Atos predatórios do ser humano contra si próprio.

A filosofia do Humanitismo foi criada por Machado de Assis para o personagem Quincas Borba, por ela se estabelece uma metáfora e sua relação com a tese histórica da batata. A Metáfora das Duas Tribos (no capítulo "O Humanitismo"). No romance Quincas Borba, o filósofo louco (ou gênio) explica sua doutrina através de uma alegoria: Existem duas tribos indígenas, A e B. Ambas disputam uma plantação de batatas, que representa a sobrevivência, os recursos e a vida. Travam uma guerra feroz. A tribo A venceu, exterminou a tribo B e tomou posse das batatas. Para o Humanitismo, essa vitória não é um mal, mas uma manifestação suprema do princípio vital – ao qual Quincas dá o nome de "Humanitas". Humanitas é uma entidade metafísica única que se manifesta em todos os indivíduos. A luta entre as tribos é, na verdade, Humanitas lutando contra si mesma para se purificar, se fortalecer e se perpetuar. A vitória de uma parte sobre a outra é um "mal" aparente para o indivíduo (a tribo B), mas um "bem" para o princípio universal, que eliminou uma parte fraca e garantiu sua posse sobre os recursos. O sentido da metáfora: Ilustrar o conceito central do Humanitismo – "Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas". É uma visão cruel, darwinista avant la lettre (embora Machado estivesse mais próximo de Schopenhauer), que naturaliza a dominação, a guerra e a exploração como leis imutáveis e até benéficas da existência. É uma sátira feroz às filosofias otimistas e positivistas da época. É possivel uma conexão com a batata que salvou a Europa? Aqui reside a ironia machadiana mais profunda. Quincas Borba, em sua megalomania, estende a lógica da metáfora para a história universal: Ele afirma que as batatas daquela plantação simbólica não eram batatas comuns. Eram as batatas peruanas (ou andinas). Essas batatas, levadas para a Europa, teriam sido o antídoto contra as fomes crônicas que assolavam o continente, permitindo um salto populacional e de desenvolvimento. Portanto, a guerra entre as tribos (o "mal" aparente) foi, em última instância, o meio necessário para que a batata, este bem supremo, chegasse à Europa e salvasse "Humanitas" em sua manifestação europeia. A Metáfora "Alcança" essa Ideia Histórica? Sim, e de forma brilhante e satírica. A metáfora não só alcança, como serve de base lógica perversa para justificá-la. Machado, através de Quincas, constrói uma cadeia de raciocínio cínica: A luta pela vida é a lei universal (as tribos lutam pelas batatas). O sofrimento e a destruição do fraco são necessários para a vitória e o progresso do forte (a tribo A extermina a B). Esse progresso do forte (agora possuidor das batatas) tem consequências históricas de largo alcance (a batata é levada e salva a Europa). Logo, a destruição de culturas indígenas (o genocídio, a colonização) pode ser retroativamente justificada como um mal menor necessário para um bem maior civilizatório. É "Humanitas" eliminando suas formas "inferiores" para beneficiar suas formas "superiores". A ironia finalíssima de Machado de Assis: A metáfora é uma paródia da visão eurocêntrica e colonialista da história. Ele pega um fato real (a importância da batata andina para a Europa) e o insere numa filosofia lunática e cruel (o Humanitismo). Isso nos força a questionar: Quantas atrocidades foram (e são) justificadas por filosofias ou "leis da história" que glorificam o vencedor? A ideia de "progresso" civilizatório não se alimenta da violência e da exploração do "outro"? A narrativa histórica oficial (o "vencedor") é, ela mesma, a dona das "batatas" simbólicas, isto é, do poder de contar a história a seu favor?

A metáfora das duas tribos não é apenas uma ilustração do Humanitismo; é a pedra angular para uma visão de mundo que destila o cinismo social darwinista. Ao conectá-la à história real da batata, Machado realiza um duplo movimento: Dá uma aparência de veracidade histórica à filosofia absurda de seu personagem. Expõe, através do absurdo e da sátira, a lógica perversa que embasou o colonialismo e a dominação: a de que o sofrimento de uns é o fertilizante necessário para o progresso de outros. Portanto, a metáfora alcança e supera a simples ideia de que "a batata salvou a Europa". Ela a transforma em um instrumento de crítica filosófica e histórica, questionando os fundamentos éticos de qualquer "progresso" que seja construído sobre a destruição do outro. A genialidade de Machado está em colocar essa visão horrenda na boca de um "filósofo" que é, ao mesmo tempo, um louco e um espelho distorcido, mas reconhecível, da elite de seu tempo.

No caso da expressão latina "Mors tua, vita mea" (ou "Mors tua, vita mea est") — que significa literalmente "Tua morte, (é) minha vida" ou, numa versão mais fluida, "A tua morte é a minha vida" — surge em contextos muito específicos, todos orbitando a mesma ideia brutal de que a sobrevivência ou vantagem de uma parte depende da destruição da outra. Ela não é uma citação clássica de um autor conhecido (como Cícero ou Virgílio), mas sim uma sentença proverbial que ecoa ao longo da história em ambientes onde a luta pela existência é encarada de forma crua e sem mediações. Aqui estão os principais contextos em que ela surge e é evocada: Origem Antiga: Arenas e Conflitos, Jogos Gladiatoriais (Roma Antiga): É o cenário mais icônico associado à frase. Na arena, a luta era literalmente de vida ou morte. A frase encapsulava a máxima do gladiador: para que eu viva e seja aclamado, meu oponente deve morrer. Representa a lógica pura e antagônica do espetáculo romano. Contextos Bélicos e de Conquista: Também se aplicava de forma mais ampla à guerra, onde a vitória de um exército (e a sobrevivência de seus soldados) era diretamente proporcional à derrota e morte do inimigo. Filosofia e Literatura (como mote). Aqui a frase é usada como um princípio filosófico-literário para discutir temas como: A luta pela existência: Antecipa ideias que seriam formalizadas séculos depois por Thomas Hobbes ("homo homini lupus") e pela visão darwinista da seleção natural. A natureza egoísta e predatória do homem: Serve para ilustrar a ideia de que o interesse próprio pode exigir a aniquilação do outro. Sátira e Crítica Social: É exatamente neste contexto que Machado de Assis a utiliza, de forma magistral. Ele não cita a frase literalmente em Quincas Borba, mas a filosofia do Humanitismo é a encarnação perfeita dela. O lema "Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas" é uma paráfrase elaborada e irônica do mesmo princípio: a vida (as batatas, o bem-estar) do vencedor é construída sobre a derrota (e, na metáfora das tribos, a morte) do perdedor. Direito (um contexto menos óbvio, mas crucial). No Direito Romano, existia a figura do "concursus" ou concurso de credores. Em situações muito específicas de disputa por um bem indivisível ou por uma herança, a solução poderia ser uma que lembrava a lógica da frase. Não era sobre morte física, mas sobre a "morte" jurídica da pretensão de um em benefício da do outro. Este é um uso mais técnico e metafórico, mostrando como o princípio da vantagem antagônica pode se aplicar até em disputas legais. Num ambiente moderno e figurado, hoje, a expressão é usada de forma figurada em contextos de extrema competição: Mundo dos Negócios/Capitalismo Selvagem: Para descrever práticas de mercado onde a falência de um concorrente (sua "morte" comercial) significa uma fatia de mercado e sobrevivência para o outro ("minha vida" econômica). Esportes Competitivos: Em rivalidades ferrenhas, onde a eliminação de um grande rival ("tua morte" na competição) pode ser vista como o caminho aberto para a vitória e glória do outro ("minha vida" como campeão). Política Partidária: Em sistemas polarizados, a derrota política e a irrelevância de um partido podem ser vistas como condição necessária para a ascensão e implementação do projeto do outro. Uma relação direta com a metáfora de Quincas Borba: A conexão é direta e profunda. Tanto a metáfora das tribos quanto "Mors tua, vita mea" são formulações diferentes do mesmo princípio darwinista-social e hobbesiano. A metáfora dá uma narrativa fictícia e pseudo-antropológica ao princípio. O provérbio latino oferece uma formulação lapidar, axiomática e universal do mesmo princípio. Machado de Assis, ao criar o Humanitismo, fundiu os dois. A filosofia de Quincas Borba é, essencialmente, a elaboração satírica e hiperbólica do provérbio "Mors tua, vita mea". Ele pega essa máxima brutal da arena romana e a eleva a uma lei universal da história e da humanidade, usando-a inclusive para justificar, de modo cínico, os horrores da colonização (como na explicação sobre as batatas). Em resumo: A expressão surge em ambientes de conflito antagônico absoluto, onde não há possibilidade de ganho mútuo. Da arena romana ao capitalismo predatório, ela serve como um lembrete sombrio de que, em certas lógicas de poder, a vida de uns pode ser fatalmente dependente da morte de outros. Machado de Assis a utilizou, sem citá-la textualmente, como a pedra filosófica sobre a qual construiu uma de suas críticas mais ácidas à sociedade.


Nata: Tangenciamento histórico sem historicismo.

Antes de entrar com mais especificidade no conteúdo do texto proposto, tendo como alusão a temática acima, na razão da polaridade e clima antagônico que se criou ao longo de séculos quanto a historicidade ou não de determinados relatos cuja ênfase incide sobre assuntos de natureza religiosa. Faz-se necessário, a nivel de esclarecimento, a utilização da terminologia "Tangenciamento Histórico". Sua utilização é apenas plausível, como pode ser bastante sofisticada e útil para o argumento que objetivo desenvolver, desde que devidamente definida e contextualizada. É evidente que a análise de plausibilidade ou não dependerá dos potenciais significados seguidos das ressalvas, claro. Primeiro, precisamos buscar um entendimento factível quanto a pertinência dessa plausibilidade. Visto que o tema deste artigo. Visto que a linha temática deste artigo trilha quanto a natureza histórica (ou não) de um fenômeno religioso e seu alcance ou desdobramento ‘universal’. O uso do termo “tangenciamento histórico” se encaixa perfeitamente. Ele sugere uma relação que não é de centralidade ou determinação, mas de contato, aproximação e influência lateral, ou sabe, radial se assumirmos a ideia de circularidade cíclica. Sem que venhamos a nos submeter a um enquadramento historicista rígido.

O contexto que proponho para ‘Tangenciamento Histórico’ pode ser definido como uma relação  de toque, não de fusão: O fenômeno religioso “tange” a história, ou seja, faz contato com ela em pontos específicos(contexto de surgimento, figuras fundadoras, eventos de disseminação), sem que a sua essência, mensagem ou projeção sejam reduzidas a meros produtos históricos. Uma salvaguarda metodológica: É um conceito operacional que nos permite reconhecer a dimensão histórica sem adotar a premissa de que tudo no fenômeno é historicamente determinado e explicável. A proposta é evitar o reducionismo. Fica totalmente fora de cogitação a análise crítica e reducionista de alguns historiadores que ao tratarem da temática religiosa atribuem a sua totalidade o conceito de “ficção”. É sintomático e significativo que tenhamos a atitude, essa atitude é o que é a partir de uma postura metodológica. De que todo e qualquer fato histórico é passível de ser revestido de uma roupagem religiosa, dessa maneira a combinação é bem fluida com o “tangenciamento”. A roupagem(linguagem, instituições, práticas adaptadas a culturas) pode ser historica, mas o núcleo simbólico ou a experiência que ela veste pode ser apresentado (pelos fiéis) e analisado (por aquele que investiga,  com cuidado) como transcendente ou de outra ordem. A explicitação de um Modus Operandi: Mostra como o fenômeno lida com a história: não a ignora (como um ahistoricismo faria), nem se deixa capturar por ela (como o historicismo pretenderia), mas a utiliza seletivamente, a reformula, ou a "tangencia" para ganhar tração no mundo.

