais primitivo de todos(Marcos) destaca é o elemento sobrenatural que ocorre a partir de sua aparição pública. Os primeiros 15 versos do capítulo primeiro deste evangelho representam uma perspectiva sintética que dimensiona o caráter profético de sua missão previsto na escritura(Antigo Testamento). Esta dimensão profética se encontra materializada na figura de João Batista que o submete ao rito de iniciação que é o batismo e que logo após este rito vem a confirmação dos Céus que reforça a sua investidura como o messias divino. 

   Na sequência ocorre a sua retirada através do Espírito para o deserto onde durante o tempo que ali esteve foi tentado pelo maligno, muito embora tivesse sido assistido pelos anjos tal qual o registro deste evangelho. Este mesmo evangelho relata que a sua aparição pública após o batismo e consequente retiro no deserto ocorre sincronizado com o tempo em que João Batista, tendo cumprido o ministério para o qual fora chamado a fim de preparar o caminho do Senhor, sai de cena, primeiramente por ter sido preso e posteriormente por ocasião de seu martírio.

     O texto de Marcos está preocupado em ser o mais simples possível quanto ao relato. Por outro lado, ele se preocupa em atrelar a dimensão miraculosa de uma tão grande revelação divina em carne e osso à dimensão pública da pessoa a quem estes fatos estão relacionados. Ou seja, fato ou evento é tudo aquilo que alcança um domínio público. E, alcançando este domínio público, é passível de se dimensionar ou redimensionar aquele fato propriamente dito ao passado estabelecendo uma concomitância entre o que se depreende do passado e o que se absorve como desdobramento numa linha ascendente até o presente, de onde parte este olhar em perspectiva como consequência relacionada ao ser histórico que nos caracteriza enquanto seres humanos.

     A dimensão subjacente de que em uma pessoa com personalidade e existência histórica, também conhecida como nazareno e que agora faço menção em conformidade com o capítulo 19 do evangelho de Lucas. Onde esta figura histórica é ovacionada como uma pessoa com missão divina. É algo que, segundo as palavras do personagem, não lhe diz respeito e que foge a seu controle. É fato conforme a própria narrativa do texto que ele se prepara para ir a Jerusalém e assim o faz. Entretanto, os desdobramentos ocorridos durante este trajeto e nas proximidades da cidade santa não são passíveis de controle por sua pessoa e, muito menos do que possa transparecer, não existe qualquer tipo de orquestração quanto ao que está para acontecer.

     A natureza de uma fala como esta de Jesus registrada no capítulo 19:40 de que ao ser ovacionado e simultaneamente ser repreendido por alguns fariseus a cerca desta manifestação pública e espontânea do povo. Tem como resposta o fato de que como já havia sido afirmado anteriormente como algo que fugia ao controle. Buscou também dissipar qualquer tipo de orquestração conduzida por outrem. Leva-nos a depreender que em determinadas situações a inexorabilidade do tempo e dos acontecimentos são elementos que fundamentam o arcabouço, pelo menos, da verdade. Pois, o tipo de resposta que estes fariseus recebem é tão somente se aqueles que o ovacionavam se calassem até as pedras se manifestariam. Aquele acontecimento dada a natureza do evento jamais passaria despercebido. De certa maneira, esta é a finalidade do tratamento redacional que, a meu ver, o autor deste evangelho imprime ao fato e da forma como ele ocorre.

     O objetivo neste texto de caráter expositivo é explorar desde uma concepção de fato propriamente dito, e, como o mesmo numa conjugação de outros elementos, atinge o patamar de evento. E a partir de uma construção como esta, desde uma linha progressiva de entendimento que passa pelo desenvolvimento do tempo e de como o mesmo toma forma no espaço narrativo. A ideia de atrelar este espaço narrativo à proposição temática que trabalha com conceitos como verdade e mentira, não objetiva de forma revisionista questionar a validade do pressuposto moral a que estes dois substantivos nos remetem. Eles são, de fato, insubstituíveis neste aspecto.

     Falamos aqui de forma bem simplificada dos pressupostos morais que cercam estes dois substantivos. Mas, é evidente que o referencial para se tratar desta temática está baseado em ajuizamentos morais que se construíram ao longo dos tempos levando em consideração esses dois conceitos representados pelos substantivos "verdade" e "mentira". O parâmetro para tudo que chamamos de mentira é o que consideramos e chamamos de verdade. Então, é fundamental que passemos a tratar agora o termo mentira como tudo aquilo que fantasia ou distorce a realidade tal qual ela é. Pensando desta maneira, que caminhos devemos tomar até que cheguemos a alguns consensos que reflitam com especificidades as particularidades e subjetividades e que nos ajudem a construir, grosso modo, o que na prática entendemos por verdade.

     Por verdade haveremos de considerar o que subsiste por prevalência na realidade desde a perspectiva de um determinado contexto. Identificando neste referido contexto os aspectos que vislumbram os muitos sinais que a ele estão acoplados e que os caracterizam como escopo de leitura temporal espacial. Onde tempo e espaço são categorias que encerram a dimensão existencial e histórica relativa ao homem. Em termos absolutos, a verdade é tudo aquilo que haverá de balizar as ações humanas desde um discernimento moral que regule essas ações no grupo a que este homem enquanto animal social faça parte. A partir do momento que o contexto social assume pra si um tratado de convenção para regular as relações sociais do homem e suas práticas de vida em sociedade. Aspectos que dimensionam a vida como: Religiosa, social, cultural, histórica, e, porque não dizer psicológica e espiritual. Se constituirão em componentes que auxiliam na formação de uma moralidade, a qual será o elemento de fruição da verdade.

     A opção de se trabalhar com o conceito de mentira tem como pressuposto a ideia de signo linguístico e o que se compreende a partir de seu aspecto e definição: Signo é tudo aquilo que está no lugar de outra coisa. O signo tem caráter representativo e arbitrário. Para tanto é fundamental que o contexto onde se trabalha com este conceito se tenha a notável consciência de que os termos que ora são utilizados sejam a parte vital e constitutiva dos elementos vocabulares dos falantes, já que é fundamental que a comunicação esteja acontecendo. Isto subentende que todos os envolvidos sejam falantes de uma mesma língua. Este processo é tão importante para a condução e leitura de onde se depreende o texto, quanto para aqueles a quem a referida leitura se propõe alcançar.

     Ou seja, ficaremos apenas neste momento com a lógica linguística e saussureana, a título de esclarecimento, para que não nos deviemos completamente do objeto perseguido na leitura e interpretação do capítulo 19 deste evangelho. E para que não paire dúvida quanto ao tipo de abordagem nesta leitura. Ainda que se tenha feito menção de caráter estritamente técnico quanto a percepção e encaminhamento do contexto histórico onde através do relato seja passível a reconstrução do ambiente histórico de onde emerge a fala de Jesus e a de seus interlocutores. A esta altura do texto, a reprimenda dos fariseus, a resposta de Jesus e o eco popular de louvação a Jesus como aquele que vem em nome do Senhor ao fundo.

     Deixamos claro que inexistiu qualquer tipo de ação orquestrada neste sentido. Todavia, isto não significa que uma vez sendo constatado o fato não tenhamos condições com base no registro do texto de elaborarmos uma possível cena onde tudo acontece. Já que é uma possibilidade quando se segue alguns aspectos sobre técnicas de interpretação e reconstrução do ambiente apontado pelo texto. Desde que os referidos conhecimentos estejam fundamentados em dados advindos de fontes seguras e confiáveis. É bem verdade que, a rigor, a preocupação com as fontes e se as mesmas são seguras, é o menor dos problemas a serem vencidos nesta leitura. A busca ainda se concentra na melhor maneira de se conduzir a leitura. Ou seja, a questão ainda se insere no processo de orientação metodológica.