Como agir de tal maneira que possa ser inserido neste artigo e seja, por conta disso, uma estratégia recomendada. Para que o termo seja bem recebido e cumpra sua função que é crucial? Primeiro de tudo, foi o que objetivamos fazer. E acho que cumprimos com este objetivo. Dedicamos um parágrafo para definir o termo logo em sua primeira aparição. Fiz questão  de enfatizar a utilização do neologismo ‘tangenciamento histórico’ para designar a relação específica que o fenômeno [X] estabelece com o processo histórico. Não se trata de uma negação da história, nem de uma submissão à sua lógica determinista (historicismo), mas de uma operação pela qual o núcleo doutrinal ou experiencial do fenômeno toca, se adapta e se expressa através de contingências históricas, sem, no entanto, derivar dela sua validade última ou seu potencial de projeção global." O que não deixa de ser um contraste com outras abordagens, já que ao agir assim posiciono o termo clem um continuum metodológico. À luz de dois extremos: A e B. A( historicismo estrito); B (ahistoricismo). Na proposta (Tangenciamento): O fenômeno interage com a história de forma seletiva e instrumental, usando-a como meio, não como origem ou fim. Um exemplo concreto, ilustra como um caso do objeto de estudo nesta investigação, onde um conceito religioso universal que se reveste com exemplos históricos locais para se fazer inteligível, ou como uma prática se adapta a diferentes contextos nacionais sem perder suanidentidade global. Por outro lado, a utilização  de um neologismo demanda de nossa parte algumas ressalvas e cuidados. O neologismo, por ser um termo novo, sua clareza e definição são fundamentais para não confundir o leitor. Corre-se o risco de parecer evasivo. Daí a necessidade de certificarmos que “tangenciamento” não soe como uma fuga da análise histórica concreta. O termo deve permitir que se faça a análise histórica (dos pontos de contato) e, ao mesmo tempo, discuta seus limites. Se possível no debate com a teoria, devemos vincular o termo a debates teóricos conhecidos. Foi o que objetivamos fazer, embora ainda não esteja convencido de que alcancei este ponto chave. Entretanto, o patamar de balizamento desse aspecto investigação percorre o liame que vai da Crítica ao historicismo (de filósofos como Karl Popper ou, na teologia, à discussão sobre o “Jesus histórico” vs. o “Cristo da fé”). À noção de "invenção da tradição" (Hobsbawm), que mostra como elementos "históricos" são construídos. Aos conceitos de "acomodação" ou "inculturação" na teologia e sociologia da religião. À ideia de "escatalogização da história" em algumas religiões, onde a história recebe um sentido transcendental.

A meu ver, é perfeitamente plausível e pode ser uma contribuição conceitual valiosa. O termo "Tangenciamento Histórico" funciona como uma ferramenta analítica precisa para capturar a dinâmica complexa de fenômenos religiosos de projeção global, que precisam se ancorar em contextos históricos para se disseminar, mas cuja legitimidade e apelo frequentemente repousam em uma afirmação que vai além (ou à margem) do histórico stricto sensu. Ao definir o termo com clareza, contrastá-lo com abordagens reducionistas e aplicá-lo a exemplos concretos, é possível fortalecer significativamente a estrutura teórica deste artigo. É o que doravante me comprometo a fazer. É muito natural e auspicioso que ao nos aproximarmos das celebrações de fim de ano deixemos toda e qualquer questão que, do ponto de vista histórico e teológico, possa inviabilizar todo e qualquer clima de festa. O Natal está aí para ser comemorado. E, se não é a maior, é, com certeza, uma das grandes festas de celebração da cristandade, tanto no ocidente quanto no oriente. E falar de Natal é falar de nascimento. Todos os dias, nos lares espalhados por este mundo, são milhões de natais(nascimentos) acontecendo. Com certeza, a grande maioria deles, ou seja, numa ordem de grandeza, 99,9% (noventa e nove, vírgula nove por cento) deles não serão catalogados para efeito de registro de um acontecimento que mudará o rumo da história e da humanidade. Os registros quando acontecem são para que o estado possa ter um controle total de seus cidadãos, ao mesmo tempo que: De posse de tais informações possa prover e planejar boa parte de suas políticas públicas. Entretanto, o Natal em questão, e objeto dessa investigação, tende a se restringir a uma abordagem de cunho teológico e, ao mesmo tempo, se dispõe a tangenciar quanto aos dados de que dispomos atualmente, os quais tendem a reforçar argumentos de natureza histórica, por outro lado, flertando com o historicismo. Porque, na condução deste texto, primo pela preferência a nível de investigação a partir de uma abordagem teológica, para só depois elencar os dados de natureza histórica? As respostas, pois não são apenas uma, são as mais simples possíveis e que estão ao alcance de todos. Estão ao alcance de todos pelo fato de a Bíblia ser, enquanto registro de um acontecimento: Mateus 1:1, pelo menos, no Ocidente, o livro mais lido do mundo. Também pelo fato de que o livro texto, dentre os quatro evangelhos canônicos, estamos falando agora e especificamente do evangelho de Lucas, ao fazer menção deste Natal, em especial, estabelece uma relação com um dado histórico na razão direta de seu registro(Flavio Josefo em Antiguidades Judaicas 18:1-2). Ou seja, não fosse o Natal, primeiramente na perspectiva teológica tal qual nos apresentam os evangelhos canônicos, em especial o evangelho de Lucas. O Natal não seria Natal, e sim natais, nascimentos como acontecem todos os dias e em todas as partes do mundo onde o ser humano e sua família tenham se estabelecido.

Agora, qual a natureza deste registro histórico a que o evangelho de Lucas faz referência em sua narrativa? Se nos voltarmos na direção deste evangelho e passarmos a analisar a forma como traz para sua narrativa o fato histórico(Um decreto imperial no sentido de que se fizesse um Censo). Este também é o motivo pelo qual uma família estabelecida em Nazaré da Galileia terá que se deslocar para a cidade de Belém na Judeia. José sendo o chefe da casa e por ser de origem ou linhagem real: Ele era da casa e da família de Davi(Lucas 2:4). Os rabinos tendem sempre a contestar que, se Jesus é filho de Deus, logo não é um judeu. A contestação surge de diferenças teológicas fundamentais sobre a natureza de Jesus. A rejeição judaica da concepção cristã de messianidade e divindade. São, grosso modo, questões polêmicas em debates inter-religiosos. Mas do ponto de vista histórico, genealógico (pelas regras judaicas) e contextual, a afirmação "Jesus era judeu" é amplamente aceita, mesmo quando suas reivindicações messiânicas e divindade são rejeitadas pelo judaísmo. A verdadeira divisão não é sobre sua identidade étnico-religiosa, mas sobre como essa identidade se relaciona com suas reivindicações e o significado que os cristãos atribuem a ele. A rigor, é um debate ou discussão construídos sobre diferentes planos. No debate e discussão com os rabinos o fator histórico é ambiente e terreno comum. Historicamente, estudiosos (incluindo historiadores judeus como Geza Vermes) afirmam que Jesus de Nazaré foi um judeu do século I que viveu como judeu, pensou como judeu e debateu dentro do contexto do judaísmo de seu tempo. Agora, o arcabouço histórico onde Lucas insere como elementos históricos a origem e linhagem de José como descendente de Davi é também carregada de plausibilidade no ambiente e contexto judaico do século I. Principalmente, se considerarmos a existência de famílias davídicas atestados em fontes da época. A necessidade messiânica criada pelo governo herodiano (visto como ilegítimo), criava tanto insatisfação, quanto expectativa por uma figura que ocupasse o trono de Davi com legitimidade. Talvez, por conta disso, existe uma lógica da acusação e execução romanas por pretensão ao trono na crucificação. Independentemente da veracidade genealógica específica, o importante é que Jesus foi percebido e apresentado dentro de um quadro de referência davídico-messiânico, que era uma resposta direta ao vazio de legitimidade criado pelos Herodes e pela ocupação romana. Esta reivindicação, mais que um detalhe biográfico, era uma declaração política e teológica sobre o tipo de reino que Jesus representava - um desafio tanto aos poderes romanos/herodianos quanto às expectativas revolucionárias judaicas.

Já foi falado aqui que o que motiva e direciona a abordagem desse texto é primeiramente teológica e somente depois nós permitimos o tangenciamento histórico. O evangelho de Lucas faz menção a Quirino(Lucas 2:2). Há sim uma evidência histórica extra-texto. Quirino(Publio Sulpicio Quirino). Foi  realmente governador romano da Síria, e um censo sob sua autoridade é registrado pelo historiador judeu-romano Flávio Josefo (em Antiguidades Judaicas, 18.1-2). Porém, este censo aconteceu por volta do ano 6 d.C., após a deposição de Herodes Arquelau, quando a Judeia passou a ser província romana direta. O propósito era avaliar tributos após a anexação da Judeia ao Império Romano. Mas, há um problema cronológico: De acordo com o Evangelho de Lucas (2:1-2), Jesus nasceu durante o reinado de Herodes, o Grande (que morreu em 4 a.C.). Há portanto uma discrepância de pelo menos 10 anos entre a data tradicional do nascimento de Jesus e o censo histórico de Quirino. Surgiram, devido a esta discrepância, algumas tentativas de explicação acadêmica: Teoria do Primeiro Governo de Quirino: Alguns estudiosos sugerem que Quirino poderia ter tido um primeiro governo na Síria por volta de 4-2 a.C., mas não há evidência histórica sólida para isso. Possível confusão com outro censo: Pode ter havido um censo local na época de Herodes (que era rei cliente de Roma), mas não um censo imperial romano na Judeia antes de 6 d.C. Fato é aqui se aponta um erro de Lucas: Muitos historiadores consideram que o autor do Evangelho de Lucas (escrito décadas depois dos eventos) pode ter cometido um erro cronológico, confundindo o famoso censo de Quirino de 6 d.C. com eventos anteriores. Os censos romanos (census) eram realizados regularmente em províncias romanas para fins tributários e militares. Envolviam o registro de propriedades e pessoas. Na Judeia, o de 6 d.C. provocou a revolta de Judas, o Galileu, mencionado por Josefo. A grande maioria dos historiadores afirma que: Não houve "censo de todo o mundo" (império romano) decretado por Augusto na época do nascimento de Jesus. O censo histórico de Quirino ocorreu em 6 d.C., cerca de uma década após a morte de Herodes, o Grande. A narrativa de Lucas parece combinar elementos históricos reais (o censo de Quirino) com a tradição do nascimento de Jesus em Belém, criando uma dificuldade cronológica. Esta questão ilustra como os textos bíblicos, escritos com propósitos teológicos, às vezes apresentam desafios de harmonização com evidências históricas extrabíblicas. A pesquisa histórica continua a investigar essas questões, mas o consenso é claro quanto à datação do censo de Quirino.

O chamado tangenciamento histórico que me propus desde o início da narrativa deste texto, não deixa dúvida quanto ao elemento norteador do mesmo nesta reflexão. E ele está bem claro ao aludir à prevalencia de uma abordagem estritamente teológica. Obviamente que, ao se traçar uma linha de abordagem com proeminência teológica, não significa e não se traduz por um objetivo pautado na obrigação de mascarar a existência de discrepâncias históricas nas narrativas dos evangelhos. E ao se falar de discrepâncias históricas não se verifica pelo abandono dialógico e Dialético das narrativas bíblicas. Por exemplo: o fato de a Judeia ser província romana desde 6 d.C. foi simplesmente o elemento motivador para que autoridades israelitas enviassem espias que pudessem colocar Jesus numa saia justa diante das autoridades romanas conforme registra Lucas 20:19-25. E é exatamente o que torna a pergunta sobre o imposto tão carregada e perigosa. O "imposto a César" não era um imposto qualquer - era o símbolo tangível da subjugação política a um poder pagão, instituído com aquele censo traumático que ainda estava na memória nacional 24 anos depois. Essa contextualização histórica mostra que a pergunta a Jesus não era sobre uma mera questão fiscal, mas sobre lealdade nacional, identidade religiosa e resistência política - os mesmos temas que haviam explodido em violência quando o imposto foi primeiro instituído. A resposta de Jesus, portanto, não era apenas uma saída diplomática, mas uma declaração teológica profunda sobre como viver a fé num contexto de opressão política.

O elemento e fator histórico é de extrema importância para o contexto do Novo Testamento, apesar de suas imprecisões. O pano de fundo da pergunta sobre o imposto: Quando os fariseus perguntaram a Jesus sobre pagar imposto a César (c. 30 d.C.), estavam se referindo ao mesmo imposto instituído após o censo de 6 d.C. que Judas rejeitou. A pergunta era uma armadilha política carregada e revestida com a retórica do “Messianismo”. A insurreição de Judas, o Galileu na época de instituição dos impostos como consequência do Censo de Quirino alavancou focos de revoltas. Aqueles que se levantaram contra como Judas, fez com que alguns vissem na figura de Judas(e depois seus filhos) como possíveis "messias" libertadores no sentido político-militar, contrastando com o messianismo de Jesus. A atmosfera de resistência: O legado de Judas ajudou a criar o ambiente de tensão e expectativa messiânica na qual Jesus e os apóstolos ministraram. Judas, o Galileu, representa assim a face militante da esperança judaica do primeiro século – a convicção de que a fidelidade a Deus exigia a rejeição ativa do domínio pagão. Seu fracasso imediato não apagou seu legado; pelo contrário, sua família continuou sua luta por mais de 60 anos, até o dramático epílogo em Masada. Ele personifica a resposta que não foi dada por Jesus à questão do imposto: a da revolta violenta. Enquanto Judas disse "não" a César com as armas, Jesus deu uma resposta que transcendia a dicotomia "sim/não", apontando para uma soberania divina que opera de forma mais complexa dentro das estruturas humanas.

Analisamos com cuidado e responsabilidade o caso de Zaqueu. Ele era parte do sistema tributário romano cuja base foi estabelecida no censo de Quirino (6 d.C.). Enquanto Judas, o Galileu respondeu ao sistema com revolta violenta, e os zelotes com ódio nacionalista, Zaqueu representa uma terceira via: um agente do sistema que é transformado pelo encontro com Jesus e desmonta o sistema por dentro, através da restituição e justiça, não da violência. A narrativa de Zaqueu é um microcosmo do Evangelho de Lucas e da mensagem de Jesus: A graça precede o arrependimento (Jesus vai até ele primeiro). A salvação é holística, incluindo transformação social e econômica. O Reino de Deus inverte valores: o último (o publicano traidor) torna-se primeiro. A missão de Jesus é definida ali: "buscar e salvar o perdido". Zaqueu não é apenas uma história de conversão individual; é uma declaração política e teológica sobre como o Reino de Deus subverte sistemas de opressão a partir da transformação dos próprios agentes desses sistemas, através do encontro radical com Jesus. Dentre os principais aspectos da materialidade histórica, e na perspectiva da linha que temos seguido até aqui, que visa tangenciar os elementos que sustentam uma linha de evolução no tempo. Tendo por objetivo não apenas o enquadramento historicista por si só. A materialidade histórica é um conceito fundamental na historiografia e na arqueologia contemporâneas que se refere à importância dos objetos, corpos, espaços e elementos físicos na compreensão da história. Vai além da análise de textos e documentos escritos, focando no papel ativo da matéria na construção das experiências humanas no tempo. Neste ínterim, o aspecto da corporeidade se configura como elemento crucial e eixo de nossa breve reflexão. A corporeidade e experiência sensorial como materialidade inclui o corpo humano – como as pessoas viveram, sofreram, trabalharam, se alimentaram e interagiram com o ambiente. A história das sensações (cheiros, sabores, sons, texturas). Isto é algo que está para além dos textos e documentos. De certa maneira nos encontramos diante de tantos dilemas quando nos referimos à forma como a fé cristã foi transmitida. Que a partir de tal dinâmica de expansão missionária é muito complicado a imposição  e perpetuação de apenas uma visão historicista para a leitura do comumente conhecido como “Depositum Fidei”. É evidente, que por conta desses fatores aqui listados, e o consequente tangenciamento histórico quando o evangelista faz menção do censo de Quirino, independe da discrepância de datas entre um evento e outro. O que é fato a despeito dos desencontros de datas e dos fatos que que acompanham. É o crescente e acalorado debate acerca não apenas da inserção desse sujeito histórico, cujo nome é Jesus, também conhecido como filho do carpinteiro, no consciente e no imaginário daqueles que receberam via revelação divina a mensagem de que em algum momento no tempo e no espaço, o Deus todo poderoso havia se tornado homem.

Este é, portanto, o fator que determina, no caso do relato dos evangelhos acerca de Jesus, que a leitura dos mesmos precisa e tem que ser direcionada por uma abordagem teológica, a despeito dos acontecimentos históricos catalogados no mesmo período e que apresentam determinadas discrepâncias quando confrontados.  Agora, como uma fé que não se baseia em evidências históricas pode ser experienciada e vivida por um sujeito que é, inevitavelmente, histórico? Esta foi uma das grandes questões levantadas por Paul Tillich, e sua resposta está em uma distinção crucial e em um processo de mediação simbólica. A distinção fundamental: O "Jesus Histórico" vs. "Jesus como o Cristo". Para Tillich, o objeto da fé não é Jesus de Nazaré, o homem do século I, investigável pelos métodos da historiografia. Esse é o Jesus histórico, um fato contingente e incerto. O objeto da fé é "Jesus como o Cristo" – isto é, a imagem e o significado que emergiram da experiência dos discípulos e da comunidade de fé, testemunhando-o como a manifestação do Novo Ser. O "Cristo" é um símbolo, um evento de significado último que ocorre na história, mas não é apenas um fato histórico. O ser humano é histórico não apenas porque vive no tempo, mas porque sua existência é marcada pela temporalidade, finitude e alienação (conceitos existenciais e idealistas). A fé é a resposta a essa condição histórica. O encontro com o Novo Ser acontece no "kairós" – o momento qualitativo, pleno de significado, em oposição ao "chronos" (tempo quantitativo). É no agora da decisão existencial que o poder do Novo Ser toca o indivíduo. O fiel, situado em sua história concreta (com suas dúvidas, medos e busca por significado), é confrontado pelo símbolo "Cristo" transmitido pela tradição da igreja, pela pregação, pela arte e pela Escritura. Esse símbolo não é uma informação sobre o passado, mas um poder presente (o poder do Novo Ser) que "apreende" o indivíduo. A fé é justamente esse estado de ser "apreendido". A historicidade do fiel não é anulada, mas transformada e ressignificada a partir desse encontro. É necessário também que não foi apenas Tillich que enveredou por este tipo de abordagem teológica. Além de Paul Tillich, vários teólogos e filósofos do século XX desenvolveram abordagens semelhantes, afastando a fé de uma dependência direta de evidências históricas e enfatizando sua dimensão existencial, simbólica ou experiencial. Esses autores, muitos deles influenciados pelo idealismo alemão, pela fenomenologia e pelo existencialismo, formam o que se poderia chamar de "giro existencial-simbólico" na teologia protestante liberal e neo ortodoxa. Alguns deles são bastante conhecidos: Bultmann, Barth, Bonhoeffer, Hick, e Gilkey. Mas, eu gostaria de citar um apenas como contraponto a Tillich. Seu nome é Wolfhart Pannenberg (1928–2014). Ele representa uma reação direta a Tillich e Bultmann. Ele defende que a fé deve basear-se na história, especificamente na ressurreição de Jesus como evento histórico verificável. Sua obra é um esforço para reafirmar a historicidade como fundamento, usando uma abordagem hermenêutica e filosófica sofisticada. Sua presença nesta lista é como um antagonista dialético que explicita o contraste com a tradição Tillichiana. Notem bem, mesmo com esse contraponto que Pannenberg apresenta aos pressupostos teológicos de Tillich e demais teólogos. Ele fala da ressurreição como evento histórico verificável. Porém, o que Tillich e sua linha teológica defende não é o abandono do pressuposto histórico no momento em que se dialoga com a religião mediatizada pela fé no Cristo e preservada na igreja como depósito dessa tradição. O que transparece a partir do contraponto entre um e outro. É também o que já está consagrado pelo processo de verificação na evolução do tempo, onde há uma primeira abordagem proporcionada por Tillich, o qual, o conceito mediador se dá pelo Καιρός(Kairos); e uma segunda abordagem de caráter histórico, onde o conceito mediador conduzido por Pannenberg baseia-se no Χρόνος (Chrónos)

Por outro lado, não há como omitir ou não mencionar a figura icônica de Paul Ricoeur (1913–2005). Apesar de sua abordagem gravitar no ambiente e campo da hermenêutica filosófica. E embora Ricouer não seja um teólogo no sentido confessional, ele desenvolveu uma hermenêutica do símbolo e da narrativa que influenciou profundamente a teologia. Para ele, os textos religiosos (incluindo narrativas sobre Jesus) não fornecem fatos históricos, mas símbolos que desvelam possibilidades de ser. A fé é uma interpretação participativa nesses símbolos, muito próxima da noção de "participação" de Tillich. Ao fazermos menção desses autores que formam um espectro de respostas à crise do historicismo e ao desafio da secularização. A linha que vai de Tillich, Bultmann e Bonhoeffer (com ressalvas) até Hick e Gilkey compartilha o seguinte: 1- Rejeição do fundamento histórico-positivista para a fé. 2 - Ênfase na experiência, no símbolo ou na decisão existencial. 3 - Influência da filosofia continental (idealismo, existencialismo, fenomenologia). Eles diferem, porém, no grau de compromisso com a metafísica idealista (Tillich é o mais explícito), na abordagem da tradição cristã (Barth é o mais ortodoxo na origem divina da revelação) e no destino do símbolo cristão (Hick o relativiza no pluralismo, Tillich o mantém como único). Portanto, a afirmação de Tillich não está isolada: ela é parte de um movimento teológico maior do século XX que tentou resgatar a fé cristã de uma colisão frontal com a modernidade crítica, deslocando seu fundamento do âmbito do histórico-verificável para o âmbito do existencial-simbólico. Essa tendência, porém, sempre enfrentou a crítica de que, ao fazer isso, arriscava-se a perder o caráter eventual único do cristianismo, uma acusação que teólogos como Pannenberg e, de outra forma, Barth, buscaram responder. É claro que por nos encontrarmos neste período de festas, talvez você jamais tenha imaginado que uma narrativa bíblico-neotestamentária pudesse produzir um conteúdo descritivo, teológico e acadêmico como o que foi até aqui conduzido. É bem verdade que o propósito de desenvolvimento do texto teve como fundamento uma abordagem sobre o Natal, nem tão pesada. Porém, que trouxesse à reflexão as implicações de como a partir de um conteúdo narrativo estritamente de caráter revelacional, questões levantadas desde uma perspectiva historicista desconstroem o arcabouço instrumental e simbólico que facilitam e permitem nosso trânsito pela via do transcendental e divino. Sim, o Natal é divino e cabe a apenas e tão somente a nós que no limiar das celebrações que se avizinham carregarmos e sempre que possível revisitarmos as memórias tanto históricas e servem e funcionam como base para registros quanto aquelas de caráter mais afetivo que povoam nosso consciente e inconsciente coletivo, os quais alimentam nosso instrumental simbólico. Feliz Natal!!! Καλά Χριστούγεννα!!!




Natal: Tangenciamento histórico sem historicismo.

 É muito natural e auspicioso que ao nos aproximarmos das celebrações de fim de ano deixemos toda e qualquer questão que, do ponto de vista histórico e teológico, possa inviabilizar todo e qualquer clima de festa. O Natal está aí para ser comemorado. E, se não é a maior, é, com certeza, uma das grandes festas de celebração da cristandade, tanto no ocidente quanto no oriente. E falar de Natal é falar de nascimento. Todos os dias, nos lares espalhados por este mundo, são milhões de natais(nascimentos) acontecendo. Com certeza, a grande maioria deles, ou seja, numa ordem de grandeza, 99,9% (noventa e nove, vírgula nove por cento) deles não serão catalogados para efeito de registro de um acontecimento que mudará o rumo da história e da humanidade. Os registros quando acontecem são para que o estado possa ter um controle total de seus cidadãos, ao mesmo tempo que: De posse de tais informações possa prover e planejar boa parte de suas políticas públicas. Entretanto, o Natal em questão, e objeto dessa investigação, tende a se restringir a uma abordagem de cunho teológico e, ao mesmo tempo, se dispõe a tangenciar quanto aos dados de que dispomos atualmente, os quais tendem a reforçar argumentos de natureza histórica, por outro lado, flertando com o historicismo. Porque, na condução deste texto, primo pela preferência a nível de investigação a partir de uma abordagem teológica, para só depois elencar os dados de natureza histórica? As respostas, pois não são apenas uma, são as mais simples possíveis e que estão ao alcance de todos. Estão ao alcance de todos pelo fato de a Bíblia ser, enquanto registro de um acontecimento: Mateus 1:1, pelo menos, no Ocidente, o livro mais lido do mundo. Também pelo fato de que o livro texto, dentre os quatro evangelhos canônicos, estamos falando agora e especificamente do evangelho de Lucas, ao fazer menção deste Natal, em especial, estabelece uma relação com um dado histórico na razão direta de seu registro(Flavio Josefo em Antiguidades Judaicas 18:1-2). Ou seja, não fosse o Natal, primeiramente na perspectiva teológica tal qual nos apresentam os evangelhos canônicos, em especial o evangelho de Lucas. O Natal não seria Natal, e sim natais, nascimentos como acontecem todos os dias e em todas as partes do mundo onde o ser humano e sua família tenham se estabelecido.