     Muito embora, ainda com relação a proposição temática, o objetivo a ser alcançado esteja no âmbito da racionalização e descrição de algo que ocorre no tempo e no espaço. Não resta dúvida que além do claro sinal que o caminho do mestre terá o ápice de tudo em Jerusalém. Pois, lá ele será martirizado. Assim como de praxe tem acontecido com todos os profetas que profetizam sobre a degradação moral e os consequentes desmandos da cidade santa. O mestre cumpre rigorosamente tanto as etapas até sua chegada a Jerusalém quanto o que ele programou como trajeto para sua chegada. Mas, o que chama a atenção neste momento é o fato de que alguns dos fariseus ao fazerem a real advertência para que ele pudesse interferir impedindo que a multidão se manifestasse tal qual estava fazendo.

     O que se revela na sequência e que sempre foi o que as autoridades queriam impedir a todo custo. É que a presença de Jesus faz aflorar a memória histórica, tão entorpecida, mas nunca erradicada a cerca dos grandes pecados de Jerusalém. Um desses grandes pecados é matar e apedrejar profetas. Ou seja, calar àqueles que se constituem na consciência e reserva moral do povo hebreu e que despertam sempre os propósitos de sua existência enquanto nação liberta desde o cativeiro egípcio. Tudo isto se traduz num canto de lamento por parte do Senhor Jesus que como interlocutor divino trás palavras de juízo sobre aquela geração em especial.

     Pode se perceber nas atitudes de Jesus desde que adentrou aos muros da cidade santa o objetivo de recuperação e confrontação entre a memória histórica que desde sempre norteou os princípios da nação de Israel. Ele é drástico e cirúrgico ao tratar com os vendilhões do templo e no que eles tinham transformado aquele lugar que era dedicado a oração. Contra o seu argumento nenhuma autoridade foi capaz de se manifestar publicamente. Pois, sua atitude estava fundamentada na própria lei. Mas, isto não impediu que estes mesmos líderes políticos e religiosos não conspirassem contra sua própria vida. Jesus era uma voz profética que precisava ser silenciada. Tanto a sua atitude quanto os seus ensinamentos, mesmo que expressassem o sentido e o sentimento de uma vida pautada pelos princípios legais e religiosos e que exalassem vida, incomodava muito estas autoridades que, sem sombra de dúvida, e, num futuro bem próximo, se tornarão seus algozes.



I - As noções categoriais de tempo e espaço que auxiliam como elementos dinâmicos e de transição na aquisição de sentidos(V.V. 28-35).


     Não resta dúvida de que, mesmo havendo variações nas narrativas biográficas de Jesus nos quatro evangelhos canônicos, o seu ministério era incansável e sua agenda intensa. Este capítulo, desde o primeiro verso exibe esse elemento dinâmico tão presente na trajetória de Jesus até sua chegada em Jerusalém como destino final. Por outro lado, é fato que nessa trajetória traçada pelo mestre com o objetivo de chegar a Jerusalém, sua escolha em passar por Jericó era a opção mais comum. A rigor, era o que todo galileu fazia quando se dirigia a Judeia, onde está Jerusalém.

     Isto talvez possa explicar a familiaridade de Jesus com as pessoas que residiam ao longo deste caminho. E por se valer desta rota com mais frequência do que outras tenha feito amizades e fosse uma figura carimbada durante seus deslocamentos pela Palestina. A trajetória a que me referi no parágrafo passado tinha como direção a planície do Jordão.  Dessa maneira se evitava passar pela terra dos samaritanos e qualquer outro tipo de embate de natureza racial. Ou seja, os embates seriam outros. O fato é que ao chegar a Jericó, conforme o texto relata. Jesus tem um daqueles encontros com as pessoas daquela cidade. E dessa vez foi com um publicano chamado Zaqueu.


     Além do encontro com o publicano Zaqueu, a recepção com outros publicanos que faziam parte do círculo de relações desse homem de baixa estatura. O mestre ainda propõe uma parábola para a reflexão de todos naquele recinto. Nela, ele fala de um homem de origem nobre que ao sair para se apossar de outro reino distante chama seus dez servos e a cada um deles coloca sob responsabilidades uma de suas minas. A proposta não é especificamente fazer um análise dessa parábola. E sim querer entender como a narrativa da parábola se arrola e se encaixa na perspectiva de relato quanto a um desfecho de história que tem como ápice e cumprimento a chegada do mestre em Jerusalém.

     O autor, não omite a expectativa por parte daqueles que se propõem a ouvir a narrativa da parábola feita por Jesus. E acrescenta que há uma expectativa por parte destes que são marginalizados e que no exato momento do relato do verso 11 deste capítulo 19 de Lucas, Nutrem uma esperança de que o Reino de Deus esteja para se manifestar. Essa expectativa tal como o texto marca está relacionada a proximidade com Jerusalém e a relação não muito amistosa entre os ouvintes da parábola do mestre para com as autoridades, inclusive religiosas, de Jerusalém. A cidade exercia e ainda exerce esse tipo de sentimento. Embora, e, de certa forma, estivessem alijados dos acontecimentos que se davam naquela metrópole religiosa. Pelas razões que se pode dizer não serem as mais adequadas, ainda assim, Jesus conseguia aglutinar em torno de sua figura essas pessoas contemplando-as com misericórdia e favor divino.

     A questão do deslocamento e chegada de Jesus a Jericó, bem como o encontro com publicanos e demais pessoas em casa de Zaqueu. A expectativa projetada sobre ele que está a caminho de Jerusalém, a cidade santa. Nos oferecem elementos para a construção de sentidos que o próprio redator estabelece como demarcadores daquilo poderíamos qualificar como missão e vocação messiânica de Jesus. Assim como também são capazes de balizar a expectativa que essas pessoas que viviam no sopé da montanha que dava acesso a Jerusalém, nutriam com relação a Jesus e sua messianidade.

     Pois bem, é depois da proposição e explicação da parábola que o mestre inicia o processo de subida para a cidade santa. E exatamente ao se aproximar de Betfagé e Betânia que toma a providência de enviar dois de seus discípulos a uma aldeia mais a frente para que lhe tragam um jumentinho. Caso alguém os interpelasse por soltar o animal, eles tão somente diriam que o Senhor dele precisa. E aconteceu que indo eles soltar o animal conforme lhes fora recomendado por Jesus. Os donos perguntaram por que estavam levando o animal e responderam de acordo com as orientações de Jesus. Trouxeram o animal que ainda não tinha sido montado por homem algum.



II - Um rei por excelência que é ovacionado de maneira imperativa e inconfundível(V.V.36-38).


     Imaginem vocês, de posse das informações que atualmente possuímos, poderem presenciar um líder carismático tal como as autoridades viam Jesus, que ao iniciar sua caminhada de entrada em Jerusalém, ser aclamado como rei e enviado divino. Isso claramente incomodaria não apenas o rei que ora estava instalado em Jerusalém devido a conchavos de natureza geopolítica com o império romano, assim como aquelas autoridades acostumadas e estabelecidas para dar sustentação e legitimidade a este poder estabelecido.
 
     Basicamente este é o incômodo e transtorno que a chegada de Jesus em Jerusalém, a princípio estava provocando. Não seria o único, pois muito mais ações desagradáveis estarão ocorrendo devido a intervenção de Jesus em Jerusalém. Na realidade, a reprodução desta cena é de uma riqueza, ao mesmo tempo em que deve também ser objeto de um maior detalhamento a cerca das condições socais e psíquicas daquele povo e forma como ele se manifesta. Existe um ar desespero e alento misturado. E qualquer um que despontasse naquele momento com algumas palavras e ações que fossem de encontro àquele ambiente desalentador, correria o risco de ser ovacionado e consagrado como um rei.