Agora, qual a natureza deste registro histórico a que o evangelho de Lucas faz referência em sua narrativa? Se nos voltarmos na direção deste evangelho e passarmos a analisar a forma como traz para sua narrativa o fato histórico(Um decreto imperial no sentido de que se fizesse um Censo). Este também é o motivo pelo qual uma família estabelecida em Nazaré da Galileia terá que se deslocar para a cidade de Belém na Judeia. José sendo o chefe da casa e por ser de origem ou linhagem real: Ele era da casa e da família de Davi(Lucas 2:4). Os rabinos tendem sempre a contestar que, se Jesus é filho de Deus, logo não é um judeu. A contestação surge de diferenças teológicas fundamentais sobre a natureza de Jesus. A rejeição judaica da concepção cristã de messianidade e divindade. São, grosso modo, questões polêmicas em debates inter-religiosos. Mas do ponto de vista histórico, genealógico (pelas regras judaicas) e contextual, a afirmação "Jesus era judeu" é amplamente aceita, mesmo quando suas reivindicações messiânicas e divindade são rejeitadas pelo judaísmo. A verdadeira divisão não é sobre sua identidade étnico-religiosa, mas sobre como essa identidade se relaciona com suas reivindicações e o significado que os cristãos atribuem a ele. A rigor, é um debate ou discussão construídos sobre diferentes planos. No debate e discussão com os rabinos o fator histórico é ambiente e terreno comum. Historicamente, estudiosos (incluindo historiadores judeus como Geza Vermes) afirmam que Jesus de Nazaré foi um judeu do século I que viveu como judeu, pensou como judeu e debateu dentro do contexto do judaísmo de seu tempo. Agora, o arcabouço histórico onde Lucas insere como elementos históricos a origem e linhagem de José como descendente de Davi é também carregada de plausibilidade no ambiente e contexto judaico do século I. Principalmente, se considerarmos a existência de famílias davídicas atestados em fontes da época. A necessidade messiânica criada pelo governo herodiano (visto como ilegítimo), criava tanto insatisfação, quanto expectativa por uma figura que ocupasse o trono de Davi com legitimidade. Talvez, por conta disso, existe uma lógica da acusação e execução romanas por pretensão ao trono na crucificação. Independentemente da veracidade genealógica específica, o importante é que Jesus foi percebido e apresentado dentro de um quadro de referência davídico-messiânico, que era uma resposta direta ao vazio de legitimidade criado pelos Herodes e pela ocupação romana. Esta reivindicação, mais que um detalhe biográfico, era uma declaração política e teológica sobre o tipo de reino que Jesus representava - um desafio tanto aos poderes romanos/herodianos quanto às expectativas revolucionárias judaicas.

Já foi falado aqui que o que motiva e direciona a abordagem desse texto é primeiramente teológica e somente depois nós permitimos o tangenciamento histórico. O evangelho de Lucas faz menção a Quirino(Lucas 2:2). Há sim uma evidência histórica extra-texto. Quirino(Publio Sulpicio Quirino). Foi  realmente governador romano da Síria, e um censo sob sua autoridade é registrado pelo historiador judeu-romano Flávio Josefo (em Antiguidades Judaicas, 18.1-2). Porém, este censo aconteceu por volta do ano 6 d.C., após a deposição de Herodes Arquelau, quando a Judeia passou a ser província romana direta. O propósito era avaliar tributos após a anexação da Judeia ao Império Romano. Mas, há um problema cronológico: De acordo com o Evangelho de Lucas (2:1-2), Jesus nasceu durante o reinado de Herodes, o Grande (que morreu em 4 a.C.). Há portanto uma discrepância de pelo menos 10 anos entre a data tradicional do nascimento de Jesus e o censo histórico de Quirino. Surgiram, devido a esta discrepância, algumas tentativas de explicação acadêmica: Teoria do Primeiro Governo de Quirino: Alguns estudiosos sugerem que Quirino poderia ter tido um primeiro governo na Síria por volta de 4-2 a.C., mas não há evidência histórica sólida para isso. Possível confusão com outro censo: Pode ter havido um censo local na época de Herodes (que era rei cliente de Roma), mas não um censo imperial romano na Judeia antes de 6 d.C. Fato é aqui se aponta um erro de Lucas: Muitos historiadores consideram que o autor do Evangelho de Lucas (escrito décadas depois dos eventos) pode ter cometido um erro cronológico, confundindo o famoso censo de Quirino de 6 d.C. com eventos anteriores. Os censos romanos (census) eram realizados regularmente em províncias romanas para fins tributários e militares. Envolviam o registro de propriedades e pessoas. Na Judeia, o de 6 d.C. provocou a revolta de Judas, o Galileu, mencionado por Josefo. A grande maioria dos historiadores afirma que: Não houve "censo de todo o mundo" (império romano) decretado por Augusto na época do nascimento de Jesus. O censo histórico de Quirino ocorreu em 6 d.C., cerca de uma década após a morte de Herodes, o Grande. A narrativa de Lucas parece combinar elementos históricos reais (o censo de Quirino) com a tradição do nascimento de Jesus em Belém, criando uma dificuldade cronológica. Esta questão ilustra como os textos bíblicos, escritos com propósitos teológicos, às vezes apresentam desafios de harmonização com evidências históricas extrabíblicas. A pesquisa histórica continua a investigar essas questões, mas o consenso é claro quanto à datação do censo de Quirino.

O chamado tangenciamento histórico que me propus desde o início da narrativa deste texto, não deixa dúvida quanto ao elemento norteador do mesmo nesta reflexão. E ele está bem claro ao aludir à prevalencia de uma abordagem estritamente teológica. Obviamente que, ao se traçar uma linha de abordagem com proeminência teológica, não significa e não se traduz por um objetivo pautado na obrigação de mascarar a existência de discrepâncias históricas nas narrativas dos evangelhos. E ao se falar de discrepâncias históricas não se verifica pelo abandono dialógico e Dialético das narrativas bíblicas. Por exemplo: o fato de a Judeia ser província romana desde 6 d.C. foi simplesmente o elemento motivador para que autoridades israelitas enviassem espias que pudessem colocar Jesus numa saia justa diante das autoridades romanas conforme registra Lucas 20:19-25. E é exatamente o que torna a pergunta sobre o imposto tão carregada e perigosa. O "imposto a César" não era um imposto qualquer - era o símbolo tangível da subjugação política a um poder pagão, instituído com aquele censo traumático que ainda estava na memória nacional 24 anos depois. Essa contextualização histórica mostra que a pergunta a Jesus não era sobre uma mera questão fiscal, mas sobre lealdade nacional, identidade religiosa e resistência política - os mesmos temas que haviam explodido em violência quando o imposto foi primeiro instituído. A resposta de Jesus, portanto, não era apenas uma saída diplomática, mas uma declaração teológica profunda sobre como viver a fé num contexto de opressão política.

O elemento e fator histórico é de extrema importância para o contexto do Novo Testamento, apesar de suas imprecisões. O pano de fundo da pergunta sobre o imposto: Quando os fariseus perguntaram a Jesus sobre pagar imposto a César (c. 30 d.C.), estavam se referindo ao mesmo imposto instituído após o censo de 6 d.C. que Judas rejeitou. A pergunta era uma armadilha política carregada e revestida com a retórica do “Messianismo”. A insurreição de Judas, o Galileu na época de instituição dos impostos como consequência do Censo de Quirino alavancou focos de revoltas. Aqueles que se levantaram contra como Judas, fez com que alguns vissem na figura de Judas(e depois seus filhos) como possíveis "messias" libertadores no sentido político-militar, contrastando com o messianismo de Jesus. A atmosfera de resistência: O legado de Judas ajudou a criar o ambiente de tensão e expectativa messiânica na qual Jesus e os apóstolos ministraram. Judas, o Galileu, representa assim a face militante da esperança judaica do primeiro século – a convicção de que a fidelidade a Deus exigia a rejeição ativa do domínio pagão. Seu fracasso imediato não apagou seu legado; pelo contrário, sua família continuou sua luta por mais de 60 anos, até o dramático epílogo em Masada. Ele personifica a resposta que não foi dada por Jesus à questão do imposto: a da revolta violenta. Enquanto Judas disse "não" a César com as armas, Jesus deu uma resposta que transcendia a dicotomia "sim/não", apontando para uma soberania divina que opera de forma mais complexa dentro das estruturas humanas.

Analisamos com cuidado e responsabilidade o caso de Zaqueu. Ele era parte do sistema tributário romano cuja base foi estabelecida no censo de Quirino (6 d.C.). Enquanto Judas, o Galileu respondeu ao sistema com revolta violenta, e os zelotes com ódio nacionalista, Zaqueu representa uma terceira via: um agente do sistema que é transformado pelo encontro com Jesus e desmonta o sistema por dentro, através da restituição e justiça, não da violência. A narrativa de Zaqueu é um microcosmo do Evangelho de Lucas e da mensagem de Jesus: A graça precede o arrependimento (Jesus vai até ele primeiro). A salvação é holística, incluindo transformação social e econômica. O Reino de Deus inverte valores: o último (o publicano traidor) torna-se primeiro. A missão de Jesus é definida ali: "buscar e salvar o perdido". Zaqueu não é apenas uma história de conversão individual; é uma declaração política e teológica sobre como o Reino de Deus subverte sistemas de opressão a partir da transformação dos próprios agentes desses sistemas, através do encontro radical com Jesus. Dentre os principais aspectos da materialidade histórica, e na perspectiva da linha que temos seguido até aqui, que visa tangenciar os elementos que sustentam uma linha de evolução no tempo. Tendo por objetivo não apenas o enquadramento historicista por si só. A materialidade histórica é um conceito fundamental na historiografia e na arqueologia contemporâneas que se refere à importância dos objetos, corpos, espaços e elementos físicos na compreensão da história. Vai além da análise de textos e documentos escritos, focando no papel ativo da matéria na construção das experiências humanas no tempo. Neste ínterim, o aspecto da corporeidade se configura como elemento crucial e eixo de nossa breve reflexão. A corporeidade e experiência sensorial como materialidade inclui o corpo humano – como as pessoas viveram, sofreram, trabalharam, se alimentaram e interagiram com o ambiente. A história das sensações (cheiros, sabores, sons, texturas). Isto é algo que está para além dos textos e documentos. De certa maneira nos encontramos diante de tantos dilemas quando nos referimos à forma como a fé cristã foi transmitida. Que a partir de tal dinâmica de expansão missionária é muito complicado a imposição  e perpetuação de apenas uma visão historicista para a leitura do comumente conhecido como “Depositum Fidei”. É evidente, que por conta desses fatores aqui listados, e o consequente tangenciamento histórico quando o evangelista faz menção do censo de Quirino, independe da discrepância de datas entre um evento e outro. O que é fato a despeito dos desencontros de datas e dos fatos que que acompanham. É o crescente e acalorado debate acerca não apenas da inserção desse sujeito histórico, cujo nome é Jesus, também conhecido como filho do carpinteiro, no consciente e no imaginário daqueles que receberam via revelação divina a mensagem de que em algum momento no tempo e no espaço, o Deus todo poderoso havia se tornado homem.

Este é, portanto, o fator que determina, no caso do relato dos evangelhos acerca de Jesus, que a leitura dos mesmos precisa e tem que ser direcionada por uma abordagem teológica, a despeito dos acontecimentos históricos catalogados no mesmo período e que apresentam determinadas discrepâncias quando confrontados.  Agora, como uma fé que não se baseia em evidências históricas pode ser experienciada e vivida por um sujeito que é, inevitavelmente, histórico? Esta foi uma das grandes questões levantadas por Paul Tillich, e sua resposta está em uma distinção crucial e em um processo de mediação simbólica. A distinção fundamental: O "Jesus Histórico" vs. "Jesus como o Cristo". Para Tillich, o objeto da fé não é Jesus de Nazaré, o homem do século I, investigável pelos métodos da historiografia. Esse é o Jesus histórico, um fato contingente e incerto. O objeto da fé é "Jesus como o Cristo" – isto é, a imagem e o significado que emergiram da experiência dos discípulos e da comunidade de fé, testemunhando-o como a manifestação do Novo Ser. O "Cristo" é um símbolo, um evento de significado último que ocorre na história, mas não é apenas um fato histórico. O ser humano é histórico não apenas porque vive no tempo, mas porque sua existência é marcada pela temporalidade, finitude e alienação (conceitos existenciais e idealistas). A fé é a resposta a essa condição histórica. O encontro com o Novo Ser acontece no "kairós" – o momento qualitativo, pleno de significado, em oposição ao "chronos" (tempo quantitativo). É no agora da decisão existencial que o poder do Novo Ser toca o indivíduo. O fiel, situado em sua história concreta (com suas dúvidas, medos e busca por significado), é confrontado pelo símbolo "Cristo" transmitido pela tradição da igreja, pela pregação, pela arte e pela Escritura. Esse símbolo não é uma informação sobre o passado, mas um poder presente (o poder do Novo Ser) que "apreende" o indivíduo. A fé é justamente esse estado de ser "apreendido". A historicidade do fiel não é anulada, mas transformada e ressignificada a partir desse encontro. É necessário também que não foi apenas Tillich que enveredou por este tipo de abordagem teológica. Além de Paul Tillich, vários teólogos e filósofos do século XX desenvolveram abordagens semelhantes, afastando a fé de uma dependência direta de evidências históricas e enfatizando sua dimensão existencial, simbólica ou experiencial. Esses autores, muitos deles influenciados pelo idealismo alemão, pela fenomenologia e pelo existencialismo, formam o que se poderia chamar de "giro existencial-simbólico" na teologia protestante liberal e neo ortodoxa. Alguns deles são bastante conhecidos: Bultmann, Barth, Bonhoeffer, Hick, e Gilkey. Mas, eu gostaria de citar um apenas como contraponto a Tillich. Seu nome é Wolfhart Pannenberg (1928–2014). Ele representa uma reação direta a Tillich e Bultmann. Ele defende que a fé deve basear-se na história, especificamente na ressurreição de Jesus como evento histórico verificável. Sua obra é um esforço para reafirmar a historicidade como fundamento, usando uma abordagem hermenêutica e filosófica sofisticada. Sua presença nesta lista é como um antagonista dialético que explicita o contraste com a tradição Tillichiana. Notem bem, mesmo com esse contraponto que Pannenberg apresenta aos pressupostos teológicos de Tillich e demais teólogos. Ele fala da ressurreição como evento histórico verificável. Porém, o que Tillich e sua linha teológica defende não é o abandono do pressuposto histórico no momento em que se dialoga com a religião mediatizada pela fé no Cristo e preservada na igreja como depósito dessa tradição. O que transparece a partir do contraponto entre um e outro. É também o que já está consagrado pelo processo de verificação na evolução do tempo, onde há uma primeira abordagem proporcionada por Tillich, o qual, o conceito mediador se dá pelo Καιρός(Kairos); e uma segunda abordagem de caráter histórico, onde o conceito mediador conduzido por Pannenberg baseia-se no Χρόνος (Chrónos)

Por outro lado, não há como omitir ou não mencionar a figura icônica de Paul Ricoeur (1913–2005). Apesar de sua abordagem gravitar no ambiente e campo da hermenêutica filosófica. E embora Ricouer não seja um teólogo no sentido confessional, ele desenvolveu uma hermenêutica do símbolo e da narrativa que influenciou profundamente a teologia. Para ele, os textos religiosos (incluindo narrativas sobre Jesus) não fornecem fatos históricos, mas símbolos que desvelam possibilidades de ser. A fé é uma interpretação participativa nesses símbolos, muito próxima da noção de "participação" de Tillich. Ao fazermos menção desses autores que formam um espectro de respostas à crise do historicismo e ao desafio da secularização. A linha que vai de Tillich, Bultmann e Bonhoeffer (com ressalvas) até Hick e Gilkey compartilha o seguinte: 1- Rejeição do fundamento histórico-positivista para a fé. 2 - Ênfase na experiência, no símbolo ou na decisão existencial. 3 - Influência da filosofia continental (idealismo, existencialismo, fenomenologia). Eles diferem, porém, no grau de compromisso com a metafísica idealista (Tillich é o mais explícito), na abordagem da tradição cristã (Barth é o mais ortodoxo na origem divina da revelação) e no destino do símbolo cristão (Hick o relativiza no pluralismo, Tillich o mantém como único). Portanto, a afirmação de Tillich não está isolada: ela é parte de um movimento teológico maior do século XX que tentou resgatar a fé cristã de uma colisão frontal com a modernidade crítica, deslocando seu fundamento do âmbito do histórico-verificável para o âmbito do existencial-simbólico. Essa tendência, porém, sempre enfrentou a crítica de que, ao fazer isso, arriscava-se a perder o caráter eventual único do cristianismo, uma acusação que teólogos como Pannenberg e, de outra forma, Barth, buscaram responder. É claro que por nos encontrarmos neste período de festas, talvez você jamais tenha imaginado que uma narrativa bíblico-neotestamentária pudesse produzir um conteúdo descritivo, teológico e acadêmico como o que foi até aqui conduzido. É bem verdade que o propósito de desenvolvimento do texto teve como fundamento uma abordagem sobre o Natal, nem tão pesada. Porém, que trouxesse à reflexão as implicações de como a partir de um conteúdo narrativo estritamente de caráter revelacional, questões levantadas desde uma perspectiva historicista desconstroem o arcabouço instrumental e simbólico que facilitam e permitem nosso trânsito pela via do transcendental e divino. Sim, o Natal é divino e cabe a apenas e tão somente a nós que no limiar das celebrações que se avizinham carregarmos e sempre que possível revisitarmos as memórias tanto históricas e servem e funcionam como base para registros quanto aquelas de caráter mais afetivo que povoam nosso consciente e inconsciente coletivo, os quais alimentam nosso instrumental simbólico. Feliz Natal!!! Καλά Χριστούγεννα!!!


O fruto do Espírito.

Texto: Gálatas 5:16-26

Tema: produzindo fruto do Espírito 

ICT: O fruto do Espírito é o resultado final do complexo processo de amadurecimento da vida cristã.

Objetivo Geral: Levar a congregação desta amada igreja a compreensão de que não é o tempo que vivemos enquanto membros ativos de nossas igrejas que revela nossos traços de maturidade cristã.

Objetivo Específico: Levar a congregação desta amada igreja a compreensão de que a complexidade do processo de maturidade cristã passa pela compreensão de uma dinâmica de revelação onde as três pessoas da Trindade se envolvem ativamente.

Texto Grego (Gálatas 5:16-26) - NA28 

5:16 Λέγω δέ, πνεύματι περιπατεῖτε καὶ ἐπιθυμίαν σαρκὸς οὐ μὴ τελέσητε.

5:17 ἡ γὰρ σὰρξ ἐπιθυμεῖ κατὰ τοῦ πνεύματος, τὸ δὲ πνεῦμα κατὰ τῆς σαρκός, ταῦτα γὰρ ἀλλήλοις ἀντίκειται, ἵνα μὴ ἃ ἐὰν θέλητε ταῦτα ποιῆτε.

5:18 εἰ δὲ πνεύματι ἄγεσθε, οὐκ ἐστὲ ὑπὸ νόμον.

5:19 φανερὰ δέ ἐστιν τὰ ἔργα τῆς σαρκός, ἅτινά ἐστιν πορνεία, ἀκαθαρσία, ἀσέλγεια,

5:20 εἰδωλολατρία, φαρμακεία, ἔχθραι, ἔρις, ζῆλος, θυμοί, ἐριθεῖαι, διχοστασίαι, αἱρέσεις,

5:21 φθόνοι, μέθαι, κῶμοι, καὶ τὰ ὅμοια τούτοις, ἃ προλέγω ὑμῖν, καθὼς προεῖπον ὅτι οἱ τὰ τοιαῦτα πράσσοντες βασιλείαν θεοῦ οὐ κληρονομήσουσιν.

5:22 Ὁ δὲ καρπὸς τοῦ πνεύματός ἐστιν ἀγάπη, χαρά, εἰρήνη, μακροθυμία, χρηστότης, ἀγαθωσύνη, πίστις,

5:23 πραΰτης, ἐγκράτεια· κατὰ τῶν τοιούτων οὐκ ἔστιν νόμος.

5:24 οἱ δὲ τοῦ Χριστοῦ Ἰησοῦ τὴν σάρκα ἐσταύρωσαν σὺν τοῖς παθήμασιν καὶ ταῖς ἐπιθυμίαις.

5:25 Εἰ ζῶμεν πνεύματι, πνεύματι καὶ στοιχῶμεν.

5:26 μὴ γινώμεθα κενόδοξοι, ἀλλήλους προκαλούμενοι, ἀλλήλοις φθονοῦντες.


                                   Introdução 

Grosso modo, a primeira pergunta que eu faria a esta congregação é no sentido de querer saber se vocês sabem realmente o que é, ou quem é este Espírito que o texto em todo o capítulo 5 de Gálatas faz referência? E a segunda pergunta, desde que a primeira seja respondida satisfatoriamente, é de saber se vocês compreendem em que momento da Revelação a pessoa deste Espírito toma parte como agente fundamental de formação e preparação da igreja como serva do Senhor? Ou seja, aquele que estará a serviço do Senhor. Basicamente, podemos nos limitar a tão somente estes dois questionamentos. Eles, por si só, já dão muito pano pra manga. Mas, vamos por etapas, tendo apenas como guia e direcionamento nesta leitura e reflexão o texto desta epístola. Aí, neste caso, cabe até uma espécie de sarcasmo quando alguém tenta balizar o tipo de reflexão ou sermão como expositivo ou não. De qualquer forma, todo e qualquer sermão tem que ser expositivo. O que estou fazendo aqui, e na melhor das intenções, é expor a Palavra de Deus, com aquele desejo e oração de que através desta exposição todos nós aqui possamos ter o melhor dos aproveitamentos para nosso crescimento espiritual. Para tanto é absolutamente necessário que se tenha uma clara compreensão do texto e o ambiente e contexto de seu surgimento. Claro que uma outra coisa que não dá para deixar de lado, é o nível de insatisfação do apóstolo Paulo para lidar com este problema. Diferentemente de sua epístola aos Romanos, onde o apóstolo estabelece um argumento relacionado a elementos fortemente baseados em seu aspectos jurídicos: Justificação, culpa, compensação de culpa, emancipação de um senhorio e migração para outro senhorio. 

E tudo isto numa perspectiva de entendimento que vale tanto para judeus quanto para gentios. É a lei que diz que eu sou pecador, e que, portanto, estou sob a tutela do pecado. A única forma de compensação para que não me veja sob a tutela e senhorio do pecado, é o pagamento de um preço, e este preço é a morte(Romano 6:23). Todavia, a parte final do verso 23 fala de uma dádiva, uma gratuidade da parte de Deus que é a vida, e vida em abundância, vida eterna. E ela acontece por causa da mediação de Cristo Jesus. Essa mesma linha de pensamento em Paulo, obedece aquela lógica esboçada por ele em II Coríntios 5:14 _ ἡ γὰρ ἀγάπη τοῦ Χριστοῦ συνέχει ἡμᾶς, κρίναντας τοῦτο, ὅτι εἷς ὑπὲρ πάντων ἀπέθανεν· ἄρα οἱ πάντες ἀπέθανον· _ Porém, o apóstolo em Romanos, neste mesmo capítulo 6, alguns versos antes do 23. Mais precisamente os versos 16, 17 e 18, fala dessa migração enquanto servos do pecado para nos tornarmos servos (escravos) da justiça. Romanos 6:16-18 (NA28): 16) οὐκ οἴδατε ὅτι ᾧ παριστάνετε ἑαυτοὺς δούλους εἰς ὑπακοήν, δοῦλοί ἐστε ᾧ ὑπακούετε, ἤτοι ἁμαρτίας εἰς θάνατον ἢ ὑπακοῆς εἰς δικαιοσύνην; 17) χάρις δὲ τῷ θεῷ ὅτι ἦτε δοῦλοι τῆς ἁμαρτίας ὑπηκούσατε δὲ ἐκ καρδίας εἰς ὃν παρεδόθητε τύπον διδαχῆς, 18) ἐλευθερωθέντες δὲ ἀπὸ τῆς ἁμαρτίας ἐδουλώθητε τῇ δικαιοσύνῃ. No entanto, agora recebendo a tal doutrina, ou ensinamento de coração, em obediência, agora são servos da justiça. O que fica bastante claro nas palavras do apóstolo, é que em qualquer das duas situações, a nossa condição de servo (escravo) permanece inalterada. Ou seja, somos servos do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça. 

Se em Romanos, o principal argumento nesta relação polar entre Lei e Graça é a migração de um senhorio. Por outro lado, em Gálatas, embora permaneça a relação polar entre Lei e Graça, o apóstolo fala de uma liberdade alcançada em Cristo. O apóstolo na construção de seu argumento alinha entre outras coisas, uma espécie de chamada à consciência dos Gálatas advertindo que, caso esse processo de decisão escolhendo se submeter ao ritual de circuncisão aconteça, eles estariam obrigados a se submeter a Lei que ele chama de JUGO DE ESCRAVIDÃO. No entendimento do apóstolo que por ter um histórico de vida pautado pela Lei, e que ao se converter foi capaz não apenas de compreender seu caráter transitório, assim

como perceber que sua transitoriedade foi decretada pela presença da graça divina manifestada em Cristo Jesus. Seu alerta àqueles que fizerem tal escolha pela circuncisão é, primeiramente, por tornar ineficaz a obra de redenção realizada por Cristo. Segundo, é o fato de que por serem gentios(Não-judeus), não são capazes de atinar que a circuncisão,  embora seja um ato litúrgico, não é aleatória e desvinculada de um conjunto de regras que caracterizavam a Lei Mosaica.  Eles, consciente ou inconscientemente, ao se deixarem circuncidar estavam escolhendo a via de Justificação diante de Deus que outrora era atribuída a Lei. A qual teve seu tempo e cumpriu sua missão até a chegada da revelação manifesta em Cristo Jesus. Nesse caso, a fé se tornou o elemento de vital importância. 