     Ao iniciar a sua entrada na cidade santa e sobre um jumentinho. As pessoas lançavam seu mantos e ramos de palmeiras para que o mestre passasse. Muito embora o animal de tração por ele utilizado seja um jumentinho, ainda assim a recepção popular que Jesus tem é digna de um rei. Este tipo de atitude é um claro e contundente sinal de que as coisas não andam bem e autoridades que deveriam se representar os anseios e ideais do povo. Principalmente dos mais indefesos, não gozam mais deste privilégio. O povo está cansado e não tem a quem recorrer e aquele papel mínimo que a religião deveria representar enquanto moderadora de questões sociais, ela é totalmente omissa. Pois serve aos interesses dos poderosos.

     A alcunha de líder carismático aqui utilizada para tentar entender essa figura ímpar chamada Jesus. Tem como objetivo deixar claro que o aparecimento de Jesus e a missão por ele desempenhada em pregar a chegada do Reino de Deus fugia completamente a qualquer tipo de comparação ou de atrelamento de sua atividade com a de qualquer um daqueles israelitas em seu tempo. O maior exemplo que se pode dar que comprove e sustente esta afirmação foi o que aconteceu no encontro entre Nicodemos e Jesus e o que Nicodemos fala a Jesus sobre o seu ministério no evangelho de João capítulo 3 verso 2 : "Rabí, bem sabemos que és mestre de vindo de Deus."   


   Grosso modo, um líder carismático é aquele que goza de uma vocação natural para estar a frente de algum movimento social, etc. Ele, ao contrário daquela elite intelectual e rabínica de Jerusalém não foi um iniciado desde a mais tenra idade na arte e interpretação dos livros da Lei. Não traz consigo a marca de alguma escola tradicional rabínica tais como HILEL e SHAMAI, também conhecidos como TANAIM. No caso de Jesus, ele estava sempre sendo confrontado por seus contemporâneos pelo fato de não ter este tipo de autoridade, ou seja, quando se pronunciava sobre qualquer situação do ponto de vista da Lei, não tinha uma escola de mestre rabínica que sustentasse seus argumentos. Em geral, ele falava sempre de sua experiência de aprendizado junto a Deus(Transcendência a quem ele chamava de Pai).

     Então fica claro que além da alcunha de mestre, Jesus, via manifestação popular popular, está sendo ovacionado e recebido na cidade santa como um Rei. O tipo de atitude tomada pelo povo mostra o grau de descontentamento com as autoridades constituídas em Jerusalém. Revela que as ideias e influências da apocalíptica estavam efervescendo naquele momento e história da palestina. No imaginário daquele povo e da forma como se manifestam na entrada de Jesus em Jerusalém, eles anseiam por alguém que não apenas seja um líder político. Que este líder também seja líder espiritual desta nação espoliada por um poder hegemônico como o império romano de sua época. Querem fazer dele um Rei com mandato divino, já que vem em nome do Senhor.



III - Existem alguns trâmites de construção e perpetuação da verdade(V.V. 39-40)


     Não há como não arrolarmos alguns fatos em toda esta narrativa que comprovem a grande, inconfundível e incontestável liderança que Jesus exercia sobre grande parte da população de seu tempo. E mesmo sabendo que a atitude daqueles fariseus em meio aquela grande massa de pessoas tinha objetivos escusos, dentre os quais, censurar o próprio Jesus e, quem sabe, seus métodos. Eles reconheciam a liderança do mestre, por isso o tratam dessa maneira e o chamam a responsabilidade no sentido de que aquele tipo de manifestação deveria ter um final imediato. Logo, eles tinham um forte de senso de hierarquia e sabiam que a palavra de um mestre tem forte valor junto a seus discípulos. E é com esta intenção que eles se dirigem a Jesus na tentativa de impedir que uma manifestação como aquela fosse adiante.

     Pedir para repreender aos discípulos revela este senso de hierarquia pelas razões que foram dadas no parágrafo anterior.  Conforme o registro do verso 37, a multidão que começou a ovacionar Jesus chamando-o de Rei que vem em nome do Senhor, era a multidão dos seus discípulos. E agora, no verso 39, os fariseus que se infiltraram no meio desta multidão, apelam a Jesus para que ele repreenda aos seus discípulos e que parem com aquele tipo de manifestação. Existem neste trecho que nos serve de base para reflexão a presença de outros atores. Além da figura central do próprio Jesus, estão presentes também os fariseus, a multidão dos discípulos e agora os discípulos. Devemos, ao nos confrontar com qualquer tipo de massa de pessoas, identificar a presença de seus atores e os objetivos que fazem com que estejam atrelados a determinados movimentos de massa.

     De repente, emerge do meio deste emaranhado de pessoas que se manifestam publicamente algumas vertentes que, se apenas olharmos para a massa enquanto massa, não seremos capazes de identificar. Algo de sinistro e sorrateiro se poderia deduzir a partir da manifestação dos fariseus. O grito de repulsa e reprimenda emerge do meio da massa. Qual o motivo de estarem ali, por acaso estavam infiltrados? A manifestação deles em censurar a Jesus tinha algum tipo de atitude que revelaria o quanto estavam em desacordo com os rumos que tinham tomado e os livraria de serem listados pelas autoridades como aqueles que fazem parte, caso o objetivo tivesse a natureza de um levante, ou insurreição. 

     O fato é que a partir do momento que a entrada de Jesus em Jerusalém tomou este vulto, ela incomodou aqueles fariseus e eles tiveram que se manifestar. E quando eles se manifestam em tom de censura junto ao mestre, eles recebem um tipo de resposta que jamais imaginariam receber. O que Jesus está afirmando a estes fariseus é que independente dos rumos que as coisas tenham tomado. Seja qual for a intenção de cada pessoa que naquele momento se manifestava de tal maneira a reconhecer a liderança de Jesus como seu mestre, ou até mesmo com a intenção de torná-lo um Rei. O que Jesus está dizendo para aqueles fariseus é que não há como calar uma multidão naquilo que ela tem de reivindicação e anseio e aquele que ela elege para que represente essas aspirações e anseios populares. Era tão legítimo o tipo de manifestação popular que se presenciava, que o mestre adverte aos fariseus que se eles se calarem, até as pedras clamariam.

     Se há uma coisa que a narrativa da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém estabelece como parâmetro, é que a verdade está e estará sempre presente se estamos falando acerca da obra redentora de Deus em Cristo Jesus. Primeiramente por ela ser reveladora de tudo que se encontra encoberto e que de alguma maneira se torna comprometedor para alguns. Falamos aqui num primeiro momento de uma multidão, ou de alguma massa informe e impessoal. Porém, de uma hora para a outra, emerge dessa mesma multidão alguns grupos que não eram assim tão identificados com o grupo dos discípulos que seguiam a Cristo.

     Vale dizer que o tipo de manifestação da multidão vai muito além daquilo que o próprio Jesus enquanto mestre daqueles que o ovacionam lhes tinha ensinado. Porém, naquele exato momento, o que eles estão a reverenciar é aquele que vem em nome do Senhor. Isto, entre outras coisas, dava a entender às portas de Jerusalém, a cidade santa, que as autoridades religiosas, não ocupavam com legitimidade as funções que o próprio Deus através do princípio legal tinha estabelecido para orientar e dirigir seu povo. A própria presença do mestre e a forma como ele adentra a cidade, é sintoma claro de aqueles que naquele momento ocupavam o espaço e lidernça espiritual do povo não possuíam qualquer tipo de legitimidade: "Bendito aquele que vem em nome do Senhor." 

     

Conclusão


     O que está em torno de Jesus e ganha status ou projeção de evento. Está alavancado não necessariamente pela história desse Jesus, mas pela personalidade única e inconfundível que os evangelhos canônicos descrevem biograficamente e que segundo estes mesmos registros nos dão conta de que este Jesus possuiu existência histórica. Ou seja, mais ou menos é como a base de notação teológica estabelecida por Joachim Jeremias  quando faz uma comparação entre IPSSISSIMA VOX e IPSSISSIMA VERBA. 

    O que não se pode perder de vista é que os evangelhos canônicos são escritos. E muito embora neles se perpetuem narrativas de fatos identificados e atribuídos a seu principal personagem. Eles são submetidos a um processo de controle redacional. Que não se resume a uma narrativa que busque tão somente a comunicação. Eles são produtos de interpretações dessas ocorrências, as quais estão diretamente ligadas a figura ímpar desse Jesus que emerge desses relatos ou ditos a cerca do mesmo. E que, portanto, se constituem nos principais elementos de composição dessas narrativas.

     Embora havendo intercorrências nas narrativas dos evangelhos. Ainda assim foi possível estabelecer bases comuns, ou fontes das quais se serviram, pelo menos três deles. Por isso são chamados de sinóticos. É preciso entender que cada um deles traz consigo sua própria hermenêutica. O próprio evangelho de Lucas sobre o qual nos debruçamos para fazer esta leitura. É um achado ou peça que segundo o autor foi haurida a partir de pesquisas minuciosas, e em meio a um emaranhado de ditos a cerca do mestre(Lucas 1:1-4). 

     O que chama a atenção neste prólogo lucano não é necessariamente a ênfase que se coloca sobre o processo de transmissão oral a cerca dos fatos e aqueles que efetivamente os presenciaram e, por conta disso, se tornaram ministros da palavra. Mas a informação de que muitos, sabe-se lá quantos, mas o autor fala de muitos, tinham também empreendido pôr em ordem estes fatos que são testemunhos desses ministros. É fato, portanto, que existem muitas hermenêuticas circulando durante o período em que o autor do evangelho de Lucas se propõe a levar a diante também seu projeto de texto.

     Não há necessidade de se entrar no assunto propriamente dito e que atende pelo nome de literatura apócrifa, mas a existência de outros textos também chamados de evangelhos e que, desde muito cedo, a igreja se pronunciou dogmaticamente sobre os mesmos e não os incluiu na lista de textos sagrados. Pode muito bem ilustrar a preocupação do autor com essa enxurrada de textos, porém com algum tipo de hermenêutica duvidosa. Um fato histórico tem somente relevância desde que alcance o status de evento. E para que olhemos para Jesus como evento, basta que seja passível de um sem número de acepções que circulem em torno de sua pessoa e existência histórica.

     A partir de pequenos contextos de ou núcleos tais como famílias, grupos de pescadores, ou aquelas pessoas ainda mais alijadas da vida social em suas épocas(Leprosos, prostitutas, cegos, etc.), é que se verifica primeiramente o acolhimento de alguém da envergadura de Jesus. É em torno dele e de suas palavras e mensagens que estes primeiros crentes haverão de se reunir. Jesus é sinônimo de comunhão, de mesa posta, de partilha. E não dá para falar dele se omitimos tudo que fez, que falou, que ensinou. Parte disso, evidentemente, são percepções a cerca das projeções que as comunidades que reunidas em seu nome cultivou. 

   As primeiras pessoas que o acolheram, fizeram por causa de seu olhar acolhedor. O acolheram porque se sentiram acolhidas por ele. E a intenção de considerar este Jesus das narrativas dos evangelhos como um evento histórico dá-se por conta do crescimento exponencial e contingente daqueles que se sentiram acolhidos por ele. Tenho absoluta certeza de que a ideia de corpo que cresce e se expande toma o sentido de uma hermenêutica eclesiástica devido a este sentimento de acolhimento e pertença que todos aqueles que são contemplados por esta graça são tomados e se tornam seus seguidores.

     A verdade nas escrituras sagradas tem forte apelo popular. O exemplo pacífico, porém com conotações de protesto e insatisfação popular onde o povo aclama um líder carismático e galileu como seu Rei e justamente na entrada da cidade santa. Cidade que goza da reputação de matar todos que são enviados da parte de Deus(Lucas 13:34). Agora, e diante de uma manifestação como a que está ocorrendo se sente de mãos atadas sem saber o que fazer e não tendo condições de fazer uso da violência como forma de reprimir aquela manifestação pacífica. Porém, que trazia grande incômodo às autoridades religiosa da época.

     Nada naquele momento poderia fazer sentido para os fariseus e para as autoridades religiosas. A sensação que se tem foi de que eles perderam o controle da situação. Apenas para recapitularmos o que está acontecendo em plena Jerusalém que era o centro da religiosidade judaica. Onde também se encontrava o templo. Um homem oriundo e vindo da Galileia entra por seus portões sendo aclamado Rei e reconhecidamente como enviado divino. Tal era o absurdo quanto ao que estava acontecendo, que lembrei-me do que Natanael falara a Felipe quando lhe dissera que havia encontrado o Messias: "Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?" (João 1:45-46). Como explicar então que um nazareno seja aclamado como Rei e Messias em Israel? Estava aí o motivo que fez com fariseus que se encontravam no meio da multidão se revelassem.

     A verdade tem sido reveladora e ao mesmo tempo em se tratando de uma dinâmica que tem como líder o próprio Cristo, é também provedora de sentido. Aqueles fariseus no meio da multidão achavam que estavam no controle das coisas e que passariam incólume sem que fossem notados no meio da multidão. Pelo contrário, tiveram que se revelar e ainda ouviram algo que não se podia, em hipótese alguma ser passível de contestação. Não se pode lutar contra a verdade. A verdade é reveladora, é libertadora e sempre acompanha o servo do Senhor. Por isso, que todo aquele que vem em nome do Senhor é provado na verdade. E foi exatamente isto que aconteceu no episódio narrado por este evangelho. Amém !!!

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29 Καὶ ἐγένετο ὡς ἤγγισεν εἰς Βηθφαγὴ καὶ Βηθανίαν πρὸς τὸ ὄρος τὸ καλούμενον Ἐλαιῶν ἀπέστειλεν δύο τῶν μαθητῶν 30 λέγων Ὑπάγετε εἰς τὴν κατέναντι κώμην ἐν εἰσπορευόμενοι εὑρήσετε πῶλον δεδεμένον ἐφ’ ὃν οὐδεὶς πώποτε ἀνθρώπων ἐκάθισεν καὶ λύσαντες αὐτὸν ἀγάγετε 31 καὶ ἐάν τις ὑμᾶς ἐρωτᾷ Διὰ τί λύετε οὕτως ἐρεῖτε Ὅτι Κύριος αὐτοῦ χρείαν ἔχει 32 Ἀπελθόντες δὲ οἱ ἀπεσταλμένοι εὗρον καθὼς εἶπεν αὐτοῖς 33 λυόντων δὲ αὐτῶν τὸν πῶλον εἶπαν οἱ κύριοι αὐτοῦ πρὸς αὐτούς Τί λύετε τὸν πῶλον 34 Οἱ δὲ εἶπαν ὅτι Κύριος αὐτοῦ χρείαν ἔχει 35 Καὶ ἤγαγον αὐτὸν πρὸς τὸν Ἰησοῦν καὶ ἐπιρίψαντες αὐτῶν τὰ ἱμάτια ἐπὶ τὸν πῶλον ἐπεβίβασαν τὸν Ἰησοῦν 36 Πορευομένου δὲ αὐτοῦ ὑπεστρώννυον τὰ ἱμάτια ἑαυτῶν ἐν τῇ ὁδῷ 37 ἐγγίζοντος δὲ αὐτοῦ ἤδη πρὸς τῇ καταβάσει τοῦ ὄρους τῶν Ἐλαιῶν ἤρξαντο ἅπαν τὸ πλῆθος τῶν μαθητῶν χαίροντες αἰνεῖν τὸν Θεὸν φωνῇ μεγάλῃ περὶ πασῶν ὧν εἶδον δυνάμεων



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<>Leitura do evangelho de Mateus capítulo 25.