I - COMPREENDER A NATUREZA E FUNÇÃO DO ESPÍRITO. (V.V.16-18)

Compreender a natureza e a função do Espírito é estar no caminho certo para que possamos frutificar caminhando com a igreja, por meio Dele e no seio da igreja. Notem vocês que até caberia aqui algum tipo de correção, já que ao fazermos menção do Espírito, ao mesmo tempo que associamos a sua pessoa a termos que o qualificam como um ser que tem natureza dando a entender que ele tem um início. E, o atributo de que executa uma função, como se estivesse na condição de um ser subordinado a alguém maior do que Ele. Só tem um porém, compreender a natureza do Espírito não quer dizer que estamos falando como algo que em algum momento do tempo passou a ser o que não era antes. Compreender a natureza do Espírito é compreender a sua procedência de junto do Pai desde sempre. E se pensarmos bem, dependendo do tipo de profissão de fé que temos, poderíamos incorrer numa espécie de heresia(Filioque). O que extrapola a partir daí não é teologia, muito menos fé cristã. Por não termos uma terminologia melhor e mais apropriada, estou me valendo do conceito de natureza para fazer referência a perenidade, a eternidade do Espírito que subsiste enquanto substância e pessoa com o Pai e com o Filho. Estas são características pontuais do que chamamos de Economia Divina (Oikonomia). Deus faz e revela o que Ele é em si mesmo. Embora o seu agir seja detectado na história por meio da criação, sua dinâmica de vida interna, é, desde os tempos imemoriais, pervade a eternidade. A nós é permitido compreender esse agir divino desde aquele momento que entendemos e chamamos de REVELAÇÃO. 

Para Paulo, andar no Espírito tem a conotação de uma ordenança ou imperativo. Mas isto não significa que ele abandona ou omite uma racionalidade subjacente a este discurso em tom imperativo. Não se questiona o fato de que o apóstolo se vale de sua autoridade. “Andai” é um verbo em Português que se encontra flexionado na segunda pessoa do plural, do presente do imperativo. O seu equivalente grego é: περιπατεῖτε. É o mesmo verbo que dará origem ao substantivo que caracterizou a escola filosófica de Aristóteles, os peripatéticos. Pois para Paulo é fundamental ter o conhecimento necessário quanto a natureza e função que o Espírito exerce na igreja, somente desta maneira se pode vencer ou controlar os desejos e aptidões da carne. Nada disso acontece sem que haja uma forte e acirrada oposição entre o Espírito e a carne. Porém, para Paulo essa batalha interna que travamos tem como disputa o domínio de nossa vontade ou querer. O próprio texto alude ao fato de que ambos, Espírito e carne, são opostos entre si. Acho que este texto poderia ser incluído num debate acerca do livre arbítrio. Por enquanto é apenas uma percepção de minha parte. E não quero encaminhar o desenvolvimento dessa palavra para este assunto em questão neste momento. Devemos ter consciência da relação do Espírito com as demais pessoas da Trindade. Todo conhecimento que temos de Deus só é possível porque foi revelado por Ele mesmo a nós. Inexiste, neste caso, qualquer possibilidade de conhecermos Deus, se não for por meio de Cristo, logo por meio da revelação. O que aprendemos acerca do ser de Deus, do ponto de vista dessa revelação, é também, por conta da relação entre essas três pessoas. A manifestação trinitária: Pai (fonte), Filho (executor), Espírito (aplicador). Revela as relações eternas de origem (Pai gera o Filho, o Espírito procede), procede de onde? Da relação entre o Pai e o Filho. É a partir deste ponto que se ativa nossa   capacidade, dada por Deus, para identificar o cumprimento do seu propósito: Salvação (Soteriologia). A execução para cumprimento desse propósito divino de salvar os homens, tem como pano de fundo a própria história humana. E é, desde então, quando identificamos cada uma dessas pessoas (Υπόστασης) na perspectiva de um agir funcional, cronologicamente falando. A doutrina da economia é, portanto, a lente através da qual entendemos o plano de ação de Deus no mundo. Ela nos permite ver a história não como uma série de eventos aleatórios, mas como um cenário dinâmico, coerente e amoroso, conduzido pela Trindade para nos levar à comunhão com Ela. É através do estudo da economia que temos acesso, ainda que limitado, aos mistérios da teologia do ser de Deus.

Vocês estão percebendo que no mandamento instituído pelo apóstolo aos Gálatas, o preceito é apenas e tão somente andar no Espírito. Falamos aqui da natureza do Espírito, de sua procedência desde uma perspectiva de entendimento teológico do que seja a Trindade. Mas, o foco narrativo destes primeiros três versos é andar e focar na ação do Espírito Santo de Deus. Essa receita como mandamento funciona se entendermos que estamos diante de grandes desafios, que alguns inadvertidamente chamarão de batalha espiritual. Todavia, essa receita embalada como mandamento tem sua eficácia garantida se não abrirmos qualquer tipo de precedente para que a carne aproveitando a ocasião prevaleça com seus desejos. Somente dessa maneira, segundo o apóstolo, não satisfazemos os desejos da carne. Ao abrir espaço para um debate sério e comprometido com um resultado que não seja diferente do que o apóstolo vem apregoando enquanto mandamento que é o de não facilitar para que a carne em sua luta contra o Espírito prevaleça. Dentro de uma análise interna das inquietações que incomodam o ser humano, Paulo também se revela um grande e profundo conhecedor da Ψυχή (Psichē) humana. Dessa maneira ele destaca os elementos internos da Psichē, tais como o pensamento e o sentimento humanos. Muito embora essa questão toca no cerne de diversas correntes da filosofia e da psicologia ao longo da história. A forma como o pensamento e o sentimento são compreendidos, sua relação e sua importância relativa dentro da psiquê (ou alma/mente) varia enormemente entre diferentes escolas de pensamento. Suas lutas, seus desafios e de como esses elementos dinâmicos interferem no aspecto volitivo da alma humana.

II - DEMANDA UM TIPO DE POSTURA OU ATITUDE DE NOSSA PARTE PARA COM A LEI. (V.V.19-21)

Antes de analisarmos para contextualização e circunstância os dois versos que nos servem de base nesta reflexão. Vemos que a partir do início do capítulo 5, o apóstolo exige de forma imperativa, por parte dos crentes daquela igreja, atitude e postura contundente em relação à lei. Esse elemento imperativo significa que aqueles crentes terão que decidir entre a Lei representada pela circuncisão ou a graça representada pela obra de Cristo, tal qual o apóstolo pregou para aqueles crentes. A circuncisão, caso os Gálatas decidissem por ela, seria um retrocesso nessa jornada pelo crescimento e maturidade cristã. não há meio termo nesta relação entre Lei e Graça da maneira como o apóstolo coloca. Aceitar a circuncisão é assumir o risco de se viver sob o jugo da Lei e consequentemente se desligar de Cristo. Nesse tipo de analogia utilizada por Paulo onde ele dispõe lado a lado Lei e Graça, a Lei sempre foi o fio condutor que nos guiou com base num propósito divino. O apóstolo fala dela revestida de sua função pedagógica: “De maneira que a lei nos serviu de tutor, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados”. (Gálatas 3:24). Nas muitas versões do NT em português, encontramos alguns outros substantivos para substituir o que está no registro grego: Aio; Tutor; Porém, o que é unanimidade nas muitas versões gregas é o termo PAIDAGÔGOS, numa análise bastante superficial, estamos diante de um substantivo composto: (παϊς; δός menino + άγειν conduzir)¹  _ “Ὥστε ὁ νόμος παιδαγωγὸς ἡμῶν γέγονεν εἰς χριστόν, ἵνα ἐκ πίστεως δικαιωθῶμεν.” 

Logo, não há como omitir neste pano de fundo de caráter cronológico onde a Lei ocupou de forma transitória a função de elemento normalizador e normatizador tanto de nossas relações para com Deus quanto para com os homens. É uma evolução tanto cronológica quanto histórica que, digamos, numa postura de análise que se atribui ao aspecto narrativo do texto o que chamamos e conhecemos como Ex-evento, oferece-nos agora a capacidade para ajuizar a transitoriedade da Lei da qual estamos falando. Ao Fazermos menção de sua pedagogia, muito embora não esqueçamos dela como elemento normatizador bem como ajuizador de nossas ações. Porém, quando o apóstolo atribui a ela essa função pedagógica, ele traz para o terreno de discussão seu caráter oniabrangente. Ela, a Lei, nos conduzia de tal maneira que não vislumbramos no horizonte qualquer tipo de solução para a dívida que tínhamos para com o pecado. Quando Jesus foi interrogado por um certo doutor da Lei sobre o maior de todos os mandamentos, Ele respondeu de tal maneira satisfatória àquele doutor da Lei que comentou que o segundo mandamento era semelhante ao primeiro que era de amar o próximo como a si próprio. E conclui que é destes dois mandamentos que depende toda a Lei e os profetas(Mateus 22:40). Os profetas do Antigo Testamento, principalmente aqueles que mais de perto denunciavam as injustiças que se cometiam contra o povo. Sempre levaram em conta desde as relações de poder identificadas pelo estrato social do povo de Deus e como, a partir daí, se interferia na própria relação do povo para com seu povo.

Precisamos entender que, na advertência de Paulo aos crentes de Gálatas, o fato deles aceitarem passar pelo processo de circuncisão, significa  primeiramente um grande retrocesso. Pois, agindo dessa forma estão aceitando se submeter ao julgo da Lei do qual uma vez em Cristo foram libertos. Se submeter ao ato litúrgico de circuncisão representativo do preceito legal judaico como uma forma de, com isso fazer parte do povo eleito de Deus, para o qual Paulo como pregador do evangelho de Jesus Cristo, desde que teve sua vida transformada e refeito toda sua teologia. O apóstolo entende que não mais haveria tal necessidade, principalmente para os gentios, que estavam desobrigados do cumprimento desse preceito legal e doutrinário. Prova disso é esta epístola onde narra sua trajetória de vida pregressa(Gálatas 1:12-18). Esse tipo de retrocesso litúrgico é muito mais gritante pelo fato de que segundo nossa escatologia vivemos o tempo do fim. É o tipo de ação contraproducente do ponto de vista pregação e retórica cristã construída ao longo desses vinte séculos. Para a realidade dos Gálatas, Paulo estabelece uma postura bastante ajuizada quanto ao fato de que aos Gálatas, caso assumam a atitude retrógrada de trocarem a graça pela lei, haverá seríssimas consequências. Devemos receber suas palavras não como ameaças, mas como advertências àqueles que incitam os Gálatas a tamanha rebeldia. Ainda assim, isto não isenta os Gálatas de sua responsabilidade. Muito embora estejamos abordando a questão desde uma perspectiva que aponta para a imaturidade dos Gálatas.


III - O ESPÍRITO NOS IMPOSSIBILITA DE TODA E QUALQUER PRÁTICA INÍQUA. (V.V. 22-26)

Se pudéssemos usar uma analogia para este momento de reflexão acerca do Espírito divino, diríamos que ele é o fermento que tanto proporciona o crescimento da massa quanto também sua ligadura. Devemos ter um comportamento quanto a ação do Espírito Santo no seio da igreja em que a palavra chave para todo e qualquer direcionamento seja a comunhão dos santos. Sem o Espírito divino não existe igreja, uma vez que é Ele o instrumento divino para manter a igreja coesa, unida. “A communio sanctorum” é, sem sombra de dúvida, um preceito religioso e doutrinário dos mais valiosos e que fazem com que a Igreja seja o que é desde sempre. Portanto, não há um desvio de função da igreja tal como ocorre com outras instituições quando da origem, desenvolvimento e objetivos a serem alcançados. Ela não se refere a um grupo de pessoas "santificadas" no sentido de perfeitas, mas à comunhão espiritual que une todos os fiéis cristãos, vivos e falecidos. A chave linguística aqui é "comunhão" (koinonia, em grego), que significa "participação em comum", "partilha" ou "comunhão". A expressão pode ser entendida em três dimensões interligadas: 1. Comunhão nas Coisas Santas (Sancta): Refere-se à partilha dos bens espirituais comuns, como os sacramentos (especialmente a Eucaristia), a fé, os dons do Espírito Santo e a caridade. 2. Comunhão entre as Pessoas Santas (Sancti): Refere-se à união espiritual entre todos os que são santificados por Cristo, ou seja, todos os batizados. Esta comunhão abrange: Os fiéis na Terra (Igreja Militante). Os santos no Céu (Igreja Triunfante). Portanto, a "Communio Sanctorum" é a crença de que existe um vínculo espiritual profundo e uma troca de bens espirituais (orações, méritos, intercessão) entre todos os membros da Igreja, transcendendo a barreira da morte. O nascedouro da expressão como parte de uma fórmula de fé oficial ocorre no contexto do desenvolvimento do Credo Apostólico, por volta dos séculos IV e V. A maneira como o desenvolvimento histórico e dogmático da igreja de Cristo enquanto instituição ocorre nesta vida e mundo, assinala, e quando faço este tipo de leitura não significa a intenção de se construir um ajuizamento moralista e condenatório da igreja. Como disse, assinala uma abertura maior da igreja para com seu entorno que chamo de mundo. Por ora, é apenas a constatação de um dado histórico. Para tanto, cabe a alusão aqui em relação ao credo primevo, e posteriormente às injunções que lhe foram feitas. Na origem do credo Apostólico: A expressão "Communio Sanctorum" não aparece nos credos mais antigos, como o Credo Niceno (325 d.C.). Ela foi introduzida pela primeira vez em uma versão do Credo Apostólico usado na Gália (atual França). Acredita-se que sua inclusão tenha sido uma forma de enfatizar a natureza espiritual e universal da Igreja em contraste com as heresias da época. Para melhor explicar circunstanciando contextos teológicos e controvérsias tais como a dos Donatistas do século IV, os quais acreditavam que a validade dos sacramentos dependia da santidade pessoal do sacerdote que os administrava. A Comunhão dos Santos afirma que a eficácia dos sacramentos vem de Cristo, não do ministro, e que todos os fiéis, apesar de suas imperfeições, estão unidos em uma única comunhão espiritual. Isso fez com que a igreja fosse vista não apenas como uma instituição visível, mas também como um organismo espiritual.