     As duas parábolas deste capítulo são o complemento da seção que se inicia no capítulo 24:37-25:30(KÜMMEL, Werner Georg. Intr. ao Novo Testamento, p. 125). Curiosamente no capítulo 24:37, ainda que não seja o objeto desta leitura, revela nas palavras de Jesus como os homens desde os tempos do patriarca Noé encaravam a vida desde uma perspectiva de relacionamento com Deus. E na expressão: "Casavam-se e davam-se em casamento", está todo o sentido que o termo banalidade empresta para aqueles que cuidam de suas vidas como se não tivessem qualquer tipo de responsabilidade para com o próximo, para com Deus e para consigo próprio. E de repente ele se dá conta do elemento trágico a que sua vida está submetida. No gênero lírico grego conhecido como tragédia, o exato momento em que o homem se vê em meio a esta situação, o sentimento que se tem é que nem mesmo os seus deuses são capazes de interferir em seus destinos cuja a tragicidade é irreversível(Moĩra)*.

     Ao adentrarmos no capítulo 25, nos deparamos com a parábola das dez virgens. Nesta parábola Jesus toma a iniciativa de comparar o Reino dos Céus às dez virgens, uma vez que é unânime a expectativa de cada uma delas para encontrarem-se com o noivo. E é com esse tipo de expectativa e com suas respectivas lâmpadas que partem ao encontro do noivo. Fica claro que as dez virgens estão imbuídas do mesmo tipo de iniciativa. A diferença entre uma metade e outra é de que uma metade é composta por insensatas e a outra metade de prudentes_ MORAI** e PHRONIMOI***. O fato de as insensatas não terem levado azeite sobressalente demonstra uma atitude banal e racional ao lidarem com aquilo que Tillich chama e que é tratado por ele como conceito de ultimacidade das coisas em sua Teologia Sistemática(Passim). Doravante, desde o advento do período iluminista, este conceito passou a ficar restrito ao domínio da religião propriamente dita. Isso fica cada vez mais específico a partir do momento que se estabelece para efeito de metodologia onde o objeto de estudo é a filosofia da religião e a distinção dos fatos e aspectos relativo a cadeia do significado, bem como a distinção da religião rumo ao incondicional, assim como a cultura rumo às formas condicionadas e sua unidade.(PAUL, Tillich. Filosofia de la Religion. p. 46).

     Ao que parece a atitude das cinco virgens insensatas não corresponde ao grau de expectativa única que deveriam depositar diante daquela situação. Elas agiram sim com muita racionalidade e praticidade, porém, se é que se pode chamar dessa maneira, sem qualquer tipo de análise de riscos por algum tipo de eventualidade que intercorresse nesta situação. As cinco virgens prudentes também tinham uma expectativa única que as faziam concentrarem-se apenas na chegada do noivo. Entretanto, estavam preparadas para qualquer eventualidade que acontecesse entre a espera e a chegada do noivo. Por isso a prudência em levar recipientes de azeite sobressalentes. O que há de diferencial entre um grupo e outro é o fato de que, embora imbuídas da mesma expectativa, ou seja a chegada do noivo. Entretanto,a única certeza que se podia ter era de que ele viria, mas nenhuma delas sabia quando. As prudentes viram um tempo além do tempo em que o azeite que já estava nas lâmpadas queimava. As insensatas foram insensatas exatamente por limitarem suas racionalidades apenas ao que as lâmpadas comportavam de azeite.

     A advertência quanto ao que aconteceu às cinco virgens insensatas e o desespero delas batendo à porta depois de a mesma ter sido fechada, oferece a oportunidade em se discutir que elas não são reconhecidas como dignas de adentrarem à câmara para as bodas. Foi a atitude imprudente delas o motivo de não serem reconhecidas como dignas de entrarem naquele lugar. Não é suficiente  que se nutra algum tipo de expectativa quanto a parousia****, ou volta de Cristo. Até mesmo aqueles que não comungam do mesmo pensamento e crença cristã de que existe uma promessa de volta de Cristo, têm consciência da mesma. E assim, não têm o mesmo empenho de tal forma que não se preparam a altura de se esperar pela concretização no tempo e no espaço, do tipo histórica, que um evento como este pede. As cinco prudentes podem ser equiparadas no sentido da expectativa pela espera do noivo àquele a fan de que ainda que o noivo não estivesse ali, agiam como se fosse uma realidade concretizada. Escatologicamente era o tipo de atitude que os judeus convertidos a Jesus expressavam de forma verbal ao se encontrarem. E que se traduz pelo termo de saudação entre ambos registrado em I Coríntios 16:22_ Maran atha_ O Senhor vem(Maran), Ele está aqui(Atha). O sentido de escatologia não é necessariamente algo que está para tomar lugar no futuro, e sim o futuro que se vislumbra e, portanto, se antecipa.

     Entramos agora na parábola dos talentos, onde a relação colocada sob análise é a que existe entre Senhor e servo. E a principal questão a ser levantada não é necessariamente a performance ou desempenho de cada servo. Uma vez que, a própria parábola faz menção de que na distribuição dos talentos, o Senhor os distribui conforme a capacidade de cada servo. Um dos pontos a ser levantados é que os dois primeiros servos fizeram as aplicações certas com os talentos que estavam sob suas responsabilidades e não subestimaram o fato de que num futuro indeterminado eles teriam que prestar contas a seu Senhor. Outro dado de suma importância reside no fato de que estes talentos constituem como elemento simbólico de que, muito embora, o Senhor delegue a seus servos a liberdade de aplicar os talentos como bem entenderem. Eles também têm consciência de que os mesmos são figuras representativas da presença do Senhor deles, mesmo em sua ausência.

     Mesmo sem a presença física do Senhor os servos sabem que ainda lhe devem obediência. Já o terceiro servo tem consciência de todas as qualidades do seu Senhor. Porém, será tido como negligente por desconsiderar as consequências positivas ou negativas de uma prestação de contas. Ao agir da forma como agiu enterrando o talento, ele subestimou sua própria condição de servo vinculando-a a estimativa de seu Senhor ao colocá-lo sob a responsabilidade e gerenciamento de apenas um talento. De acordo com o ajuizamento que pesou sobre si a partir das considerações de seu Senhor, ele não soube ser fiel sob aquele pouco a que fora constituído. Conforme o que foi dito aqui desde o início desta leitura, no sentido de que as parábolas deste capítulo 25 juntamente com o trecho do capítulo 24:37 em diante que o antecede. São caracterizadas como parábolas escatológicas. As quais para serem classificadas dessa maneira precisam estar atreladas à volta do Cristo.

     O que fica bastante claro até aqui neste processo de leitura empreendido sobre o capítulo 25 e que torna decisivo seu desenvolvimento, em que desde o início se tem constatado, é o fato de que em todas as situações que as parábolas descrevem são levados em considerações os respectivos contextos sociais de inserções de suas narrativas. Isto se depreende quando o assunto são as bodas e a forma como dez virgens as encaram e sobre as mesmas projetam suas expectativas. Fazendo com que ainda assim se ofereça um diferencial de atitudes que ocasionará a atribuição ajuizadora de uma primeira metade como virgens insensatas e a outra metade como prudentes. Como consequência as insensatas ficarão de fora da câmara nupcial e, portanto alijadas do convívio do noivo, que sequer as reconhece quando atrasadas, assustadas e desesperadas, batem à porta na esperança de poderem ainda fazer parte daquela celebração nupcial. Se alijaram do convívio por displicência e insensatez. 