Vejam só como são as coisas neste contexto de igreja apenas aludindo como parâmetro de leitura que a própria escritura, em especial, e neste texto, me proporciona. No parágrafo acima, do ponto de vista e desde uma perspectiva histórica, fomos naturalmente levados a fazer alusão ao Credo, num primeiro momento, ao Credo Apostólico e a partir daí chegou-se naturalmente à origem de tudo que foi o Credo Niceno. Tanto o estabelecimento de Credo niceno e posteriormente os adendos que a ele foram feitos, dizem respeito a uma espécie de blindagem para aqueles princípios que desde cedo a igreja defendeu e que poderiam em algum momento serem passíveis de ataques. E foi o que sempre aconteceu, basta que busquemos alguns dos referenciais históricos. E, diga-se de passagem, ataques de dentro e de fora da igreja. Dentro da igreja existem aqueles líderes que por desconhecimento ou falta de preparo, não se dão conta da importância histórica e da tradição que luta pela preservação e manutenção dos princípios norteadores da igreja presentes no Credo Apostólico. A natureza e surgimento do Credo tem como objetivo fundamental blindar a fé que uma vez foi entregue aos santos. É mais ou menos o que Paulo expõe em sua epístola de I Coríntios 11:23 (NA28): Ἐγὼ γὰρ παρέλαβον ἀπὸ τοῦ κυρίου, ὃ καὶ παρέδωκα ὑμῖν, ὅτι ὁ κύριος Ἰησοῦς ἐν τῇ νυκτὶ ᾗ παρεδίδετο ἔλαβεν ἄρτον _ quando ali faz menção da ceia do Senhor afirmando que tal qual ele recebeu, de igual modo também entregou. Isso mostra um forte comprometimento na preservação dos princípios basilares da mensagem e doutrina apostólica, os quais são perpetuados em celebrações da Ceia.

As celebrações da Ceia do Senhor, ou Eucaristia, é um daqueles elementos simbólicos que podem e nos conduzem a uma realidade espiritual. Notamos que desde que o apóstolo retoma a analogia de que a carne e o Espírito vivem em uma constante guerra. Notamos também que o apóstolo estabelece parâmetros que diferenciam o que são obras da carne e o que são as obras do Espírito. Agora, quando chegamos aos versos de 22 a 26. O apóstolo vai listando tudo aquilo que resulta efetivamente como produto da ação do Espírito. Para tanto, ele qualifica a obra resultante da ação eficaz do Espírito como FRUTO do Espírito. Desde o verso 22 até o final do verso 23, ele tanto lista quanto afirma categoricamente que contra estas coisas não há Lei. Ou seja, o poder e eficácia da Lei incide apenas e tão somente sobre aqueles que não aceitam ser conduzidos pelo Espírito. Preferem, embora, muitas vezes façam parte formalmente de uma igreja, não serem conduzidos pelo Espírito. Se praticar as obras da carne é não ser conduzido pelo Espírito, no verso 24, o apóstolo também afirma que existe apenas uma maneira de não se praticar as obras da carne. É quando literalmente passamos a pertencer a Cristo: “Os que são de Cristo Jesus crucificaram as obras da carne, com suas paixões e concupiscências”. Se cometermos o pecado da idolatria, faz com que a quebra de apenas um dispositivo moral e ético imposto pela Lei nos imponha como imputação a penitência pela inobservância dos demais mandamentos. Ao andarmos conduzidos pelo Espírito cumprimos o rigor da lei pela observância de todos os mandamentos. E ao final, isto é, o verso 26, o apóstolo nos deixa uma advertência. O objetivo é não deixarmos que aquele sentimento mesquinho de vanglória tome conta do nosso ser. Vanglória pode ser resumida como arrogância, prepotência e na sua grande maioria o elemento motivador é a inveja. Então, a advertência do apóstolo tem sua relevância pelo fato de que ao aceitarmos a soberania e ação do Espírito sobre nossa vida significa que temos a obrigação de vivermos em paz e em comunhão com os nossos irmãos. 


                                         Conclusão 

O tempo e consequentemente o seu registro são nossos maiores inimigos. Isto porque, travamos uma luta hercúlea contra ele. Sim, o termo hercúleo foi mencionado aqui propositalmente.  Este termo "hercúleo" tem uma riqueza histórica e cultural que remonta à Antiguidade Clássica. O seu significado deriva diretamente da figura mitológica de Hércules (ou Héracles, na mitologia grega). Historicamente, "hercúleo" significa: Relativo a Hércules. Em seu sentido mais literal e original, o termo era usado para descrever algo que pertencia ou era característico do herói Hércules. Por exemplo, "as Tarefas Hercúleas" referem-se diretamente aos Doze Trabalhos que ele realizou. Que exige uma força ou esforço sobre-humano (Sentido Mais Comum) Este é o significado que se popularizou e é o mais usado até hoje. Algo "hercúleo" é uma tarefa, um esforço ou um desafio de dimensões colossais, que exigiria a força e a perseverança de um herói como Hércules para ser realizado. Embora sejamos produto do nosso tempo. Existe uma necessidade sem igual de estarmos constantemente revisitando algo do passado. Algo que tenha passado despercebido, ou até algo que tenha uma necessidade urgente de ressignificação. Olhar, ou pedir a Deus que nos capacite a olhar o tempo com sabedoria é talvez uma das tarefas mais desafiadoras de nossa parte. Pois não dá para fazermos tal coisa com imparcialidade. E, por uma simples razão: O tempo é uma das categorias que melhor exemplifica e nos enquadra no que chamamos de finitude. Talvez seja por isso que o salmista tenha pedido ao Senhor que apenas o ensinasse a contar os dias de uma tal maneira que alcançasse um coração sábio: “Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios.” (Salmos 90:12). Uma prece ou pedido dessa envergadura, evidentemente que vem carregada de um ajuizamento moralista. Se pensarmos nas circunstâncias em que vivemos hoje. Eu tenho sempre aquela percepção de que uma pessoa, seja ela quem for. Aqui não há a necessidade de que seja um membro da igreja. Mas, qualquer um que adentre um lugar como este, significa que a pessoa não está absolutamente satisfeita com nada que acontece lá fora. Ou seguindo aquele jargão que os crentes com mais idade, tempo e experiência de fé conhecem: O mundo jaz no maligno, o mundo está perdido.

Também haveremos de chegar à conclusão de que, embora sejamos falantes do Português, não falamos a mesma língua. Nossas experiências e a conotação que empregamos para dar sentido a tudo o mais que nos diz respeito não batem. Há um um projeto de lei tramitando na Câmara dos deputados em Brasília acerca da utilização de uma determinada versão da escritura. Isso ainda vai dar pano pra manga. Pois significa estabelecer controle de narrativa. E é neste ponto que, desde uma perspectiva que alinha encontro com Cristo e como desdobramento disto a experiência cristã, surge a necessidade enquanto igreja, ou grupo que se reúne sob esta atribuição, de entendermos o que seja nossa relação com o Espírito. Queiramos ou não essa relação ainda é viabilizada pela palavra. E para falarmos de nossa relação com o Espírito precisamos do testemunho da escritura. Esse testemunho começa primeiramente com o estabelecimento de nosso lugar de fala. E falamos e nos entendemos de maneira clara, objetiva e espiritualmente se alcançarmos tal nível de discernimento espiritual. A escritura orienta, isso é fato, que as palavras são palavras, porém do ponto de vista de nossas relações no seio da igreja elas exibem conotações diferentes das que encontramos fora de uma relação eclesiástica. E nossa retórica é passivel e deve ser orientada de tal forma que o que falamos traga consigo a relação que enquanto igreja construímos com o Espírito divino. Por isso mesmo, quando falamos, falamos com a sabedoria ensinada pelo Espírito Santo: “As quais também falamos, não com palavras que a sabedoria humana ensina, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais.” Grego: ἃ καὶ λαλοῦμεν οὐκ ἐν διδακτοῖς ἀνθρωπίνης σοφίας λόγοις, ἀλλ’ ἐν διδακτοῖς πνεύματος, πνευματικοῖς πνευματικὰ συγκρίνοντες (1 Coríntios 2:13). As coisas espirituais, ou relativas ao espírito se discernem espiritualmente: ψυχικὸς δὲ ἄνθρωπος οὐ δέχεται τὰ τοῦ πνεύματος τοῦ θεοῦ, μωρία γὰρ αὐτῷ ἐστιν καὶ οὐ δύναται γνῶναι, ὅτι πνευματικῶς ἀνακρίνεται. Uma tradução literal, ou leitura seria nos termos que se segue: "As quais coisas também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas em [palavras] ensinadas pelo Espírito, interpretando (ou combinando) coisas espirituais com [pessoas] espirituais." Ou do ponto de vista de uma leitura mais literária tal como as versões modernas de que dispomos hoje, seria: “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.” (I Coríntios 2:14).


 Registro Histórico: Commentarii de Bello Gallico (Comentários sobre a Guerra Gálica), Livro I.

· Datação do Evento: 58 a.C.

· Datação do Texto: Escrito e publicado por Júlio César por volta de 52-51 a.C., quase em tempo real dos eventos.




A chacina do Rio de Janeiro e sua relação com a Reforma Protestante

 

Violência em comunidade do subúrbio do Rio de Janeiro. Porque também nao refletir sobre a violência que ocasionou a matança, por parte dos príncipes alemães, contra os camponeses liderados por Thomas Müntzer?


Eu estava propenso a escrever algo sobre o dia de hoje, 31/10/2025. É o dia de celebrar a Reforma Protestante. Sinceramente, hoje tenho um certo cuidado ao me apresentar como Protestante. Não que esteja pensando em me bandear para o outro lado como alguns que tem feito e aparecido na mídia testemunhando que conheceram a verdadeira igreja e estão retornando para ela. Não,  não é este o caso, pois estou tentando pegar carona pela contramão da história. Geralmente a contra mão da historia é o lado da tortura, do massacre e do genocidio. E esse tipo de crime contra a humanidade tem se tornado cada vez mais numa banalidade ao ser perpetrado pelos carrascos que agem a servico dos mais poderosos(O regime ditatorial da Alemanha nazista também foi assim). Parece que para aqueles como eu, que moramos no Rio de Janeiro, temos a percepção de que Gaza fica bem pertinho daqui. É logo ali. Porque, afinal de contas,  fiz menção da Reforma? Paralela a historiografia oficial da Reforma, também houve massacre, uma carnificina patrocinada pelos príncipes alemães e com o aval de Lutero. Curiosamente a bancada dos evangélicos, que se dizem herdeiros da tradição dos reformadores tem dado um forte apoio aos agentes da segurança pública do estado do Rio de Janeiro que patrocinaram essa chacina. Lá, na Alemanha de Lutero, houve uma revolta camponesa que foi esmagada na Batalha de Frankenhausen (15 de maio de 1525). As forças dos príncipes, muito melhor equipadas e treinadas, massacraram o exército de camponeses, que era mal organizado e armado. Camponeses recém saidos de um sistema de exploração agrária. Müntzer foi capturado, torturado e forçado a assinar uma "retratação". Posteriormente, foi decapitado fora dos muros de Mühlhausen, a 27 de maio de 1525. Aqui, Brasil, Rio de Janeiro, sao 500 anos que separam os referidos massacres. Os camponeses da Alemanha de Lutero entraram para a história como se fosse um efeito colateral. Ainda assim se eternizou a figura icônica de um certo Thomas Müntzer. Já a história deste massacre no Rio de Janeiro, corre sério risco, se não for feita uma apuração justa e rigorosa, de fazer parte, no máximo, dos gráficos estatísticos que medem a violência. A revolta dos camponeses com o aval de Lutero produziu um Mártir, Thomas Müntzer. Aqui não tem Mártir, como as próprias autoridades afirmaram eram delinquentes que reagiram com armas de fogo à presença do estado representado pela polícia. Prevalece aquela máxima muito presente como retórica de esquadrões da morte: "Bandido bom é bandido morto."


Paulo Freire # Paul Tillich

 A "educação bancária" é um termo cunhado por Paulo Freire em sua obra mais famosa, "Pedagogia do Oprimido" (1968). Ele usa essa metáfora para descrever o modelo tradicional de educação, que ele critica ferozmente por ser uma ferramenta de dominação e opressão. Freire compara o processo educativo a uma transação bancária: O educador é o depositante (quem tem o conhecimento). O educando (aluno) é a conta bancária ou o cofre (vazio, a ser preenchido). O conhecimento é a moeda ou o depósito. Nessa lógica, o papel do professor é "depositar" informações, conteúdos e conhecimentos na mente supostamente vazia e passiva do aluno. Quanto mais depósitos o aluno acumular, sem questionar, mais "bem-educado" ele é considerado. A educação bancária tem características próprias e bem definidas quanto ao papel desempenhado dentro de uma sala de aula. 1. Professor como Detentor do Saber: O professor é o sujeito ativo do processo, a autoridade incontestável que detém todo o conhecimento. 2. Aluno como Receptor Passivo: O aluno é visto como um objeto, uma "tabula rasa" (lousa em branco) que deve apenas receber, memorizar e repetir as informações. 3. Narração e Depósito de Conteúdos: A aula é baseada na narração de conteúdos desconectados da realidade do aluno. O professor "narra" e os alunos "escutam docilmente". 4. Memorização Mecânica: O foco está na repetição e na memorização, e não na compreensão, na crítica ou na aplicação criativa do conhecimento. 5. Ausência de Diálogo: Não há espaço para perguntas, debates ou a construção coletiva do saber. A comunicação é unidirecional: do professor para o aluno. 6. Divisão entre Saber e Prática: O conhecimento é tratado como algo abstrato, separado do mundo real e das experiências de vida dos educandos. 7. Função de Domesticação e Adaptação: O objetivo implícito (e às vezes explícito) desse modelo é adaptar o indivíduo ao mundo tal como ele é, sem questionar as estruturas sociais injustas. Ele ensina a obedecer, a não "causar problemas" e a aceitar a realidade opressora. Não há como não apontar as consequências críticas nesse processo. Para Freire, a educação bancária não é neutra. Ela é profundamente política e serve para: Anular o pensamento crítico: Ao ensinar a apenas repetir, ela impede que os alunos desenvolvam a capacidade de analisar, questionar e transformar sua realidade. Mantém as Estruturas de Poder: Ao produzir indivíduos adaptados e acríticos, o sistema opressor se perpetua. As elites no poder mantém seu controle porque a população não aprende a enxergar as causas de sua opressão. Desumanizar: Tanto o educador (que se torna um mero repetidor) quanto o educando (que é tratado como um objeto) são desumanizados por esse processo. A verdadeira educação, para Freire, deveria ser um ato de liberdade e humanização. A Alternativa: A Pedagogia Libertadora ou Problematizadora. Em oposição à educação bancária, Freire propõe a Pedagogia Libertadora ou Problematizadora. Nela, o diálogo é a base: Educador e educando aprendem juntos. Ambos são sujeitos do processo de conhecimento. O conhecimento é construído coletivamente: Parte-se da realidade e das experiências dos alunos para construir o saber, não de um currículo imposto de cima para baixo.O objetivo é a conscientização (conscientização): O fim da educação é que o aluno perceba criticamente o mundo ao seu redor, compreenda as forças que o oprimem e se torne um agente de transformação social. Ensina-se a pensar, não a repetir: O foco está no desenvolvimento da autonomia e do pensamento crítico. Na educação bancária um professor dita os nomes dos rios e aclives de uma região para os alunos copiarem e decorarem para a prova. Na educação Libertadora: O professor e os alunos discutem por que a comunidade local sofre com enchentes ou falta de água. Juntos, investigam a geografia local, a ocupação do solo, as políticas públicas e buscam soluções para o problema. O conhecimento geográfico é adquirido como uma ferramenta para entender e transformar a realidade. A "educação bancária" criticada por Paulo Freire é um modelo autoritário e passivo de ensino que trata os alunos como depósitos de informação, com o objetivo implícito de mantê-los adaptados e conformados com a ordem social, em vez de capacitá-los para a liberdade e a transformação. Sua crítica permanece extremamente relevante para debates atuais sobre metodologias de ensino e o verdadeiro papel da educação na sociedade.

A iniciativa e o pensamento de Paulo Freire foram uma das influências filosóficas e pedagógicas mais importantes para a criação de uma grade curricular com Temas Transversais e interdisciplinaridade no Brasil, mas não foram a causa única ou direta. Sua grande influência ocorreu muito mais no plano conceitual do que na prática, ou administrativa. A grande materialização dessa influência foi nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), publicados a partir da segunda metade da década de 1990. Os PCNs foram a tentativa mais abrangente do governo federal de traduzir as novas diretrizes da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de 1996 para a sala de aula. A LDB de 1996 já trazia um espírito mais flexível e aberto, e os PCNs foram a concretização disso. E foi dentro dos PCNs que os Temas Transversais e a recomendação da interdisciplinaridade ganharam destaque. A crítica freireana à educação como mera transmissão de depósitos de conhecimento em disciplinas isoladas e desconectadas da vida foi fundamental. A interdisciplinaridade e os Temas Transversais são uma resposta direta a isso. Eles propõem que o conhecimento não seja fragmentado, mas construído a partir de problemas e questões reais. Para Freire, a educação nunca é neutra; ela serve para domesticar ou para libertar. Os Temas Transversais (Ética, Meio Ambiente, Saúde, Pluralidade Cultural, Orientação Sexual etc.) carregam explicitamente a missão de formar cidadãos críticos e éticos, capazes de atuar na sociedade. Isso ecoa diretamente o conceito freireano de conscientização. A pedagogia de Freire começa com o "universo vocabular" do educando, sua realidade concreta. Da mesma forma, a proposta dos Temas Transversais é que eles sejam tratados a partir dos problemas e contextos locais da comunidade escolar, e não como um conteúdo abstrato a ser decorado. A interdisciplinaridade exige diálogo – entre professores de diferentes áreas e entre professores e alunos. Essa necessidade de conversa e construção coletiva do conhecimento é um princípio central na obra de Freire. Freire não criou um "Método" para o Currículo: Paulo Freire era um filósofo e pedagogo, não um elaborador de currículos. Sua obra é uma crítica e uma proposição de fundamentos. A tradução desses fundamentos em orientações práticas (como os PCNs) foi feita por outros educadores e gestores públicos que se inspiraram nele. Os PCNs e a interdisciplinaridade também foram influenciados por outras correntes pedagógicas, como o Construtivismo (de Piaget e Vygotsky), e por tendências educacionais globais que, em muitos aspectos, dialogavam com as ideias de Freire. Embora a teoria dos PCNs seja avançada e freireana, a implementação nas escolas esbarrou em enormes desafios: falta de formação docente, estrutura escolar rígida, carga horária excessiva e, muitas vezes, uma cultura escolar ainda muito "bancária". Por isso, muitas escolas trataram os Temas Transversais como "matérias extras" ou "projetos eventuais", esvaziando um pouco seu potencial transformador. Conceito Freireano reflexo nos PCNs e no currículo, crítica à "Educação Bancária" Interdisciplinaridade (rompendo com a fragmentação do conhecimento). Educação para a Libertação; Temas Transversais (formação para a cidadania e ética). Diálogo Metodologias que privilegiam a discussão e a construção coletiva. Partir da Realidade do Aluno contextualização dos conteúdos e temas. A iniciativa de Freire de denunciar uma educação opressora e propor uma educação libertadora e problematizadora gerou um terreno fértil de ideias que, décadas depois, inspirou a base teórica dos Parâmetros Curriculares Nacionais. A introdução dos Temas Transversais e da interdisciplinaridade foi a tentativa institucional de colocar em prática, em nível nacional, princípios que ele defendia. Portanto, embora ele não tenha desenhado a grade curricular, sua filosofia é uma das colunas que sustenta essa importante mudança na educação brasileira.

Ao tomarmos consciência do perfil pedagógico Freireano, é possível conciliarmos uma crítica fundamental que une a pedagogia, a teologia e a filosofia. Ao buscarmos os prós e os contras por uma semelhança, que é paradoxal, pois reside justamente no fracasso e na traição dos próprios fundamentos de cada área. A chave para entender a semelhança está no conceito de "resposta pré-fabricada" e no medo do diálogo com o mundo real. A Pedagogia Bancária apresenta como principal característica a paralisia pela "Resposta Certa". Ela oferece respostas para perguntas que não foram feitas. O currículo é um monólogo de certezas a serem depositadas. Sua lógica é a da imutabilidade. O conhecimento é tratado como um artefato estático, um fóssil a ser admirado e memorizado, não uma ferramenta viva para interagir com um mundo em mudança. O aluno é adestrado a acreditar que o pensamento crítico é desnecessário, pois todas as "respostas importantes" já foram dadas pelos especialistas e estão no livro didático. A pergunta genuína é vista como um desvio de percurso, uma ameaça à "cobertura do conteúdo". Como estabelecermos um critério de análise e verificarmos as semelhanças ou não entre a “Pedagogia Bancária” de Paulo Freire e a "Paralisia Teológica" de Tillich? A Paralisia pelo "Dogma Imutável". Se trouxermos à baila um teólogo protestante como Paul Tillich, que criticava o que ele via como uma teologia dogmática e estática. Para ele, a teologia não pode ser um conjunto de respostas prontas para questões que ninguém mais está fazendo. A "Resposta Pré-Fabricada": É a teologia que repete fórmulas dogmáticas (as "respostas") sem se importar se elas respondem às "perguntas últimas" do ser humano moderno. Por exemplo, repetir "Deus é amor" como um mantra, sem engajar com a experiência contemporânea do mal, do sofrimento e do absurdo. A Incapacidade de Dialogar com a Cultura: Essa teologia se paralisa porque se recusa a entrar em "correlação" (um conceito central em Tillich). A correlação é o diálogo dinâmico entre a mensagem da fé (as respostas simbólicas da religião) e a situação humana concreta (as perguntas profundas da cultura, da arte, da filosofia e da vida individual). A Paralisia: Quando a teologia se recusa a esse diálogo, ela se torna irrelevante, um museu de ideias. Ela é "incapaz de responder perguntas que são feitas hoje" porque está ocupada demais respondendo perguntas do século IV ou XVI. Ela adestra o fiel a não fazer perguntas reais, contentando-se com respostas que não tocam em sua existência mais profunda. A Semelhança Central entre a pedagogia Freireana e a teologia de Paul Tillich: O "Adestramento para a Não-Pergunta". É aqui que a semelhança fica clara: Pedagogia Bancária (Freire) e Paralisia Teológica (Tillich). Transmite Conteúdos Estáticos como verdades absolutas. Transmite Dogmas Estáticos como verdades absolutas. Não dialoga com a realidade do aluno. O conhecimento é divorciado da vida. Não dialoga com a cultura/experiência moderna. A fé é divorciada da vida. Adestra o aluno a ser um receptor passivo, inibindo perguntas críticas. Adestra o fiel a ser um receptor passivo, inibindo perguntas existenciais genuínas. Resultado: Alienação. O aluno não se vê como parte do mundo do conhecimento. Resultado: Irrelevância. A fé não fala à situação "ultima" do ser humano moderno. Método: Monólogo. Método: Monólogo. Ambos os sistemas, portanto, praticam uma forma de violência epistêmica e espiritual. Eles silenciam a curiosidade humana autêntica – seja a curiosidade intelectual do aluno, seja a busca espiritual do fiel. A verdadeira semelhança não está entre a pedagogia bancária e a teologia de Tillich, mas entre a pedagogia libertadora de Freire e o método de correlação de Tillich. Ambos propõem um caminho dinâmico e dialógico. Para Freire: O processo educacional deve partir das "palavras geradoras" da realidade do educando (suas perguntas tácitas) para construir o conhecimento crítico (as respostas provisórias e sempre abertas). Já em Tillich: O processo teológico deve partir da análise da situação humana (as perguntas últimas sobre significado, culpa, morte e finitude) para então interpretar e proclamar os símbolos da fé cristã (as respostas que vêm do "Novo Ser"). A semelhança aqui identificada é aguda. Tanto a "educação bancária" quanto a "teologia paralítica" que Tillich critica são sistemas monológicos de adestramento. Eles ensinam as pessoas a não ousar fazer as perguntas que realmente importam para suas vidas, oferecendo em troca um pacote fechado de respostas que, por não serem fruto de um diálogo genuíno, são vazias, paralisantes e, no fim das contas, opressoras.

A grande lição que Freire e Tillich nos deixam é que uma resposta, para ser verdadeira, deve nascer de uma pergunta genuína. Sem a pergunta, a resposta é apenas um adestramento.




PÚLPITO FORTE, IGREJA SAUDÁVEL.

PÚLPITO FORTE, IGREJA SAUDÁVEL “Por esta causa te deixei em Creta” (Tito 1:5) Nos três versos iniciais da Epístola a Tito, o apóstolo Paulo ...