     Na segunda parábola do capítulo 25 que trata dos talentos. O problema reside na falta de ação ou proatividade do servo que recebe apenas um talento. Ele pecou pela falta de iniciativa e não quis arriscar algum tipo de investimento que o levasse a perder até mesmo o talento que dispunha. Na observação e juízo de seu Senhor, ele poderia ter colocado o talento nas mãos dos banqueiros e na sua volta teria recebido o seu talento acrescido de algum juro. Outro fato curioso e que revela a falta de iniciativa deste servo e que, por sua vez, não era do desconhecimento dos demais servos, é a descrição de caráter do seu Senhor e que nesta relação Senhor-escravo***** fica mais patente no terceiro servo que apenas recebe um talento. É fato que numa relação de poder como esta observamos a vigência do imperativo da força de maneira impositiva. Ocasionando com isso uma relação de medo por parte dos servos. Com esta parábola percebe-se que muito embora os três servos estejam subjugados por esta relação de forças, ainda assim o homem precisa avaliar sua capacidade por iniciativa própria de ultrapassar estes limites impostos, pois eles são construções sociais. No caso da narrativa dos talentos, a relação de forças entre Senhor e escravo foi suficiente para inibir qualquer tipo de iniciativa daquele servo.

     O tipo de ajuizamento a que foram submetidas as cinco virgens que não trouxeram azeite sobressalente foi a imprudência, e pode-se afirmar que foi uma imprudência coletiva, afinal de contas, eram cinco. E isto lhes custou a não entrada para as bodas e convívio com o noivo. O ajuizamento a cerca do servo que recebeu um único talento foi a sua falta de iniciativa por aceitar, levado pelo medo de seu Senhor, ser reduzido a condição de servo sem que com isso tivesse tirado qualquer tipo de proveito para suas iniciativas próprias. Os dois primeiros servos souberam explorar muito bem suas condições de servos que aliada às suas iniciativas trouxeram dividendos em suas aplicações. É evidente que no mundo dos negócios, é muito importante durante as tratativas que são feitas, o tipo de suporte que possuímos quando estamos negociando. Os dois primeiros servos quando negociaram e duplicaram seus respectivos talentos, não negociaram por eles e sim por seu Senhor, por serem apenas prepostos. O servo negligente deixou que apenas a figura imponente de seu Senhor lhe trouxesse assombro. Se eu tenho procuração para negociar em nome de uma grande corporação ou de um grande banqueiro, por exemplo, é com aquele banqueiro ou corporação que o outro contratante está lidando ao negociar comigo em nome da corporação ou banqueiro que represento. Ainda assim, eu preciso ter iniciativa.

     A pena a que foi submetido o servo inútil tem uma aplicação semelhante a das cinco virgens insensatas. Ele foi alijado do convívio de um mundo de construção social onde a prevalência e dominância do seu Senhor é inquestionável. Foi por ordem deste mesmo Senhor que ele é lançado nas trevas exteriores, onde conforme a narrativa, existe pranto e ranger de dentes. Inexiste nessas trevas exteriores qualquer tipo de relação social aceitável, ou seja, não há nenhum tipo de construção de mundo onde as relações de força e poder sejam mediatizadas pela presença de um Senhor que se torna, por conta disso, o fiador desse contrato social e suas conveniências. Os conhecimentos atuais a cerca da história da tradição do material sinótico mostram que os discursos proferidos por Jesus são artificiais. Entretanto, a preciosidade das composições oferecem um quadro grandioso dos temas centrais da pregação de Jesus e de sua síntese didática feita pela igreja. A espinha dorsal sobre a qual se sustenta o evangelho de Mateus, tem como critério de desenvolvimento unidades didáticas e sistemáticas reunidas em seções de acordo com os assuntos. Esses discursos são composições preciosas que oferecem um quadro grandioso dos temas centrais da pregação de Jesus e da sua síntese judaica feita pela igreja. São definidas como seções didáticas identificáveis pela forma conclusiva característica. Isto inclui também o último discurso de 23:1 em diante e o vincula a um único tronco, a saber, um contra escribas e fariseus(Cap. 23) e o outro, sobre as últimas coisas e o juízo universal(Caps 24-25).(SCHREINER, Josef & DAUTZENGERG, G. Forma e Exigências do Novo Testamento. p. 275-276).

     Por último e derradeiro, adentramos a seção que trata especificamente sobre o retorno do Filho do Homem. E que é um referência direta a Jesus. É também um discurso colocado como proferido por Jesus. O verso 31 nos dá conta de que em sua volta ele vem em glória e acompanhado dos santos anjos. E é no trono de sua glória que ele se assentará. A tônica dada pelo verso 32 é de que este evento tem características globais, pois ao se assentar em seu trono todas as nações se reunirão diante dele. Todavia, sua primeira atitude não será a de um rei ou governante secular e sim a de um pastor quando separa os bodes das ovelhas. As ovelhas ficarão a sua direita e os bodes à esquerda. E as palavras direcionadas aos que estavam a sua direita é de boas vindas ao Reino. E acrescenta que eles são bem vindos por serem benditos, abençoados do Pai e são convidados a tomar posse como herança de um reino há muito tempo preparado para eles, desde a fundação do mundo, nas palavras de Jesus.

     A ênfase para que estes tenham direito como herança de posse neste reino está relacionada àqueles flagelos que sempre assolam o homem e principalmente àqueles mais indefesos: Fome, sede, abrigo, nudez pela falta de vestimenta, visitação aos doentes e detentos em prisões. E qual não será a surpresa destes que se encontram a sua direita ao ouvirem essas palavras do rei, ao mesmo tempo que o indagam em que momento de suas vidas eles o encontraram nestas situações de fragilidade humana e o teriam ajudado. A emblemática reposta de Jesus tem um forte apelo de natureza social pelo fato de destacar o sentimento de solidariedade que deve se fazer presente em cada um de nós. Ou seja, independente de quem quer que seja estes sempre tocaram suas vidas com um forte sentimento de solidariedade para como os mais necessitados. Eles foram, na essência movidos por misericórdia, ou deixaram ser envolvidos pela misericórdia divina. A designação pequeninos, indefesos, ou desfavorecidos, ilustra bem que essas pessoas foram movidas pelo sentimento de amor ao próximo e que amar o próximo é amar a Deus e amar a Deus é amar o próximo.

     Ao direcionar suas palavras àqueles que se encontram à sua esquerda as coisas já mudam de aspecto. E suas palavras soam como um grande brado de censura acompanhada de um juízo rigoroso. Eles são chamados de malditos ou amaldiçoados. E pelas razões que fizeram com que fossem separados dos demais, e, no caso destes a esquerda, foram equiparados ao bodes. Eles não praticaram nem um ato sequer de solidariedade humana para com os seus semelhantes tal como na descrição dos que estão à direita de Cristo fizeram. Pelo contrário, muitos pequeninos e indefesos passaram por suas vidas sem que fizessem caso algum deles. O destino deles é o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos. Ou seja, o fogo eterno não estava preparado para eles. Para estes que agora se encontram a esquerda do Filho do Homem também estava preparado como herança o Reino de Deus desde a fundação do mundo. Porém, uma vez que escolheram uma via diferentemente da solidariedade de amor a Deus e ao próximo, não haveria uma alternativa de destino diferente dessa que agora através do juízo divino é revelado nas palavras de Jesus pela sua presença e em cumprimento de sua promessa de volta.

     O fato de cinco virgens insensatas estarem de fora da câmara nupcial é sintomático e elucidativo, uma vez que demonstra que suas ações foram ajuizadas, muito embora estivessem em pleno gozo de suas faculdades mentais e tendo agido de forma livre e desimpedida. Ainda assim foram alijadas do convívio do noivo e ficaram de fora. No caso do servo e seu único talento, ele teria que ser essencialmente proativo ao negociar o talento sob sua responsabilidade. Tinha também por força de sua condição social enquanto servo que prestar obediência a seu Senhor. E entendo que, neste caso, não se pode qualificar ou comparar o este senhor da parábola como Deus. E a separação ocorrida na narrativa do juízo final feita por Cristo, onde o que está sob julgamento não é efetivamente a condição em que cada de um nós nos encontramos. Seja aquela em que a expectativa de vida é parecida com a dez virgens, ou a que a condição social destaca um tipo de relacionamento entre um senhor e seu escravo. Em ambas as situações o que se torna bem comum é o rompimento com qualquer tipo de meritocracia. E o fato de se apontar que aqueles que estão a direita do Cristo vão possuir um reino que está preparado desde a fundação do mundo. Mostra que estes através do tipo de vida que optaram para si ao se tronarem solidários para com seus semelhante, cumpriram e honraram com aquele objetivo proposto  Deus desde a sua criação. Pois tudo que criou era realmente muito bom. O Reino de Deus não é recompensa. Ele consiste de uma vocação natural fundamentada na Criação e jamais esquecida. Estamos falando de escatologia no evangelho de Mateus e ela nos remete aos princípios estabelecidos pelo próprio Deus em sua Criação

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Bibliografia



KÜMMEL, Werner Georg. Intr. ao Novo Testamento. Trad. Isabel F. L. Ferreira
         São Paulo, Ed. Paulinas, 1982, 798 p.


TILLICH, Paul. Filosofia de la Religion, Trad. Marcelo Péres Rivas.
       Buenos Aires, La Aurora, 1973. 185 p.

SCHREINER, Josef & DAUTZENGERG, Gerhard. Forma e Exigências do N.T.
        Trad. Benôni Lemos. São Paulo, Ed. Paulinas. 1977, 586 p.

RIENECKER, Fritz & ROGERS, Cleon. Chave linguística do N.T. Grego. Trad.
       Gordon Chown e Júlio Zabatiero. São Paulo, Vida Nova. 1985, 639 p.

 
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*Moĩra - Nominativo grego singular, feminino relacionado à divindade do destino.

**Morai - Nominativo grego plural, feminino - Estultas, tolas, insensatas.

***Phronimoi - Nominativo grego plural, feminino - Sábias, sensatas, equilibradas.  

****Parousia - Forma nominal do verbo grego Para eimi _ É um particípio presente grego na condição de um nominativo singular feminino. Termo do novo testamento que sempre se utiliza para se referir a expectativa dos discípulos pela volta de Cristo.





Texto - Isaías 57:1-2

Tema - Qual o papel do justo neste mundo?

ICT - O texto com base nestes dois versos destaca que há uma extrema indiferença na relação do justo com aqueles que vivem de praticar a corrupção de maneira contumaz.




Introdução


     A escritura, em alguns momentos e situações, dá um claro sinal de que o papel do justo, ou aquele que tem uma vida justificada por aceitar sobre si a soberana vontade de Deus tende a passar por esta vida despercebido. O tipo de manifestação a que se propõe o profeta não deixa de observar que ao se pronunciar sobre o justo torna claro que sua inserção no contexto social é realidade. Mesmo que do ponto de vista de uma cosmologia humana amoral, e anti religiosa(Não aberto a transcendência), o homem seja incapaz de ver e levar em consideração a existência de outro ser humano como seu próximo. Os homens compassivos são recolhidos sem que ninguém faça deles caso algum. E esta falta de consideração tem como consequência a prática do mal, uma vez que tal prática acarreta cegueira espiritual e insensibilidade. Quem se entrega a uma vida de contumaz pecado e corrupção fica entorpecido do ponto de vista de suas ações morais e das ações morais do seu próximo. Este é o panorama ético que a escritura tipifica como sendo daquele que não é temente a Deus.

     O aumento da iniquidade que nesta época se dá de forma exponencial inibe qualquer tipo de solidariedade entre os homens. Este aumento se dá de duas formas, tanto pelo fato de que a densidade populacional tende a crescer, bem como pelo fato de que o homem a cada dia que passa se torna um pecador contumaz. Isto provoca estragos jamais vistos em nossos compromissos morais e comunitários que devemos ter uns com os outros. Esses versos refletem uma espécie de desânimo e lamento por parte do profeta. Eles afloram sua memória afetiva e desencadeia um inconformismo de sua parte com a situação. E mesmo tendo a consciência do pecado como um dano sério que causa ao homem. A morte ou perecimento do justo em sua visão acontece ou é antecipada porque Deus age de forma providencial para com ele. Ou seja, o que acontece com o justo não é o mesmo que acontece com uma celebridade.

     O tipo de providência divina se deve ao fato de que: "Os homens compassivos são recolhidos sem que alguém considere que o justo é levado antes do mal." Deus não quer que os seus filhos sejam contaminados ou influenciados com esse reino da maldade que tem tomado conta do mundo. Isto é tão verdade que o próprio Cristo faz menção de que o aumento exponencial da iniquidade é capaz de fazer com que o amor de muitos se esfrie(Mateus 24:12). A metáfora do sacrifício está muito presente já que o Senhor ao tomar para si os seus servos, o Salmo 116:1 afirma que a morte dos santos é preciosa a vista do Senhor. A rigor, é desde uma perspectiva paradoxal onde o justo é justo por buscar andar nos caminhos do Senhor. Isto implica dizer que ao buscarmos a glória do Senhor anulamos qualquer tentativa de que os holofotes deste mundo concentrem seus focos sobre nós. Escolhemos neste mundo a glória do Senhor. A epístola aos Hebreus ao se pronunciar sobre aqueles que ocupam atualmente a galeria da fé, nos fala da opção e escolha de Moisés que recusou ser chamado filho da filha do Faraó, do que por um pouco de tempo ter o gozo do pecado(Hebreus 11:24-25)

     Para aqueles que experimentam a partida ou morte de parentes mais próximos, é sabido e agora se experimenta algo de muito amargo e dolorido. Esse amargor se traduz por um sentimento de perda e de vazio onde nada nem ninguém é capaz de ministrar uma palavra de conforto e consolo que seja integralmente eficaz. A dor fica ainda maior por termos enquanto constituição de nossa memória aquilo que chamamos de afetividade. Por outro lado, essa afetividade não mais se reproduz pela presença daquele que se foi. Chega ser uma afetividade carregada com uma série de sintomas de natureza patológica. Os gregos sabiam como ninguém dar forma e expressão a esse tipo de sentimento com a atribuição e fruição de significado do termo POTHOS_ cujo enfoque é a eclosão de todos os sentimentos.

     Uma das mais importantes caracterizações do que é a vida humana está na conceituação apurada e tão massificada do pensamento grego mediatizada pelo gênio de Aristóteles, quando afirma que o homem é um animal político(Zoon Politikòn). Todos os animais são gregários, mas o que lhes falta segundo Aristóteles é a linguagem(Logos). É justamente a linguagem o elemento que nos possibilita, pela associação do que temos em comum, a construção dos conceitos de família e de estado(MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Filosofia. p. 56). A linguagem tem como elemento primordial a reprodução e consequentemente a preservação da memória. E é justamente por meio dela que a afetividade toma forma e aflora. Ainda que não retorne por meio daquele sobre quem se construiu essa afetividade, a memória do mesmo continua viva por meio de nossas formas de expressão entre as quais a linguagem(Língua enquanto conceito linguístico, já que existem outros tipos de linguagem) se destaca.

    Aquele sobre quem se construiu o sentimento e a afetividade, embora não se encontre mais entre nós para cumprir com essa função essencialmente humana é também o elo pelo qual constatamos a perda e consequentemente nos vimos envolvidos e tomados pela dor. A dor por conta desse sentimento sem retorno é muito maior e simetricamente proporcional a angústia que invade o nosso ser. Outro dado auferido a partir dessa perspectiva é que a linguagem enquanto elemento capaz de condicionar tudo que nos caracteriza como seres humanos, também proporciona, por se constituir neste canal, como nos relacionamos com o mundo externo, e como a partir desse relacionamento atribuímos valores. Essa peculiaridade humana já se encontra determinada na forma como o Gênesis descreve a criação do homem por Deus e os atributos e qualidades que Deus coloca no homem. Tais como a capacidade de dominar e controlar a fauna, por exemplo(Gênesis 1:26; 2:19-20).

     A proposição do tema sob a forma de pergunta onde se indaga a cerca do real papel do justo neste mundo. Ainda não se debruçou objetivamente nesta temática. E, dá para se afirmar que não seja algo sobre o qual naveguemos em que possamos dizer que sejam águas calmas e com um mínimo de agitação. Considerando primeiramente, e seguindo a própria dinâmica do texto em questão de que estamos falando de alguém que é passível de ser chamado de justo. Mesmo que a dinâmica seguinte de todo o capítulo 57, o profeta fala da iniquidade que tomou conta da vida de seu povo. O pano de fundo de onde emerge a atribuição de justo está inserido no cenário político e religioso de Israel durante o período demarcado pelo vida do profeta Isaías. Que, diga-se de passagem, perdurou e resistiu à passagem de quatro monarcas(Isaías 1:1). Aduz-se a isso também a passagem onde ocorre a vocação do profeta. Quando no capítulo 6 do livro que leva seu nome, ele tem a visão de Deus em seu trono e rodeado de serafins. Neste relato o profeta reconhece a sua condição de pecador e de que se não fosse a misericórdia divina em purificar os seus pecados ele pereceria diante daquela visão THEOPHANICA(Isaías 6:5-7).

     Temos então que considerar o fato de que aqueles que são chamados de justos, são justos pelo fato de que por meio de uma intervenção divina e miraculosa seus pecados e iniquidades foram purificados. Logo, e, considerando novamente o pano de fundo de depravação moral e iniquidade do povo de Deus de onde emerge a figura do profeta, podemos inferir que justo em sua concepção é aquele que é purificado por Deus. E que ao abdicar de tudo neste mundo a única coisa que tem para se apegar, conforme o profeta Habacuque é a sua fé(Habacuque 2:4). O seu tempo de permanência vivendo pela fé neste mundo depende não apenas de sua capacidade para resistir as investidas malignas, mas também do nível de saturação e intensidade da imoralidade humana. No passado do profeta estão os relatos de experiência do seu povo onde Deus agiu por conta do aumento da iniquidade e pecado no mundo. No relato dessas ações divinas, o Senhor preferiu destruir os iníquos livrando os seus servos(Gênesis 6:5-8; 19:23-25). Porém, neste capítulo 57 do livro do profeta, a opção divina é de tirar, ou tomar para si os seus servos deste mundo de iniquidade de tal maneira que eles não vejam e não se corrompam juntamente com os iníquos.

     Mas ainda não respondemos de maneira satisfatória em que consiste o papel do justo no mundo. Quando Abraão toma conhecimento de que Deus haverá destruir essas duas cidades impenitentes, Sodoma e Gomorra, o patriarca intercede junto a Deus afirmando que lá também existiam pessoas que levavam uma vida digna e justa e que elas não mereceriam pagar pelos pecados da outra parcela. Abraão em suas ponderações argumenta com Deus se Ele destruirá também o justo com o ímpio? As interpelações do patriarca junto a Deus vão desde 50 a 10 justos que por lá pudessem existir. E, caso esta ponderação do patriarca procedesse, se ainda assim destruiria aquelas duas cidades e estes homens justos com os ímpios. E sempre a resposta divina enfatizava que por amor a estes justos o Senhor não as destruiria(Gênesis 18:23-33). Atrevo-me a dizer que os justos são aqueles por meio de quem Deus revela o seu lado misericordioso. E é justamente o reconhecimento dessa misericórdia que, segundo o profeta Jeremias, é a causa de não sermos consumidos(Lamentações 3:22).

     Para Jesus ser justo é ser sal da terra(Mateus 5:13) e luz do mundo(Mateus 5:14). Aqueles que apontam para uma dimensão vertical e transcendente onde o Deus todo poderoso e Pai de todos se encontra e de forma amável e misericordiosa nos observa e nos indica o caminho de acesso até sua presença. Ou seja, experimentamos a todo momento, mesmo que não as reconheçamos como vindas da parte do Senhor, as doces misericórdias divinas. A própria missão do filho que veio a este mundo para todos tenham vida e vida em abundância(João 10:10). Mais uma vez a missão do filho ao falar de vida é a de conscientizar o homem para uma abertura ao transcendente onde Deus o Pai se encontra. Ou seja, a capacidade de ser justo ocorre pela ação miraculosa de Deus que agora em Cristo opera o milagre da transformação, da mudança de rumo, de vida, de valores e de se constituir a partir de então de cidadão do Reino de Deus. O papel do justo, a começar pelo exemplo e ensinamento deixado por Cristo, é de apontar para uma dimensão de Reino e de império da vontade divina, onde a paz, a justiça, a prosperidade e a eternidade são elementos constitutivos dessa dimensão.

     Fora e a parte desses critérios estabelecidos elo próprio Deus, não existe paz, prosperidade, justiça, amor, etc. Na realidade onde o império do mal e da iniquidade vigora, quando se fala em justiça divina, conforme o próprio ensinamento de Paulo em Romanos 1:18 afirma, é por onde se manifesta a ira divina. Não dá para permanecer por muito tempo em meio ao pecado e toda sorte de iniquidade sem que com isso não sejamos afetados pela manifestação da ira divina. Temos a nítida consciência de todo o mal que nos cerca. Devemos fugir tanto do mal quanto da sua aparência(I Tessalonicenses 5:22). E tudo isso começa com uma atitude de inconformismo de nossa parte(Romanos 12:2). O apóstolo ao fazer menção dessa atitude de inconformidade com este mundo, mas na verdade ele faz menção de sua época específica(Era, século, atualidade, etc.). E revela uma perspectiva subjetiva a partir de uma visão das coisas que incluem como os poderes do mundo e seus impérios se fundam. É uma advertência às nossas relações com os poderes constituídos e por de onde a maldade e seus mecanismos se imiscuem. O apóstolo está advertindo para que não se entre em composição com os esquemas de poder deste mundo.

     E para encerrar, basta que tenhamos em mente que não fomos chamados para sermos celebridades. Pelo, contrário a atribuição de justo como aquele que é justificado por aceitar de forma incondicional a soberana vontade divina sobre sua vida, implica em não buscarmos o foco dos holofotes. Implica em sermos, em algum momento, tomados e levados pelo Senhor a sua presença para que não vejamos a corrupção e a maldade de tal maneira que por elas sejamos afetados. Por um pouco de tempo, até que se chegue a colheita, convivemos como o trigo no meio do joio(Mateus 13:29-30). Pois, nessas condições, Deus não seria justo para com o justo, se na hora de erradicar a maldade aniquilasse toda a raça humana, inclusive, aqueles que por Ele são justificados. Logo, e tendo como fundamentação a resposta dada a Abraão de que por amor àqueles justos que, porventura existissem naquelas duas cidades impenitentes(Sodoma e Gomorra), Ele não as destruiria. E principalmente, por seguirmos os preceitos divinos, não devemos nos preocupar pelo fato de que mesmo sendo proativos na obra do Senhor não ocuparmos nenhum tipo de posição de destaque, pois foi exatamente para isto que fomos chamados e é na condição de servos do Deus altíssimo que nos encontramos.

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MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Filosofia.
         Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 4 ed. 2005, 179 p.
 

A tradição da piedade judaica do período do Segundo Templo, aproximadamente entre 200 a.C. e 200 d.C.

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